terça-feira, 21 de junho de 2011

Não, eu não me arrependo de nada (Crítica: Piaf - Um Hino ao Amor / 2007)

Eu não lamento nada, nem o bem nem o mal que me fizeram
Varridos os amores e todos os seus temores.
Varridos para sempre, recomeço do zero.
Pois, minha vida, minhas alegrias, começam hoje com você.




Não há como negar que a época de ouro do Cinema francês já se foi há um bom tempo. Aquela época de Godard, Catherine Deneuve e tantos outros grandes colaboradores da arte cinematográfica francesa. Porém, uma hora ou outra aparece um grande filme, ou uma grande interpretação no cinema francês como o visceral Caché (2006) com a incrível Juliette Binoche e mais recentemente o menos festejado e nem por isso menos sensacional Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007. França).

Mais do que um bom filme, Piaf se destaca mais pelas interpretações e pela história (absurdamente trágica) que está sendo contada. Trágica sim, mas não mentirosa, é a vida de Edith Piaf, talvez a cantora mais conhecida e ouvida da França. Piaf era uma das mulheres mais gloriosas que existia nos anos 40 e 50 (hoje, em questão de personalidade, pode ser comparada a Cássia Eller, Maysa e Elis Regina). Essa cinebiografia de Edith Piaf é um verdadeiro colírio aos nossos olhos e um pardal aos nossos ouvidos.



O longa dirigido por Olivier Dahan (Rios Vermelhos 2) não é nem um pouco linear. Ele invade o passado da cantora, desvenda o futuro, de repente se encontra no meio, ignora fatos, não existe a menor obrigação em seguir uma sequência lógica, e nem por isso o diretor perdeu a mão em algum momento. O resultado é incrível. O diretor faz um verdadeiro melodrama (às vezes excessivo), recheado de cenas utópicas, em que realidade, sonho e pretensões se juntam dando resultado a uma única cena, todas extremamente carregadas de tensão e de uma trilha sonora fulgurante e que se dá de forma ininterrupta. É quase um show de horrores. Em minha opinião, o diretor peca um pouco ao construir a figura de Edith Piaf dessa maneira, pois transforma a figura da cantora numa caricatura de sofrimento e tragédia (ela sofre do momento em que nasce até o último suspiro). No final surge um pouco da sensação de que esse era o destino de Piaf mesmo, como se todas as trágicas situações de sua vida, justificassem seu fim.

Edith Piaf realmente teve uma vida sofrida. Filha de uma cantora decadente (de rua mesmo), e um pai autoritário, mas também artista, Piaf foi criada nas ruas de Paris pela avó cafetina. Logo cedo, foi vítima de uma cegueira permanente, que resultou numa linda cena para a cinebiografia da cantora, aquela em que rodeada por prostitutas, Edith, inocentemente, volta a enxergar. Edith sempre esteve ali, flertando com a decadência e seus atores sociais.



A menina já sabia de seu potencial vocal na adolescência. Vivia cantando pelas esquinas parisienses, em troca de dinheiro ou bebida, caminhava também para um processo de decadência logo cedo. Até que um sujeito a vê cantando e a convida para fazer um teste em sua casa de shows. Tímida, Edith Piaf começa o seu voo. O dono da casa de shows (interpretado no filme por Gérard Depardieu) é quem coloca o nome Piaf (pardal) em Edith, segundo ele, a garota cantava como um pardal.

A partir desse ponto segue-se no filme toda a ascensão de Piaf na vida musical,a luta para vencer a timidez, os grandes shows, o enorme prestígio que conquistara, o reconhecimento não só na França, mas que se alastrara por todo o globo. Os vícios que Piaf vai adquirindo durante sua jornada também são retratados.

E por que não os amores? O filme conta um pouco da breve história que Edith Piaf teve com o pugilista Marcel Cerdan, apesar de ser realmente breve, rendeu a melhor cena do filme. Uma alucinante viagem de dor e insanidade que a personagem tem ao saber da morte de seu grande amor e que tem como fim a figura estática de Edith Piaf num palco. Causa arrepio só de lembrar.



Também quero relembrar a cena em que Edith Piaf já totalmente afetada pela doença hepática que a vitimou (a cantora morreu aos 47 anos) ouve pela primeira vez “No, je no regrette rien", pois ”pode tirar lágrimas copiosas dos nossos olhos (aliás, a cena final do filme, em que se alternam imagens de Edith no palco com imagens de sua infância é realmente belíssima e antológica para o cinema francês).

Cheguei onde eu queria: na interpretação monstruosa de Marion Cotillard. Quando aceitou fazer o papel de Edith Piaf, a jovem atriz francesa disse que não tinha uma voz tão boa para cantar Piaf, por isso as músicas do filme são todas dubladas pela atriz. O que não deixou nada em falta no filme é só uma curiosidade mesmo. Marion não havia se destacado em nada ainda, nem no próprio cinema francês, mas mesmo assim, o filme é todo dela. Não há o que discutir. Cotillard faz tudo funcionar com a maior naturalidade possível: os movimentos da boca, o olhar (espantosamente lindo), as expressões corporais, que são todas voltadas para si, como se temesse qualquer exposição. Toda a monstruosidade dessa interpretação está na força visual que essa atriz conseguiu empreender a personagem. É a caracterização mais perfeita que eu já vi em toda minha vida, olha que não sou poucas as que existem e também são semelhantemente perfeitas: Nicole Kidman em As Horas (2002) que fez um retrato magnífico de Virginia Woolf e Helen Mirren na composição da rainha Elizabeth II em A Rainha (2006). Marion é vida, não é a toa que foi agraciada com o Oscar de Melhor Atriz e elogiada unanimemente pela crítica especializada.



O filme é longo, 140 minutos de tragédias e algumas poucas glórias, então pode ser que canse um pouco, acho que algumas cenas poderiam ter sido cortadas e, assim, reduzir-se-iam algumas partes não tão necessárias para o entendimento da vida da cantora.

Piaf é a mãe dos franceses, é a lenda urbana decadente e gloriosa da França. Sofreu as mazelas mais insanas da vida, perdeu pessoas queridas a rodo, definhou em sua própria história. Cantou se glorificando, se machucando, se matando. Construiu umas das mais belas histórias tristes que eu já vi.



Obrigado Mari.

4 comentários:

  1. Haha Eu que agradeço, Belíssimo texto!! ^^ A cena em que ela sabe da morte de Marcel é mesmo arrepiante... Bjo Guzinho s2

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  2. Filme admirável e marcante!

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  3. Estou sem palavras, você conseguiu exprimir toda a alma do filme. Bravo!

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  4. Assisti finalmente ontem, gostei muitissimo do filme, e agora aqui, do seu texto também, muito embora voce não se apegue a detalhes mais técnicos de uma análise filmíca, que também podem ser muito interessantes, me senti contemplado pela sua exposição...Obrigado pela partilha. Toda boa história merece virar um filme. Todo bom filme também merece um texto assim. Um abraço (ah e por favor não pare!)

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