quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Origem do Mal (Crítica: Mildred Pierce / 2011)

O amor de mãe é o combustível que permite a um ser humano fazer o impossível (Marion C. Garretty).

Se existe uma coisa tão mística e confundível, que pressupõe teorias bestas tamanha a complexidade do assunto, com certeza é a origem da maldade. Muito presa a ideia de criação, de formação de caráter, o surgimento da maldade põe em cheque muitos estudos de psicanalistas e educadores: Será mesmo que o indivíduo se tornará impetuoso e atroz pelos costumes empregados dentro de casa? Não seria a malignidade uma esfera genética ou um traço concebido por anjos guardados de fome sedenta?

Lendo esse primeiro parágrafo, todos poderiam pensar que resenharia sobre algum filme de psicopata, ou um suspense enraizado de violência gratuita, ou talvez um melodrama perverso e edificante. Não. Não é nenhum desses tipos de filme e sim, uma mistura genuína de todas essas faces que nada mais é do que a vida real. Uma dose de drama, uma pitada de violência verbal e implícita e, claro, o principal, um bom caldo de misticismo psicológico: A relação da maldade com o ser humano e como essa aflige os seres que mais amam, mesmo que os seres amados sejam os psicopatas.



Diria que agora vem a surpresa. Aqui estou fazendo uma singela colocação sobre os trunfos da improbidade pra falar da minissérie, veiculada pela HBO, Mildred Pierce (EUA, 2011). “ÓHHHH, mas quem seria o psicopata da história? Mildred? Quem seria o perverso? Monty? Quem seria a atroz? Veda?” O que mais me chama a atenção nessa produção é justamente a complexidade e a volubilidade das personagens. A princípio, você não sabe se Mildred merece seu desprezo ou sua pena, não decide se Veda é má ou só um ser carente (sem motivos diga-se de passagem). A grande questão da obra é a multifacetagem dessas personagens que transbordam vida através dos mais diversos sentimentos.

Mildred Pierce é uma obra adaptada do romance de James M. Cain, publicado em 1941 e que até já recebeu uma adaptação para o Cinema e, além de tudo, presenteou Joan Crawford com um Oscar de Melhor Atriz em 1945. No Brasil, a obra recebeu o título de Almas em Suplício. Assim, como se vê na minissérie, o filme se destacou por ter ótimas atuações. Fã do filme e da obra de Cain, o cineasta Todd Haynes (Longe do Paraíso, Não Estou Lá) assumiu a direção dessa nova aquisição da HBO. O trabalho de Haynes ganhou um suspiro novo ao preferir seguir de forma mais fiel as questões do livro, focando principalmente no relacionamento conturbado entre mãe (Mildred) e filha (Veda). Adicionou a filha mais nova e alguns outros maneirismos que só deram agilidade ao telefilme.



Haynes já provou em outros trabalhos que é capaz de fazer melodramas firmes, pontuados de interpretações magistrais (o diretor é um ótimo diretor de atores), e um bom gosto difícil de ver na indústria televisiva. Lembre-se: Mildred Pierce é um trabalho feito para a televisão. O ponto forte do filme fica sendo justamente a parceria entre Haynes e Kate Winslet, que interpreta a complexa Mildred Pierce como se ela fosse mais uma dessas tias com quem ela passou uns quarenta anos reparando em todos os detalhes. Haynes apostou nessa construção meticulosa da vida de Mildred e teve em Winslet seu porto seguro, é quase impossível encontrar uma cena em que Kate não esteja participando. A parceria é fantástica e poderia, com a graça do senhor dos cinéfilos, trazer outros grandes trabalhos num futuro próximo.

A trama narra a história de sofrimento de Mildred Pierce, como eu já disse, interpretada com fulgor pela genial Kate Winslet. A minissérie começa logo com Mildred colocando o marido Bert (Brian F. O’Byrne) para fora de casa. Atente a época da projeção. A história se passa no início dos anos 1930, logo após a Grande Depressão americana, que colocou milhares de cidadãos americanos no meio da rua, sem chance de emprego e totalmente falidos. Mildred, incomodada com o marido adúltero, não pensou duas vezes antes de pôr o marido pra fora, mesmo sendo ele sua principal fonte de renda e certeza da segurança de uma família tipicamente civilizada conforme ditavam os padrões da época. Mildred se vê sozinha, tendo que cuidar de suas duas filhas, a mais velha Veda (Morgan Turner e Evan Rachel Wood, as duas espetaculares) e a mais nova Moira.



Curiosamente, Mildred não se importa com os títulos que pode receber diante da separação. Seu maior desafio é procurar um emprego para que possa sustentar as filhas, numa Los Angeles ainda bairrista. As faces das personagens começam a se formar logo no primeiro episódio. Mildred é uma mulher que por mais que quebre com uma das principais instituições da sociedade, ainda se mantêm muito conservadora, cheia de si e de uma arrogância que ela tenta esconder. Ela entende que isso deve ser sufocado e morto dentro dela, para assim, se tornar uma boa pessoa, por isso, aceita o emprego de garçonete, ainda com certa relutância psicológica, em nome da “barriga cheia” de suas meninas. A ideia de dignidade não vislumbra as ideias de Mildred, que ainda projeta ou reproduziu, em algum momento, certos preconceitos diante da filha mais velha. É justamente essa, Veda, o grande oponente da própria mãe durante a história.

Dotada de um caráter dúbio, que às vezes se rende a bajulação e noutras à manipulação, Veda prende o espectador tamanho é seu desprendimento com a família, com a história de vida e com a moral. É, de longe, a personagem mais maléfica dos últimos tempos. Pra ajudar, a garota se gaba de possuir o intelecto mais apurado da família, o decline a cultura mais observável, em contraste com a jovem irmã que sai de cena logo no segundo episódio. Veda reage à mãe com uma dose extra de cinismo, se comportando realmente como gente grande, como mulher desvirginada, ratazana de coluna social. Enche o pulmão e grita coisas que ninguém teria coragem de dizer a mãe, aos onze anos modula uma cara de deboche, acende um cigarro e deflagra a fumaça na cara de Mildred. Quando foi que você decidiu que sua rival seria a pessoa que mais te ama? Como que o mundo parou de girar e foi focar em torno de suas vontades e decisões?



Bom, Mildred sendo uma cozinheira exemplar, consegue montar seu próprio negócio, uma rede de restaurantes. Isso com a ajuda do amigo do ex-marido, o asqueroso Wally Burgan, com quem Mildred mantém relações sexuais sem nenhum tipo de afeto: Sexo por sexo e só. Anos 30, gente. Mais tarde, Mildred conhece Monty Beragon (Guy Pearce, segurando as pontas), ainda quando seu negócio engatinhava e trabalhava de garçonete. Monty é o tipo solteirão, bonito e rico que traça qualquer uma que vê pela frente. Mildred torna-se sua vassala, pagando suas contas com o dinheiro advindo de seu negócio que começa a fazer enorme sucesso na cidade dos anjos.

Entre o terceiro e o quarto episódio, passam-se 10 anos e Veda toma a forma da belíssima Evan Rachel Wood. O que parecia impossível se torna um deleite aos olhos de qualquer apreciador dessa arte. Ver a batalha entre Winslet e Wood é de deixar qualquer um com os nervos à flor da pele, destaque para a cena final.



Seria Veda uma potencialista de um possível psicopatismo dominado pela inveja que sente da própria mãe? Pra que tanta passividade em Mildred, que prefere resolver as coisas botando panos quentes, inocentando a filha, impedindo-a de levar seus tapas na cara? O medo que Mildred sente da filha é quase que um cristal em situação mortal: Suas repulsas a filha são monitoradas, contadas no relógio, ela sempre se rende a sua condição, a de mãe. Leia-se, meu bem, com quantos paus se faz uma canoa? Com 20? Trinta? Entenda, com um deles eu destruo toda sua trajetória. Veda é o pau podre da canoa da mãe, e sem esse ela não teria como continuar. Seu destino estava fadado ao controle da filha perversa e imoral.

Kate Winslet venceu todos os prêmios a que foi indicada: Globo de Ouro, Emmy, etc. mais uma vez, Kate prova que uma das atrizes mais invejáveis da atualidade e que seu potencial de se despir de qualquer tipo de vaidade e de emocionar com um simples “olá” ainda continua em alta. Sem Kate Winslet, dificilmente, essa obra seria tão marcante.



Graças a Haynes, que introduz um roteiro bastante amargo, mas sem ser apelativo, e ao elenco competente, que ainda tem Melissa Leo, como a vizinha xereta de Mildred, a obra despontou como um dos melhores trabalhos feitos para televisão no último ano. O destaque e os aplausos são muito mais do que merecidos.



Entretanto, gostaria de deixar uma reflexão final e emendá-la com o início do texto. Relações masoquistas entre mães e filhas, pais e filhos, já foram retratados outras vezes no Cinema, não é novidade pra ninguém a que ponto pode chegar o ser humano mesmo diante de seus pais. A questão é a seguinte: Veda sendo a psicopata que é, encorpada de toda a certeza de sofrimento que deve infligir à mãe, teria salvação num mundo cristão? Seria possível introduzir o mínimo de arrependimento, verdade e dignidade numa pessoa desprovida de qualquer sentimento realmente bom? Veda moveu montanhas só pra ver a mãe despedaçada. Se ela não tivesse nenhum talento, nenhum estudo, mas sua mãe estivesse no fundo do poço, seu triunfo pessoal ainda seria imenso.

3 comentários:

  1. James M. Cain se tornou um dos meus autores prediletos. Mildred Pierce me encanta em muitas formas. Embora eu não tenha concordado com algumas percepções suas em cima das protagonistas, gostei da leitura que você fez da série como um todo.

    Deverias também assistir ao filme de Joan Crawford para não só comparar as adaptações como também comentá-las por aqui, fiquei instigado a ler. O filme de 1945 tem uma abordagem muito diferente desta minissérie. Subitamente, pode parecer que são até histórias diferentes. Isso se deve ao filme ser um Noir e essa minissérie ter muitas tendências ao melodrama, Haynes adora, inclusive! E ele é até mais fiel ao livro.

    Tenho em pdf, se precisar! =)

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    1. Adoraria ler o livro, Syl.
      E obrigado por compartilhar suas impressões no blog.

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  2. PS: Há algo de errado com o meu teclado que me fez apagar duas vezes e repostar o comentário!

    Desculpe! haha

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