Mostrando postagens com marcador William Wyler. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador William Wyler. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ligações Perigosas (Crítica: A Carta / 1940)



Bette Davis deve agradecer na eternidade a chance que teve de trabalhar os mais diversos tipos de personalidade que algumas mulheres podem desvendar ao longo de sua vida. De mentirosa a mocinha, de louca a assassina, todos quase sempre sob a batuta de um diretor bastante sensível, pronto pra tirar o sangue da atriz, sem que ela abandone a mais bela das coisas da arte de atuar: a naturalidade. Despe-se de sua vaidade - e, por isso, acho Kate Winslet tão parecida com Davis - com uma força muito natural, mistificando a si própria como uma atriz inabalável e inatingível. Simplesmente, alguns nascem destinados a fazer exatamente aquilo, prova disso é o talento e infinitas oportunidades que Davis encontrou em sua caminhada. Onde quer que ela estivesse, aquele era o único lugar que ela deveria estar.

Em A Carta (1940), segunda parceria da atriz com o diretor William Wyler, novamente temos uma atriz entregue ao papel, consumida pelos mistérios e focada no destino de sua personagem. Fazer o espectador acreditar piamente naquilo que está vendo não é tarefa fácil, mas, como já citado, Bette Davis exala ar fresco, restando como única opção viver o drama que ela vive. Pouquíssimos atores tem esse poder de convencimento, de controle absoluto de cena e dos olhares.

Leslie Crosbie, personagem de Davis em "A Carta", é um prato cheio para a destemida atriz, que habitualmente deita e rola com a história dessa mulher com aspectos duais. Leslie é americana e mora na Ásia com o marido (Herbert Marshall) e, num dia qualquer, após momentos de desespero acaba matando um homem que tentou violentá-la. Com o apoio de marido e do advogado, Leslie alega legítima defesa. O que a mulher não contava era com o aparecimento da viúva em posse de uma carta, revelando uma ligação muito maior entre vítima e suspeito.



O desespero anda de mãos dadas com Leslie, que além de temer que seu segredo seja desvendado, também assume uma postura enigmática quanto ao limiar de todos os problemas. Na verdade, se existe, sobretudo, falhas na condução do filme, provavelmente essa se perde na poderosa presença de Davis, que não deixa mais espaço para outra conclusão. Leslie esbanja comprometimento mesmo nas cenas mais descartáveis, em que a tensão de sua postura simplesmente não cai, pelo contrário, é como alimentar dragões.

A personagem no filme rendeu a quarta indicação oficial de Bette Davis ao Oscar, que, naquele ano, nem ela e nem Katharine Hepburn tiveram chances contra Ginger Rogers, premiada pelo papel em “Kitty Foyle” (1940). Embora não seja dos melhores filmes da carreira da atriz, Bette Davis reúne todos os pré-requisitos para estar em qualquer lista de qualquer prêmio.

Meninas Malvadas (Crítica: Jezebel / 1938)



“Jezebel” (1938) é o primeiro filme de uma respeitável parceria entre a atriz Bette Davis e o diretor William Wyller, que, mais tarde, se alongou com "A Carta" em 1940 e "Pérfida", de 1941 - Davis foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz nas três vezes, mas só venceu justamente por “Jezebel”, configurando seu segundo e último Oscar da carreira. Depois de mais de setenta anos, “Jezebel” ainda se segura no posto de "clássico" da cinematografia mundial. Exaustivamente comparado a "...E o Vento Levou", de Victor Fleming, que seria lançado no ano seguinte, 1939, o filme de Wyler tenta transparecer algo mais sutil aos olhos do espectador do que é, na verdade, a obra de Fleming, que usa mais de um acontecimento histórico para pontuar um romance imortal. Em “Jezebel”, o drama de amar é a principal arma do roteiro.

Bette Davis empresta sua impetuosidade a Julie Marsden, senhorita habitante do sul dos EUA em 1852, mais precisamente New Orleans - precedente à Guerra de Secessão, a região ainda era escravagista, conservadora em seus machismos e preconceitos. Num primeiro instante, Julie demonstra força de sobra ao espectador, parece querer contestar velhos hábitos enraizados na cultura regional, como, por exemplo, quando chega a festa de seu noivado com roupa de montaria e que, segundo ela, não haveria um traje mais apropriado para o momento. E aqui entramos no dúbio reflexo que Julie consegue expulsar de si. Miss Marsden é o que se diz ser uma belle do sul: Bonita, rica, com posição social invejada por outras mulheres e desejada discretamente por outros homens. O que Julie tem de força, também tem de egocentrismo. Usa de sua posição para fazer charme, ser lembrada e não mais esquecida.

O drama da personagem de Davis começa quando, pra se vingar do noivo, que não esteve com ela na prova final do vestido de um importante baile da cidade, resolve comparecer ao tal baile num escandaloso vestido vermelho, que naquele meio e naquela época era difundido como impróprio, sendo o vestido branco ideal para as moças virgens. Pres (Henry Fonda), o noivo de Julie, logo toma um susto e por não conseguir manter uma postura forte com relação a noiva, acaba permitindo seu devaneio modista. Quando chega ao baile, em brilhante cena filmada pela inconfundível câmera inovadora de Wyler, Julie passa por momentos de dura repreensão, que sob os olhares contrariados dos convidados, é levada, contra a sua vontade, a uma valsa mortífera e solitária, agora ministrada pelo vingativo Pres, que usa da oportunidade para pôr rédeas na petulância da futura mulher. Saldo final: ainda no alto de sua arrogância, Julie volta para casa inspirada com seu feito, como se seu desejo de enfrentar a sociedade tivesse sido finalmente selado, sem que de alguma forma a envergonhada deveria ser ela. Só que a belle não contava com o adeus de um renovado Pres, que, cansado de penar na mão de Julie, encerra o noivado e decide voltar para o norte do país.

Um ano se passa e Julie, ainda corroída com a separação, está trancada dentro de casa, evitando visitas e outros tantos prazeres dentro das suas possibilidades. A chama da esperança da impossível mulher volta a reacender quando um surto de febre amarela começa a se espalhar pelo centro-sul dos EUA, que junto com a doença promete também o retorno de Pres a New Orleans. Sabendo da volta do homem amado, Julie, então, resolve preparar uma festa. Entretanto, a belle não esperava encontrar Pres e sua nova mulher, Amy, agora finalmente casado. O instante em que a personagem de Bette Davis tem a chance de reconquistar seu homem se confunde também com o momento em que a soberba volta a tomar conta de sua personalidade, evidenciando uma mulher toscamente mimada, capaz de tudo para reavivar o amor de Pres, mas ainda muito imatura na cadência desse sentimento que a torna tão cega.

Bette Davis faz miséria na pele da destemida e estranha heroína de Jezebel. Cenas inteiras sustentadas por olhares contundentes e cheios de significado. Nesse ponto, a atriz já demonstra ir contra os preceitos de atuação da época: os discursos apaixonados encarando o horizonte não têm espaço no trabalho de Davis, que prefere encarar, enfrentar os medos e as angústias da personagem, destilando seu veneno seja em quem for, sobrando até para a única pessoa que a suporta, a própria tia, interpretada por Fay Bainter, vencedora na categoria de coadjuvante e que, por outro filme, também concorreu na categoria principal, perdendo justamente para Davis e sua Julie Marsden.

O paralelo feito entre Jezebel, malévola figura bíblica, e Julie flui naturalmente na tela graças ao roteiro libertador - e ao emprenho de Bette Davis. A mudança de caráter da personagem do final rende uma das mais belas cenas da carreira da atriz, que desolada pela negação do amor de Pres, parte para assistir a morte do ex-noivo e, assim, lucrar com novos sentimentos edificantes que possam suplantar a temida Jezebel, aproximando-a de uma mulher como Amy, cheia de bondade, carinho e a atenção.