quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Origem do Mal (Crítica: Mildred Pierce / 2011)

O amor de mãe é o combustível que permite a um ser humano fazer o impossível (Marion C. Garretty).

Se existe uma coisa tão mística e confundível, que pressupõe teorias bestas tamanha a complexidade do assunto, com certeza é a origem da maldade. Muito presa a ideia de criação, de formação de caráter, o surgimento da maldade põe em cheque muitos estudos de psicanalistas e educadores: Será mesmo que o indivíduo se tornará impetuoso e atroz pelos costumes empregados dentro de casa? Não seria a malignidade uma esfera genética ou um traço concebido por anjos guardados de fome sedenta?

Lendo esse primeiro parágrafo, todos poderiam pensar que resenharia sobre algum filme de psicopata, ou um suspense enraizado de violência gratuita, ou talvez um melodrama perverso e edificante. Não. Não é nenhum desses tipos de filme e sim, uma mistura genuína de todas essas faces que nada mais é do que a vida real. Uma dose de drama, uma pitada de violência verbal e implícita e, claro, o principal, um bom caldo de misticismo psicológico: A relação da maldade com o ser humano e como essa aflige os seres que mais amam, mesmo que os seres amados sejam os psicopatas.



Diria que agora vem a surpresa. Aqui estou fazendo uma singela colocação sobre os trunfos da improbidade pra falar da minissérie, veiculada pela HBO, Mildred Pierce (EUA, 2011). “ÓHHHH, mas quem seria o psicopata da história? Mildred? Quem seria o perverso? Monty? Quem seria a atroz? Veda?” O que mais me chama a atenção nessa produção é justamente a complexidade e a volubilidade das personagens. A princípio, você não sabe se Mildred merece seu desprezo ou sua pena, não decide se Veda é má ou só um ser carente (sem motivos diga-se de passagem). A grande questão da obra é a multifacetagem dessas personagens que transbordam vida através dos mais diversos sentimentos.

Mildred Pierce é uma obra adaptada do romance de James M. Cain, publicado em 1941 e que até já recebeu uma adaptação para o Cinema e, além de tudo, presenteou Joan Crawford com um Oscar de Melhor Atriz em 1945. No Brasil, a obra recebeu o título de Almas em Suplício. Assim, como se vê na minissérie, o filme se destacou por ter ótimas atuações. Fã do filme e da obra de Cain, o cineasta Todd Haynes (Longe do Paraíso, Não Estou Lá) assumiu a direção dessa nova aquisição da HBO. O trabalho de Haynes ganhou um suspiro novo ao preferir seguir de forma mais fiel as questões do livro, focando principalmente no relacionamento conturbado entre mãe (Mildred) e filha (Veda). Adicionou a filha mais nova e alguns outros maneirismos que só deram agilidade ao telefilme.



Haynes já provou em outros trabalhos que é capaz de fazer melodramas firmes, pontuados de interpretações magistrais (o diretor é um ótimo diretor de atores), e um bom gosto difícil de ver na indústria televisiva. Lembre-se: Mildred Pierce é um trabalho feito para a televisão. O ponto forte do filme fica sendo justamente a parceria entre Haynes e Kate Winslet, que interpreta a complexa Mildred Pierce como se ela fosse mais uma dessas tias com quem ela passou uns quarenta anos reparando em todos os detalhes. Haynes apostou nessa construção meticulosa da vida de Mildred e teve em Winslet seu porto seguro, é quase impossível encontrar uma cena em que Kate não esteja participando. A parceria é fantástica e poderia, com a graça do senhor dos cinéfilos, trazer outros grandes trabalhos num futuro próximo.

A trama narra a história de sofrimento de Mildred Pierce, como eu já disse, interpretada com fulgor pela genial Kate Winslet. A minissérie começa logo com Mildred colocando o marido Bert (Brian F. O’Byrne) para fora de casa. Atente a época da projeção. A história se passa no início dos anos 1930, logo após a Grande Depressão americana, que colocou milhares de cidadãos americanos no meio da rua, sem chance de emprego e totalmente falidos. Mildred, incomodada com o marido adúltero, não pensou duas vezes antes de pôr o marido pra fora, mesmo sendo ele sua principal fonte de renda e certeza da segurança de uma família tipicamente civilizada conforme ditavam os padrões da época. Mildred se vê sozinha, tendo que cuidar de suas duas filhas, a mais velha Veda (Morgan Turner e Evan Rachel Wood, as duas espetaculares) e a mais nova Moira.



Curiosamente, Mildred não se importa com os títulos que pode receber diante da separação. Seu maior desafio é procurar um emprego para que possa sustentar as filhas, numa Los Angeles ainda bairrista. As faces das personagens começam a se formar logo no primeiro episódio. Mildred é uma mulher que por mais que quebre com uma das principais instituições da sociedade, ainda se mantêm muito conservadora, cheia de si e de uma arrogância que ela tenta esconder. Ela entende que isso deve ser sufocado e morto dentro dela, para assim, se tornar uma boa pessoa, por isso, aceita o emprego de garçonete, ainda com certa relutância psicológica, em nome da “barriga cheia” de suas meninas. A ideia de dignidade não vislumbra as ideias de Mildred, que ainda projeta ou reproduziu, em algum momento, certos preconceitos diante da filha mais velha. É justamente essa, Veda, o grande oponente da própria mãe durante a história.

Dotada de um caráter dúbio, que às vezes se rende a bajulação e noutras à manipulação, Veda prende o espectador tamanho é seu desprendimento com a família, com a história de vida e com a moral. É, de longe, a personagem mais maléfica dos últimos tempos. Pra ajudar, a garota se gaba de possuir o intelecto mais apurado da família, o decline a cultura mais observável, em contraste com a jovem irmã que sai de cena logo no segundo episódio. Veda reage à mãe com uma dose extra de cinismo, se comportando realmente como gente grande, como mulher desvirginada, ratazana de coluna social. Enche o pulmão e grita coisas que ninguém teria coragem de dizer a mãe, aos onze anos modula uma cara de deboche, acende um cigarro e deflagra a fumaça na cara de Mildred. Quando foi que você decidiu que sua rival seria a pessoa que mais te ama? Como que o mundo parou de girar e foi focar em torno de suas vontades e decisões?



Bom, Mildred sendo uma cozinheira exemplar, consegue montar seu próprio negócio, uma rede de restaurantes. Isso com a ajuda do amigo do ex-marido, o asqueroso Wally Burgan, com quem Mildred mantém relações sexuais sem nenhum tipo de afeto: Sexo por sexo e só. Anos 30, gente. Mais tarde, Mildred conhece Monty Beragon (Guy Pearce, segurando as pontas), ainda quando seu negócio engatinhava e trabalhava de garçonete. Monty é o tipo solteirão, bonito e rico que traça qualquer uma que vê pela frente. Mildred torna-se sua vassala, pagando suas contas com o dinheiro advindo de seu negócio que começa a fazer enorme sucesso na cidade dos anjos.

Entre o terceiro e o quarto episódio, passam-se 10 anos e Veda toma a forma da belíssima Evan Rachel Wood. O que parecia impossível se torna um deleite aos olhos de qualquer apreciador dessa arte. Ver a batalha entre Winslet e Wood é de deixar qualquer um com os nervos à flor da pele, destaque para a cena final.



Seria Veda uma potencialista de um possível psicopatismo dominado pela inveja que sente da própria mãe? Pra que tanta passividade em Mildred, que prefere resolver as coisas botando panos quentes, inocentando a filha, impedindo-a de levar seus tapas na cara? O medo que Mildred sente da filha é quase que um cristal em situação mortal: Suas repulsas a filha são monitoradas, contadas no relógio, ela sempre se rende a sua condição, a de mãe. Leia-se, meu bem, com quantos paus se faz uma canoa? Com 20? Trinta? Entenda, com um deles eu destruo toda sua trajetória. Veda é o pau podre da canoa da mãe, e sem esse ela não teria como continuar. Seu destino estava fadado ao controle da filha perversa e imoral.

Kate Winslet venceu todos os prêmios a que foi indicada: Globo de Ouro, Emmy, etc. mais uma vez, Kate prova que uma das atrizes mais invejáveis da atualidade e que seu potencial de se despir de qualquer tipo de vaidade e de emocionar com um simples “olá” ainda continua em alta. Sem Kate Winslet, dificilmente, essa obra seria tão marcante.



Graças a Haynes, que introduz um roteiro bastante amargo, mas sem ser apelativo, e ao elenco competente, que ainda tem Melissa Leo, como a vizinha xereta de Mildred, a obra despontou como um dos melhores trabalhos feitos para televisão no último ano. O destaque e os aplausos são muito mais do que merecidos.



Entretanto, gostaria de deixar uma reflexão final e emendá-la com o início do texto. Relações masoquistas entre mães e filhas, pais e filhos, já foram retratados outras vezes no Cinema, não é novidade pra ninguém a que ponto pode chegar o ser humano mesmo diante de seus pais. A questão é a seguinte: Veda sendo a psicopata que é, encorpada de toda a certeza de sofrimento que deve infligir à mãe, teria salvação num mundo cristão? Seria possível introduzir o mínimo de arrependimento, verdade e dignidade numa pessoa desprovida de qualquer sentimento realmente bom? Veda moveu montanhas só pra ver a mãe despedaçada. Se ela não tivesse nenhum talento, nenhum estudo, mas sua mãe estivesse no fundo do poço, seu triunfo pessoal ainda seria imenso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Consciência Branca (Crítica: Histórias Cruzadas / 2011)

"A coragem às vezes pula uma geração"



Começou a corrida para o Oscar 2012. Aliás, começou há um bom tempo. Já tivemos premiações como o Globo de Ouro, a lista de indicados do Bafta, do Actor’s Screen e no dia 24 de janeiro saiu a lista de indicados ao maior e mais conceituado prêmio da sétima arte: o Oscar. Nós já sabemos que o Oscar não deve ser levado tão a sério, prova disso são os grandes filmes e as brilhantes atuações que costumam ficar de fora do evento. Então, não se faz simplesmente um grande filme e espera ele ser indicado. A Academia tende a ser conservadora, não gosta de grandes blockbusters, que arrasam com a bilheteria, nem é fã número um de filmes repletos de efeitos especiais, de ação, vilanias, entre outras coisas que costumam passar batido aos olhos dos votantes, viu-se isso no esquecimento de Batman- O Caveleiro das Trevas no Oscar de 2009. Porém, existem as exceções, e elas não são poucas: O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, que abocanhou os 11 troféus a que havia sido indicado no ano de 2004, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para Peter Jackson (ainda acredito que a saga de Jackson seja um caso muito particular, era o término de uma trilogia que fez história); em 2010 foi à vez de Avatar chegar como favorito da noite, mas sair praticamente de mãos abanando, e no mesmo ano a Academia reconheceu também o ótimo Distrito 9.

O post não tem nenhuma pretensão de esmiuçar o que se passa na cabeça dos “old mans” que habitam as cobiçadas cadeiras da Academia, mas sim, tentar, mais por brincadeira, prever o que pode acontecer na noite da entrega dos prêmios, que acontece mês que vem no Kodak Theatre, em Los Angeles. Para isso, comecei a conferir os filmes mais cotados para levar alguns carecas dourados para casa, a começar com Histórias Cruzadas (The Help, EUA. 2011). O filme, dirigido e escrito pelo desconhecido Tate Taylor, não chega como favorito para Melhor Filme, nem poderia: a história parece muito água com açúcar perto dos outros possíveis indicados. A garota branca que se mobiliza, ainda que de forma preguiçosa, em “prol” das empregadas negras de Jackson, Mississipi.



Não que a história e o filme não tenham seus méritos, tem sim e muitos, mas ainda falta uma história em que o negro não seja simplesmente o instrumento da revolta, da fala, mas também uma história em que ele seja a caça e o caçador, seja o instrumento e o instrumentista. Isso não diminui e nem descaracteriza a obra, mas a torna um tanto televisiva e batida demais. Sei que muitos vão discordar e talvez parem de ler a crítica por aqui: Que história é essa de que o negro não foi autor de sua liberdade? Como assim? Quem disse que é preciso de uma garota branca para levar nossos ideais e dignidade pela frente? Então, te peço, leia e verá que o filme não é só isso, as partes boas superam deliberadamente a única parte que, em minha opinião, não cola.

Histórias Cruzadas narra a história das empregadas domésticas de Jackson, cidade do sul dos Estados Unidos, por volta dos anos de 1950. Pra quem nunca teve contato com a história real da parte sul dos Estados Unidos, aí vai uma simples pincelada. A parte sul do estado americano configurou-se, em seus primórdios, numa linha bem diferente das colônias dor Norte. Enquanto no Norte o trabalho era livre e as colônias buscavam evoluir como Democracia e nação, no Sul, as colônias se baseavam na mão de obra escrava e na exploração máxima da terra. Essa configuração foi além da independência do Estado, ou seja, mesmo depois de se emancipar dos ingleses, continuaram nessa divisão drástica dentro do próprio território. As rivalidades entre os habitantes do Norte e do Sul se tornaram explícitas e tudo terminou com a Guerra de Secessão, em que os Estados Unidos travou uma guerra consigo mesmo. Dica: o filme E o Vento Levou é um dos melhores para entender o que houve durante esse período nos EUA. Enfim, o Norte venceu a guerra, e o Sul foi obrigado a implantar o trabalho livre e assalariado como mão de obra única dentro do seu território.



Como tudo tem uma consequência, não podia ter sido diferente, mesmo nos EUA. É certo que, provavelmente, você já tenha ouvido falar que um dos maiores problemas na terra do Tio Sam é o racismo. Após perder a guerra, a parte Sul do país se mobilizou em criar movimentos de repressão violenta aos negros, sendo o mais conhecido e responsável por milhares de mortes, a Ku Klux Klan, mencionado no próprio Histórias Cruzadas. Espero que tenha dado pra entender alguma coisa dessa explicação histórica (?).

Pois, então, no meio dessa violência plácida, Histórias Cruzadas vem contar a história de negros que sofrem com esse racismo enraizado mesmo depois de tantas décadas de liberdade concedida.

Aibileen (Viola Davis, estupenda) é uma mulher que se aproxima da meia idade, negra e que teve que largar os estudos ajudar cedo para ajudar dentro de casa, dessa forma ela se tornou empregada. O filme todo é narrado por ela. No início, Aibileen conta de cada criança que cuidou e como chegou no trabalho atual: a empregada faz-tudo da fútil Elizabeth (Ahna O’Reilly). Aos poucos, entra na história sua melhor amiga, Minny (Octavia Spencer, um estouro, tão boa quanto a protagonista), também empregada, só que muito mais maltratada pela megera da história: Hilly Holbrook (interpretada com maestria pela sumida Bryce Dallas Howard). No geral, o centro de tudo é esse: como as empregadas domésticas negras são usadas e jogadas como pano de chão em qualquer canto, sem nenhum reconhecimento e alvo das mais ignorantes chacotas, sofrem um abuso de poder inominável e devem se manter quietas, concentradas em seu trabalho.



Numa reunião de jovens senhoritas racistas, onde todas as “proprietárias” de empregados negros, debatem a ideia, posta por Hilly, de construir um banheiro separado para negros dentro de casa e assim prevenir algumas doenças, está Skeeter (Emma Stone, encontrando seu caminho), uma jornalista solteirona que não compartilha da opinião das amigas quanto ao lugar do negro dentro da sociedade. Porém, Skeeter é uma personagem um tanto contraditória, pois, ao mesmo tempo que rompe com as amigas, ainda se mantêm vulnerável, de fácil compra pelas mesmas, seja por sua solteirice não tão bem aceita por ela mesma ou por sua ineficiência num mundo tão repleto de injustiças. Apesar de tudo, a jovem jornalista tem um assombro de salvação, mais por escrever o livro do que de ajudar essas mulheres. Após saber que a mãe demitiu a mulher que a criou durante toda a vida inteira, e ver Aibileen ser humilhada no seu próprio trabalho, Skeeter decide escrever um livro com as histórias sofridas por essas empregadas.

Skeeter não parece ser uma mulher que leve o racismo entre seus princípios, mas nota-se um egoísmo tímido, citado pelo próprio namorado dela, algum tempo depois de sua projeção. A aspirante a escritora está muito mais preocupada com o trabalho do que com o fruto de uma luta. A única personagem livre de preconceitos, e sim, a mais deliciosa, em todos os termos, ficou por conta de Jessica Chastain. Chastain foi escalada para viver Celia Foote, a dondoca que contrata Minny para ajudar nos serviços de casa, para aprender a cozinhar para o marido e ter uma companhia dentro de casa. Talvez por não ser aceita pela senhoritas de Jackson, Celia entenda o que é sentir-se desprezada, olhada pelo canto dos olhos. A bela mulher não quer participar de rodas de amigos racistas, mas sim, de rodas de amigos. É o melhor ar fresco do filme.



Fica por conta de Jessica Chastain as melhores cenas do filme: a da chegada da nova empregada, a qual ela recepciona com o vidro de coca-cola e um enorme sorriso no rosto, a cena em que sofre aborto e Minny arromba a porta, e a linda tomada final da personagem, em que a Minny assusta-se com a chegada do marido de Celia no jardim, e temendo que ele seja um membro da Klu Klux Klan, joga tudo para o alto e sai correndo. Quando a acalma, o marido entra com Minny na casa, e ela se depara com uma mesa repleta de comidas feitas por Celia. Era um jantar oferecido a Minny, com todos os pratos que ela ensinou Celia a preparar.

Bom, a história central é a feitura do livro de depoimentos e histórias das empregadas de Jackson, todas entrevistadas por Skeeter, chamado The Help. O filme é repleto de personagens, por isso, é meio complicado desenvolver uma sinopse mais direta e concreta. Deve ser assistido com muito carinho pelo espectador, que verá diferentes tipos da sociedade, hora encantando-se com um, hora menosprezando outro.



O grande trunfo do filme é, sem dúvida, as atuações, e é nesse quesito que provavelmente The Help deve dominar o Oscar 2012. O Globo de Ouro já foi um termômetro e premiou Octavia Spencer como coadjuvante, além de indicar Chastain na mesma categoria e Viola Davis como principal. O Oscar de coadjuvante deve ficar mesmo com Octavia Spencer que faz um retrato cru e emocionante de uma mulher que apanhava do marido, mas, mesmo assim, tinha forças para encarar a sociedade. Viola Davis chegou favorita para o Globo de Ouro, mas não levou o prêmio, senão fosse Meryl Streep e Michelle Williams no seu caminho suas chances seriam maiores. Ainda assim, Viola está muito bem cotada e pode surpreender (ou não) na noite do Oscar.

Ainda quero fazer jus ao restante do elenco. Não tem um ator sequer que esteja fora de sintonia com a história. Todos entregam atuações brilhantes e merecidas de algum prêmio. Allisson Janney, que faz a mãe com câncer de Skeeter, está um arraso, e Sissy Spacek arrebenta em poucos minutos na tela. Gostaria de citar todos eles, tamanho é estado de graça desse elenco, principalmente as atrizes. Brilhante. Brilhante. Brilhante. O Oscar quer premiar os melhores, mas nem sempre é assim: às vezes por que não é, e outras vezes porque achamos que não é. Então, que seja o que Deus quiser.



Histórias Cruzadas começou a me fazer chorar desde os trinta minutos finais, e a intenção não é criar uma obra melancólica e pesada, em que o espectador se vê atirado e desolado com sua bestialidade humanitária, mas sim, criar uma obra tecnicamente leve, buscar no espectador o fio que o conecta a humanidade e acender as luzes de seu bom senso, criar reflexão baseada em lágrimas de constrangimento e sorrisos engolidos até a hora do jantar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Alice no País das Maravilhas (Crítica: Garota, Interrompida / 1999)

“Talvez eu fosse louca, talvez fossem os anos 60 ou talvez eu fosse uma garota, interrompida.”
Susanna Kaysen.



Nesses últimos dias estava pensando em Winona Ryder. O que deu errado para Winona Ryder? De estrela ascendente nos anos 90 à escória hollywoodiana. Aonde foi que tudo começou a desmoronar? Daí eu descobri que tudo foi por água abaixo depois de Garota, Interrompida (Girl, Interrupted. EUA,1999). Não é tão simples entender a derrocada na carreira de Winona Ryder, mas podemos tentar.

Winona entrou nos anos 1990 como uma das mais requisitadas atrizes. Trabalhou com Tim Burton no inquestionável Edward- Mãos de Tesoura, com Scorsese em A Época da Inocência, onde garantiu sua primeira indicação ao Oscar, fez Minha Mãe é uma Sereia, Drácula e Adoráveis Mulheres. Winona trilhava um caminho de veras semi-glorioso, tudo indicava que seu momento chegaria, que seu Oscar viria, que sua consagração e seu respeito finalmente seriam expostos. Quem diria que o projeto da sua vida seria também sua pior tentativa? E foi.



Winona Ryder entrou com uma das produtoras de Garota, Interrompida, se envolveu de corpo e alma no projeto, angariou o papel principal e foi fazer aquele que deveria ser o papel de sua vida. James Mangold, que mais tarde viria a filmar Johnny & June, entrou como o diretor do projeto.

Esquecendo um pouco a história de Winona, que logo mais será retomada, vamos ao filme. O roteiro foi baseado no livro de Susanna Kaysen, publicado em 1994, que conta a história da própria autora e de seus dois anos, 1967 e 1968, numa clínica psiquiátrica, quando foi diagnosticada com um distúrbio de personalidade, após uma suposta tentativa de suicídio.



Sim, quem interpreta Susanna é Winona Ryder, de forma alguma Winona faz feio, mas tinha uma certa “rebelde” que ia acabar ofuscando todo o seu brilho. Vinda de uma família rica e com um nome a se preservar, Susanna não se importava com os estudos, só tinha uma vontade: ser escritora. Após tomar um vidro de aspirina com quatro litros de vodca, na tentativa de curar uma dor de cabeça, Susanna é internada e diagnosticada como uma “rebelde sem causa”, mais precisamente, uma jovem de personalidade dúbia. Como forma de tentar curar a doença da filha, os pais a mandam para a reabilitação e é lá que Susanna acaba, realmente, tendo contato com a loucura que aflige o ser humano.

A reabilitação abriga meninas consideradas não-capazes pela sociedade. Susanna, logo que chega, conquista uma rede de amizade, que vai desde a perturbada personagem de Brittany Murphy (finada) até a sociopata Lisa, personagem de Angelina Jolie, com quem Susanna nutrirá uma relação que vai do amor ao medo. Chegamos então a grande pedra no sapato de Winona Ryder, e esta recebe o nome de Angelina Jolie. De forma que todas as atrizes estão bem, incluindo a enfermeira, interpretada por Whoopy Goldberg, e a dona do hospital, personagem de uma Redgrave, Vanessa, imaginou-se que o grande destaque do filme ficaria por conta da protagonista, mas não. Angelina Jolie construiu uma personagem tão complexa e madura, que a atuação de Winona se perdeu em qualquer minuto de projeção. Lisa nos faz sentir ódio, compaixão, amor, coragem e mais uma porrada de sentimentos.



A personagem de Angelina Jolie, significa no filme, a tentativa de planificação da situação dos internos. Aquilo não é uma colônia de férias, e sim, o descaso e o preconceito da sociedade atuando da forma mais perversa sobre o “eu” de cada uma. A personagem é uma sociopata, claro, mas é a força combatente do sistema. É a serpente do paraíso que atraí e manipula Eva e Adão. Angelina Jolie foi coroada com um Oscar de melhor atriz coadjuvante. Winona, essa não foi indicada e passou completamente despercebida pelas premiações. O buraco onde ela plantaria sua árvore serviu de cova para sua carreira. Logo depois, vieram as polêmicas com os assaltos em Nova Iorque e alguns filmes tão medíocres quanto seu fim.

O filme promove um debate entre os limites da sanidade e da loucura tendo como suporte uma história real, por hora, nos remete a Um Estranho no Ninho. O que é loucura? Pense nessa pergunta. Quem define o que é loucura? Seria uma velha conhecida nossa: a Indústria Cultural? Seria nosso berço, nossa cama, nossos lençóis, travesseiros e cadernos? Aí me vem Alice no País das Maravilhas na cabeça: Não seriam os loucos as melhores pessoas do mundo? Garota, Interrompida coloca uma mão de pregos na sua frente. Você recebe o tapa na cara ou não?



Sobre Garota, Interrompida, fica a dica para assistir o filme, que ainda traz o ator/cantor Jared Leto como o namorado da personagem de Winona. O filme tem uma base muito forte, que é o roteiro baseado numa história real. A parte técnica do filme também é admirável, possui uma fotografia interessantíssima e todo o clima que a direção de arte conseguiu jogar dentro do hospício também garante todo um ritmo essencial ao filme.

A trilha sonora reservou grandes surpresas. Recheada de grandes mitos da música como o The Band e The Mamas and the Papas, um verdadeiro deleite para os fãs da música genial que habitou os anos 60.



A crítica dessa vez foi curta. Primeiro, porque o filme não tem segredo, é um brigadeiro bem enrolado e bem enfeitado; segundo e último, o que eu queria mesmo era mostrar como, mesmo sem querer, uma atuação brilhante pode afundar com a carreira de um colega de trabalho. A culpa não é toda de Angelina Jolie nem de Garota, Interrompida, que eu repito: é um filme muito bom. Mas, com certeza, foi após a feitura dessa obra, que Winona Ryder perdeu literalmente sua sanidade.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Acostamento (Crítica: Direito de Amar / 2009)

"Ela simplesmente veio"



O que é preciso para se fazer Cinema? Um bocado de dinheiro junto a uma dose mínima de talento, seja ele em qualquer ramo da produção, e a colaboração de bons atores? Diga-se de passagem, um bom bocado de dinheiro. Foi assim que o estreante Tom Ford fez seu primeiro trabalho para o Cinema. Estilista respeitado por reerguer a Gucci, uma das marcas mais famosas do planeta, Ford decidiu navegar por novos mares, sim, o da grande tela. Deve ser pontuado que em seu primeiro trabalho, mesmo que recheado de uma visível inexperiência, o Sr. Ford não faz feio.

Porém, destaca-se em Direito de Amar (A Single Man. EUA, 2009) uma linha que não vai muito longe do que o diretor/estilista está acostumado a fazer. O que se prima nessa obra, apesar de trazer grandíssimas atuações e um roteiro até bem embasado, é a direção de arte. A história se passa em Los Angeles, que deveria ser ensolarada, enraizada de cores e vida, mas toda essa vibração parece ter sido sugada pela pele e os olhos de seus personagens depressivos, que desfilam em roupas sob medida e óculos que mascaram qualquer tipo de sentimento.



Ford escolheu adaptar para o Cinema a obra do britânico Christopher Isherwood, datada de 1964. O livro, na época, causou muita polêmica por contar a história de um dia do professor universitário homossexual, que perdeu seu companheiro de dezesseis anos. Não entendo por que o título não poderia ser “Um Homem Só”, preferiram ludibriar o espectador com um título que não mostra e muito menos prova alguma coisa. Porém, isso é normal e sempre devemos estar preparados para um título deprimente. Enfim, ainda acho que o título é e deveria ser a menina dos olhos de qualquer filme.



Bom, durante a projeção, acompanharemos um dia da vida do agora solitário George Falcones (interpretado pelo gentleman Colin Firth), como eu já disse, um professor universitário e homossexual, que luta todo os dias com a dor da perda de seu companheiro, interpretado pelo simpático Matthew Goode. Porém, assistiremos exatamente o dia que George decide pelo suicídio como forma de calar sua dor. Ainda teremos na película a companhia de coadjuvantes de luxo, como a única amiga de George, a também solitária Charley (a magnífica Julianne Moore), mas que apesar da solidão busca companhia no luxo e no álcool. Como forma de reviver algum tipo de sentimento e de dúvida, tangendo alguma nova chance na vida de George (tentativa de iludir o espectador), surge um de seus alunos, que se interessa pelo modo de vida do professor, após uma aula em que George esfrega a cara do medo e do preconceito perante sua sala. O aluno é interpretado por Nicholas Hoult, um dos adolescentes do cultuado Skins (britânico).



O roteiro não tem muito segredo. O desafio de Tom Ford fica por conta de tentar transmitir os sentimentos de seu protagonista além da tela. Senão fosse a brilhante atuação relativamente contida de Colin Firth isso teria sido muito mais difícil, mesmo assim, ator nenhum faz milagre sozinho.

Tom Ford preocupou-se tanto com a estética de sua obra que acabou dando margem pra alguns recursos um tanto baratos, como o uso de flashbacks primários, em horas inoportunas, na tentativa de explicar um pouco da relação entre George e Jim, o companheiro morto em um acidente de carro. Nesse âmbito, fica difícil exprimir o tanto de sentimentalismo que essa obra necessitava. Afinal, o buraco era muito mais embaixo. A história é bela e delicada, mas falta uma mão mais forte na direção, que não tente apelar tanto para a beleza geral da obra, que parece mais um desfile de moda do que com uma obra cinematográfica. Agora, vou parecer um tanto contraditório e peço que vocês tentem me entender. É uma delícia ver aquele tanto de pessoas bonitas na tela, com olhos azuis explodindo atenção, ternos adequadíssimos, gravatas com nós perfeitos, blusas, cabelos e maquiagem irretocáveis, porém, isso não é Cinema. Cinema vai muito além de uma direção de arte fabulosa. Acho que se fosse um Mike Nichols na direção, que consegue exprimir cada sensação e transpor ao importante espectador, aí sim, o filme seria um estouro.



Fora esse problema, que não é tanto um problema, a trilha sonora, embora belíssima, também pesa na cabeça do espectador, poderia ter sido usada com mais afinco, com mais percepção dos personagens, dos singulares momentos de cada um.

O filme ainda que com esses problemas, continua bem acima da média. Isso se deve principalmente aos seus atores. Colin Firth prova que deve ser o mais genial ator de sua geração. A cena em que ele descobre a morte do companheiro é digna de aplausos, transmitindo os sentimentos aos poucos, jogando para o espectador cada pontada de sua dor, tudo paulatinamente. O inglês foi reconhecido com uma indicação ao Oscar e com um prêmio Bafta. Firth é um desses atores que surpreendem no gesto, no olhar e num simples caminhar.

Como eu já disse, o ator é acompanhado por um elenco de coadjuvantes no mínimo luxuoso. Julianne Moore que interpreta uma mulher de moral decadente e solidão em estágio avançado, brilha em apenas uma cena, na qual ela e Firth parecem dois gladiadores jogando as decepções e mágoas na cara do outro. Pra você ter uma ideia, a cena acaba com os dois dançando uma balada tipicamente luxuosa, como a cena e os dois atores devem ser definidos. Nicholas Hoult não deixa a peteca cair, também consegue ser pilar para Firth sem problema algum. O filme ainda trás Ginnifer Goodwin, uma dessas atrizes de comédia romântica, que vem crescendo em Hollywood.



Matthew Goode fica pouco em cena, mas consegue deixar impresso todo o seu carisma e a razão de todo o sofrimento de Colin Firth. Tom Ford se revela um bom diretor de atores, no final das contas.



Num filme onde a estética foi priorizada, não é surpresa que falhas aparecessem. Porém, são falhas que ao mesmo tempo se traduzem em qualidades. Não é errado ter uma encantadora fotografia, que encontra no bege a essência de todos os desafios das personagens, não, não é errado, mas tudo deve ser pensado, e o principal é a relação que o filme tem que estabelecer com quem o vê. Direito de Amar fica no meio do caminho. Te causa comoção, mas não faz rolar nenhuma lágrima, te causa apreensão, mas você vai no banheiro sem arrependimentos, te leva a viajar numa belíssima fotografia, mas o transporte quebra na beira da estrada.