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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Consciência Branca (Crítica: Histórias Cruzadas / 2011)

"A coragem às vezes pula uma geração"



Começou a corrida para o Oscar 2012. Aliás, começou há um bom tempo. Já tivemos premiações como o Globo de Ouro, a lista de indicados do Bafta, do Actor’s Screen e no dia 24 de janeiro saiu a lista de indicados ao maior e mais conceituado prêmio da sétima arte: o Oscar. Nós já sabemos que o Oscar não deve ser levado tão a sério, prova disso são os grandes filmes e as brilhantes atuações que costumam ficar de fora do evento. Então, não se faz simplesmente um grande filme e espera ele ser indicado. A Academia tende a ser conservadora, não gosta de grandes blockbusters, que arrasam com a bilheteria, nem é fã número um de filmes repletos de efeitos especiais, de ação, vilanias, entre outras coisas que costumam passar batido aos olhos dos votantes, viu-se isso no esquecimento de Batman- O Caveleiro das Trevas no Oscar de 2009. Porém, existem as exceções, e elas não são poucas: O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, que abocanhou os 11 troféus a que havia sido indicado no ano de 2004, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para Peter Jackson (ainda acredito que a saga de Jackson seja um caso muito particular, era o término de uma trilogia que fez história); em 2010 foi à vez de Avatar chegar como favorito da noite, mas sair praticamente de mãos abanando, e no mesmo ano a Academia reconheceu também o ótimo Distrito 9.

O post não tem nenhuma pretensão de esmiuçar o que se passa na cabeça dos “old mans” que habitam as cobiçadas cadeiras da Academia, mas sim, tentar, mais por brincadeira, prever o que pode acontecer na noite da entrega dos prêmios, que acontece mês que vem no Kodak Theatre, em Los Angeles. Para isso, comecei a conferir os filmes mais cotados para levar alguns carecas dourados para casa, a começar com Histórias Cruzadas (The Help, EUA. 2011). O filme, dirigido e escrito pelo desconhecido Tate Taylor, não chega como favorito para Melhor Filme, nem poderia: a história parece muito água com açúcar perto dos outros possíveis indicados. A garota branca que se mobiliza, ainda que de forma preguiçosa, em “prol” das empregadas negras de Jackson, Mississipi.



Não que a história e o filme não tenham seus méritos, tem sim e muitos, mas ainda falta uma história em que o negro não seja simplesmente o instrumento da revolta, da fala, mas também uma história em que ele seja a caça e o caçador, seja o instrumento e o instrumentista. Isso não diminui e nem descaracteriza a obra, mas a torna um tanto televisiva e batida demais. Sei que muitos vão discordar e talvez parem de ler a crítica por aqui: Que história é essa de que o negro não foi autor de sua liberdade? Como assim? Quem disse que é preciso de uma garota branca para levar nossos ideais e dignidade pela frente? Então, te peço, leia e verá que o filme não é só isso, as partes boas superam deliberadamente a única parte que, em minha opinião, não cola.

Histórias Cruzadas narra a história das empregadas domésticas de Jackson, cidade do sul dos Estados Unidos, por volta dos anos de 1950. Pra quem nunca teve contato com a história real da parte sul dos Estados Unidos, aí vai uma simples pincelada. A parte sul do estado americano configurou-se, em seus primórdios, numa linha bem diferente das colônias dor Norte. Enquanto no Norte o trabalho era livre e as colônias buscavam evoluir como Democracia e nação, no Sul, as colônias se baseavam na mão de obra escrava e na exploração máxima da terra. Essa configuração foi além da independência do Estado, ou seja, mesmo depois de se emancipar dos ingleses, continuaram nessa divisão drástica dentro do próprio território. As rivalidades entre os habitantes do Norte e do Sul se tornaram explícitas e tudo terminou com a Guerra de Secessão, em que os Estados Unidos travou uma guerra consigo mesmo. Dica: o filme E o Vento Levou é um dos melhores para entender o que houve durante esse período nos EUA. Enfim, o Norte venceu a guerra, e o Sul foi obrigado a implantar o trabalho livre e assalariado como mão de obra única dentro do seu território.



Como tudo tem uma consequência, não podia ter sido diferente, mesmo nos EUA. É certo que, provavelmente, você já tenha ouvido falar que um dos maiores problemas na terra do Tio Sam é o racismo. Após perder a guerra, a parte Sul do país se mobilizou em criar movimentos de repressão violenta aos negros, sendo o mais conhecido e responsável por milhares de mortes, a Ku Klux Klan, mencionado no próprio Histórias Cruzadas. Espero que tenha dado pra entender alguma coisa dessa explicação histórica (?).

Pois, então, no meio dessa violência plácida, Histórias Cruzadas vem contar a história de negros que sofrem com esse racismo enraizado mesmo depois de tantas décadas de liberdade concedida.

Aibileen (Viola Davis, estupenda) é uma mulher que se aproxima da meia idade, negra e que teve que largar os estudos ajudar cedo para ajudar dentro de casa, dessa forma ela se tornou empregada. O filme todo é narrado por ela. No início, Aibileen conta de cada criança que cuidou e como chegou no trabalho atual: a empregada faz-tudo da fútil Elizabeth (Ahna O’Reilly). Aos poucos, entra na história sua melhor amiga, Minny (Octavia Spencer, um estouro, tão boa quanto a protagonista), também empregada, só que muito mais maltratada pela megera da história: Hilly Holbrook (interpretada com maestria pela sumida Bryce Dallas Howard). No geral, o centro de tudo é esse: como as empregadas domésticas negras são usadas e jogadas como pano de chão em qualquer canto, sem nenhum reconhecimento e alvo das mais ignorantes chacotas, sofrem um abuso de poder inominável e devem se manter quietas, concentradas em seu trabalho.



Numa reunião de jovens senhoritas racistas, onde todas as “proprietárias” de empregados negros, debatem a ideia, posta por Hilly, de construir um banheiro separado para negros dentro de casa e assim prevenir algumas doenças, está Skeeter (Emma Stone, encontrando seu caminho), uma jornalista solteirona que não compartilha da opinião das amigas quanto ao lugar do negro dentro da sociedade. Porém, Skeeter é uma personagem um tanto contraditória, pois, ao mesmo tempo que rompe com as amigas, ainda se mantêm vulnerável, de fácil compra pelas mesmas, seja por sua solteirice não tão bem aceita por ela mesma ou por sua ineficiência num mundo tão repleto de injustiças. Apesar de tudo, a jovem jornalista tem um assombro de salvação, mais por escrever o livro do que de ajudar essas mulheres. Após saber que a mãe demitiu a mulher que a criou durante toda a vida inteira, e ver Aibileen ser humilhada no seu próprio trabalho, Skeeter decide escrever um livro com as histórias sofridas por essas empregadas.

Skeeter não parece ser uma mulher que leve o racismo entre seus princípios, mas nota-se um egoísmo tímido, citado pelo próprio namorado dela, algum tempo depois de sua projeção. A aspirante a escritora está muito mais preocupada com o trabalho do que com o fruto de uma luta. A única personagem livre de preconceitos, e sim, a mais deliciosa, em todos os termos, ficou por conta de Jessica Chastain. Chastain foi escalada para viver Celia Foote, a dondoca que contrata Minny para ajudar nos serviços de casa, para aprender a cozinhar para o marido e ter uma companhia dentro de casa. Talvez por não ser aceita pela senhoritas de Jackson, Celia entenda o que é sentir-se desprezada, olhada pelo canto dos olhos. A bela mulher não quer participar de rodas de amigos racistas, mas sim, de rodas de amigos. É o melhor ar fresco do filme.



Fica por conta de Jessica Chastain as melhores cenas do filme: a da chegada da nova empregada, a qual ela recepciona com o vidro de coca-cola e um enorme sorriso no rosto, a cena em que sofre aborto e Minny arromba a porta, e a linda tomada final da personagem, em que a Minny assusta-se com a chegada do marido de Celia no jardim, e temendo que ele seja um membro da Klu Klux Klan, joga tudo para o alto e sai correndo. Quando a acalma, o marido entra com Minny na casa, e ela se depara com uma mesa repleta de comidas feitas por Celia. Era um jantar oferecido a Minny, com todos os pratos que ela ensinou Celia a preparar.

Bom, a história central é a feitura do livro de depoimentos e histórias das empregadas de Jackson, todas entrevistadas por Skeeter, chamado The Help. O filme é repleto de personagens, por isso, é meio complicado desenvolver uma sinopse mais direta e concreta. Deve ser assistido com muito carinho pelo espectador, que verá diferentes tipos da sociedade, hora encantando-se com um, hora menosprezando outro.



O grande trunfo do filme é, sem dúvida, as atuações, e é nesse quesito que provavelmente The Help deve dominar o Oscar 2012. O Globo de Ouro já foi um termômetro e premiou Octavia Spencer como coadjuvante, além de indicar Chastain na mesma categoria e Viola Davis como principal. O Oscar de coadjuvante deve ficar mesmo com Octavia Spencer que faz um retrato cru e emocionante de uma mulher que apanhava do marido, mas, mesmo assim, tinha forças para encarar a sociedade. Viola Davis chegou favorita para o Globo de Ouro, mas não levou o prêmio, senão fosse Meryl Streep e Michelle Williams no seu caminho suas chances seriam maiores. Ainda assim, Viola está muito bem cotada e pode surpreender (ou não) na noite do Oscar.

Ainda quero fazer jus ao restante do elenco. Não tem um ator sequer que esteja fora de sintonia com a história. Todos entregam atuações brilhantes e merecidas de algum prêmio. Allisson Janney, que faz a mãe com câncer de Skeeter, está um arraso, e Sissy Spacek arrebenta em poucos minutos na tela. Gostaria de citar todos eles, tamanho é estado de graça desse elenco, principalmente as atrizes. Brilhante. Brilhante. Brilhante. O Oscar quer premiar os melhores, mas nem sempre é assim: às vezes por que não é, e outras vezes porque achamos que não é. Então, que seja o que Deus quiser.



Histórias Cruzadas começou a me fazer chorar desde os trinta minutos finais, e a intenção não é criar uma obra melancólica e pesada, em que o espectador se vê atirado e desolado com sua bestialidade humanitária, mas sim, criar uma obra tecnicamente leve, buscar no espectador o fio que o conecta a humanidade e acender as luzes de seu bom senso, criar reflexão baseada em lágrimas de constrangimento e sorrisos engolidos até a hora do jantar.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Não assistirás ao fim que tu causaste. (Crítica: Carrie - A Estranha / 1976)

Restabelecer o que nunca foi estabelecido.

Reaprender o que nunca foi aprendido.

Sussurrar o que nunca foi dito.

Quem é você no mundo? Isso, aquilo ou nada disso?

Quem segue do teu lado?

Quem você sente do teu lado? (e isso se resume num infinito superior a qualquer um milhão de palavras que possam te dizer).

Pena que ninguém disse nada a ela. Só fez com que ela sentisse que tudo era mentira e perverso.

Morre assim, então.



O que um filme de terror pode fazer num indivíduo? A mim pode subverter toda a ideia do que ele é e me mostrar o que REALMENTE ele é. E é isso o que ocorre em Carrie – A Estranha (Carrie, 1976. EUA). O filme que foi adaptado do livro de Stephen King tem em sua essência pura o horror, a vingança e o sangue, mas trata-se de um mundo a mais de coisas.

Carrie foi o primeiro livro escrito por Stephen King e quase não foi publicado devido a um surto do autor, que jogou todo o material no lixo, por sorte sua esposa resgatou o trabalho e então o livro foi publicado em 1974. Este também foi o primeiro livro do autor que ganhou uma adaptação cinematográfica.



Em 1975, o diretor Brian de Palma (início da carreira) resolveu adaptar o livro de King para o cinema. Tinha em mente seguir todo o livro de forma fiel, assim o filme seria só o meio visual de se entender o livro. Porém, Brian de Palma fez muito mais que isso, fez simplesmente um clássico do cinema mundial. Transformou uma história repleta de clichês num dos filmes mais vistos e comentados da história. Quem nunca ouviu falar de Carrie? Carrie sempre é relembrado quando o” bullying” entra nas discussões sociais e novelas brasileiras fazem, até hoje, cenas aludindo à obra.

Contar Carrie é como contar a história de milhões de pessoas do mundo, é comum encontrar gente que sofra que nem ela (mesmo sem os agravantes que essa jovem tem).

Carrie é uma jovem do ensino médio que nunca foi aceita por nenhum grupo ou indivíduo da sua escola, acredito que até da cidade. É aquela menina que ninguém passa a bola na educação física, que é tratada como um móvel dentro da sala de aula e sofre tudo isso calada. Não tem estrutura nenhuma pra se impor diante dessas pessoas e dessas situações. Todos os problemas de Carrie são agravados pela mãe (Piper Laurie, que faz uma mãe de arrepiar até o último fio de cabelo), uma fanática religiosa, que foi abandonada pelo marido e nunca aceitou Carrie como sendo fruto de um casamento, mas tem como certo que a filha é fruto do pecado, da entrada do demônio no seu corpo. Pra completar, Carrie tem poderes psíquicos que ela não consegue controlar em momentos de extrema fúria, a mãe tem consciência dos poderes e acredita que a filha é dominada pelos poderes do mal.



Na minha humilde opinião, a mãe é o maior problema na vida de Carrie. A jovem é mantida isolada do mundo, isolada das pessoas e ainda bombardeada por questões que vão além de seu poder de resolução. A mãe nunca contou à filha que uma menina menstruava (essa cena é de cortar o coração), tanto é que quando menstrua, Carrie acredita que está morrendo. As meninas da escola também são cruéis e perversas, são aquelas pessoas que matam outras indiretamente nos dias de hoje. Matam sonhos e planos. Sufocam o que um dia poderia ser uma linda vida a ser vivida.



Sissy Spacek (indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo filme) está em seu primeiro trabalho no cinema, e faz Carrie da forma mais brilhante possível. Amedronta-me no olhar, entristece-me nos mesmos olhos e me ganha, ainda, com esses mesmos olhos. Os Olhos. Ah os olhos!! Os olhos de Sissy Spacek merecem uma poesia.

Preferia mil vezes que o filme fosse de terror mesmo, pelo menos blindaria minha alma e meu coração contra o sofrimento de Carrie. Não é brincadeira o que essa menina sofre e o que tanta gente ainda sofre calada nos dias de hoje. Numa das últimas sequências do filme (talvez a penúltima, a do baile), toda essa blindagem que você tiver usando, caso ainda esteja, cairá por terra. Não tem como não querer pegar Carrie no colo e dar a ela todo o carinho que lhe negaram durante uma vida inteira. Toda a amizade que lhe privaram.



Os poderes paranormais que foram impressos na personagem é, de fato, só uma desculpa para o filme ser de terror. O filme é muito mais que isso. É uma abordagem repleta de lugares-comuns da vida de uma jovem que sofre bullying. Quer coisa mais natural que isso? Quem nunca viu um colega praticar bullying e deu uma gargalhada gostosa da cara daquele cidadão que estava sendo rechaçado na frente de todo mundo?

Mas isso é um blog de Cinema, desculpem-me.

A obra também merece ser lembrada por uma série de questões: a montagem, que é magnífica e trás uma série de cenas muito bem construídas, com ângulos diferenciados, com divisão da tela pra mostrar causa e efeito da cena; a fotografia, assustadoramente linda do instante em que Carrie toma um banho de sangue em diante e; trilha sonora, que lembra um pouco Psicose e dá todo um clima muito legal ao filme.

No geral. Carrie não tem segredos, trata-se de uma obra única que consegue ser de 25 anos atrás e mesmo assim tratar de um assunto tão contemporâneo. O final é um espetáculo a parte, que não merece que eu diga uma palavra sequer, afinal, posso fazer alguma injustiça.



Dedico o post aos amigos que assistiram ao filme comigo: Pedro Inácio, Stephanne, Léo (que dormiu o filme inteiro), End (que riu boa parte do filme), Adriano (dono do filme) e Ian.

(ahh.. não assistam a refilmagem, é uma merda!!)