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quinta-feira, 4 de abril de 2013

De Criança para Crianças (Crítica: Moonrise Kingdom / 2012)

"Os homens temem a morte, como as crianças temem a escuridão."



Sabe-se lá a causa que move Wes Anderson na hora de produzir um filme. Afeito a maneirismos muito característicos, onde tudo é extremamente calculado, como a tão habitual câmera em movimento, que surpreende tanto o espectador em momentos oportunos, mas inesperados; a fotografia excêntrica; a "dramédia" comumente relatada em seus dias de labuta, Anderson entrega em Moonrise Kingdom (EUA,2012) seu trabalho mais completo, onde pela primeira vez tudo se encaixa e faz todo o sentido para quem consome essa verdadeira obra de arte.

Reencontrando antigos amigos, pouco a pouco, Anderson foi realizando Moonrise Kingdom. Primeiro escreveu o roteiro em parceria com o amigo Roman Coppola, depois convidou seu fiel escudeiro Bill Murray e, a partir daí, foi definindo um elenco de peso para participar da película. Frances McDormand, Tilda Swinton, Edward Norton e Bruce Willis são alguns dos nomes que pesam na produção do filme, ainda mais nesse caso, quando esses atores vão servir de suporte para contar a história de dois pré-adolescentes sedentos por liberdade.



Wes Anderson vai até 1965, numa ilha isolada na Nova Inglaterra, para contar essa história recheada de fantasia, saudosismo e aventura possível. Numa casa, morando com os pais (Murray e McDormand), está Suzy Bishop (Kara Hayward), uma menina de 12 anos, culta e vaidosa, insatisfeita com a rotina e com o pouco caso do pai. A mãe de Suzy, que sme querer alimenta uma barreira entre ela e a filha, também não é espelho para a menina, já que está mantém um caso com o único policial da ilha, interpretado por Bruce Willis. Na outra extremidade desse cubículo terrestre está Sam (Jared Gilman), escoteiro da equipe do comandante Ward (Norton), adotado e rejeitado pelo amigos. A rejeição, segundo os sentimentos de Sam, parece vir de sua engenhosidade, que aos poucos pode lhe atribuir características de insanidade.

Quando Sam e Suzy começam a se corresponder, logo de cara já nasce um sentimento de confiança mútua, tão inexistente no meio em que eles sobrevivem, despistando maiores questionamentos de pais, tutores ou meros colegas de barraca no acampamento. Como um bote salva-vidas um se agarra ao outro e imediatamente precisam um do outro para ser feliz, tentar ser quem realmente são. Num dia qualquer, as crianças resolvem fugir, viver uma aventura e construir uma breve história juntos. A questão que doma o espectador é justamente no que se transforma esse roteiro de Coppola e Anderson, totalmente livre de clichês e cortes tendenciosos a pieguices. Não. O direcionamento é mais humano, mas sem tirar o olhar inocente e revolucionário de uma criança apaixonada. A fuga de Suzy e Sam vai gerar um verdadeiro caos dentro da ilha, incluindo um encontro entre os pais de Suzy, o policial galanteador, o escoteiro-chefe atrapalhado e uma desinformada assistente social (Swinton), todos em busca de destruir algo que nem se atrevem a mensurar.



Como eu li numa crítica de um amigo, é muito difícil encaixar Moonrise Kingdom num gênero, principalmente pela máscara que Anderson consegue botar nos seus trabalhos. Por exemplo, nessa obra sobra espaço para a comédia, para o drama, para a crítica social, para o apelo mercadológico, entre outras coisas. Porém, Moonrise Kingdom ganha por não pecar nos excessos. O humor é dotado de uma simplicidade genuína; o drama tem uma melancolia doce, recheada de boas memórias; a crítica se perde no rosto dos protagonistas (embora seja perfeitamente entendida), mas como é um mundo de aventuras infantis, a troca de personalidade entre crianças e adultos ainda soa como parte de uma história e não da realidade. E aqui entra o ponto mais perverso de Moonrise Kigdom: infelizmente a realidade é suplantada pelos próprios personagens centrais, que observam a fuga imaginária como a principal forma de respirar novos ares e de doação de ambos. Anderson cria uma fábula cheia de casinhas, castelos, vilões, pontes, riachos, todos se unindo contra a precisão de uma paixonite aguda.



Com essa obra, Wes Anderson chega ao respeitável posto de "cineasta compreendido". Depois de Moonrise Kingdom, fica impossível ignorá-lo novamente. Sua arte e seu modo de ver e fazer cinema entram definitivamente para a rota dos memoráveis, imperdíveis e inexplicáveis sonhos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nascidos para Morrer (Crítica: Precisamos Falar Sobre o Kevin / 2011)

É do amor permeado pela dúvida que surgirão seus maiores desafios, suas mentiras escabrosas, seus olhares medonhos e seus filhos bastardos.



Não existe nem nunca existiu fórmula para o amor, ele aparece ou não. Amor de amigo surge por afinidade e amor de casal surge por atração (pelo menos é assim na maioria das vezes, mas, como eu disse, não existe regra). Talvez nesse quesito, as mulheres sejam os seres mais cobrados da sociedade. Amor de mãe surge como, afinal? Dizem os mais conservadores que ele vem a partir do instante em que a semente é plantada, e isso é o que difundimos por aí. É inaceitável o desprezo de uma mãe por um filho. É crime e merece ser castigado.

O roteiro de Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, Reino Unido/ EUA. 2011), baseado no romance de Lionel Schriver, propõe, entre outros tantos polêmicos assuntos, um debate asfixiante sobre a conduta de uma mãe no relacionamento conturbado com o seu primogênito, o tal do Kevin. Passiva demais? Dura demais? Egoísta demais? Ou o problema nem está ali?



Através de uma narrativa densa e complicada, a diretora Lynne Ramsay projeta ao espectador uma experiência emocionalmente devastadora. É até complicado falar por uma questão sensitiva: a obra se caracteriza por um misto enorme de sentimentos e cabe a cada um expressá-lo da melhor maneira possível. Prepare-se: você se anulará o tempo todo. É como se fosse nosso dever apontar um culpado, um inocente ou um nada. A história não nos permite passividade ou algo do gênero, e promete deixar você dias a fio com uma teoria plantada na sua cabeça.

Nos primeiros minutos do filme, nós somos apresentados a uma mulher solitária, que tem no olhar e nas marcas de expressão algum segredo muito forte guardado a sete chaves. Não é um segredo, mas também não se sabe se é medo ou vergonha. Tudo acaba sendo permitido a personagem. Quem dá vida a essa Mulher, Eva, é a estonteante (talento) Tilda Swinton, que encarrilha um trabalho melhor que o outro nos últimos anos. Através de flashbacks (apresentados com muita calma e precisão pela diretora) vamos descobrindo quem é aquela mulher, quais são os seus receios e suas dúvidas.



Eva era uma mulher do mundo, bebia vinho com o futuro marido (o ótimo John C. Reilly)pelas ruas da cidade, tomava banho de chuva, se aventurava em eventos como a Tomatina (que acaba por se tornar uma das principais metáforas da obra), era verdadeiramente uma cidadã do mundo. Até que é acometida por uma gravidez indesejada. Ponto final. A diretora volta ao presente de Eva e mostra a casa dessa mulher sendo atacada por vândalos, ataques violentos de madames na rua. Para o espectador que se depara com Precisamos Falar Sobre o Kevin sem nunca ter ouvido qualquer premissa sobre o filme isso se caracteriza como uma sacada absurda, os pontos nunca serão entregues. Cabe ao espectador paciência, pois se trata sim de um filme muito denso.



Nasce Kevin, aquele que viria se tornar o grande pesadelo de muitas pessoas. Desde bebê, Eva não teve muita sensibilidade com o filho. Não tratava mal, longe disso, mas faltava um estalo de delicadeza, um surto mínimo de abertura para essa nova vida. Numa das cenas mais fantásticas do filme, Eva encosta o carrinho junto a uma britadeira em ação no meio da rua para, por alguns minutos, não escutar o barulho do choro incessante do filho. A crueza como a diretora impõe essa cena ao espectador é de dar arrepios, afinal, que mãe é essa sem nenhum artifício para parar essa criança? Mágica não existe, tanto pra um quanto pra outro.



Kevin cresce e quem dá o ar da graça é o talentosíssimo Ezra Miller,um jovem ator que soube, no tom certo, misterioso e desprezível, dar vida a personagem. Durante esses quinze anos, Kevin sempre intrigou a mãe, é nítido o medo que Kevin consegue enraizar no semblante da mãe e, ao mesmo tempo, o carisma conquistado pelo permissivo pai, que põe em cheque toda a autoridade da mãe. Kevin “amadurece” em torno de vários mistérios: o acidente quase faltal com a irmã mais nova, a dificuldade em fazer o que lhe é pedido, por exemplo, Kevin só começa a falar quando lhe é viável, até lá, ele mantém sua mãe numa busca irrisória aos seus olhos. Kevin conquista sua independência psíquica com cerca de quatro anos. É assustador.

O que o filme traz pra gente é o que o próprio título sugere: uma conversa sobre a conduta de Kevin. Até ele entrar numa escola e matar dezenas de pessoas, possuído por uma frieza marcante desde que estava em fraldas, nossa empatia acaba se juntando a mãe, que no fim das contas, talvez também não mereça nossa compaixão. Tudo se torna tão à flor da pele como um romance tórrido, existe competição plena entre mãe e filho, jogadas implícitas realizadas tanto por um quanto pelo outro, ninguém encontra seu lugar nem seu papel naquela família e isso assusta, assusta muito.



Tilda Swinton dá ares frescos a esse bicho chamado Eva, tomada pelo sofrimento e culpa, a atriz nos põe cara a cara com Kevin, não existe interconexão, graças ao seu absurdo empenho nós somos ela e ela nós até o fim. Mergulhar na história de Eva é algo que não se escolhe. A mulher, esfolada de culpa e marginalizada pela sociedade em virtude do desvio de caráter do filho, cresce aos olhos do espectador em cada fase da vida, desde a mulher sonhadora quando solteira até a mãe dividida entre a dúvida e o amor. Os caminhos (todos mostrados na obra) de redenção pessoal e entendimento da personagem promovem um trabalho simplesmente perfeito de Tilda Swinton. E seu poder encontra-se todo na expressão: cativa e silenciosa quando enfrenta os olhos de outros, assustada e nervosa quando se reflete em si própria.

Não tem como se esquecer de um filme como esse. O trabalho dos atores, o trabalho primoroso da diretora (sendo esse um dos melhores filmes de sua carreira), a fotografia e até mesmo a trilha sonora, que deixa aquele clima de horror sempre pairando no ar. Assim se fez um dos melhores filmes de 2011, que irritantemente foi mantido fora do Oscar. E quem perde são só eles.

domingo, 10 de julho de 2011

Rir pra não Chorar (Crítica: Queime Depois de Ler / 2008)



Espero que vocês concordem comigo que no Cinema existem vários tipos de comédia: a escrachada, estilo de Ben Stiller e (agora exaltado pela crítica) Judd Apatow, a narrada (que às vezes dá certo) de Woody Allen e a inteligente, sutil, recheada de humor negro e notáveis diálogos que sempre fogem dos lugares-comuns, que tanto assombram esse gênero cinematográfico. Os irmãos americanos Joel e Ethan Coen são o melhor exemplo de como se fazer humor inteligente, carregado de tragédia e estupidez, de vez em quando sendo grotesco e um tanto bizarro. Porém, real.


Os últimos trabalhos dos cineastas consistiram numa fuga das raízes ácidas de seus primeiros e melhores trabalhos (Fargo, 1996 e O Grande Lebowski, 1998). Com Bravura Indômita (2010) refilmagem do clássico de 1969 e Onde os fracos não têm Vez (2007) os irmãos adequaram-se a linha hollywoodiana de produção de filmes. São trabalhos mais densos e complexos. Não é a toa que pelos dois filmes receberam uma chuva de prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção por Onde os Fracos não têm Vez. Isso não quer dizer que o trabalho que os dois sempre fizeram com a comédia não seja de qualidade, muito pelo contrário, eu acredito que é onde estão suas melhores obras. O problema realmente é parte da crítica, que não consegue entender o estilo único que os cineastas têm para fazer rir.

Em meio aos dois últimos trabalhos dos Coen surge uma joia do gênero: Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008. EUA). Queime Depois de ler deve ser visto como uma obra incrivelmente inusitada. Aqui não tem história, não tem trama, tudo se ergue em volta das personagens que são tão bizarras quanto reais. Os Coen voltam a brincar com os estereótipos do nosso conhecido cotidiano e a humanizá-los na medida em que eles cometem os mais diversos erros.



Queime traz um elenco estelar: Brad Pitt, Frances McDormand, George Clooney, John Malkovich, Tilda Swinton e Richard Jenkins, arrisco a dizer que o mais saboroso dessa comédia é ver esses grandes astros interpretando personagens tão burlescos. Por exemplo, o personagem de Brad Pitt é o cara mais idiota possível, aquele cara que acha que engana todo mundo numa mudança de voz e de atitude, é quase infantil, mas, é mais imbecil.

Linda (Frances McDormand) é uma quarentona que trabalha numa academia de ginástica junto com Chad (Brad Pitt, merecia um Oscar), ele é um bobão, ela uma mulher infeliz com a aparência. Um dia Chad encontra no vestiário da academia um CD com diversas informações da CIA, as quais ele e Linda julgam ser sigilosas. Após descobrirem que o CD pertence a um ex-espião da CIA, Osbourne Cox (John Malkovich, ótimo em todo seu mau-humor), eles resolvem chantageá-lo ou então o CD iria parar na Embaixada russa. Do outro lado, Osbourne é casado com Katie (Tilda Swinton), que mantém um relacionamento extraconjugal com o paranóico Harry (George Clooney), policial que tem orgulho de nunca ter precisado atirar em ninguém durante os vinte anos de profissão. Pronto. Está montado o covil. Não parece, mas todos esses personagens irão se interligar da forma mais inusitada e cômica em função da vida dupla que cada um mantém. Isso tudo é mérito do roteiro magnífico criado também pelos irmãos Coen, já que possibilita a junção de dois núcleos distintos, em que ninguém é protagonista, numa hilariante e sólida comédia de espionagem.



A trilha sonora de suspense é espetacular. Traz músicas que nos remetem a filmes de espionagem mescladas às cenas hilárias que vão passando na tela. Não poderia ser melhor. A comédia de humor negro é a grande marca da carreira dos irmãos e não poderia ser diferente nesse filme. Existem cenas impagáveis como a visita de Chad e Linda à Embaixada Russa, acreditando no poder das informações que eles possuem e até mesmo na misteriosa criação de Harry no porão de sua casa.



Frances McDormand me causa certo receio, acho uma atriz estranha e, talvez por isso, tenho essa resistência. Porém, não posso negar que ela tem talento. Não bastava o Oscar de 1996 de Melhor Atriz por Fargo (Frances é esposa de Joel), a atriz mostra que tem verdadeiro dom para a comédia. Calma. Dom para a comédia dos Coen. Não imagino ela fazendo piadas escatológicas ao lado de Ryan Reynolds em qualquer filme por aí. Em questão de atuação o filme é todo de Pitt e Clooney. A dança do personagem de Pitt causa vergonha alheia, sua imbecilidade pinta nossa cara de vermelho. Tem que ter muita cara de pau. George Clooney vem provando ser o melhor ator de sua geração. Vai do drama a ficção, da comédia a ação, sempre entregando performances de alto nível. Com Conduta de Risco (2007) tornou-se o ator mais rentável do planeta: traz dinheiro e prêmios.

Nunca duvide dos irmãos Coen. Das suas genialidades ao escreverem roteiros até a perfeita formação de ângulos durante as filmagens. Do mais complexo ao mais simples: eles são exímios. Não deixem de ver os outros filmes da dupla, onde será possível ver também a extensa colaboração entre os cineastas e o ator George Clooney.



Queime Depois de Ler não é só comédia.

Existe ali uma suave crítica aos atores sociais. Repare em como os personagens velam infelicidade, angústias, tornando-se, assim, verdadeiros personagens. Personagens dentro de personagens. Isso é característica dos Coen, ali ninguém é realmente feliz. Todos mentem, todos traem, todos omitem. É o verdadeiro reconhecimento de nós mesmos sem perder o bom humor.



Ta aí Pedrodan.. hahaha