domingo, 24 de fevereiro de 2013

Meninas Malvadas (Crítica: Jezebel / 1938)



“Jezebel” (1938) é o primeiro filme de uma respeitável parceria entre a atriz Bette Davis e o diretor William Wyller, que, mais tarde, se alongou com "A Carta" em 1940 e "Pérfida", de 1941 - Davis foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz nas três vezes, mas só venceu justamente por “Jezebel”, configurando seu segundo e último Oscar da carreira. Depois de mais de setenta anos, “Jezebel” ainda se segura no posto de "clássico" da cinematografia mundial. Exaustivamente comparado a "...E o Vento Levou", de Victor Fleming, que seria lançado no ano seguinte, 1939, o filme de Wyler tenta transparecer algo mais sutil aos olhos do espectador do que é, na verdade, a obra de Fleming, que usa mais de um acontecimento histórico para pontuar um romance imortal. Em “Jezebel”, o drama de amar é a principal arma do roteiro.

Bette Davis empresta sua impetuosidade a Julie Marsden, senhorita habitante do sul dos EUA em 1852, mais precisamente New Orleans - precedente à Guerra de Secessão, a região ainda era escravagista, conservadora em seus machismos e preconceitos. Num primeiro instante, Julie demonstra força de sobra ao espectador, parece querer contestar velhos hábitos enraizados na cultura regional, como, por exemplo, quando chega a festa de seu noivado com roupa de montaria e que, segundo ela, não haveria um traje mais apropriado para o momento. E aqui entramos no dúbio reflexo que Julie consegue expulsar de si. Miss Marsden é o que se diz ser uma belle do sul: Bonita, rica, com posição social invejada por outras mulheres e desejada discretamente por outros homens. O que Julie tem de força, também tem de egocentrismo. Usa de sua posição para fazer charme, ser lembrada e não mais esquecida.

O drama da personagem de Davis começa quando, pra se vingar do noivo, que não esteve com ela na prova final do vestido de um importante baile da cidade, resolve comparecer ao tal baile num escandaloso vestido vermelho, que naquele meio e naquela época era difundido como impróprio, sendo o vestido branco ideal para as moças virgens. Pres (Henry Fonda), o noivo de Julie, logo toma um susto e por não conseguir manter uma postura forte com relação a noiva, acaba permitindo seu devaneio modista. Quando chega ao baile, em brilhante cena filmada pela inconfundível câmera inovadora de Wyler, Julie passa por momentos de dura repreensão, que sob os olhares contrariados dos convidados, é levada, contra a sua vontade, a uma valsa mortífera e solitária, agora ministrada pelo vingativo Pres, que usa da oportunidade para pôr rédeas na petulância da futura mulher. Saldo final: ainda no alto de sua arrogância, Julie volta para casa inspirada com seu feito, como se seu desejo de enfrentar a sociedade tivesse sido finalmente selado, sem que de alguma forma a envergonhada deveria ser ela. Só que a belle não contava com o adeus de um renovado Pres, que, cansado de penar na mão de Julie, encerra o noivado e decide voltar para o norte do país.

Um ano se passa e Julie, ainda corroída com a separação, está trancada dentro de casa, evitando visitas e outros tantos prazeres dentro das suas possibilidades. A chama da esperança da impossível mulher volta a reacender quando um surto de febre amarela começa a se espalhar pelo centro-sul dos EUA, que junto com a doença promete também o retorno de Pres a New Orleans. Sabendo da volta do homem amado, Julie, então, resolve preparar uma festa. Entretanto, a belle não esperava encontrar Pres e sua nova mulher, Amy, agora finalmente casado. O instante em que a personagem de Bette Davis tem a chance de reconquistar seu homem se confunde também com o momento em que a soberba volta a tomar conta de sua personalidade, evidenciando uma mulher toscamente mimada, capaz de tudo para reavivar o amor de Pres, mas ainda muito imatura na cadência desse sentimento que a torna tão cega.

Bette Davis faz miséria na pele da destemida e estranha heroína de Jezebel. Cenas inteiras sustentadas por olhares contundentes e cheios de significado. Nesse ponto, a atriz já demonstra ir contra os preceitos de atuação da época: os discursos apaixonados encarando o horizonte não têm espaço no trabalho de Davis, que prefere encarar, enfrentar os medos e as angústias da personagem, destilando seu veneno seja em quem for, sobrando até para a única pessoa que a suporta, a própria tia, interpretada por Fay Bainter, vencedora na categoria de coadjuvante e que, por outro filme, também concorreu na categoria principal, perdendo justamente para Davis e sua Julie Marsden.

O paralelo feito entre Jezebel, malévola figura bíblica, e Julie flui naturalmente na tela graças ao roteiro libertador - e ao emprenho de Bette Davis. A mudança de caráter da personagem do final rende uma das mais belas cenas da carreira da atriz, que desolada pela negação do amor de Pres, parte para assistir a morte do ex-noivo e, assim, lucrar com novos sentimentos edificantes que possam suplantar a temida Jezebel, aproximando-a de uma mulher como Amy, cheia de bondade, carinho e a atenção.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Uma Atriz (Crítica: Acusados / 1988)

Jodie Foster, acima de tudo. Algumas coisas são assim, se definem pura e simplesmente por um motivo, te caçam e te atingem pura e simplesmente por um único motivo. Acusados (The Accused, EUA, 1988) é Jodie Foster, acima de tudo, talvez como “Monster – Desejo Assassino” (2003) seja Charlize Theron, acima de tudo. Não é o mesmo que dizer que o filme não tenha qualidade, é apenas dizer que a agulha no palheiro foi encontrada ou que a “vaca” realmente tossiu ou, ainda, que um raio com nome e sobrenome te partiu ao meio. Jodie Foster: a agulha, a “vaca” e o raio.


Sarah Tobias (Foster) é uma garota de classe baixa, típica interiorana norte-americana que bebe, fuma, beija quando está com vontade de beijar, dança quando tem vontade de dançar. A vida já é muito dura pra ficar se privando de algumas vontades. Por outro lado, Sarah leva uma vida totalmente independente, o que de certa forma a torna extremamente sexualizada aos olhos de outrem.

O drama de Sarah começa quando, numa noite em um bar, é levada aos fundos do estabelecimento e é brutalmente estuprada por outros três homens (cena que só é esplanada nos minutos finais do filme, contribuindo para uma montagem também louvável). Ao mesmo tempo em que Sarah é violentada, os outros homens que estão no bar assistem a cena de forma passiva, hora incentivando os agressores, hora ignorando o episódio. Após ser levada ao hospital, Sarah dispõe da ajuda da advogada Kathryn Murphy (Kelly McGillis, ótima), que inicia um processo judicial contra os agressores.


Basicamente, o esqueleto do trabalho de Jonathan Kaplan é esse. O que acontece depois é toda uma situação de colocação dos princípios desses seres em relação à sociedade que os rodeia. Por exemplo: Nos Estados Unidos, a vítima de estupro não é vista a princípio como uma vítima e, sim, como um suspeito de seu próprio caso. O ambiente, a conduta, o tipo de roupa, o tipo de corte de cabelo, todos esses fatores coexistem como indícios de um ato ser considerado crime ou não. O que Kaplan realmente oferece é esse olhar mais direto sobre as morais difundidas pela sociedade. Nesse caso, um esmiuçar tênue ao modo machista de se pensar, ou melhor, de se aplicar leis. Ou seja, Sarah não se vê confrontada apenas pelos seus medos, seus agressores e seus traumas, mas também, pelo sistema penal, que configura um pesadelo ainda maior em sua dura caminhada.

Se Sarah instigou tal ato ou não isso não deveria ficar a cargo da justiça deflorar, se ela consumiu álcool antes, se ela beijou um dos caras antes, isso não importa. Está caracterizado o estupro: um indivíduo forçando o outro a manter relação sexual. Até que a obra vai perder um pouco do seu maior trunfo: o mergulho profundo na cabeça de Sarah. Essa vertente de explorar o psicológico da vítima é, sem dúvida, a sensação do filme, é o que o espectador consome com fúria. Mas, lá pelos altos, o filme se força a crescer como um drama de tribunal, influenciando muito no ritmo que, até então, tinha conquistado, pra só se recuperar nos instantes finais. O filme, que foi inspirado num fato real, ainda se mantém firme principalmente por contemplar o realismo em suas cenas, todas habitadas numa crueza absurda.


Filmes que problematizam a questão judiciária não precisam necessariamente se tornar um filme de tribunal, ainda mais quando não têm cacife pra isso. Embora o roteiro se garanta, a direção se mantenha firme e o elenco brilhe, fica aquela sensação de “queria ter visto mais um pouco disso e não tanto disso”. Entretanto, o filme vale. Vale cada segundo da interpretação soberba (e premiada com o Oscar de Melhor Atriz) de Jodie Foster.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Mais Menina de Todas (Crítica: Martha Marcy May Marlene / 2011)

É o medo o sentimento mais incrível de todos porque cria a consciência completa. Ele o traz ao “agora”. E te deixa verdadeiramente presente.


Vencedor do prêmio de melhor diretor do Festival de Sundance em 2011, e tendo abocanhado mais uma série de outros troféus mundo afora, Matha Marcy May Marlene (EUA, 2011) vem sendo bastante elogiado pela crítica especializada, que, embora ressalte as relatividades quanto ao gosto do espectador, reconheceu o trabalho de duas revelações que não passam despercebidas por ninguém, o diretor do longa Sean Durkin e sua protagonista Elizabeth Olsen.

Olsen, com certeza você se lembra desse nome e, sim, elas são todas da mesma família. Elizabeth é a irmã mais nova de Ashley e Mary Kate Olsen, as gêmeas tão exploradas pela televisão norte-americana e pela “Sessão da Tarde” da Rede Globo. Porém, o que a novata consegue aqui, nenhuma de suas irmãs conseguiu durante uma carreira inteira: entregar um trabalho denso, difícil e muito festejado. Sean Durkis, o diretor, completamente desconhecido aos olhos do grande público, não faz feio no seu filme de “estreia”, mostrando que tem muito gás e muito talento pra dar vida a histórias ainda mais pesadas.


Todas as críticas que eu li a respeito de Matha Marcy May Marlene pareciam se estranhar no mesmo ponto: a nebulosidade da vida da personagem título. Eu vi o resultado final de forma diferente, embora concorde quanto à dificuldade de entender esse mundo tão especulativo, acredito que o papel de julgamento fica a cargo do público, já com suas idéias e sua carga experimental de vida. Ou seja, essa crítica se torna o mais pessoal possível e só assim é confortável fazê-la.

Após viver dois anos como membro de um culto abusivo, semelhante ao da família Mason (a mesma que acabou por assassinar Sheron Tate, esposa de Roman Polanski na época), Martha, personagem de Elizabeth Olsen, resolve fugir e, assim, tentar restabelecer os laços com a família. Sua única chance é a irmã (Sarah Paulson, ótima), a mãe e o pai morreram e o filme não faz questão de explicar muito isso, embora seja visível alguma espécie de trauma tangendo entre as duas irmãs e que, possivelmente, envolva a morte dos pais. Ainda assim, a irmã é a única que corre ao lado de Martha, a única que tenta (na maioria das vezes da forma errada) ajudar e recolocar a menina num saudável convívio social.


Não bastasse uma relação familiar bastante gasta, Martha ainda sofre com as fortes lembranças que tem da seita que participava. Explicarei um pouco desta. Numa fazenda, em que o sexo masculino claramente dominava, um grupo de homens e mulheres pregava a filosofia de viver sem possuir nenhuma dependência física e moral, fosse ela ligada a um sistema ou ao próprio ser humano. As relações ali deveriam se dar única e exclusivamente na base da confiança mútua. Tudo lindo, mas não. Os homens realmente mandam naquele espaço. Por exemplo, o líder, interpretado pelo sempre misterioso e não menos sensacional John Hawkes, era o responsável pela purificação das meninas que integravam a seita, que tinha como ritual de iniciação uma espécie de estupro, sofrido para elas e pregado como santificador por ele.

Os nomes empregados no título do filme são todos de alguma forma usados pra se referir a personagem de Elizabeth Olsen, batizada como Martha em seu nascimento, Marcy May na seita, e Marlene quando interrogada por desconhecidos de fora do grupo. Enfim, assombrada por todos esses fatos ocorridos durante sua permanência no culto, Martha foge e desesperada liga pra irmã, que a leva pra morar junto com ela e o marido (Hugh Dancy) numa belíssima casa à beira de um imenso lago.


O que se dá a partir daí é a tentativa de Martha em entender o que realmente sobrou dela nela mesma. Os fatos ocorridos na seita são mostrados incrivelmente bem através de flashbacks, que se misturam a sua dolorosa vida na casa da irmã. O encaixe de Martha em relações ditas normais parece quase impossível, principalmente depois que vemos o quanto ela tem de dificuldade em confiar nos outros, traço que o líder da seita já conhecia da personalidade de Martha. Daí, então, são sucessivos diálogos (em sua maioria, extremamente curtos) e tentativas frustradas de conhecer a verdadeira face de Martha. Os olhares não se alongam, as palavras se perdem e a escuridão finalmente passa a controlar os passos da garota. A irmã, que se vê num bico de sinuca e sempre prestes a entregar os pontos, tem mais medo da irmã do que amor, dois sentimentos que se misturam e juntos são responsáveis por sua semi-saga.

Quando Martha começa a perder o tato em relação a sua vida ela entra num caminho sem volta, não sabe mais o que é sonho e o que é real, não sabe discernir certo de errado e tragicamente abre as portas pra uma inicial, mas, ainda assim, violenta, loucura.


Já disse algumas palavras sobre Elizabeth Olsen no começo do texto, mas acho que seu empenho, num papel tão difícil, merece alguns outros elogios. A entrega de Olsen é tanta, que, logo no primeiro trabalho, a atriz teve que fazer cenas fortes de estupro e nudez, não deixando em nenhum momento o histrionismo invadir a cara de sua personagem. É difícil interpretar alguém fora de si, alguém rejeitado por si mesmo e Olsen, encabeçando um elenco muito competente, dá um show de interpretação. Junto com Jennifer Lawrence já se concretiza com uma das grandes atrizes de sua geração.

O final incomodou muita gente. Choveram comentários que exaltavam o filme até seus 5 minutos finais, pra mim a parte mais sensacional do filme. É, para a maioria dos grandes admiradores do Cinema, complicado assistir um filme que termina praticamente da mesma forma como pode começou. Então, atente-se a um único fato: Martha é um vento, talvez uma mega tempestade, passa, destrói e pode, ou não, passar de novo. Uma generosa dose de whisky ou de uma outra bebida forte é o mais indicado logo após a projeção.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Pela Última Vez, Nós. (Crítica: Amantes / 2008)

"Pobre é o amor que pode ser descrito."


O que deveria ter sido o último filme da carreira de Joaquin Phoenix, agora já há distantes quatro anos, se revelou, então, um dos melhores filmes daquele ano. Surpresas? Sim. Joaquin Phoenix não só não encerrou a carreira, como nos dias de hoje emenda projetos grandiosos um atrás do outro, um deles é a parceria inusitada entre o ator e o excelente diretor Paul Thomas Anderson em “O Mestre”, provável “papa Oscar” na próxima edição do festival.

Phoenix já mostrou que tem cacife pra interpretar personagens profundos e tempestuosos. Tanto em Gladiador (2000), quanto em Johnny & June (2005), no que deveria ser o auge de sua carreira ao dar vida fictícia ao cantor Johnny Cash, Joaquin produziu trabalhos densos, estudados em seus mais ínfimos sentimentos e motivações, mas (agora uma opinião pessoal) nada tão completo e admirável quanto em Amantes (Two Lovers, EUA. 2008). Embora o filme, na maioria das vezes, tenha passado despercebido pelo grande público, temos aqui uma obra inteiramente real, sufocada em prantos vivos de uma história praticamente não contada até aquele dia.


James Gray, diretor do filme, retoma uma parceria pouco festejada com Joaquin Phoenix. Não que fosse ruim, mas sempre passava despercebida. Quem se lembra do primo louco de Mark Wahlberg em Caminhos Sem Volta (2000), lembrará de uma bela parceria entre o diretor e o ator. Porém, dessa vez, Gray estabelece uma linha tênue e muito mais sensorial (campo em que Phoenix leva bastante vantagem) para que o ator construa um personagem digno de reconhecimento pelo espectador, mesmo que esse reconhecimento seja, em grande parte, ponto de perda e sofrimento para quem assiste. Assim, Gray convence o público a acompanhar uma história impressionantemente sofrida do ponto de vista de um único homem: a emoção e suplantação de algo enorme, impossível de driblar ou esconder.

Leonard, personagem de Phoenix, acaba de tentar novamente o suicídio quando seu relacionamento amoroso dá-se, por fim, como acabado. Sem esperanças e ainda completamente desolado, Leonard volta pra casa dos pais, aonde finalmente esse homem maestrará suas mais íntimas angústias e seus mais ardentes desejos. Vale pontuar a relação subordinada que Leonard tem com seus pais que, embora muito carinhosos, não suportam e não compactuam com a depressão que o filho criará entre eles. Esses são a ficha razão da vida de Leonard. São os pais talvez os responsáveis por criar uma expectativa imensa na cabeça e no coração do filho.


É sabido que Leonard carrega nos ombros todo o peso do mundo e isso fica claro em cada cena que Joaquin Phoenix aparece (todas, vê-se aqui a tamanha bagagem emocional da obra), principalmente quando esse diz “eu te amo” e para nós, espectadores ou cúmplices, é nítida a tristeza, ou o drible e o esconderijo que não existem. Nessa nova tentativa de vida, Leonard conhece Sandra (Vinessa Shaw), tentativa dos pais de restabelecer a ordem familiar do filho. Apesar de ser um interesse amoroso, não é por ela que Leonard se apaixona, a surpresa se reserva nas escadaria de seu prédio, quando conhece a sensual Michelle, Gwyneth Paltrow numa absurda e concretizada chance de reciclar sua carreira.

Michelle soa como os ares de uma nova vida, uma opção ainda não tentada. A jovem mulher traz consigo todo o frescor de planos a serem idealizados, sexo a ser experimentado, loucuras a serem partilhadas. Ela é tudo o que ele buscava, mas não o que ela projetava. Leonard ainda sob as asas de uma família superprotetora e decisiva por ela acaba se tornando para Michelle, apenas mais um caso. Ela ama outro homem. E apenas o fato desse homem ser casado e consequentemente trazer uma porção de outras dúvidas, abre Michelle para a tentativa de viver essa paixão com Leonard.


Como um bote salva-vidas, Michelle acaba por se tornar uma ambição na vida de Leonard, que ainda tem a família pressionando um namoro/casamento com Sandra. Sem mais, a tragédia se anuncia.

Gray, que sempre apostou nesse relacionamento conturbado entre indivíduo e família, dessa vez consegue transpor para a tela um grau de dramaticidade, até então, não alcançado em toda sua carreira. É certo que existe um trabalho exímio na parte sensorial do filme, que conquista o espectador, expele os mais sórdidos venenos da alma humana e, como se não bastasse, brinca (dolorosamente) com as zonas de conforto estabelecidas por nós. A realidade e o alcance dessa mesma síntese do que é real e também do que é sentir emoção a flor da pele (fator quase impecável e encontrado principalmente nas atuações corajosas de Paltrow e Phoenix), são os maiores trunfos da obra. A força que move os personagens é o amor, mas é ele que acaba por destruí-los também. E, sim, tudo isso passa como um furacão por nós, sem deixar vestígios.

Sem mais, a tragédia recomeça.