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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Me Mira, la Muerte (Crítica: Volver / 2006)

“Guardo escondida uma esperança humilde, que é toda a fortuna do meu coração.”



Não sei como as pessoas reagiriam a uma opinião um tanto radical, mas acredito que não existem diretores tão talentosos, em atividade, como Lars Von Trier e Pedro Almodóvar. Dois diretores europeus que enfileiram obra prima atrás de obra prima. Lars com o seu recente Melancolia (2011) provou que, por mais que fale merda, é um gênio inquestionável. Não tem medo de ousar e mesclar ficção com os maiores medos e segredos do ser humano. Já Almodóvar encabeça a lista do melhor filme da década, o esplendoroso Fale com Ela. Também é dele genialidades como Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Carne Trêmula (1997) e Má Educação (2004). Após quatro trabalhos consecutivos, em que presenteia o mundo com exímias obras de criatividade inesgotável, Almodóvar escreveu e dirigiu Volver (Espanha, 2006).

É incrível como bastam dois minutos de projeção para reconhecer um trabalho de Almodóvar, e isso não tem nada a ver com repetições, muito pelo contrário. Almodóvar é conhecido por ser um dos, senão o mais, brilhante diretor em exercício pela sua criatividade, pela plástica visual de seus filmes (talvez esse seja o fator maior de reconhecimento), pelo potencial infindável de eleger tramas e subtramas tão interessantes e encadeadoras de uma complexidade e um charme único.



Volver está longe de ser seu melhor trabalho, mas mesmo assim pode receber a alcunha de indispensável. Para filmar a película, Almodóvar voltou às raízes de uma Espanha estritamente rural, em que apresenta para o público o choque de mentalidades tomadas por superstições com a mentalidade uma Madri explodindo modernidade. O diretor voltou também a focar no universo feminino, na reação da mulher como força motriz de diversas situações inusitáveis, como a morte e o crime. Os homens não merecem nem um terceiro plano, são totalmente excluídos e só aparecem para dar fomento a complexidade do universo feminino, construído com muito bom humor e delicadeza pelo diretor espanhol.

Tente fazer a sinopse de um filme “Almodovariano” e veja como é quase impossível. Isso se deve a quantidade de curvas e portas do roteiro, quando você acha que tudo pode perder o sentido, o diretor tira uma carta na manga e te bota de joelhos em frente a sua película.

Volver envolve drama e comédia, recheada com uma boa dose de humor negro, mas de uma delicadeza insuperável. O filme conta a história de duas irmãs: Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Lola Dueñas). A primeira é uma mãe de família belíssima, que dá duro pra manter a filha Paula e o marido desempregado. A segunda mantém um salão de cabeleireiro ilegal dentro de casa e foi abandonada pelo marido. Em comum, as duas deixaram o vilarejo La Mancha, no inteiror da Espanha, e foram viver em Madri, além disso, perderam os pais num incêndio nesse mesmo vilarejo.



Atente ao fato de que Volver (no português, voltar) toca a todo o momento na questão da morte, em como ela é passado, presente e futuro. A morte também rondará as duas irmãs, Raimunda precisa esconder o corpo do marido Paco, o qual a filha matou após uma tentativa de abuso sexual. Sole convive com o aparecimento repentino do fantasma da mãe Irene (Carmen Maura, que volta a fazer uma brilhante colaboração com o diretor espanhol), após o falecimento de sua tia Paula, no antigo vilarejo, lugar que simbolizará a morte e os fantasmas da vida dessas irmãs. Uma esconderá da outra e se tornarão segredos escondidos no coração de cada uma. Junto a essa trama, surge Agustina (Branca Portillo), uma mulher sozinha, que após o falecimento de Tia Paula, descobre que foi acometida por um câncer e como última ação, deseja encontrar a mãe que sumiu na mesma data do incêndio que vitimou Irene e o marido. Perceba como a morte enfrenta os personagens, botando-os a todo instante de cara com o passado. Por que o passado? A película de Almodóvar é uma agulha que pica a gente durante todo o filme, a morte está parada em todos os cantos, a qualquer momento ela pode olhar diretamente nos seus olhos e te levar embora. Como a Irene fantasma, que “volta” para pedir perdão a filha Raimunda por seus olhos cegos do passado. A morte é como um moinho movido pelo vento de La Mancha.

É incrível a capacidade que Almodóvar tem de levar o filme por um caminho e de repente fazer uma curva brusca e direcionar a obra para outro caminho. O espectador não se perde, se mantém atento a cada salto de seu roteiro genial, a cada sutileza colocada em destaque em dado momento do filme, se delicia com os tons quentes envolvendo as ainda mais quentes mulheres latinas. O vermelho e o verde nos lembram a pimenta, e é tudo o que essa história é, uma dose apimentada de calor humano aos nossos olhos, ouvidos e alma.



Penélope Cruz, que antes de ganhar seu Oscar por Vicky Cristina Barcelona(2008), de Woody Allen, era muito criticada por qualquer papel que fizesse em território ianque. Eu hei de concordar com a maioria, acredito que a barreira da língua seja um obstáculo intrasponível para Penélope, mesmo no aug3e de sua beleza e talento. Nunca você verá a sensualidade e o brilho dos olhos dessa fascinante atriz em filmes que ela não fale sua língua materna, até mesmo no aclamado filme de Allen, onde ela também apela para um inglês carregadíssimo do sotaque madrilenho. Penélope brilha do começo ao fim do filme, desde o instante em que recolhe a arma do crime na cena, digamos que, hitchcockniana do assassinato do marido e a lava com uma câmera vinda do alto, valorizando seu belo busto. Penélope está quente, uma leoa, abandonada pelo parceiro, e protegendo sua cria. Como Allen fez com Diane Keaton em Annie Hall, Almodóvar faz uma linda declaração de amor a Penélope com Volver, com direito a uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, o primeiro de uma atriz espanhola.



Porém, havemos de concordar que Cruz não é nenhuma Meryl Streep, e não teria potencial nenhum para carregar o filme nas costas. É por isso que há volta de Penélope se encontram atrizes tão grandiosas quanto ela. Carmen Maura, que depois de Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos (1988), não tinha feito mais nada com Almodóvar, volta brilhante e seduzindo o espectador com suas cômicas aparições e desaparições. Branca Portillo num papel muito difícil não dá chances ao algoz, mergulha na fragilidade da personagem e entrega uma atuação digna de Oscar. Cannes premiou o elenco de Volver pelo conjunto. Merecidíssimo.



Almodóvar mostra que a narrativa não está em queda no Cinema, o negócio é saber usá-la ao seu favor. O diretor mergulha num universo do qual tem extremo conhecimento, mas não vivência, nem por isso a vida de sua obra se pareça menos luminosa ou um tanto caída, o diretor sabe como compensar isso. Pedro Almodóvar seduz o espectador apenas devotando suas esplendorosas personagens e intérpretes. O resultado é um trabalho genial, dotado de sentidos e marcas tão características do diretor. Pela sua generosidade, Almodóvar deixou que suas atrizes fizessem todo o balé e imprimissem a fortaleza da mulher em sua obra.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Bela da Tarde (Crítica: Bonequinha de Luxo / 1961)

Você não pode amar um selvagem, ele anseia pelo céu e, uma hora ou outra, te deixa.



Faltava um filme dela.

No ano em que Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s. EUA, 1961) comemora cinquenta anos, realmente não podia ficar faltando uma singela homenagem no Cinemática. Clássico dos clássicos, Bonequinha de Luxo figura entre os melhores filmes da década de 1960 e, sem dúvida, pode ser considerado o grande papel da carreira da belíssima Audrey Hepburn. Sim, na verdade, não foi por esse filme que Audrey conseguiu seu Oscar, ele veio bem antes com A Princesa e o Plebeu (1953), quando a atriz ainda engatinhava no mundo do Cinema. Mas, é com essa ode a mulher, que Audrey consegue mostrar tudo que é capaz de fazer: atuar com exímia qualidade, cantar, comover e fazer rir.

Para quem não sabe, inicialmente, o filme seria estrelado pela dama da década de 1960, Marilyn Monroe, que quando substituída por Audrey acabou criando-se uma inimizade pouco comentada entre as duas atrizes. A direção ficou por conta de Blake Edwards, mestre de comédias que beiram o tipo pastelão, mas que, mesmo assim, conseguem se configurar em ótimos filmes. Acredito que, além de Audrey, o grande mérito de Bonequinha de Luxo fica nas mãos de Edwards, que conseguiu transformar uma comédia romântica que tinha tudo pra ser fútil e piegas, numa verdadeira poesia que libera contornos de encantamento e inocência no mundo de uma bela mulher.

A história do filme é do célebre Truman Capote (que também já possui um ótimo filme biográfico). A obra de Capote é considerada um marco na literatura americana, assim como o filme se tornou um símbolo do cinema das terras de lá. Embora, Capote não tenha gostado da adaptação feita de sua obra, devido às grandes mudanças envolvendo o roteiro, o filme agradou em cheio tanto o público quanto a crítica especializada. Marilyn também havia sido cortada justamente por quererem transformar o filme numa coisa mais próxima a água e açúcar. Não quero nem pensar o que seria desse filme sem Audrey.



Audrey Hepburn
vai emprestar toda a sua elegância para Holly Golightly, uma jovem e linda mulher que vive em Nova York e espera num marido rico a grande chance de virar sua vida. Embora a personagem tenha sido bastante suavizada, pois no original ela continha traços de bissexualidade e promiscuidade (a realidade crua de Capote), a personagem do filme ainda se manteve como uma garota de programa, no caso, de luxo. Enquanto Holly impera no seu mundo sonhador, Paul Varjak (George Peppard) se muda para o apartamento do lado e logo os dois iniciam uma amizade. Ele é um escritor meio preguiçoso, sustentado por mulheres que o tem em troca, enquanto, Holly se mantém em sua saga.

O título do filme que traduzido literalmente seria algo como “Café da manhã na Tiffany’s” refere-se a grandiosa marca de jóias Tiffany’s, que é o lugar em que a personagem de Audrey procura esquecer dos problemas. Por mais que isso soe fútil, devemos tentar entender o mundo repleto de sonhos e inocência que rodeava Holly. Quando a amizade entre Holly e Paul (“Fred”) começa a se tornar mais intensa, tornando-se amor mútuo, a jovem se vê de frente com os seus próprios conceitos. Como ela abriria mão de sua liberdade por um amor? Ela iria agora viver dentro de uma gaiola novamente? Estaria, então, fadada a uma vida sem graça, repleta de amor, amor e amor?



A metáfora do nome do gato se constitui numa das mais belas jogadas do texto de Capote. Holly simplesmente chama o gato de “gato”. Segundo ela, o gato é como ela: não sabe quem é, não sabe qual sua função dentro do mundo, resta a ela viver de acordo com seus preceitos, assim como o gato. A história de amor entre Holly e Paul não é tão incomum. Paul é a válvula motorizada que vai impulsionar Holly a acreditar nessas coisas simples da vida. Holly ainda que tentada a vencer na vida, só se entrega a ele nos últimos três minutos de filme. Aliás a cena final é angustiante, desde as falas ao choro compulsivo e (acredite se quiser) contido de Holly.

Com um tema ainda que vanguardista: a mulher que quer casar por dinheiro e se tornar visível à custa do mesmo, a personagem tem suas aspirações. Holly não que ser uma dona de casa e viver em função do marido, em pleno ano de 1961 já é possível ver uma mulher em busca de sua autonomia sentimental, de sua existência em função de seus gostos e suas vontades. A cena em que você vê o tamanho grau de complexidade da personagem é muito doce. Sentada na sua janela com seu violão, Holly canta a belíssima “Moon River”, tomada pelo seu ar sonhador, pela sua beleza estonteante e pelo rapaz que espia a jovem com encantamento. Holly não é prendada aos afazeres domésticos, o apartamento vive virado de pernas para o ar, mas isso não impede a feminilidade da personagem,que é, talvez, a característica mais forte da personagem.



Se eu pudesse definir Hepburn em apenas uma palavra seria beleza. Não só a beleza física, mas a beleza da voz, a beleza da menina sapeca que pula de um sofá pro outro, que senta dentro da pia, a beleza da mulher em seu “pretinho básico”, a beleza de seus passos e a beleza de seu choro. Sem dúvida nenhuma, esse é o papel que transformou Audrey no mito que ela é hoje. É a consagração de uma atriz já consagrada. Audrey foi indicada ao Oscar pelo papel, mas perdeu pra Julie Andrews.



Bonequinha de Luxo não tem nada de muito surpreendente, o final é previsível (mesmo que se configure numa linda cena), alguns personagens são dispensáveis (como o vizinho oriental que aparece em mais cenas do que realmente é necessário). Mas, ainda assim, o filme é quase que impecável, irretocável, e tendo passado cinquenta anos, ele continua sendo obrigatório pra qualquer fã de cinema. Audrey falando em português gera tanto carinho pela atriz, que é impossível colocar em palavras. Aliás, eu só não perdoo Edwards e Capote, por não terem trazido Audrey para o Brasil, literalmente.

A classe e o charme dessa obra está definitivamente marcada na história de quem o assiste.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

As Dores do Mundo (Crítica: Melancolia / 2011)

Todos eles anunciam o mesmo.
Todos eles anunciam o fim.




Não tem como. O fim do mundo está aí e bate na nossa porta. Tanto é que nos últimos anos, os filmes que tratam do tema apocalíptico estão aumentando consideravelmente dentro do circuito mundial de cinema. Mas, poucas vezes, você irá encontrar um filme tão soberbo quanto Melancolia (Melancholia. Dinamarca, França, Suécia e Alemenha, 2011). O mais novo filme do polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier é genial, consegue transpor as dúvidas de uma vida inteira para uma serenidade absurda frente ao fim do tempo humano.

Lars Von Trier, conhecidíssimo pela sua arte abstrata, dividida em capítulos, pela influência do Dogma 95, e pelo seu repúdio ao cinema norte-americano, tratou de fazer um dos melhores filmes da sua carreira. Melancolia quase afundou quando Von Trier, no Festival de Cannes, fez apologia ao nazismo alemão. Por sorte, o filme não foi atingido e até foi premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atriz para Kirsten Dunst. O diretor, por sua vez, foi declarado como “persona non grata” pelos membros do festival francês.

Para quem já conhece a obra do diretor dinamarquês, sabe o quão complexa é a maneira de fazer cinema desse diretor. Fã de música clássica, Von Trier cria uma atmosfera muito particular dentro de seus filmes. Nesse Melancolia, até abriu espaço para um discreto humor negro. Mesmo tendo uma forma muito autêntica de fazer cinema, nenhum de seus filmes se assemelham. Dogville (2003) está muito aquém de Dançando no Escuro (2000), quanto Anticristo (2008), considerado pela crítica especializada como o melhor filme do diretor, está para Melancolia.



Porém, em todas as suas obras, Von Trier vai abrir espaço para a condição humana: a dureza da depressão em seu último e mais arrebatador grau, a ação da culpa, a auto-mutilação, o desespero solitário.

Melancolia começa com um prólogo em slow motion (coisa que Von Trier também fez em Anticristo) de poderosíssimas cenas metafóricas e subjetivas, desde uma noiva sendo agarrada por raízes de árvore, até uma mãe correndo num campo enlameado com o filho no colo. A belíssima fotografia nos leva até o choque final: a destruição da Terra. Tudo isso junto à sinfonia de Tristão e Isolda, que garante poder maior no impacto das imagens. A partir daí, Von Trier abre as cortinas para contar a história de melancolia e desespero de suas personagens.



O primeiro capítulo, recebe o nome de uma das protagonistas da história: Justine. Kirsten Dunst (no melhor papel da sua carreira) é quem dá vida a Justine. Von Trier escolheu a festa de casamento da mesma pra fazer a vida desta desmoronar de vez. Justine aparentemente está feliz com o casamento, com o noivo (Alexander Skarsgaard) e com a reunião dos amigos e familiares. A grande questão é que Justine não se sente no meio de nada disso. Abatida por uma intensa melancolia (que também dará nome ao planeta que se aproxima da Terra), conhecida por ser um estado de espírito de luto sem o contexto da perda, Justine se arrasta entre os convidados, ensaia sorrisos, foge da festa, dorme na hora de cortar o bolo, é extirpada pelo chefe (Stellan Skargaard), desacreditada pela mãe pessimista (Charlotte Rampling, sempre impecável) e prensada pela irmã controladora Claire (Charlotte Gainsboug, virei fã). O estado de espírito de Justine é justificado no prólogo, a jovem se sente presa nas raízes das árvores. A festa é catastrófica, Justine não suporta o fardo e o casamento acaba antes mesmo do fim da comemoração. Justine não se encontra, ninguém a aceita e ela mesma ainda não se entende.



A segunda parte do filme (e aqui vem todo o seu poder) se concentra na outra irmã, Claire. Claire se encontra em estado de pré-desespero com a chegada do planeta Melancholia a Terra. Segundo os grandes cientistas, o planeta só irá passar pela Terra, proporcionando uma experiência incrível. Porém, Claire ainda se mantém temerosa com uma possível colisão. Passado um tempo da catastrófica festa de casamento, Justine junta-se a Claire, ao marido da irmã (Kiefer Sutherland, consistente), metido a entendedor da órbita dos planetas e ao pequeno sobrinho. Justine chega totalmente debilitada e devastada pela melancolia que assolou seu casamento. Kirsten Dunst dá um show à parte nas cenas que se seguem no segundo capítulo, você sente a personagem se arrastar e compreendido por toda a melancolia que a assola. Quando as duas se juntam, Von Trier inicia sua obra-prima. Tentar explicar as adversidades da natureza e as ambigüidades da alma humana com qualidade não é pra qualquer um. Enquanto Claire se mantém temerosa, mas ainda confiante na hipótese defendida pelo marido, Justine passa a aceitar e ver que a colisão é inevitável. Em dado instante da obra, a irmã depressiva, num diálogo arrebatador com a irmã, diz “estamos sozinhos”, “ a terra é má e merece seu destino” e “eu sei de coisas”. Justine vê o fim e se mostra despreocupada, enquanto Claire não quer acreditar.



E aí se encontram a diferença das visões: uma é egoísta o suficiente pra não aceitar o fim, a outra é arrasada o suficiente pra entender que as coisas acabam e aceitar a finitez do próprio cosmo. É nisso que Von Trier vai focar: em como cada um pode lidar com a iminência de uma catástrofe como essa. O ser humano passa a ser uma palha e convive com situações as quais ele não possui o mínimo de controle.

Claire não aceita o fim da vida, o fim do amor, não aceita o fato do filho não ter um lugar para crescer. Justine vê o fim da dor, a tão sonhada liberdade.




Com as reações diferentes das duas irmãs, o roteiro toma seu rumo até o ponto final: a destruição de tudo e a percepção de que tudo realmente acabaria. Ver o inevitável e passar a agir em um curto período de tempo. Agarrar-se a quem sempre esteve do seu lado, construir um refúgio e esperar o fim chegar. Von Trier cria um épico em homenagem a finitez das coisas e, quem sabe, a partir dessa obra, passaremos a aceitar de maneira mais madura o fim das relações, dos ciclos e das coisas.

Ainda assim, a esperança está ali, representada com força por Charlotte Gainsbourg, que se entrega à revolta apenas na última cena, ao desespero pleno, cru, parece cortante. Mas, até o último momento, a esperança estará lá, agora principalmente no semblante de Kirsten Dunst: palpável e reconfortante.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Amor em Alguns Atos (Crítica: Namorados Para Sempre / 2010)

Você sempre machuca quem você ama
Quem você não deveria nunca machucar
Você sempre colhe a mais bela das rosas
E a esmaga até que as pétalas caiam.



O Cinema se tornou uma indústria saturada de roteiros e filmes que insistem em desvendar e desconstruir os relacionamentos amorosos. A maioria deles sempre pecam nos mesmos quesitos: às vezes, meloso e dramático demais, às vezes, fantasioso ao extremo. Claro que não é simples transmitir realidade nessas histórias, ainda mais, quando teremos o início e o fim do relacionamento. A paixão e, finalmente, a dor.

O imediatismo da dor e do amor. É isso que falta nos filmes que tentam trilhar esse caminho. Falta usar mais o olhar, usar mais os gestos e o silêncio. Pois, a verdade dos relacionamentos (quase) sempre está no olhar, no gesto. O silêncio é o caminho mais tortuoso que um roteirista pode seguir, mas, também, é onde ele pode fazer uma obra exímia se souber onde e quando colocá-lo.

Precisa-se de um roteiro que, mesmo que muito difícil, seja inovador. Precisa-se de atores que deem conta do recado, e esse não é um simples recado. Precisa-se do auxílio da fotografia, da trilha sonora. Tudo para que o espectador sinta, que tudo aquilo que foi projetado, pode acontecer ou está acontecendo com ele. Afinal, o amor e suas mazelas são muito democráticos.


Em cima disso tudo, venho dizer que encontrei uma obra que usa desse imediatismo para contar a construção e a ruína de um amor. Namorados para Sempre (Blue Valentine. EUA, 2010), não se atenha ao péssimo título nacional, conta a história de duas pessoas que tinham sonhos, “compartilharam” os sonhos, não realizaram nenhum deles, e viram tudo o que eles pensaram ter construído, ruir. As ruínas de um amor deixam cicatrizes profundas.

Cindy (Michelle Williams, a quase viúva de Heath Ledger) e Dean (Ryan Gosling) são casados e tem uma filha de cinco anos, exatamente o tempo que eles estão juntos. O longa começa mostrando o casal já depois do nascimento da filha, ela uma enfermeira, ele um faz-tudo que prefere trabalhar pouco para poder dar atenção a filha. Nesse estágio da vida do casal, vemos um relacionamento já desgastado. O filme não vai explicar passo a passo como se dá o desgaste da relação desse casal, mas, com flashbacks, a obra adota uma narrativa não linear para mostrar ao espectador o início dessa relação e a paixão que um dia tinha existido ali.

Antes de conhecer Dean, Cindy estudava para fazer medicina, ela tinha um sonho e batalhava por ele. Dean já era uma espécie de faz-tudo, sem grandes ambições. Quando se conhecem, logo de cara se vê uma química muito grande entre aquela garota e aquele jovem. Nasce uma paixão, que para um vai se tornar amor e para o outro, talvez, não passe de uma paixão. Essa é conhecida por se apagar numa certa hora. Até que surge uma gravidez indesejada e leva esses dois atores sociais a construir uma vida juntos.


Dean é mais descontraído, menos preocupado, Cindy é mais dura, mais focada, é responsável pela pouca estabilidade financeira da família. A relação inicial dos dois é de compartilhamento e felicidade mútua, é triste ver a situação que os dois chegam passado essa meia década. O diretor e roteirista Derek Cianfrance soube utilizar muito bem até mesmo o contraste das cores. No início, o filme é colorido, quente, depois, com o passar dos anos, a tela recebe um azul muito frio. A trilha sonora também aumenta essa sensação de estarmos assistindo a própria construção da realidade.

É jogado nos 112 minutos de projeção todos os motivos pelo qual a relação caminhou para esse desfecho. Apesar, de Cindy estar completamente usurpada pelo companheiro, e de criar, por ele, um sentimento parecido com ódio, Dean ainda vê chances de salvar esse amor. Porém, parece que ele foi o único que deixou que a relação evoluísse para o amor, Cindy parou na paixão e, como já era previsto, esta se apagou. Cindy abriu mão de muito mais coisas que Dean para viver esse romance, é nítido o quanto ela se sente violada.

É no olhar de Cindy que vemos o quanto ela está incomodada com o marido, o quanto ela já não o suporta vê-lo, ela não engole nem a afinidade crescente entre pai e filha. A mulher agora está saturada e aquela menina que um dia transgrediu regras, dançou na rua ao som do ukulele de Dean e um dia pensou que poderia viver com ele para o resto da vida, não existe mais. Dean ainda mantém sua canastrice, suas brincadeiras para tentar descontrair a esposa, tudo em prol de uma vida feliz, só ele ainda vê futuro com Cindy, só ele vai tentar fazer por onde não perdê-la. Não se engane em achar que Cindy é a vilã da história, o filme te dará inúmeros motivos para que você pense o contrário.


A química entre os dois atores é fascinante. Cada segundo de filme é deles. É impressionante a colaboração feita entre diretor e atores. Michelle Williams, indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, está um espanto. A atriz exala feminilidade e toda a angústia de uma mulher tomada pela desesperança. Ryan Gosling, não fica atrás, auxiliado pelo seu carisma, o ator mostra também que é um dos grandes profissionais do cenário indie. Os dois atores imergiram a fundo nos personagens, conviveram um mês antes do início das gravações e, por isso, tudo se torna tão real. O espectador é afetado por todo esse incômodo que gira em torno das personagens e isso só é possível pelo trabalho incrível feito pelos dois atores. Vale ressaltar que não existe concessões ao espectador, as cenas são impactantes e dolorosas, tanto para eles quanto para nós.

O tumultuoso final é inevitável. Não se dá chance de reconstrução. Por mais que um tente ou por mais que os dois mergulhem de cabeça na salvação desse casamento, os dois já estão num nível muito avançado de mudança de sentimento. Talvez ele também não a ame mais, talvez ele só pense no bem estar da filha. A medida que vamos conhecendo Cindy e Dean, mais nos convencemos de que o casal não passará imune e, muito menos, vencerá essa crise.


O estilo de filmagem escolhido por Cianfrance parece-me o mais correto. Ora, ele aproxima-se do personagem, para mostrar através dos olhos todo o sentimento que o aflige, ora, ele desfoca a câmera de qualquer ponto naturalmente visível para evidenciar a perda da razão e do bom senso dos personagens. Na fase inicial do amor dos dois, o diretor optou por uma câmera ágil, que desfilasse e brincasse entre os protagonistas. As cores e as câmeras são totalmente dependentes do roteiro. Isso é genial. O diretor captura com perfeição cada instante dessa montanha russa numa descida sem fim.

O filme é um trabalho emocionalmente devastador, de personagens emocionalmente devastados e assustadoramente reais.

Os seres humanos tratados aqui são como todos os outros: erram, magoam, arrependem-se. O espectador se vê preso na história árdua desse casal que simplesmente viveu o que cada um lhe proporcionou. Amor não basta. Se não houver cuidado ele desaparece, ou nem surge. O erro não é difícil de encontrar nem de assumir, mas é inaceitável. Não se tem espaço para errar, não se tem espaço para voltar, não se tem condição de reconstruir. A dor passa a comandar. O que está feito, está feito.



Essa foi a "crítica" mais difícil que eu já fiz na vida.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Simplesmente Amor (Crítica: A Troca / 2008)

O tamanho da coragem é fruto do amor que você traz no peito, nos olhos e nas mãos.



Quando tentamos entender o valor ou o tamanho de um sentimento quase sempre damos com os burros n’água. Definitivamente não é fácil. Mas, mesmo assim, é comum escutarmos que não existe amor igual ao de uma mãe para um filho. Disso, eu realmente não duvido. Mães que movem montanhas por filhos, mães que percorrem desertos por filhos, mulheres que amargam vidas por uma eterna criança. Não sou e nunca serei capaz de definir isso por mais experiência de vida que eu tenha, muito menos aqui, através de palavras.

O Cinema é cheio dessas histórias de mães que se sacrificam para ver o bem estar de seus filhos. Alguns filmes são muito bem sucedidos, como o sensível O óleo de Lorenzo (1992) e o mais recente Reencontrando a Felicidade (2010). Porém, um drama real sempre nos dá mais base ao que estamos tentando entender e digerir. Esse é o caso de A Troca (Changeling, EUA. 2008), obra do renomado diretor Clint Eastwood que vem contar o desespero de uma mãe atrás de seu filho desaparecido.

Concordo assiduamente que está não é e nem figura entre as melhores obras do conceituado diretor. Vejo em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004) muito mais ousadia, paixão e qualidade, mas, ainda assim, A Troca tem seus méritos e pode, sim, ser considerado um grande filme. Baseado no incrível roteiro de J. Michael Straczynski, Eastwood optou por contar a história dessa mãe que enfrentou os homens e instituições mais poderosas de Los Angeles para reaver seu filho.



Em meados dos anos de 1920, Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, deixa o filho de 9 anos sozinho em casa para cobrir o turno de uma amiga na empresa de telefonia em que ambas trabalham. Mais tarde, ao chegar em casa, Christine nota o desaparecimento do filho. Tomada pelo desespero e pela angústia, a jovem mãe recorre à polícia de Los Angeles. Logo de cara, a polícia trata o caso com pouca importância, dizem à mãe que ela tem que esperar certo tempo para declarar o filho como desaparecido. Durante esse tempo, Christine procura pelo filho sozinha. Historicamente, nos anos vinte, a polícia de Los Angeles foi conhecida por ser uma das instituições mais corruptas dos Estados Unidos. É claro que essa história não vai terminar bem.

Cinco meses depois do ocorrido e com o desespero de Christine que só crescia, a polícia encontra uma criança a qual eles dizem ser o filho desaparecido da mulher. Na hora em que Christine coloca os olhos na criança ela descobre que aquele menino não é seu filho. Manipulada pela polícia, Christine é obrigada a levar a criança para casa. O chefe da polícia pede para que Christine faça uma experiência, ele não podia ver os pilares que ainda sustentavam toda a polícia da cidade serem carcomidos pela “pretensão” da impetuosa mãe, tanto, que toda a imprensa foi chamada para que fosse registrado o bom trabalho da polícia e o encontro “emocionante” da mãe e do filho. Christine leva o garoto para casa e com a ajuda do reverendo Briegleb (John Malkovich, excelente) da professora de seu filho, Christine vai até a imprensa delatar a ilegitimidade e corrupção da polícia de Los Angeles. A mãe não suporta ver a polícia parada, enquanto seu filho ainda está desaparecido.



Como forma de se defender, a polícia acusa Christine de insanidade mental. A mãe agora está presa num sanatório e não pode fazer nada para encontrar seu filho.

É curioso que no sanatório a única pessoa que ajuda Christine é uma prostituta, e ela que está do lado certo. Na conservadora sociedade americana do começo do século vinte quem vai ajudar a mãe na sua jornada são os atores sociais menos prováveis. Tudo parece se voltar contra Christine, tudo impede que a mãe finalmente encontre seu filho. Tudo por ignorância de uma sociedade que viu no desespero apenas um exemplo de loucura e não de amor que não cabe em apenas um ser humano. Tudo por elevação de uma instituição que ruiria com o menor vento que soprasse em sua direção.

A figura da mãe solteira em meio aqueles tantos homens de ternos, chapéus e fumando charutos causa muita comoção. Amparada na presença e expressão marcante de Angelina Jolie, Christine surge como uma andorinha em meio a centenas de gatos que só querem come-la, tirar a mulher do caminho e, assim, preservar o que é mais importante: o poder inquestionável.



Angelina Jolie, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela personagem, consegue transmitir todos os sentimentos dessa mãe: desespero, aflição, coragem, que ainda são somados a feminilidade e sensibilidade da mulher da época. Perdeu o prêmio para Kate Winslet, concordaremos num certo ponto: era uma tarefa difícil vencer a nazista analfabeta da atriz inglesa. Seu rosto é puro canal de dramaticidade e é ela, só a mãe, que consegue transmitir esperança para o espectador. Personagem e atriz dão um show de altíssimo nível.

A fotografia somada a belíssima reconstituição da época também são um deleite para os nossos olhos. A iluminação que hora foca em rostos dispersos, hora em metade de rostos e que por tantas vezes esconde os olhos de Jolie na penumbra de seu chapéu é usada com maestria por todos os profissionais, rendendo a todos nós uma aula espetacular de composição, luz, ambiente e direção de arte.

Christine é figura do que foi uma mulher em busca de justiça e movida por um amor que transcende qualquer outro tipo de relação. Uma cidadã que fez jus ao que é ter direitos e deveres a se cumprir. Buscou forças dentro do seu coração para fazer parar de funcionar a instituição mais forte da época, permitindo que mais nenhuma mãe passasse por tudo o que ela passou. O egoísmo do qual foi vítima foi pago por ela mesma com uma dose imensa de solidariedade e bondade. Às mães de todo o mundo minha profunda e incansável reverência.



Feliz Aniversário Mãe

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Fundo do Poço (Crítica: Reencontrando a Felicidade / 2010)

Um dia isso passa?

Não. Mas, em algum momento, torna-se suportável.



É difícil dimensionar perdas. Difícil para quem já perdeu, impossível para que nunca vivenciou. Seguindo a ordem natural das coisas, somos nós filhos que enterramos nossos pais. Tarefa que deve ser dura e perversa, mas que segue uma lógica existencial. Porém, não são apenas em volta desses casos que a Terra roda, há de se lembrar que não é sempre que essa ordem natural é seguida. Quem nunca ouviu falar que não existe dor maior do que a dor de perder um filho? Sinto e entendo que não posso mensurar nem 1% dessa dor.

Diferentemente do que apresentou em seus outros trabalhos, John Cameron Mitchell (Shortbus) vem nos propor uma reflexão de como conciliar dor e vida em seu mais novo projeto: Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, 2010. EUA), obra baseada numa peça da Broadway, vencedora de diversos prêmios (inclusive o Pulitzer). Mitchel apresenta uma visão totalmente alheia dos clichês que nós sabemos que rondam uma família arrebatada pela perda de um filho. Ao invés de mostrar a morte, causar impactos, dramatizar, Mitchel inicia sua história oito meses após o incidente, na tentativa de sobrevivência das vítimas ilesas. A intenção é mostrar ou pelo menos tentar encontrar meios em que os pais possam continuar a viver.



A história se passa no antro de uma família de classe média americana. O objetivo inicial do filme é revelar como Becca (Nicole Kidman, ressurgindo) e Howie (Aaron Ekhart) estão reagindo a prematura morte do filho Danny, de 4 anos. Danny (que em nenhum momento aparece de frente para a tela) morreu na porta de casa, atropelado por um automóvel. Becca e Howie reagem de formas diferentes e desconexas. A mãe parece ser mais fria, mais controlada, mas no decorrer do filme vemos que é só uma casca. Becca entende que a melhor forma de esquecer a dor é negar a existência do filho para si mesma, negar os acontecimentos. Assim, Becca esconde numa caixa tudo o que faz com que ela lembre o filho. O sofrimento de Becca é visível, é cru, está solto pra quem quiser ver. Diferente de Howie. O pai aparentemente e sob suas ações parece sofrer mais. Howie vê vídeos do menino, fala de Danny o tempo todo (“Eu acho que ele vai sair debaixo da cama e aparecer do nada como ele sempre fazia”) e, ainda, acredita sofrer mais que Becca.

São diferentes situações. O pai que nada vê e tudo sente e a mãe que emblematicamente procura um ponto de redenção, uma válvula de escape. Válvula de escape essa que será usada por Howie diversas vezes, na procura por outras mulheres ou nas drogas. Incrivelmente, Becca encontrará um caminho para a libertação de sua angústia no garoto que atropelou seu filho. Na construção de uma relação única e desafiadora, Becca propõe-se uma nova chance.



Durante toda a narrativa, que é lenta e pesada (com a temática do filme não podia ser diferente) aparecem alguns personagens na vida do casal, como a mãe de Becca, interpretada pela ótima Dianne Wiest (a mesma vendedora de Avon em Edward – Mãos deTesoura e vencedora de dois Oscars), que compara a morte de Danny com a de seu filho (morto em função do uso de drogas). Um dos diálogos mais alucinantes do filme se dá entre Becca e a mãe. Numa lavanderia Becca, esgotada, pergunta a mãe se a dor vai passar. A personagem de Wiest consegue dar uma das definições mais simples e emocionantes quanto à passagem da dor: “Depois de um tempo a dor sai do peito e é como um tijolo que a gente coloca no bolso. A gente esquece. Até que se lembra do peso. Colocamos a mão no bolso e pensamos ‘Ahh, é isso’”. Também temos a deliciosa ponta de Sandra Oh (Grey’s Anatomy) como uma mãe que perdeu o filho, usuária de maconha e possível affair de Howie.

O filme, claro, fica sob as costas de Nicole Kidman. Aaron Eckhart está ótimo como o pai persistente na dor, mas, de certa forma, ele serve como um trampolim a Kidman. A atriz que não apresentava uma atuação digna de quem já ganhou um Oscar por interpretar Virginia Woolf desde o longínquo Dogville (2003), volta com toda a sua graça e força física. Nicole dá vida ao texto, faz do silêncio uma experiência ensurdecedora, faz dos nossos olhos um oceano. É algo parecido com gratificação o que eu sinto por Nicole. Torci tanto por sua volta por cima que me sinto como um dos responsáveis pela merecidíssima conquista de sua terceira indicação ao Oscar por esse trabalho. Apesar de que sua incrível força física vem sendo abalada pelo excesso de Botox no rosto. Mas, enfim, é o retorno de Safine, de Vírginia, de Grace, de Nicole, tudo em Becca.



No intuito de criar uma metáfora de simplicidade e de recomeço, o diretor optou por uma fotografia bastante primária, mas, ainda assim, sublime. A fotografia foca nas relações líquidas do nosso cotidiano, a relação do verde (planta) com a terra molhada, do açúcar com água virando caramelo. É como se fosse a visão de um bebê, que vai aprendendo e assimilando essas relações. A metáfora é a tentativa de renascimento de Becca, é o olhar apurado para essas coisas simples.



Mitchell , como já disse, ganha pontos por não cair na vala do senso comum. O diretor sabiamente deu um rumo inusitado ao seu trabalho. Não escolheu saturar uma relação entre pais e filho e, assim, tirar abruptamente o filho de cena. Fez melhor. Na construção de uma “teoria” de como sobreviver à ausência do filho, o diretor constrói uma obra emocionante e única, porque esse é um dos poucos filmes em que o mestre não apela para o melodrama.

Saber dosar sofrimento, realidade. Saber até onde ir, onde parar. Saber crescer com os infortúnios, saber dançar na cara da morte. Não existe poço que não tenha fundo nem queda que nunca acabe. Não existe escuridão sem luz nem luz sem trevas. O que existe é apenas uma vontade incessante de proteger, dominar, restaurar, voltar. O medo de seguir adiante é o medo que existe em mim, que existe em você.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Brasil, esquentai vossos pandeiros. (Crítica: Central do Brasil / 1998)


Josué,


faz muito tempo que não mando uma carta pra alguém, agora estou mandando esta carta pra você. Você tem razão, seu pai ainda vai aparecer aí e com certeza ele é tudo aquilo que você diz que ele é. Eu lembro do meu pai me levando na locomotiva que ele dirigia. Ele deixou eu, uma menininha, dar o apito do trem a viajem inteira. Quando você estiver cruzando as estradas, no seu caminhão enorme, eu espero que você lembre que fui eu a primeira pessoa a te fazer pôr a mão num volante.Também vai ser melhor pra você ficar aí com seus irmãos, você merece muito, muito mais do que eu tenho pra te dar. No dia que você quiser lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo isso porque tenho medo, que um dia, você também me esqueça.

Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade de tudo.


Dora.



E realmente o Tio Sam dessa vez só olhou a nossa batucada. O primeiro filme nacional que vou falar no blog talvez seja um dos mais festejados filmes já feitos em território brasileiro. Central do Brasil (1998. Brasil) não marcou só a consagração de Fernanda Montenegro ao se tornar a primeira atriz latino-americana a ser indicada para o Oscar nem o ressurgimento do Cinema Brasileiro, apesar de que, isso é de extrema relevância. Porém, acredito que a principal conquista foi o reconhecimento da arte cinematográfica brasileira, a possibilidade de fazer uma obra de qualidade inquestionável num país em que a arte de se fazer cinema não é nem um pouco tradicional, de fato, não está em nosso cerne cultural como está no dia a dia dos americanos e ingleses.

Como disse anteriormente, Central do Brasil também marca o ressurgimento do Cinema Nacional, depois de um período pobre no quesito cinematográfico, agravado pelos anos Collor, o Brasil se viu novamente (afinal, já tinha seu cinema reconhecido nos anos 60 e 70) como uma das grandes potências culturais do mundo. Essa obra de Walter Salles abriu as portas para grandes filmes brasileiros, que a partir desse momento passaram a ser financiados e patrocinados mais facilmente. Tenho em mente, que todas essas conquistas para o cinema nacional, se devem, claro, ao reconhecimento de Central do Brasil nos grandes festivais de cinema da Europa e dos EUA. Primeiro ao vencer os prêmios de melhor filme e melhor atriz no Festival de Berlim, segundo com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e, por último, com as indicações conquistadas ao Oscar. Walter Salles e Fernando Meirelles são, sem dúvida, os grandes mentores dessa nova era do Cinema Brasileiro.



Central do Brasil foi escrito e dirigido pelo carioca Walter Salles (na construção do roteiro teve ajuda de mais dois grandes colaboradores da arte audiovisual nacional: João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein). Nessa singular obra, Walter tentou imprimir uma verdadeira odisseia no que se trata do destino das personagens. É uma história belíssima que merece ser vista por todos nós e, ainda, dá um grande sentimento de orgulho de ser brasileiro.

Dora (Fernanda Montenegro, não existem palavras para descrever seu trabalho) é uma professora aposentada que trabalha por conta própria na maior estação de trens do Brasil: a Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Lá ela escreve pequenas cartas (as quais expressavam o máximo de sentimentos originários da distância) para analfabetos e como praxe do trabalho prometia enviá-las aos devidos destinatários. Porém, Dora é uma pessoa sem ética, sem valores, que pensa apenas no seu próprio sustento e bem estar. Todas as cartas são jogadas no lixo ou engavetadas por algum motivo que não sabemos o qual. Num dia, uma mulher e um menino chegam até Dora a fim de usar do serviço de escritora da mesma, a carta seria ao suposto pai do menino. Dora faz o serviço e logo abstrai qualquer envolvimento com aquela história, portanto, o menino e a mãe vão embora. Agora começa a sublime história que Walter Salles quer contar. No mesmo dia, Dora, que está indo embora para casa, encontra aquele mesmo menino abandonado na estação. A criança conta que a mãe foi atropelada e o deixaram ali abandonado. Dora pensa, repensa, e num lapso de uma pessoa que talvez não fosse ela, acaba por levar o menino para sua casa. Dora assume a responsabilidade de levar o menino até o pai no sertão pernambucano.



O menino é Josué, interpretado pelo, na época, novato Vinicius de Oliveira. Salles encontrou Vinicius pela primeira vez num aeroporto do Rio de Janeiro trabalhando como engraxate, após uma breve conversa com o garoto, Salles o chamou para fazer o filme. O papel dessa criança no “Road-movie” de Salles é o centro da história, não se engane achando que é uma simples historinha de procura por parentes distantes. Não é. Chamar de história parece até muito infantil. É, na verdade, uma celebração do nascimento de dois sentimentos e duas vidas até então desconhecidas, para um talvez cedo demais, para o outro talvez tarde demais. Aqui está a prova que nunca e tarde demais.

Dora consiste em ser uma mulher amargurada, triste, dura, mas que vai crescendo cada dia em todos os momentos que compartilha com o garoto. É uma jornada de auto-descoberta para Dora, na qual viajamos juntos e nos emocionamos a cada passo desse roteiro magnífico. Ao longo da construção dessa amizade entre os dois, o diretor vai mostrando as carências materiais do Brasil, parece o caminho inverso de um retirante nordestino (talvez seja), mas uma carência repleta de sentimentalismo e alegria. A miséria, a pobreza e a falta de letramento não vêm para justificar cenas lindas, fotografia exímia, mas, no fundo, trata-se muito mais de uma crítica leve, pois nada substituí o amor ao próximo. É um garoto de 10 anos quem vai ensinar os valores àquela mulher de mais de 60.



Central do Brasil é uma linda fábula que não precisa de nenhum comprovante para saber que é real. Nós, brasileiros, sabemos o quanto sofre um órfão, um analfabeto, um coração de pedra, um nordestino, um coração em busca de calor.

Dora e Josué representam os brasileiros(sem ser piegas), representam a luta, a persistência e os sonhos dessa gente que cai, levanta, cai, cai mais um pouco, e talvez nunca levante. O filme tira lágrimas incessantes dos nossos olhos, a cena final em que Dora dentro de um ônibus, voltando para o Rio de Janeiro sem se despedir de Josué, e de fundo fica a voz da personagem recitando as palavras da carta encontrada no começo desse texto é quase que um massacre imposto ao nosso coração. A montagem feita é inacreditavelmente linda.

É injusto não falar pelo menos duas linhas do trabalho da atriz Fernanda Montenegro. Dama do teatro brasileiro, Fernanda faz aqui o seu melhor desempenho. No começo do longa é uma pessoa repudiante e que vai conquistando nosso carisma e, por fim, nossa pena. Dificilmente Walter Salles teria os resultados obtidos com seu filme se Fernanda Montenegro não estivesse envolvida nesse projeto. Como já disse acima, Fernanda foi reconhecida com diversos prêmios e indicações dos maiores festivais cinematográficos do mundo, perder o Oscar para Gwyneth Paltrow foi uma tremenda injustiça, e não é por eu ser brasileiro (juro que não), até porque sou apaixonado por “Shakespeare In Love”, mas se deve ao fato de Fernanda ter se entregado muito mais num papel que exigiu muito mais. Simples e coerente assim.



Se você, brasileiro, australiano, nigeriano, finlandês ou o que seja nunca viu Central do Brasil, acredito convictamente que você esteja perdendo a beleza que é o nascimento de uma relação de cumplicidade e afeto, à sua própria edificação como ser humano e, claro, um grande trabalho, de um grande diretor, de uma grande atriz. De um grande país. Brasil, esquentai vossos pandeiros que nós queremos sambar.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Acorde-me quando tudo estiver acabado (Crítica: A Família Savage / 2007)



Todo ano surgem um ou dois filmes indies, independentes. Filmes sem nenhum patrocínio, bancados por tímidas produções, fugindo totalmente dos padrões hollywoodianos. Filmes que usam poucos truques de câmera e raríssimos efeitos especiais. Talvez por isso eu goste tanto desse tipo de obra audiovisual, acredito que sejam os mais sensíveis e reais filmes feitos. Na última década, tivemos uma série de filmes que foram assim definidos: INDEPENDENTE. Uma porrada de ótimos filmes, entre eles: o belíssimo Longe Dela (2007), o jovial Juno (2007), o encantador Pequena Miss Sunshine (2007), os maravilhosos Antes que o Diabo saiba que você está Morto (2008) e Encontros e Desencontros (2003), que merece uma crítica especial, o divino Réquiem para um Sonho (2000) e os emocionantes Transamérica (2005) e A Lula e a Baleia (2006).

Se tivesse que haver um marco para esse tipo de filme, sem dúvida, seria o ano de 2007, não que os filmes independentes ainda não tivessem se destacado no cenário mundial, mas para termos uma ideia, a Academia de Cinema indicou cerca de cinco trabalhos principais de atuação dos dez totais para o maior prêmio do cinema mundial no ano de 2007 – é muita coisa, e, com certeza, de extrema relevância para esse setor da indústria cinematográfica.



Um dos filmes reconhecidos no ano de 2007 foi A Família Savage (The Savages, 2007. EUA), que recebeu indicação de Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Laura Linney. Talvez você não conheça o filme porque na mesma época outro filme indie vinha eclipsando o cenário do cinema: Juno. Este com certeza você já deve ter ouvido falar. Por mais que o espaço para filmes independentes esteja aumentando, é muito difícil ver mais de um desse tipo de filme agradar tanto ao público ao ponto de estourar nas mídias, como ocorreu com Juno. E é uma briga injusta, já que Juno prefere um tema mais jovial, e é muito mais comédia e talvez um pouco menos clichê (por falta de uma palavra melhor) que The Savages.

Antes de dizer qualquer coisa sobre The Savage, quero explicitar aqui que o título da crítica é só uma viagem minha e quem assistir ao filme vai entender (vai que tenha alguém pensando que o filme é tão ruim e que é pra dormir e só acordar quando acabar. NÃO).

Tamara Jenkins, a diretora do filme, também é responsável pelo roteiro da obra. Particularmente, é um roteiro que me agrada muito, todo amarradinho, sem nenhum tipo de lacuna que possa deixar alguma interrogação no íntimo do espectador. O roteiro de Jenkins foi muito criticado, segundo uma galera o roteiro de The Savages é recheado de muitos lugares comuns, eu também acredito nisso, mas acho que para a história que a diretora queria contar os clichês eram imprescindíveis.



A história de The Savage, pra variar, é simples, não é complexa, não exige nada mais do que nosso coração pra entender tudo que se passa diante de nossos olhos. Wendy Savage (Laura Linney, que atriz!! *-*) é uma quarentona que mora em Nova York, trabalha num emprego que ela não gosta, tem um caso com um homem casado e é irmã Jon (Philip Seymour Hoffman), que também mora na Costa Leste norte americana, é um professor universitário especialista no dramaturgo Bretch e que terminou o namoro com uma polonesa devido ao visto de sua namorada ter expirado. De modo geral, os dois são pessoas acomodadas. Ela trabalha num emprego que não gosta, mas faz muito pouco pra mudar isso, sai com um homem casado e sente falta de algo sólido, em que ela não seja sempre segundo plano, e aqui ela faz menos ainda pra mudar essa realidade. Ele é um aficionado pelo seu mundo, isso mesmo, um mundo particular, egocêntrico, sente-se invadido o filme todo. No término do namoro dá pra desconfiar que ele sente-se aliviado.

Até aí tudo bem, Wendy e Jon mal se veem, pouco se falam e, assim, cada um vive sua solitária vida. Acomodados, nada mais do que isso. Até que Wendy recebe uma ligação do Arizona informando que a namorada de seu pai (o genial Philip Bosco) morreu e o pai está com princípio de demência. Finalmente, Wendy e Jon vão se juntar, mesmo que assolados por uma infância em que foram deixados de lado pelo pai (Jon é muito mais ressentido quanto a isso do que Wendy), para decidir o que fazer com o pai. E logo de cara, o pai é colocado num asilo e é lá que ele vai ficar até o fim do filme.

The Savages vai falar sobre esse egoísmo que impera entre nós humanos, dá nossa falta de capacidade de abdicar de nossos interesses, nem que seja por uma semana, pra pensar um pouco em quem está do nosso lado. É tudo muito sutil. Wendy é quem vai lutar contra sua cabeça, contra a culpa que ela sente em deixar o pai “jogado” num asilo, mas como eu disse Wendy não passa de uma mulher cômoda, não existe ação pra mudar a história. Wendy visita o pai todos os dias, leva flores, tapete, cortina. Tudo pra deixar o ambiente em que o pai vive mais aconchegante. ELA FAZ ISSO PELO PAI DELA? Numa das cenas mais incríveis do filme, em que os irmãos discutem num estacionamento, enquanto o pai fica sentado no carro, Jon diz tudo o que o filme representa em sua espinha dorsal. Na discussão, Wendy está possessa porque não conseguiu colocar o pai num asilo melhor, e Jon, carrasco, diz “as paisagens lindas desse lugar não fazem bem aos velhos, apenas amenizam a culpa dos filhos que largam os pais aqui”.



O maior acerto do filme é, e afirmo categoricamente, a escolha do elenco. Os dois principais atores, Philip Seymour Hoffman e Laura Linney, já são parceiros de longa data de diretores indies, ou seja, já estão mais do que inseridos na arte dos filmes de baixo orçamento e, além disso, são atores geniais. Hoffman é um ator espantoso, nunca vi igual, sem dúvida, é um dos melhores atores em exercício, cabe em qualquer papel e não entrega nada abaixo da média, nunca. Linney é aquela atriz genial que sempre é esquecida pelas grandes produções, mas é coisa de personalidade, ela tem uma outra aura, outras características. De suas três indicações ao Oscar, as três foram por filmes independentes, é onde ela se sente em casa. E pra que tirar a glória de uma atriz em sua mais perfeita forma?



Ia falar um pouco dos clichês de filmes independentes, mas pensei: Pra quê? O filme é muito mais que isso. Mas sou obrigado. A obra peca algumas vezes na universalização das personagens, caracterizando-os como problemáticos e disfuncionais. E as cenas de enfoque de rosto contra o vidro do carro, em que o personagem parece buscar a explicação da sua vida na estrada (extremo clichê de filmes indies), desculpem, mas eu acho isso lindo demais.

Aqui talvez entre um pouco da explicação do título da crítica. Sem spoiler, uma hora o pai liberta os dois dessa espécie de castigo em que eles parecem estar confinados, e é como se eles estivessem dormindo, congelados no tempo, só esperando à hora de voltar a viver.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Não assistirás ao fim que tu causaste. (Crítica: Carrie - A Estranha / 1976)

Restabelecer o que nunca foi estabelecido.

Reaprender o que nunca foi aprendido.

Sussurrar o que nunca foi dito.

Quem é você no mundo? Isso, aquilo ou nada disso?

Quem segue do teu lado?

Quem você sente do teu lado? (e isso se resume num infinito superior a qualquer um milhão de palavras que possam te dizer).

Pena que ninguém disse nada a ela. Só fez com que ela sentisse que tudo era mentira e perverso.

Morre assim, então.



O que um filme de terror pode fazer num indivíduo? A mim pode subverter toda a ideia do que ele é e me mostrar o que REALMENTE ele é. E é isso o que ocorre em Carrie – A Estranha (Carrie, 1976. EUA). O filme que foi adaptado do livro de Stephen King tem em sua essência pura o horror, a vingança e o sangue, mas trata-se de um mundo a mais de coisas.

Carrie foi o primeiro livro escrito por Stephen King e quase não foi publicado devido a um surto do autor, que jogou todo o material no lixo, por sorte sua esposa resgatou o trabalho e então o livro foi publicado em 1974. Este também foi o primeiro livro do autor que ganhou uma adaptação cinematográfica.



Em 1975, o diretor Brian de Palma (início da carreira) resolveu adaptar o livro de King para o cinema. Tinha em mente seguir todo o livro de forma fiel, assim o filme seria só o meio visual de se entender o livro. Porém, Brian de Palma fez muito mais que isso, fez simplesmente um clássico do cinema mundial. Transformou uma história repleta de clichês num dos filmes mais vistos e comentados da história. Quem nunca ouviu falar de Carrie? Carrie sempre é relembrado quando o” bullying” entra nas discussões sociais e novelas brasileiras fazem, até hoje, cenas aludindo à obra.

Contar Carrie é como contar a história de milhões de pessoas do mundo, é comum encontrar gente que sofra que nem ela (mesmo sem os agravantes que essa jovem tem).

Carrie é uma jovem do ensino médio que nunca foi aceita por nenhum grupo ou indivíduo da sua escola, acredito que até da cidade. É aquela menina que ninguém passa a bola na educação física, que é tratada como um móvel dentro da sala de aula e sofre tudo isso calada. Não tem estrutura nenhuma pra se impor diante dessas pessoas e dessas situações. Todos os problemas de Carrie são agravados pela mãe (Piper Laurie, que faz uma mãe de arrepiar até o último fio de cabelo), uma fanática religiosa, que foi abandonada pelo marido e nunca aceitou Carrie como sendo fruto de um casamento, mas tem como certo que a filha é fruto do pecado, da entrada do demônio no seu corpo. Pra completar, Carrie tem poderes psíquicos que ela não consegue controlar em momentos de extrema fúria, a mãe tem consciência dos poderes e acredita que a filha é dominada pelos poderes do mal.



Na minha humilde opinião, a mãe é o maior problema na vida de Carrie. A jovem é mantida isolada do mundo, isolada das pessoas e ainda bombardeada por questões que vão além de seu poder de resolução. A mãe nunca contou à filha que uma menina menstruava (essa cena é de cortar o coração), tanto é que quando menstrua, Carrie acredita que está morrendo. As meninas da escola também são cruéis e perversas, são aquelas pessoas que matam outras indiretamente nos dias de hoje. Matam sonhos e planos. Sufocam o que um dia poderia ser uma linda vida a ser vivida.



Sissy Spacek (indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo filme) está em seu primeiro trabalho no cinema, e faz Carrie da forma mais brilhante possível. Amedronta-me no olhar, entristece-me nos mesmos olhos e me ganha, ainda, com esses mesmos olhos. Os Olhos. Ah os olhos!! Os olhos de Sissy Spacek merecem uma poesia.

Preferia mil vezes que o filme fosse de terror mesmo, pelo menos blindaria minha alma e meu coração contra o sofrimento de Carrie. Não é brincadeira o que essa menina sofre e o que tanta gente ainda sofre calada nos dias de hoje. Numa das últimas sequências do filme (talvez a penúltima, a do baile), toda essa blindagem que você tiver usando, caso ainda esteja, cairá por terra. Não tem como não querer pegar Carrie no colo e dar a ela todo o carinho que lhe negaram durante uma vida inteira. Toda a amizade que lhe privaram.



Os poderes paranormais que foram impressos na personagem é, de fato, só uma desculpa para o filme ser de terror. O filme é muito mais que isso. É uma abordagem repleta de lugares-comuns da vida de uma jovem que sofre bullying. Quer coisa mais natural que isso? Quem nunca viu um colega praticar bullying e deu uma gargalhada gostosa da cara daquele cidadão que estava sendo rechaçado na frente de todo mundo?

Mas isso é um blog de Cinema, desculpem-me.

A obra também merece ser lembrada por uma série de questões: a montagem, que é magnífica e trás uma série de cenas muito bem construídas, com ângulos diferenciados, com divisão da tela pra mostrar causa e efeito da cena; a fotografia, assustadoramente linda do instante em que Carrie toma um banho de sangue em diante e; trilha sonora, que lembra um pouco Psicose e dá todo um clima muito legal ao filme.

No geral. Carrie não tem segredos, trata-se de uma obra única que consegue ser de 25 anos atrás e mesmo assim tratar de um assunto tão contemporâneo. O final é um espetáculo a parte, que não merece que eu diga uma palavra sequer, afinal, posso fazer alguma injustiça.



Dedico o post aos amigos que assistiram ao filme comigo: Pedro Inácio, Stephanne, Léo (que dormiu o filme inteiro), End (que riu boa parte do filme), Adriano (dono do filme) e Ian.

(ahh.. não assistam a refilmagem, é uma merda!!)