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sábado, 7 de abril de 2012

Sobre cafés, cigarros e Inocência, a jovem dos meus sonhos. (Crítica: Pequena Miss Sunshine / 2006)

"Um homem não está acabado quando enfrenta a derrota. Ele está acabado quando desiste"(Richard Nixon)



Os corações partidos que me perdoem, mas o mundo pode e deve ser um lugar melhor. E essa tarefa não está nas mãos de grupos, comunidades ou classes, e sim no caminho do coração de cada um. A disputa moral entre vitória e derrota leva a crer que as pessoas se esqueceram que alguém sempre vai perder, que pra existir um ganhador, deve existir um perdedor. A derrota é inadmissível, nem como aprendizado ela é bem vinda. Podemos, sim, mascará-la de autoconhecimento, mas o sabor amargo e o temor sufocante são comuns a todos. Como disse Elis Regina: “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”. Jogar aqui é igual a arriscar, tentar.

Caro leitor, a vida lá fora é selvagem e quem, por qualquer razão que seja, fingir não saber disso, vai perder sob os olhares causticantes da vitória. Faça de quem deveria ser seu amigo, seu inimigo. A vitória deve ser estrangulada. Quando alcançamos o posto de vencedor, pegamos a vitória pelo pescoço e estendemos a quem passar por nós. A vitória é um servo a serviço do ego. A derrota é uma amiga a serviço da vida. Saramago escreveu: Comemore tanto a derrota, a ponto de sorrir para a vitória.



Entre um gole de café e um trago do cigarro (agora caro) me deparei com a inocência, com o sorriso a troco de nada. Um canto poético e muito bem humorado da família problemática, suja e completamente imóvel as questões mundanas. Família de pé, família deitada, simplesmente família. Há muito tempo eu assisti Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA. 2006), mas nunca fez tanto sentido como faz agora. Filmes que retratam a disfuncionalidade de lares capitalistas estão cheios por aí, mas poucos são tão ricos como esse.

O drama não está na prefação de cada personagem, não está na impossibilidade da vida financeira, e sim, no retrato de uma família que não consegue se firmar como tal. Esconder segredos, prestar erros a humanidade é simplesmente o ponto de escape da história, o problema mesmo está mais no fundo de suas entranhas, que no final acaba sendo comum a maioria das personagens.

Como toda obra, genuinamente disfuncional e bem humorada, tem que existir um ponto inicial, excêntrico talvez, mas que vai levar seus personagens a uma nudez incomparável perante o espectador. Não que seja obrigatório existir reflexão dentro do filme, nesse, na minha opinião, não há. Simplesmente os personagens passam por uma situação de crescimento rasa (mais real impossível), como se eles ainda precisassem passar por tantas outras experiências de esclarecimento. Pequena Miss Sunshine e sua história é o “start” nos planos e nas ideias de cada um.



O drama da família Hoover pode ser o drama de tantas outras famílias ao redor do mundo quanto pode não ser. O roteiro se torna aceitável por transmitir tanta verdade e fortes sensações imagéticas ao afortunado senhor espectador. Seja sob a inconsciência arrebatora do pai (Greg Kinnear) ou à suposta intervenção amorosa de sua mãe (Toni Collette), talvez sob o egoísmo puritano do irmão mais velho (Paul Dano) ou da vivência sem limites do avô (Alan Arkin, fabuloso), nada disso põe obstáculos ao sonho da pequena Olive (Abigail Breslin, inspirada pela mesma inocência que abre sorrisos durante a sessão), disposta a tudo para se tornar uma Miss. O problema reside no fato de que Olive não possui as “certas” medidas que a levariam até a vitória. Dona de uma adorável pancinha, cara buchechudinha e óculos maiores que seu rosto, Olive, sem pestanejar por um segundo, exige que a família atravesse o Estado do Novo México, com destino a Califórnia, para que assim ela pudesse se tornar a próxima Miss Sunshine.

Junte a essa família, o tio gay e suicida, interpretado pelo comediante Steve Carrell (também inspiradíssimo) e coloque todos dentro de uma arcaica Kombi amarela, que precisava ser empurrada por todos os tripulantes a cada nova parada. A viagem é marcada pelos mais diferentes eventos. Primeiro, a morte do avô viciado em sexo e heroína, que imediatamente é enrolado num lençol e colocado no porta-malas do veículo. Segundo, o descontrole emocional do, até então, calado irmão, após saber que era vítima de daltonismo e, assim, não poderia ingressar na força aérea. Finda-se, então, um pacto de sobriedade entre a menina de pouco menos de dez anos e o tio marcado pelas tentativas de suicídio. Cada um agirá de um lado, mas, ainda assim, implantando mais um trauma na própria disfuncionalidade.



A dupla de diretores, Jonathan Dayton e Valerie Faris, veteranos na direção de videoclipes, mostrou que a primeira vez pode ser de fato uma grande surpresa. No caso, muito boa. Plantados sob o roteiro de Michael Ardnt, o trio construiu um Road-movie (gênero de filme tão bem filmado pelos norte-americanos) repleto de falas geniais, humor negro familiar de muito bom gosto e, por fim, uma obra, inesquecível. Isso se deve muito a naturalidade com que a dupla de diretores encarou o roteiro de Ardnt, que tinha tudo pra cair na vala comum. As imposições do ritmo timidamente acelerado, a trilha sonora simples, ajudaram a criar uma obra única no aspecto que vem discutir.

Seja pela questão fílmica ou societária, o filme parece um tremendo coração prestes
a sofrer uma pane. O tio suicida se baseia em Proust, o irmão incomunicável em Nietzsche, a mãe na vida doméstica e atarefada, o pai no dinheiro. No meio disso tudo, a inocência. As chances de Olive ganhar são mínimas e, por isso, seu pai tenta impedir a garotinha de participar do concurso. Estranhamente, é a opinião da garota que prevalece, sempre. Como eu disse, ela se torna centro comum a todos os personagens por um tempo de esquecimento das mazelas da vida.

Abigail Breslin é uma fofura como a jovem Olive. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, a jovem atriz se despiu de uma vaidade normalmente infantil e deu a cara a bater na hora de estrelar a jovem sonhadora. Imagine como é pra uma criança ter que subir num palco com uma dezena de barbies, todas magras e maquiadas. Por mais que seja atriz, é coisa que eu só gente grande fazer. Outro estouro é Alan Arkin. Vencedor o Oscar de Ator secundário por dar vida a esse homem nem um pouco meticuloso, que sai no começo do filme, mas é lembrado até o último minuto. Vale lembrar que o elenco todo encontra-se em estado de graça.



Apaludido de pé no Festival de Sundance, Pequena Miss Sunshine tem seu valor para com a sociedade. Não é feito de simples ou absurdas personagens, que tentam por algum motivo se tornarem parte de alguma coisa. O raio sol que há de raiar para nós deve ser comumente desviado aos Homens. E Pequena Miss Sunshine, no fundo, toca nessa ferida: a paixão por vencer, vencer e vencer, sem se preocupar com o lugar ou a vida que estamos pisando. Eu admiro os raios de sol e os divido com todos os seres tão disfuncionais quanto o cara que bebe café, fuma e escreve uma crítica inocente às 07:00 da manhã. Que Deus seja misericordioso, que Saramago seja lembrado, que Olive mereça um retrato na estante da minha memória.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nascidos para Morrer (Crítica: Precisamos Falar Sobre o Kevin / 2011)

É do amor permeado pela dúvida que surgirão seus maiores desafios, suas mentiras escabrosas, seus olhares medonhos e seus filhos bastardos.



Não existe nem nunca existiu fórmula para o amor, ele aparece ou não. Amor de amigo surge por afinidade e amor de casal surge por atração (pelo menos é assim na maioria das vezes, mas, como eu disse, não existe regra). Talvez nesse quesito, as mulheres sejam os seres mais cobrados da sociedade. Amor de mãe surge como, afinal? Dizem os mais conservadores que ele vem a partir do instante em que a semente é plantada, e isso é o que difundimos por aí. É inaceitável o desprezo de uma mãe por um filho. É crime e merece ser castigado.

O roteiro de Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, Reino Unido/ EUA. 2011), baseado no romance de Lionel Schriver, propõe, entre outros tantos polêmicos assuntos, um debate asfixiante sobre a conduta de uma mãe no relacionamento conturbado com o seu primogênito, o tal do Kevin. Passiva demais? Dura demais? Egoísta demais? Ou o problema nem está ali?



Através de uma narrativa densa e complicada, a diretora Lynne Ramsay projeta ao espectador uma experiência emocionalmente devastadora. É até complicado falar por uma questão sensitiva: a obra se caracteriza por um misto enorme de sentimentos e cabe a cada um expressá-lo da melhor maneira possível. Prepare-se: você se anulará o tempo todo. É como se fosse nosso dever apontar um culpado, um inocente ou um nada. A história não nos permite passividade ou algo do gênero, e promete deixar você dias a fio com uma teoria plantada na sua cabeça.

Nos primeiros minutos do filme, nós somos apresentados a uma mulher solitária, que tem no olhar e nas marcas de expressão algum segredo muito forte guardado a sete chaves. Não é um segredo, mas também não se sabe se é medo ou vergonha. Tudo acaba sendo permitido a personagem. Quem dá vida a essa Mulher, Eva, é a estonteante (talento) Tilda Swinton, que encarrilha um trabalho melhor que o outro nos últimos anos. Através de flashbacks (apresentados com muita calma e precisão pela diretora) vamos descobrindo quem é aquela mulher, quais são os seus receios e suas dúvidas.



Eva era uma mulher do mundo, bebia vinho com o futuro marido (o ótimo John C. Reilly)pelas ruas da cidade, tomava banho de chuva, se aventurava em eventos como a Tomatina (que acaba por se tornar uma das principais metáforas da obra), era verdadeiramente uma cidadã do mundo. Até que é acometida por uma gravidez indesejada. Ponto final. A diretora volta ao presente de Eva e mostra a casa dessa mulher sendo atacada por vândalos, ataques violentos de madames na rua. Para o espectador que se depara com Precisamos Falar Sobre o Kevin sem nunca ter ouvido qualquer premissa sobre o filme isso se caracteriza como uma sacada absurda, os pontos nunca serão entregues. Cabe ao espectador paciência, pois se trata sim de um filme muito denso.



Nasce Kevin, aquele que viria se tornar o grande pesadelo de muitas pessoas. Desde bebê, Eva não teve muita sensibilidade com o filho. Não tratava mal, longe disso, mas faltava um estalo de delicadeza, um surto mínimo de abertura para essa nova vida. Numa das cenas mais fantásticas do filme, Eva encosta o carrinho junto a uma britadeira em ação no meio da rua para, por alguns minutos, não escutar o barulho do choro incessante do filho. A crueza como a diretora impõe essa cena ao espectador é de dar arrepios, afinal, que mãe é essa sem nenhum artifício para parar essa criança? Mágica não existe, tanto pra um quanto pra outro.



Kevin cresce e quem dá o ar da graça é o talentosíssimo Ezra Miller,um jovem ator que soube, no tom certo, misterioso e desprezível, dar vida a personagem. Durante esses quinze anos, Kevin sempre intrigou a mãe, é nítido o medo que Kevin consegue enraizar no semblante da mãe e, ao mesmo tempo, o carisma conquistado pelo permissivo pai, que põe em cheque toda a autoridade da mãe. Kevin “amadurece” em torno de vários mistérios: o acidente quase faltal com a irmã mais nova, a dificuldade em fazer o que lhe é pedido, por exemplo, Kevin só começa a falar quando lhe é viável, até lá, ele mantém sua mãe numa busca irrisória aos seus olhos. Kevin conquista sua independência psíquica com cerca de quatro anos. É assustador.

O que o filme traz pra gente é o que o próprio título sugere: uma conversa sobre a conduta de Kevin. Até ele entrar numa escola e matar dezenas de pessoas, possuído por uma frieza marcante desde que estava em fraldas, nossa empatia acaba se juntando a mãe, que no fim das contas, talvez também não mereça nossa compaixão. Tudo se torna tão à flor da pele como um romance tórrido, existe competição plena entre mãe e filho, jogadas implícitas realizadas tanto por um quanto pelo outro, ninguém encontra seu lugar nem seu papel naquela família e isso assusta, assusta muito.



Tilda Swinton dá ares frescos a esse bicho chamado Eva, tomada pelo sofrimento e culpa, a atriz nos põe cara a cara com Kevin, não existe interconexão, graças ao seu absurdo empenho nós somos ela e ela nós até o fim. Mergulhar na história de Eva é algo que não se escolhe. A mulher, esfolada de culpa e marginalizada pela sociedade em virtude do desvio de caráter do filho, cresce aos olhos do espectador em cada fase da vida, desde a mulher sonhadora quando solteira até a mãe dividida entre a dúvida e o amor. Os caminhos (todos mostrados na obra) de redenção pessoal e entendimento da personagem promovem um trabalho simplesmente perfeito de Tilda Swinton. E seu poder encontra-se todo na expressão: cativa e silenciosa quando enfrenta os olhos de outros, assustada e nervosa quando se reflete em si própria.

Não tem como se esquecer de um filme como esse. O trabalho dos atores, o trabalho primoroso da diretora (sendo esse um dos melhores filmes de sua carreira), a fotografia e até mesmo a trilha sonora, que deixa aquele clima de horror sempre pairando no ar. Assim se fez um dos melhores filmes de 2011, que irritantemente foi mantido fora do Oscar. E quem perde são só eles.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Hora e a Vez de Meryl Streep (Crítica: A Dama de Ferro / 2011)


"Fique Firme".




Meryl Streep é unânime.
Não existe atriz, não existe ator, não existe diretor, não existe ninguém com o poder de Meryl Streep. Isso não se resume apenas a talento, este que a atriz tem pra dar e vender, mas também a um poder de mobilização de fãs, colegas de trabalho, e da própria indústria de entretenimento, que emenda uma fila sem fim de admiradores e difusores de sua arte. É fato, fica difícil citar outro artista com tamanha influência sobre todos os termos que regem a indústria cinematográfica, talvez Spielberg, talvez Scorsese, talvez DeNiro, não sei, Meryl Streep consegue ser unânime, não existe talvez, existe uma estrela, seja em calçadas ou em corações, ela arrebata milhões de pessoas com sua magnificência e amor pelo trabalho.

Dezessete vezes indicada ao prêmio máximo do Cinema, a atriz chega ao Oscar 2012 como a favorita para levar a estatueta para casa pela terceira vez: a primeira foi por Kramer vs. Kramer (1979) como coadjuvante, e a segunda, por A Escolha de Sofia (1982) na categoria de atriz principal. Mais uma vez, agora em A Dama de Ferro (The Iron Lady. Inglaterra, França, 2011), Streep emplaca mais um belíssimo desempenho e se torna recordista absoluta de indicações ao prêmio. Não é pra qualquer um.



Quando foi convidada a encarnar a ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margareth Thatcher, Meryl não pensou duas vezes. Com uma carreira recheada de mulheres nascidas genuinamente da ficção, surge uma das raras oportunidades de se produzir, com seu brilhantismo, uma mulher de verdade, forte, corajosa, realmente de ferro. Contudo, o roteiro fracassou, a diretora cedeu aos clichês de um mundo desinteressante e formulou uma história muito pouco atrativa.

A diretora Phyllida Lloyd não possui grandes feitos em seu currículo, talvez o mais conhecido seja o musical gracinha Mamma Mia! (2009), que também conta com a presença de Meryl Streep. Talvez, por isso, tenha faltado bastante sensibilidade na construção desse trabalho, que por mais que tenha a genialidade de seu elenco, mantém-se muito abaixo do esperado para uma biografia de uma das mulheres mais importantes do século passado. Lloyd constrói exatamente um filme para quem não gosta de política: Não explica os maiores feitos da dama de ferro, não explicita suas conquistas e suas derrotas. Escolhe ficar numa onda baixa e mansa, sem refletir toda a agressividade e turbulência que foi a vida de Thatcher.



Margareth Roberts, como nasceu, cresceu na Inglaterra pós-segunda guerra, abatida por um conservadorismo ferrenho e com um sublime interesse por política, foi admitida em Oxford. Sua ousadia gritante seria vista nos quatro cantos de seu círculo de relações. Thatcher é responsável por tirar a Inglaterra de uma das mais ferrenhas recessões que o país enfrentou, e não só por isso, mas também por lançar o pequeno reino, logo após a crise, num período ininterrupto de prosperidade. Apostou na política neoliberal, sempre apoiada pelo seu partido, o Conservador, fez vista grossa com os gastos, sofreu com os atentados terroristas do IRA, entrou em conflito armado com a Argentina, e combateu o “mal” do socialismo. Por essa luta ferrenha contra os comunistas, recebeu o apelido de Dama de Ferro, particularmente apadrinhado pelos soviéticos.

O drama de Phyllida Lloyd não explora os anos de trabalho dessa mulher, que chegou a ser a mais odiada do mundo durante a década de 1980. Lloyd preferiu construir um longa repleto de flashbacks, onde uma Margareth Thatcher velha e senil se recorda de sua trajetória. Tudo muito comido, roído, jogado ao espectador sem nenhum tipo de explicação.

A menina feia rejeitada pelos colegas, a jovem aceita por Oxford, que conhece seu marido numa mesa de politicagem, a primeira eleição perdida, a chegada ao Parlamento, a ocupação de cargo de Ministra da Educação (após muitos anos) da gestão anterior a sua, enfim. Nada é explicado, nada é pronto, muito menos facilitado para nós. Em dois terços do filme veremos a primeira-ministra totalmente debilitada pela idade, tentando driblar o controle da filha, da empregada e do fantasma do marido, que ela vê com frequência, no restante da obra, você verá os flashbacks da vida política de Thatcher, como eu já disse, extremamente mal desenvolvidos. Em que lugar ficou as propostas, ideias e ações de Thatcher? Quem foi seu braço direito, quem alimentou suas campanhas? Onde estão os onze anos de turbulência comandados pela líder britânica? Falta informação, falta pesquisa. Pra quê tantas cenas vazias e superficiais? Não há como não comparar com o excelente A Rainha (2006), que se traduz num filme exato, correto e conflituoso. A busca pela imagem concreta de Thatcher não chega nem perto da construção primordial da Rainha Elizabeth II.



Nos últimos minutos de projeção, o filme se torna extremamente confuso: o roteiro te joga um novo descontentamento com a figura política e, consequentemente, culmina na sua queda do poder. As cenas de Thatcher atual se traduzem lentas, melancólicas, enquanto as atuais são minimalistas e corridas.

Incomoda-me muito ver uma obra tão pela metade assim, que não diz ao que vem. Eu fui assistir na esperança de ver Thatcher julgando o resto do mundo, combatendo as forças socialistas, impondo suas leis e ideias para a sociedade, contrariando os políticos liberais, mas não, tudo o que se tem é um filme morno, onde a única coisa que realmente dá certo é Meryl Streep e sua sublime caracterização.



Simplesmente o filme deveria se chamar Meryl, assim ele estaria mostrando o que é capaz de fazer uma grande atriz, mesmo em frente a uma personagem tão rasa. Mesmo quando velha, Streep dá o costumeiro show de sempre e decreta com uma imensa rocha seu posto de melhor atriz do Cinema contemporâneo. Se antes existia Liv Ullman, Katherine Hepburn e Geraldine Page pra trazer alguma dúvida, hoje o caminho é só dela. Não existe ninguém igual. A caracterização da personagem também recebe nota altíssima, desde o figurino novo em folha e a maquiagem espetacular, até a absorção de um sotaque firme e convincente, que consegue dar todo um charme singular a personagem. Meryl provavelmente sentiu dificuldades em problematizar a personagem, por isso leva todo o filme nas costas, sem reclamar, sem pestanejar, muito pelo contrário, torna um trabalho que provavelmente seria impossível nas mãos de uma outra atriz, numa performance invejável e favorita a ser coroada como a melhor do ano. Por fim, se alguma coisa pode atrapalhar a vitória de Meryl, essa coisa é a ineficiência do filme como um todo.



Pra terminar, gostaria de ressaltar que o filme deve, sim, ser visto unicamente pelo trabalho da atriz. Se você procura conhecer o Thatcherismo, desista. Se você clama por um grande filme, desista. É simples: Se você não conhece Margareth Thatcher, essa não é a sua chance.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Alice no País das Maravilhas (Crítica: Garota, Interrompida / 1999)

“Talvez eu fosse louca, talvez fossem os anos 60 ou talvez eu fosse uma garota, interrompida.”
Susanna Kaysen.



Nesses últimos dias estava pensando em Winona Ryder. O que deu errado para Winona Ryder? De estrela ascendente nos anos 90 à escória hollywoodiana. Aonde foi que tudo começou a desmoronar? Daí eu descobri que tudo foi por água abaixo depois de Garota, Interrompida (Girl, Interrupted. EUA,1999). Não é tão simples entender a derrocada na carreira de Winona Ryder, mas podemos tentar.

Winona entrou nos anos 1990 como uma das mais requisitadas atrizes. Trabalhou com Tim Burton no inquestionável Edward- Mãos de Tesoura, com Scorsese em A Época da Inocência, onde garantiu sua primeira indicação ao Oscar, fez Minha Mãe é uma Sereia, Drácula e Adoráveis Mulheres. Winona trilhava um caminho de veras semi-glorioso, tudo indicava que seu momento chegaria, que seu Oscar viria, que sua consagração e seu respeito finalmente seriam expostos. Quem diria que o projeto da sua vida seria também sua pior tentativa? E foi.



Winona Ryder entrou com uma das produtoras de Garota, Interrompida, se envolveu de corpo e alma no projeto, angariou o papel principal e foi fazer aquele que deveria ser o papel de sua vida. James Mangold, que mais tarde viria a filmar Johnny & June, entrou como o diretor do projeto.

Esquecendo um pouco a história de Winona, que logo mais será retomada, vamos ao filme. O roteiro foi baseado no livro de Susanna Kaysen, publicado em 1994, que conta a história da própria autora e de seus dois anos, 1967 e 1968, numa clínica psiquiátrica, quando foi diagnosticada com um distúrbio de personalidade, após uma suposta tentativa de suicídio.



Sim, quem interpreta Susanna é Winona Ryder, de forma alguma Winona faz feio, mas tinha uma certa “rebelde” que ia acabar ofuscando todo o seu brilho. Vinda de uma família rica e com um nome a se preservar, Susanna não se importava com os estudos, só tinha uma vontade: ser escritora. Após tomar um vidro de aspirina com quatro litros de vodca, na tentativa de curar uma dor de cabeça, Susanna é internada e diagnosticada como uma “rebelde sem causa”, mais precisamente, uma jovem de personalidade dúbia. Como forma de tentar curar a doença da filha, os pais a mandam para a reabilitação e é lá que Susanna acaba, realmente, tendo contato com a loucura que aflige o ser humano.

A reabilitação abriga meninas consideradas não-capazes pela sociedade. Susanna, logo que chega, conquista uma rede de amizade, que vai desde a perturbada personagem de Brittany Murphy (finada) até a sociopata Lisa, personagem de Angelina Jolie, com quem Susanna nutrirá uma relação que vai do amor ao medo. Chegamos então a grande pedra no sapato de Winona Ryder, e esta recebe o nome de Angelina Jolie. De forma que todas as atrizes estão bem, incluindo a enfermeira, interpretada por Whoopy Goldberg, e a dona do hospital, personagem de uma Redgrave, Vanessa, imaginou-se que o grande destaque do filme ficaria por conta da protagonista, mas não. Angelina Jolie construiu uma personagem tão complexa e madura, que a atuação de Winona se perdeu em qualquer minuto de projeção. Lisa nos faz sentir ódio, compaixão, amor, coragem e mais uma porrada de sentimentos.



A personagem de Angelina Jolie, significa no filme, a tentativa de planificação da situação dos internos. Aquilo não é uma colônia de férias, e sim, o descaso e o preconceito da sociedade atuando da forma mais perversa sobre o “eu” de cada uma. A personagem é uma sociopata, claro, mas é a força combatente do sistema. É a serpente do paraíso que atraí e manipula Eva e Adão. Angelina Jolie foi coroada com um Oscar de melhor atriz coadjuvante. Winona, essa não foi indicada e passou completamente despercebida pelas premiações. O buraco onde ela plantaria sua árvore serviu de cova para sua carreira. Logo depois, vieram as polêmicas com os assaltos em Nova Iorque e alguns filmes tão medíocres quanto seu fim.

O filme promove um debate entre os limites da sanidade e da loucura tendo como suporte uma história real, por hora, nos remete a Um Estranho no Ninho. O que é loucura? Pense nessa pergunta. Quem define o que é loucura? Seria uma velha conhecida nossa: a Indústria Cultural? Seria nosso berço, nossa cama, nossos lençóis, travesseiros e cadernos? Aí me vem Alice no País das Maravilhas na cabeça: Não seriam os loucos as melhores pessoas do mundo? Garota, Interrompida coloca uma mão de pregos na sua frente. Você recebe o tapa na cara ou não?



Sobre Garota, Interrompida, fica a dica para assistir o filme, que ainda traz o ator/cantor Jared Leto como o namorado da personagem de Winona. O filme tem uma base muito forte, que é o roteiro baseado numa história real. A parte técnica do filme também é admirável, possui uma fotografia interessantíssima e todo o clima que a direção de arte conseguiu jogar dentro do hospício também garante todo um ritmo essencial ao filme.

A trilha sonora reservou grandes surpresas. Recheada de grandes mitos da música como o The Band e The Mamas and the Papas, um verdadeiro deleite para os fãs da música genial que habitou os anos 60.



A crítica dessa vez foi curta. Primeiro, porque o filme não tem segredo, é um brigadeiro bem enrolado e bem enfeitado; segundo e último, o que eu queria mesmo era mostrar como, mesmo sem querer, uma atuação brilhante pode afundar com a carreira de um colega de trabalho. A culpa não é toda de Angelina Jolie nem de Garota, Interrompida, que eu repito: é um filme muito bom. Mas, com certeza, foi após a feitura dessa obra, que Winona Ryder perdeu literalmente sua sanidade.