Solidariedade é o amor em movimento
Falar que Sandra Bullock não é uma das figuras mais carismáticas do cenário mundial soaria como uma grande mentira e, de fato, seria mesmo. Seria mentira e hipocrisia minha dizer que a artista não merece todo o reconhecimento que tem como comediante e, agora, como atriz dramática, vide Tão Forte e Tão Perto (2011) de Stephen Daldry, um dos diretores mais sensíveis e certeiros da atual cena, e que, com certeza, ajudou Sandra Bullock a passar uma espessa camada de concreto em sua posição de “pau pra toda obra”. É só chamar que ela vai mesmo. A estrela de outros tantos sucessos como o duplo de Miss Simpatia e o charmoso Crash (2005), vencedor do Oscar de melhor Filme, já é uma das grandes atrizes de sua época, soe isso exagero ou não.
Figura comum, de beleza firme e séria, Sandra Bullock começou sua carreira de maneira tímida, não foi a comédia que celebrou a atriz pela primeira vez, essa viria depois de Velocidade Máxima (1994), onde Sandra começou finalmente a pesar no nome das produções. Ela é dessas mulheres que estão sempre em voga, mesmo depois de muito tempo sem ver Sandra Bullock, o retorno parece uma visita a casa da tia engraçada, bêbada e solteirona.
Mas, grandes estrelas causam grandes expectativas e, para Bullock não foi diferente. Aonde ela provava ser exímia na arte de provocar risos, do outro lado parecia temer o drama. As colaborações em filmes dramáticos sempre foram muito pequenas. Era como ver e não ver Sandra Bullock. Quando surgiu o convite para Um Sonho Possível (The Blind Side, EUA. 2009), Sandra teve a oportunidade de mostrar esse outro lado. Agora ela era protagonista de uma produção dramática.
Deixarei as impressões quanto ao trabalho da atriz ainda em secreto. Vamos ao filme.
Se naquele tempo, naquele local, amor tivesse nome, ele seria Leigh Anne Tuohy, a personagem de Bullock. Uma mulher rica, que carrega a profissão de decoradora bem mais como um passatempo, “o arejar das atividades cotidianas: coordenar empregados, fazer o supermercado, buscar os filhos na escola, tomar vinho francês com o casal de vizinhos tão bem-sucedidos quanto eu e meu marido”. Mas não, não é bem assim. Leigh Anne tinha tudo pra ser a mulher mais fútil do mundo, e é, só que com uma pitada bem generosa de bondade. Ela é o que a Carminha mente que é: religiosa, caridosa, amorosa. Só que é mesmo.
Do outro lado temos um garoto obeso, negro e pobre, filho de uma mãe viciada, que não dá a mínima pro filho. Michael Oher, o Big Mike, nunca soube o que era ter uma casa, vivia passeando por lares adotivos, nunca criando vínculo algum com quem quer que fosse. Era um ser sozinho, uma rocha viva, pulsando os mais incalculáveis traumas. Às vezes, me lembra a Precious, mas numa versão bem mais light e feliz.
Os caminhos dos dois se cruzam quando Big Mike passa a estudar na mesma escola que o filho de Leigh Anne. Como ele foi parar lá? Michael sempre foi muito forte e tinha o biotipo ideal pra um jogador de futebol americano, mas, ainda assim, era só força, algo que ainda precisaria de muita lapidação. Enfim, devido ao físico de Michael, o pai adotivo dele consegue colocar ele na escola, que via em Michael, apesar das notas pouco atraentes, a chance de algumas vitórias esportivas.
Sem ter pra onde ir, ou o que comer, as coisas começaram a ficar difíceis para Michael, que passou a vagar pelas ruas no arredor do colégio. Num dia desses, seu destino bate de frente com o da família Tuohy. Quando vê o menino na estrada, aparentemente com fome e com frio, Leigh Anne só pensa na possibilidade de lhe dar o que comer e onde dormir. Os Tuohy, então, o acolhem, dão comida, quarto, roupa lavada, escola e toda a força que terá de vir para que Michael supere todos os seus traumas. E é esporte que faz isso. Não só unir uma nova família em busca de um objetivo, mas reunir suas forças para mostrar que um sonho sempre é possível.
O futebol americano traz a metáfora para o título original do filme, uma complicação que não ouso explicar. Mas, é através desse esporte e com o apoio dessa nova família, que Michael Oher vai superar todos os seus medos e angústias e, sempre sob a ordem da família cristã, vencer na vida.
A direção de John Lee Hancock me surpreendeu, principalmente quando não “meteu o pé” na faceta melodramática da história, prevenindo-a de um tom piegas. Outro que surpreende é o jovem Quinton Aaron, intérprete de Big Mike, usando todo o seu tamanho para nos assustar e toda sua ternura pra nos resgatar.
Mas o filme só tem um nome e só serviu pra uma única coisa, render um belo Oscar de Melhor Atriz para Sandra Bullock. Sandra está ótima, confortável no papel, agradável como sempre, mas também não passa disso. Não sufoca espectadores, não os toca tão profundamente, não abre grandes sorrisos de admiração, mas caminha com um pezinho na frente do outro, uma piscadela escondida numa virada rápida e imperceptível, um sorriso solidário entre uma foto e outra. Assim, Sandra Bullock enche o papo de muitas de nossas galinhas e, quando chega ao final do filme, ganha um consentimento maduro de mais um admirador inconfesso.
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domingo, 30 de setembro de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Strawberry Fields Para Sempre (Crítica: Educação / 2009)
“Mais cedo ou mais tarde, a teoria sempre acaba assassinada pela experiência.” (Albert Einstein)
Caminhos servem para serem trilhados. Escolhas são, mais do que fruto de devaneios, caminhos a serem trilhados. Quem passa incólume pelas escolhas, dificilmente cria experiência. Quem nega caminhos, improvavelmente lembra-se da vida que levou. Experiência é, inegavelmente, fruto dos nossos erros. Às vezes, e na maioria delas, traz sofrimento, culpa, arrependimento.
Educação (An Education, Inglaterra. 2009), dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig (recém-saída do Dogma 95, o mesmo que Lars Von Trier ajudou a criar), promove uma semi-discussão sobre as escolhas da vida e como elas podem afetar na construção moral de um ser humano. Através da contraposição entre educação, essa que é ensinada dentro de escolas, e experiência, adquirida da vivência humana, o longa espreme no espectador uma experiência catastrófica para uma menina de 16 anos no início da década de 1960.
Muitos dizem que o longa não insere nada de novo a esse tipo de discussão, já que o tema vem sendo pormenorizado pelo Cinema há muitos anos. Mas, é clara a diferença que existe entre esse filme e os tantos outros que se propuseram a discutir o papel feminino na década que iria revolucionar a vida da mulher dentro de uma sociedade, até então, machista. Essa diferença não reside só em preparações técnicas de cinema de primeira, como o exuberante figurino e a estonteante fotografia, mas também por se tratar do melhor roteiro de um dos grandes escritores das últimas décadas, Nick Hornby, o mesmo de Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). Dessa vez, Hornby adapta das memórias da jornalista inglesa Lynn Harber, um roteiro direto, pleno e, sem dúvida, sua melhor parceria com a sétima arte.
Jenny (Carey Mulligan, sensacional) é a menina de 16 anos que ficará indecisa entre dois distintos modos de vida. O primeiro trata-se da educação, mais pura e gradual que pode existir. Seu pai, interpretado pelo sempre competente Alfred Molina, impõe sobre a garota uma educação rígida, em que Jenny tem que ter as melhores notas da sala, para tentar pleitear uma vaga em Oxford, o lugar que Jenny enxerga como ideal. O segundo, vem na forma um homem mais velho, David, que ganha vida através do talento sempre esnobado de Peter Sarsgaard.
Vale lembrar que o pai de Jenny, apesar de ser muito rigoroso quanto aos estudos da filha, nunca impediu que ela fizesse nada, tanto é que quando a jovem conhece David, os pais de Jenny logo se encantam pela majestosa presença do rapaz. David chega na vida de Jenny como a promessa de uma vida diferente da qual ela levaria, caso continuasse se dedicando fervorosamente aos estudos, já que em nenhum momento ele é dispensado, apenas é tratado com menos importância, conforme a menina vai se rendendo aos encantos de David, ou melhor, aos encantos da vida que David lhe proporciona.
David é o desejável bon vivant. Dono de uma cultura extensa, que vai desde conhecimento da Antiguidade Clássica até o ainda desconhecido rock "yeah yeah yeah", mais tarde traduzido pelos Beatles, frequentador de cafés famosos, restaurantes caros e teatros particulares, David vai conquistando Jenny sem nenhum esforço. A menina que já era fascinada pela cultura francesa, por música clássica, por roupas finas, se rende a essa explosão atômica que passa a dar rumo a sua vida. Os estudos estão cada vez mais esquecidos, só a presença, sem nenhuma ideia construtiva, vai concretizando a vida acadêmica de Jenny. A educação passa a ser um investimento a longo prazo, enquanto um homem rico pode surpreender suas espectativas quanto a vida.
É certo que alguns atores foram muito mal aproveitados nessa película, como é o caso da veterana Emma Thompson, que surge como a diretora da escola que Jenny estuda. Ameaçando uma singela revolução aos costumes dentro da escola, Jenny encontra na diretora um empecilho feroz ao abandono da educação como prioridade da vida da mulher inglesa. O filme ainda traz Dominic Cooper e Rosamund Pike como os amigos de David que ajudarão Jenny na abdução ao novo estilo de vida.
É notável a mão leve da diretora ao traduzir uma história que podia cair facilmente no melodramático. Ao contrário disso, a diretora impõe um ritmo próprio ao longa, impedindo que a história fique tão blasé, como tem nomeou a crítica especializa na época de estreia do filme. Mesmo sendo reconhecido com várias indicações a diversos prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Filme, a crítica insiste em diminuir a obra sem nenhum por que. O filme tem sim seus méritos e muito grandes por sinal, como é o caso do trabalho espetacular dos atores.
A novata (na época) Carey Mulligan impressionou o mundo com o retrato forte e inteligente dessa garota, que mesmo aliada a uma educação nata, deixou-se levar pela lábia fina de um homem culto. E aqui se encontra os dois lados da educação primorosa: enganar e ensinar. Mulligan, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e perdeu injustamente para Sandra Bullock naquele ano, é considerada, hoje, uma das atrizes mais promissoras do mundo, já que está envolvida em grandes trabalhos, com grandes atores e grandes diretores. Peter Sarsgaard não fica atrás, e a cada papel mostra mais um pouco de seu talento, que até agora custa a ser reconhecido pelas grandes premiações.
Os limites de bom senso da personagem parecem todo tempo transponíveis, é como se o preço de ser enganada valesse diante da vivência que ela se entregava. O final, embora um pouco previsível, reflete bastante essa segurança que a personagem de Carey parecia passar a cada cena, a cada diálogo, apesar de tudo ela sabia seu fim e o desejava, talvez como uma nova versão de uma feminista. Outro grande suporte das emoções dos personagens está na fotografia, que encontrou nas cores cruas uma solidez causticante ao produto final, permitindo uma dose infinita de paixão e crueldade aos atos impensáveis dessas criaturas humanas.
A direção de arte do filme também é outro espetáculo a parte, que junto com o elenco magistral, promove uma experiência no mínimo reflexiva ao espectador. Acho muito cruel rebaixar Educação ao posto de grande vilão da inteligência humana. Não é todo mundo que planta cinema, às vezes, essa pode ser a primeira experiência de um espectador quanto ao tema. Por isso, deve sim, ser respeitado e divulgado como uma obra memorável.
Caminhos servem para serem trilhados. Escolhas são, mais do que fruto de devaneios, caminhos a serem trilhados. Quem passa incólume pelas escolhas, dificilmente cria experiência. Quem nega caminhos, improvavelmente lembra-se da vida que levou. Experiência é, inegavelmente, fruto dos nossos erros. Às vezes, e na maioria delas, traz sofrimento, culpa, arrependimento.
Educação (An Education, Inglaterra. 2009), dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig (recém-saída do Dogma 95, o mesmo que Lars Von Trier ajudou a criar), promove uma semi-discussão sobre as escolhas da vida e como elas podem afetar na construção moral de um ser humano. Através da contraposição entre educação, essa que é ensinada dentro de escolas, e experiência, adquirida da vivência humana, o longa espreme no espectador uma experiência catastrófica para uma menina de 16 anos no início da década de 1960.
Muitos dizem que o longa não insere nada de novo a esse tipo de discussão, já que o tema vem sendo pormenorizado pelo Cinema há muitos anos. Mas, é clara a diferença que existe entre esse filme e os tantos outros que se propuseram a discutir o papel feminino na década que iria revolucionar a vida da mulher dentro de uma sociedade, até então, machista. Essa diferença não reside só em preparações técnicas de cinema de primeira, como o exuberante figurino e a estonteante fotografia, mas também por se tratar do melhor roteiro de um dos grandes escritores das últimas décadas, Nick Hornby, o mesmo de Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). Dessa vez, Hornby adapta das memórias da jornalista inglesa Lynn Harber, um roteiro direto, pleno e, sem dúvida, sua melhor parceria com a sétima arte.
Jenny (Carey Mulligan, sensacional) é a menina de 16 anos que ficará indecisa entre dois distintos modos de vida. O primeiro trata-se da educação, mais pura e gradual que pode existir. Seu pai, interpretado pelo sempre competente Alfred Molina, impõe sobre a garota uma educação rígida, em que Jenny tem que ter as melhores notas da sala, para tentar pleitear uma vaga em Oxford, o lugar que Jenny enxerga como ideal. O segundo, vem na forma um homem mais velho, David, que ganha vida através do talento sempre esnobado de Peter Sarsgaard.
Vale lembrar que o pai de Jenny, apesar de ser muito rigoroso quanto aos estudos da filha, nunca impediu que ela fizesse nada, tanto é que quando a jovem conhece David, os pais de Jenny logo se encantam pela majestosa presença do rapaz. David chega na vida de Jenny como a promessa de uma vida diferente da qual ela levaria, caso continuasse se dedicando fervorosamente aos estudos, já que em nenhum momento ele é dispensado, apenas é tratado com menos importância, conforme a menina vai se rendendo aos encantos de David, ou melhor, aos encantos da vida que David lhe proporciona.
David é o desejável bon vivant. Dono de uma cultura extensa, que vai desde conhecimento da Antiguidade Clássica até o ainda desconhecido rock "yeah yeah yeah", mais tarde traduzido pelos Beatles, frequentador de cafés famosos, restaurantes caros e teatros particulares, David vai conquistando Jenny sem nenhum esforço. A menina que já era fascinada pela cultura francesa, por música clássica, por roupas finas, se rende a essa explosão atômica que passa a dar rumo a sua vida. Os estudos estão cada vez mais esquecidos, só a presença, sem nenhuma ideia construtiva, vai concretizando a vida acadêmica de Jenny. A educação passa a ser um investimento a longo prazo, enquanto um homem rico pode surpreender suas espectativas quanto a vida.
É certo que alguns atores foram muito mal aproveitados nessa película, como é o caso da veterana Emma Thompson, que surge como a diretora da escola que Jenny estuda. Ameaçando uma singela revolução aos costumes dentro da escola, Jenny encontra na diretora um empecilho feroz ao abandono da educação como prioridade da vida da mulher inglesa. O filme ainda traz Dominic Cooper e Rosamund Pike como os amigos de David que ajudarão Jenny na abdução ao novo estilo de vida.
É notável a mão leve da diretora ao traduzir uma história que podia cair facilmente no melodramático. Ao contrário disso, a diretora impõe um ritmo próprio ao longa, impedindo que a história fique tão blasé, como tem nomeou a crítica especializa na época de estreia do filme. Mesmo sendo reconhecido com várias indicações a diversos prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Filme, a crítica insiste em diminuir a obra sem nenhum por que. O filme tem sim seus méritos e muito grandes por sinal, como é o caso do trabalho espetacular dos atores.
A novata (na época) Carey Mulligan impressionou o mundo com o retrato forte e inteligente dessa garota, que mesmo aliada a uma educação nata, deixou-se levar pela lábia fina de um homem culto. E aqui se encontra os dois lados da educação primorosa: enganar e ensinar. Mulligan, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e perdeu injustamente para Sandra Bullock naquele ano, é considerada, hoje, uma das atrizes mais promissoras do mundo, já que está envolvida em grandes trabalhos, com grandes atores e grandes diretores. Peter Sarsgaard não fica atrás, e a cada papel mostra mais um pouco de seu talento, que até agora custa a ser reconhecido pelas grandes premiações.
Os limites de bom senso da personagem parecem todo tempo transponíveis, é como se o preço de ser enganada valesse diante da vivência que ela se entregava. O final, embora um pouco previsível, reflete bastante essa segurança que a personagem de Carey parecia passar a cada cena, a cada diálogo, apesar de tudo ela sabia seu fim e o desejava, talvez como uma nova versão de uma feminista. Outro grande suporte das emoções dos personagens está na fotografia, que encontrou nas cores cruas uma solidez causticante ao produto final, permitindo uma dose infinita de paixão e crueldade aos atos impensáveis dessas criaturas humanas.
A direção de arte do filme também é outro espetáculo a parte, que junto com o elenco magistral, promove uma experiência no mínimo reflexiva ao espectador. Acho muito cruel rebaixar Educação ao posto de grande vilão da inteligência humana. Não é todo mundo que planta cinema, às vezes, essa pode ser a primeira experiência de um espectador quanto ao tema. Por isso, deve sim, ser respeitado e divulgado como uma obra memorável.
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Acostamento (Crítica: Direito de Amar / 2009)
"Ela simplesmente veio"

O que é preciso para se fazer Cinema? Um bocado de dinheiro junto a uma dose mínima de talento, seja ele em qualquer ramo da produção, e a colaboração de bons atores? Diga-se de passagem, um bom bocado de dinheiro. Foi assim que o estreante Tom Ford fez seu primeiro trabalho para o Cinema. Estilista respeitado por reerguer a Gucci, uma das marcas mais famosas do planeta, Ford decidiu navegar por novos mares, sim, o da grande tela. Deve ser pontuado que em seu primeiro trabalho, mesmo que recheado de uma visível inexperiência, o Sr. Ford não faz feio.
Porém, destaca-se em Direito de Amar (A Single Man. EUA, 2009) uma linha que não vai muito longe do que o diretor/estilista está acostumado a fazer. O que se prima nessa obra, apesar de trazer grandíssimas atuações e um roteiro até bem embasado, é a direção de arte. A história se passa em Los Angeles, que deveria ser ensolarada, enraizada de cores e vida, mas toda essa vibração parece ter sido sugada pela pele e os olhos de seus personagens depressivos, que desfilam em roupas sob medida e óculos que mascaram qualquer tipo de sentimento.

Ford escolheu adaptar para o Cinema a obra do britânico Christopher Isherwood, datada de 1964. O livro, na época, causou muita polêmica por contar a história de um dia do professor universitário homossexual, que perdeu seu companheiro de dezesseis anos. Não entendo por que o título não poderia ser “Um Homem Só”, preferiram ludibriar o espectador com um título que não mostra e muito menos prova alguma coisa. Porém, isso é normal e sempre devemos estar preparados para um título deprimente. Enfim, ainda acho que o título é e deveria ser a menina dos olhos de qualquer filme.

Bom, durante a projeção, acompanharemos um dia da vida do agora solitário George Falcones (interpretado pelo gentleman Colin Firth), como eu já disse, um professor universitário e homossexual, que luta todo os dias com a dor da perda de seu companheiro, interpretado pelo simpático Matthew Goode. Porém, assistiremos exatamente o dia que George decide pelo suicídio como forma de calar sua dor. Ainda teremos na película a companhia de coadjuvantes de luxo, como a única amiga de George, a também solitária Charley (a magnífica Julianne Moore), mas que apesar da solidão busca companhia no luxo e no álcool. Como forma de reviver algum tipo de sentimento e de dúvida, tangendo alguma nova chance na vida de George (tentativa de iludir o espectador), surge um de seus alunos, que se interessa pelo modo de vida do professor, após uma aula em que George esfrega a cara do medo e do preconceito perante sua sala. O aluno é interpretado por Nicholas Hoult, um dos adolescentes do cultuado Skins (britânico).

O roteiro não tem muito segredo. O desafio de Tom Ford fica por conta de tentar transmitir os sentimentos de seu protagonista além da tela. Senão fosse a brilhante atuação relativamente contida de Colin Firth isso teria sido muito mais difícil, mesmo assim, ator nenhum faz milagre sozinho.
Tom Ford preocupou-se tanto com a estética de sua obra que acabou dando margem pra alguns recursos um tanto baratos, como o uso de flashbacks primários, em horas inoportunas, na tentativa de explicar um pouco da relação entre George e Jim, o companheiro morto em um acidente de carro. Nesse âmbito, fica difícil exprimir o tanto de sentimentalismo que essa obra necessitava. Afinal, o buraco era muito mais embaixo. A história é bela e delicada, mas falta uma mão mais forte na direção, que não tente apelar tanto para a beleza geral da obra, que parece mais um desfile de moda do que com uma obra cinematográfica. Agora, vou parecer um tanto contraditório e peço que vocês tentem me entender. É uma delícia ver aquele tanto de pessoas bonitas na tela, com olhos azuis explodindo atenção, ternos adequadíssimos, gravatas com nós perfeitos, blusas, cabelos e maquiagem irretocáveis, porém, isso não é Cinema. Cinema vai muito além de uma direção de arte fabulosa. Acho que se fosse um Mike Nichols na direção, que consegue exprimir cada sensação e transpor ao importante espectador, aí sim, o filme seria um estouro.

Fora esse problema, que não é tanto um problema, a trilha sonora, embora belíssima, também pesa na cabeça do espectador, poderia ter sido usada com mais afinco, com mais percepção dos personagens, dos singulares momentos de cada um.
O filme ainda que com esses problemas, continua bem acima da média. Isso se deve principalmente aos seus atores. Colin Firth prova que deve ser o mais genial ator de sua geração. A cena em que ele descobre a morte do companheiro é digna de aplausos, transmitindo os sentimentos aos poucos, jogando para o espectador cada pontada de sua dor, tudo paulatinamente. O inglês foi reconhecido com uma indicação ao Oscar e com um prêmio Bafta. Firth é um desses atores que surpreendem no gesto, no olhar e num simples caminhar.
Como eu já disse, o ator é acompanhado por um elenco de coadjuvantes no mínimo luxuoso. Julianne Moore que interpreta uma mulher de moral decadente e solidão em estágio avançado, brilha em apenas uma cena, na qual ela e Firth parecem dois gladiadores jogando as decepções e mágoas na cara do outro. Pra você ter uma ideia, a cena acaba com os dois dançando uma balada tipicamente luxuosa, como a cena e os dois atores devem ser definidos. Nicholas Hoult não deixa a peteca cair, também consegue ser pilar para Firth sem problema algum. O filme ainda trás Ginnifer Goodwin, uma dessas atrizes de comédia romântica, que vem crescendo em Hollywood.

Matthew Goode fica pouco em cena, mas consegue deixar impresso todo o seu carisma e a razão de todo o sofrimento de Colin Firth. Tom Ford se revela um bom diretor de atores, no final das contas.

Num filme onde a estética foi priorizada, não é surpresa que falhas aparecessem. Porém, são falhas que ao mesmo tempo se traduzem em qualidades. Não é errado ter uma encantadora fotografia, que encontra no bege a essência de todos os desafios das personagens, não, não é errado, mas tudo deve ser pensado, e o principal é a relação que o filme tem que estabelecer com quem o vê. Direito de Amar fica no meio do caminho. Te causa comoção, mas não faz rolar nenhuma lágrima, te causa apreensão, mas você vai no banheiro sem arrependimentos, te leva a viajar numa belíssima fotografia, mas o transporte quebra na beira da estrada.

O que é preciso para se fazer Cinema? Um bocado de dinheiro junto a uma dose mínima de talento, seja ele em qualquer ramo da produção, e a colaboração de bons atores? Diga-se de passagem, um bom bocado de dinheiro. Foi assim que o estreante Tom Ford fez seu primeiro trabalho para o Cinema. Estilista respeitado por reerguer a Gucci, uma das marcas mais famosas do planeta, Ford decidiu navegar por novos mares, sim, o da grande tela. Deve ser pontuado que em seu primeiro trabalho, mesmo que recheado de uma visível inexperiência, o Sr. Ford não faz feio.
Porém, destaca-se em Direito de Amar (A Single Man. EUA, 2009) uma linha que não vai muito longe do que o diretor/estilista está acostumado a fazer. O que se prima nessa obra, apesar de trazer grandíssimas atuações e um roteiro até bem embasado, é a direção de arte. A história se passa em Los Angeles, que deveria ser ensolarada, enraizada de cores e vida, mas toda essa vibração parece ter sido sugada pela pele e os olhos de seus personagens depressivos, que desfilam em roupas sob medida e óculos que mascaram qualquer tipo de sentimento.

Ford escolheu adaptar para o Cinema a obra do britânico Christopher Isherwood, datada de 1964. O livro, na época, causou muita polêmica por contar a história de um dia do professor universitário homossexual, que perdeu seu companheiro de dezesseis anos. Não entendo por que o título não poderia ser “Um Homem Só”, preferiram ludibriar o espectador com um título que não mostra e muito menos prova alguma coisa. Porém, isso é normal e sempre devemos estar preparados para um título deprimente. Enfim, ainda acho que o título é e deveria ser a menina dos olhos de qualquer filme.

Bom, durante a projeção, acompanharemos um dia da vida do agora solitário George Falcones (interpretado pelo gentleman Colin Firth), como eu já disse, um professor universitário e homossexual, que luta todo os dias com a dor da perda de seu companheiro, interpretado pelo simpático Matthew Goode. Porém, assistiremos exatamente o dia que George decide pelo suicídio como forma de calar sua dor. Ainda teremos na película a companhia de coadjuvantes de luxo, como a única amiga de George, a também solitária Charley (a magnífica Julianne Moore), mas que apesar da solidão busca companhia no luxo e no álcool. Como forma de reviver algum tipo de sentimento e de dúvida, tangendo alguma nova chance na vida de George (tentativa de iludir o espectador), surge um de seus alunos, que se interessa pelo modo de vida do professor, após uma aula em que George esfrega a cara do medo e do preconceito perante sua sala. O aluno é interpretado por Nicholas Hoult, um dos adolescentes do cultuado Skins (britânico).

O roteiro não tem muito segredo. O desafio de Tom Ford fica por conta de tentar transmitir os sentimentos de seu protagonista além da tela. Senão fosse a brilhante atuação relativamente contida de Colin Firth isso teria sido muito mais difícil, mesmo assim, ator nenhum faz milagre sozinho.
Tom Ford preocupou-se tanto com a estética de sua obra que acabou dando margem pra alguns recursos um tanto baratos, como o uso de flashbacks primários, em horas inoportunas, na tentativa de explicar um pouco da relação entre George e Jim, o companheiro morto em um acidente de carro. Nesse âmbito, fica difícil exprimir o tanto de sentimentalismo que essa obra necessitava. Afinal, o buraco era muito mais embaixo. A história é bela e delicada, mas falta uma mão mais forte na direção, que não tente apelar tanto para a beleza geral da obra, que parece mais um desfile de moda do que com uma obra cinematográfica. Agora, vou parecer um tanto contraditório e peço que vocês tentem me entender. É uma delícia ver aquele tanto de pessoas bonitas na tela, com olhos azuis explodindo atenção, ternos adequadíssimos, gravatas com nós perfeitos, blusas, cabelos e maquiagem irretocáveis, porém, isso não é Cinema. Cinema vai muito além de uma direção de arte fabulosa. Acho que se fosse um Mike Nichols na direção, que consegue exprimir cada sensação e transpor ao importante espectador, aí sim, o filme seria um estouro.

Fora esse problema, que não é tanto um problema, a trilha sonora, embora belíssima, também pesa na cabeça do espectador, poderia ter sido usada com mais afinco, com mais percepção dos personagens, dos singulares momentos de cada um.
O filme ainda que com esses problemas, continua bem acima da média. Isso se deve principalmente aos seus atores. Colin Firth prova que deve ser o mais genial ator de sua geração. A cena em que ele descobre a morte do companheiro é digna de aplausos, transmitindo os sentimentos aos poucos, jogando para o espectador cada pontada de sua dor, tudo paulatinamente. O inglês foi reconhecido com uma indicação ao Oscar e com um prêmio Bafta. Firth é um desses atores que surpreendem no gesto, no olhar e num simples caminhar.
Como eu já disse, o ator é acompanhado por um elenco de coadjuvantes no mínimo luxuoso. Julianne Moore que interpreta uma mulher de moral decadente e solidão em estágio avançado, brilha em apenas uma cena, na qual ela e Firth parecem dois gladiadores jogando as decepções e mágoas na cara do outro. Pra você ter uma ideia, a cena acaba com os dois dançando uma balada tipicamente luxuosa, como a cena e os dois atores devem ser definidos. Nicholas Hoult não deixa a peteca cair, também consegue ser pilar para Firth sem problema algum. O filme ainda trás Ginnifer Goodwin, uma dessas atrizes de comédia romântica, que vem crescendo em Hollywood.

Matthew Goode fica pouco em cena, mas consegue deixar impresso todo o seu carisma e a razão de todo o sofrimento de Colin Firth. Tom Ford se revela um bom diretor de atores, no final das contas.

Num filme onde a estética foi priorizada, não é surpresa que falhas aparecessem. Porém, são falhas que ao mesmo tempo se traduzem em qualidades. Não é errado ter uma encantadora fotografia, que encontra no bege a essência de todos os desafios das personagens, não, não é errado, mas tudo deve ser pensado, e o principal é a relação que o filme tem que estabelecer com quem o vê. Direito de Amar fica no meio do caminho. Te causa comoção, mas não faz rolar nenhuma lágrima, te causa apreensão, mas você vai no banheiro sem arrependimentos, te leva a viajar numa belíssima fotografia, mas o transporte quebra na beira da estrada.
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