segunda-feira, 27 de junho de 2011

Brasil, esquentai vossos pandeiros. (Crítica: Central do Brasil / 1998)


Josué,


faz muito tempo que não mando uma carta pra alguém, agora estou mandando esta carta pra você. Você tem razão, seu pai ainda vai aparecer aí e com certeza ele é tudo aquilo que você diz que ele é. Eu lembro do meu pai me levando na locomotiva que ele dirigia. Ele deixou eu, uma menininha, dar o apito do trem a viajem inteira. Quando você estiver cruzando as estradas, no seu caminhão enorme, eu espero que você lembre que fui eu a primeira pessoa a te fazer pôr a mão num volante.Também vai ser melhor pra você ficar aí com seus irmãos, você merece muito, muito mais do que eu tenho pra te dar. No dia que você quiser lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo isso porque tenho medo, que um dia, você também me esqueça.

Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade de tudo.


Dora.



E realmente o Tio Sam dessa vez só olhou a nossa batucada. O primeiro filme nacional que vou falar no blog talvez seja um dos mais festejados filmes já feitos em território brasileiro. Central do Brasil (1998. Brasil) não marcou só a consagração de Fernanda Montenegro ao se tornar a primeira atriz latino-americana a ser indicada para o Oscar nem o ressurgimento do Cinema Brasileiro, apesar de que, isso é de extrema relevância. Porém, acredito que a principal conquista foi o reconhecimento da arte cinematográfica brasileira, a possibilidade de fazer uma obra de qualidade inquestionável num país em que a arte de se fazer cinema não é nem um pouco tradicional, de fato, não está em nosso cerne cultural como está no dia a dia dos americanos e ingleses.

Como disse anteriormente, Central do Brasil também marca o ressurgimento do Cinema Nacional, depois de um período pobre no quesito cinematográfico, agravado pelos anos Collor, o Brasil se viu novamente (afinal, já tinha seu cinema reconhecido nos anos 60 e 70) como uma das grandes potências culturais do mundo. Essa obra de Walter Salles abriu as portas para grandes filmes brasileiros, que a partir desse momento passaram a ser financiados e patrocinados mais facilmente. Tenho em mente, que todas essas conquistas para o cinema nacional, se devem, claro, ao reconhecimento de Central do Brasil nos grandes festivais de cinema da Europa e dos EUA. Primeiro ao vencer os prêmios de melhor filme e melhor atriz no Festival de Berlim, segundo com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e, por último, com as indicações conquistadas ao Oscar. Walter Salles e Fernando Meirelles são, sem dúvida, os grandes mentores dessa nova era do Cinema Brasileiro.



Central do Brasil foi escrito e dirigido pelo carioca Walter Salles (na construção do roteiro teve ajuda de mais dois grandes colaboradores da arte audiovisual nacional: João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein). Nessa singular obra, Walter tentou imprimir uma verdadeira odisseia no que se trata do destino das personagens. É uma história belíssima que merece ser vista por todos nós e, ainda, dá um grande sentimento de orgulho de ser brasileiro.

Dora (Fernanda Montenegro, não existem palavras para descrever seu trabalho) é uma professora aposentada que trabalha por conta própria na maior estação de trens do Brasil: a Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Lá ela escreve pequenas cartas (as quais expressavam o máximo de sentimentos originários da distância) para analfabetos e como praxe do trabalho prometia enviá-las aos devidos destinatários. Porém, Dora é uma pessoa sem ética, sem valores, que pensa apenas no seu próprio sustento e bem estar. Todas as cartas são jogadas no lixo ou engavetadas por algum motivo que não sabemos o qual. Num dia, uma mulher e um menino chegam até Dora a fim de usar do serviço de escritora da mesma, a carta seria ao suposto pai do menino. Dora faz o serviço e logo abstrai qualquer envolvimento com aquela história, portanto, o menino e a mãe vão embora. Agora começa a sublime história que Walter Salles quer contar. No mesmo dia, Dora, que está indo embora para casa, encontra aquele mesmo menino abandonado na estação. A criança conta que a mãe foi atropelada e o deixaram ali abandonado. Dora pensa, repensa, e num lapso de uma pessoa que talvez não fosse ela, acaba por levar o menino para sua casa. Dora assume a responsabilidade de levar o menino até o pai no sertão pernambucano.



O menino é Josué, interpretado pelo, na época, novato Vinicius de Oliveira. Salles encontrou Vinicius pela primeira vez num aeroporto do Rio de Janeiro trabalhando como engraxate, após uma breve conversa com o garoto, Salles o chamou para fazer o filme. O papel dessa criança no “Road-movie” de Salles é o centro da história, não se engane achando que é uma simples historinha de procura por parentes distantes. Não é. Chamar de história parece até muito infantil. É, na verdade, uma celebração do nascimento de dois sentimentos e duas vidas até então desconhecidas, para um talvez cedo demais, para o outro talvez tarde demais. Aqui está a prova que nunca e tarde demais.

Dora consiste em ser uma mulher amargurada, triste, dura, mas que vai crescendo cada dia em todos os momentos que compartilha com o garoto. É uma jornada de auto-descoberta para Dora, na qual viajamos juntos e nos emocionamos a cada passo desse roteiro magnífico. Ao longo da construção dessa amizade entre os dois, o diretor vai mostrando as carências materiais do Brasil, parece o caminho inverso de um retirante nordestino (talvez seja), mas uma carência repleta de sentimentalismo e alegria. A miséria, a pobreza e a falta de letramento não vêm para justificar cenas lindas, fotografia exímia, mas, no fundo, trata-se muito mais de uma crítica leve, pois nada substituí o amor ao próximo. É um garoto de 10 anos quem vai ensinar os valores àquela mulher de mais de 60.



Central do Brasil é uma linda fábula que não precisa de nenhum comprovante para saber que é real. Nós, brasileiros, sabemos o quanto sofre um órfão, um analfabeto, um coração de pedra, um nordestino, um coração em busca de calor.

Dora e Josué representam os brasileiros(sem ser piegas), representam a luta, a persistência e os sonhos dessa gente que cai, levanta, cai, cai mais um pouco, e talvez nunca levante. O filme tira lágrimas incessantes dos nossos olhos, a cena final em que Dora dentro de um ônibus, voltando para o Rio de Janeiro sem se despedir de Josué, e de fundo fica a voz da personagem recitando as palavras da carta encontrada no começo desse texto é quase que um massacre imposto ao nosso coração. A montagem feita é inacreditavelmente linda.

É injusto não falar pelo menos duas linhas do trabalho da atriz Fernanda Montenegro. Dama do teatro brasileiro, Fernanda faz aqui o seu melhor desempenho. No começo do longa é uma pessoa repudiante e que vai conquistando nosso carisma e, por fim, nossa pena. Dificilmente Walter Salles teria os resultados obtidos com seu filme se Fernanda Montenegro não estivesse envolvida nesse projeto. Como já disse acima, Fernanda foi reconhecida com diversos prêmios e indicações dos maiores festivais cinematográficos do mundo, perder o Oscar para Gwyneth Paltrow foi uma tremenda injustiça, e não é por eu ser brasileiro (juro que não), até porque sou apaixonado por “Shakespeare In Love”, mas se deve ao fato de Fernanda ter se entregado muito mais num papel que exigiu muito mais. Simples e coerente assim.



Se você, brasileiro, australiano, nigeriano, finlandês ou o que seja nunca viu Central do Brasil, acredito convictamente que você esteja perdendo a beleza que é o nascimento de uma relação de cumplicidade e afeto, à sua própria edificação como ser humano e, claro, um grande trabalho, de um grande diretor, de uma grande atriz. De um grande país. Brasil, esquentai vossos pandeiros que nós queremos sambar.

4 comentários:

  1. Impecável guzinho.
    Muito lindo texto, muito boa escolha.
    Parabéns.
    Blog cada dia melhor.

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  2. Realmente LINDO, emocionante!

    Dá orgulho ler uma coisa dessas, Gustavo!

    AMEI, parabéns!

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  3. Especialmente sensível, e bem articulado como sempre!
    Me mata de orgulho meeesmo!!

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  4. No começo do semestre, eu te mandei o meu material antigo de bioinorgânica, só para te ajudar, alguns meses depois, você resolveu comprar a dor dos outros e resolveu praticar linchamento virtual no grupo de duvidas do CAFAR, você não esperou nem o semestre acabar para se voltar contra mim. Me desculpa por ter te mandado o meu material antigo só para te ajudar, eu já deveria saber que você não presta.

    Eu vou te contar na treta que você se meteu, a 3 anos atrás a Gabriela Santana Andrade viu que iria ficar reprovada em analítica 1. Teve uma semana que eu peguei um resfriado muito forte, eu cheguei a ficar com febre, então como a Gabriela não podia descontar a raiva dela na professora de analítica 1, a Gabriela resolveu descontar a raiva dela em mim, que estava doente. A Gabriela mandou a amiga dela do curso de pedagogia chamada Ana Beatriz Procession Guimarães entrar no grupo de analítica 1 se passando por uma tal de Simone. Naquele dia a Gabriela e a “Simone” ficaram me humilhando por causa de iniciação científica no grupo de analítica 1. A Gabriela ficou compartilhando com os amigos da atlética de farmácia, um áudio de eu tossindo e gritando que eu estava doente Gabriela. Foi nesse tipo de treta que você se meteu. Você é igualzinha a Ana Beatriz Procession Guimarães, você fica se metendo em problemas, que não são seus.

    Eu sei tudo sobre você, eu achei o perfil no Instagram e no Linkedin:

    https://www.instagram.com/karollina_04/

     

    https://br.linkedin.com/in/ana-karollina-1a0233349

     

    Mas você também amiga da Beatriz Ribeiro de Oliveira, que é incapaz de passar em qualquer disciplina sem colar na prova, a Beatriz Ribeiro de Oliveira fica falando na faculdade para todo mundo ouvir que escondeu a cola da professora, ela falou tão mal da Lages, rodou todos os professores de química orgânica e só consegui passar em orgânica 1 graças a Lages agora a Beatriz está falando bem da Lages, a Beatriz inclusive publicou esse artigo científico:

     

    https://www.mdpi.com/2072-6643/17/17/2763

     

    É isso o que acontece com quem cola na prova e fala mal dos outros, publica um artigo científico. A Beatriz Ribeiro de Oliveira representa tudo o que há de errado na faculdade, ela é a prova que vale a pena colar na prova, ela é a prova que a coordenação da farmácia da UFRJ fecha os olhos para quem cola na prova, ela fica se fazendo de santa, mas no fundo ela não presta. Eu sinto vergonha de ser obrigado a ser da mesma turma de um ser tão desprezível como a Beatriz Ribeiro de Oliveira.

     

     

    Pode mandar o seu amigo o Guilherme de Sousa Barbosa que me ameaçou mesmo sem eu ter feito nada contra ele, me matar. Manda o Guilherme de Sousa Barbosa aparecer na boca de fumo que tem aqui perto de casa e mandar os traficantes me matar, aqui do lado da minha casa funciona um ferro velho clandestino que fornece material furtado para os traficantes construírem barricadas.

     

    Eu não tenho nada a perder, a vida é boa para quem faz iniciação científica, para quem não faz só resta à morte. Eu não vou perder a minha bolsa de iniciação científica.

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