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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Acostamento (Crítica: Direito de Amar / 2009)

"Ela simplesmente veio"



O que é preciso para se fazer Cinema? Um bocado de dinheiro junto a uma dose mínima de talento, seja ele em qualquer ramo da produção, e a colaboração de bons atores? Diga-se de passagem, um bom bocado de dinheiro. Foi assim que o estreante Tom Ford fez seu primeiro trabalho para o Cinema. Estilista respeitado por reerguer a Gucci, uma das marcas mais famosas do planeta, Ford decidiu navegar por novos mares, sim, o da grande tela. Deve ser pontuado que em seu primeiro trabalho, mesmo que recheado de uma visível inexperiência, o Sr. Ford não faz feio.

Porém, destaca-se em Direito de Amar (A Single Man. EUA, 2009) uma linha que não vai muito longe do que o diretor/estilista está acostumado a fazer. O que se prima nessa obra, apesar de trazer grandíssimas atuações e um roteiro até bem embasado, é a direção de arte. A história se passa em Los Angeles, que deveria ser ensolarada, enraizada de cores e vida, mas toda essa vibração parece ter sido sugada pela pele e os olhos de seus personagens depressivos, que desfilam em roupas sob medida e óculos que mascaram qualquer tipo de sentimento.



Ford escolheu adaptar para o Cinema a obra do britânico Christopher Isherwood, datada de 1964. O livro, na época, causou muita polêmica por contar a história de um dia do professor universitário homossexual, que perdeu seu companheiro de dezesseis anos. Não entendo por que o título não poderia ser “Um Homem Só”, preferiram ludibriar o espectador com um título que não mostra e muito menos prova alguma coisa. Porém, isso é normal e sempre devemos estar preparados para um título deprimente. Enfim, ainda acho que o título é e deveria ser a menina dos olhos de qualquer filme.



Bom, durante a projeção, acompanharemos um dia da vida do agora solitário George Falcones (interpretado pelo gentleman Colin Firth), como eu já disse, um professor universitário e homossexual, que luta todo os dias com a dor da perda de seu companheiro, interpretado pelo simpático Matthew Goode. Porém, assistiremos exatamente o dia que George decide pelo suicídio como forma de calar sua dor. Ainda teremos na película a companhia de coadjuvantes de luxo, como a única amiga de George, a também solitária Charley (a magnífica Julianne Moore), mas que apesar da solidão busca companhia no luxo e no álcool. Como forma de reviver algum tipo de sentimento e de dúvida, tangendo alguma nova chance na vida de George (tentativa de iludir o espectador), surge um de seus alunos, que se interessa pelo modo de vida do professor, após uma aula em que George esfrega a cara do medo e do preconceito perante sua sala. O aluno é interpretado por Nicholas Hoult, um dos adolescentes do cultuado Skins (britânico).



O roteiro não tem muito segredo. O desafio de Tom Ford fica por conta de tentar transmitir os sentimentos de seu protagonista além da tela. Senão fosse a brilhante atuação relativamente contida de Colin Firth isso teria sido muito mais difícil, mesmo assim, ator nenhum faz milagre sozinho.

Tom Ford preocupou-se tanto com a estética de sua obra que acabou dando margem pra alguns recursos um tanto baratos, como o uso de flashbacks primários, em horas inoportunas, na tentativa de explicar um pouco da relação entre George e Jim, o companheiro morto em um acidente de carro. Nesse âmbito, fica difícil exprimir o tanto de sentimentalismo que essa obra necessitava. Afinal, o buraco era muito mais embaixo. A história é bela e delicada, mas falta uma mão mais forte na direção, que não tente apelar tanto para a beleza geral da obra, que parece mais um desfile de moda do que com uma obra cinematográfica. Agora, vou parecer um tanto contraditório e peço que vocês tentem me entender. É uma delícia ver aquele tanto de pessoas bonitas na tela, com olhos azuis explodindo atenção, ternos adequadíssimos, gravatas com nós perfeitos, blusas, cabelos e maquiagem irretocáveis, porém, isso não é Cinema. Cinema vai muito além de uma direção de arte fabulosa. Acho que se fosse um Mike Nichols na direção, que consegue exprimir cada sensação e transpor ao importante espectador, aí sim, o filme seria um estouro.



Fora esse problema, que não é tanto um problema, a trilha sonora, embora belíssima, também pesa na cabeça do espectador, poderia ter sido usada com mais afinco, com mais percepção dos personagens, dos singulares momentos de cada um.

O filme ainda que com esses problemas, continua bem acima da média. Isso se deve principalmente aos seus atores. Colin Firth prova que deve ser o mais genial ator de sua geração. A cena em que ele descobre a morte do companheiro é digna de aplausos, transmitindo os sentimentos aos poucos, jogando para o espectador cada pontada de sua dor, tudo paulatinamente. O inglês foi reconhecido com uma indicação ao Oscar e com um prêmio Bafta. Firth é um desses atores que surpreendem no gesto, no olhar e num simples caminhar.

Como eu já disse, o ator é acompanhado por um elenco de coadjuvantes no mínimo luxuoso. Julianne Moore que interpreta uma mulher de moral decadente e solidão em estágio avançado, brilha em apenas uma cena, na qual ela e Firth parecem dois gladiadores jogando as decepções e mágoas na cara do outro. Pra você ter uma ideia, a cena acaba com os dois dançando uma balada tipicamente luxuosa, como a cena e os dois atores devem ser definidos. Nicholas Hoult não deixa a peteca cair, também consegue ser pilar para Firth sem problema algum. O filme ainda trás Ginnifer Goodwin, uma dessas atrizes de comédia romântica, que vem crescendo em Hollywood.



Matthew Goode fica pouco em cena, mas consegue deixar impresso todo o seu carisma e a razão de todo o sofrimento de Colin Firth. Tom Ford se revela um bom diretor de atores, no final das contas.



Num filme onde a estética foi priorizada, não é surpresa que falhas aparecessem. Porém, são falhas que ao mesmo tempo se traduzem em qualidades. Não é errado ter uma encantadora fotografia, que encontra no bege a essência de todos os desafios das personagens, não, não é errado, mas tudo deve ser pensado, e o principal é a relação que o filme tem que estabelecer com quem o vê. Direito de Amar fica no meio do caminho. Te causa comoção, mas não faz rolar nenhuma lágrima, te causa apreensão, mas você vai no banheiro sem arrependimentos, te leva a viajar numa belíssima fotografia, mas o transporte quebra na beira da estrada.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Crescer ou não Crescer, eis a questão. (Crítica: Em Busca da Terra do Nunca / 2004)

Por mais que tenhamos perdido nossa inocência, o fulgor da nossa imaginação e a sensação de ser criança, nunca será tarde para reencontrar essas partes, por mais que pareça.
Escutei alguma vez, e talvez fosse eu mesmo quem me disse isso, que uma hora a gente tem que crescer. Será? Sim, adultizar é a grande ideologia da era moderna.
E porque digo isso, então? Simplesmente para dizer, logo em seguida, que eu irei contra tudo e contra todos. Minha criança agora renasce das cinzas, não como uma fênix, mas, como um capitão do mar, uma fada ou um menino voador.
E você, acredita em fadas?



Quem nunca ouvir falar de Peter Pan, o menino que não queria crescer, o guardião da terra das crianças felizes e descalças, da terra de fadas, crocodilos gigantes e vilões medonhos. Pois é, todo mundo sabe quem é o menino que voa. Peter Pan, escrito no início do último século, se tornou um dos grandes clássicos da literatura infantil e, cem anos depois de seu nascimento, ainda é constantemente adaptado para peças teatrais e vez ou outra para a grande tela do Cinema.

Já falei aqui o quão é complicada a adaptação de textos, sejam eles de peças de teatro ou simplesmente best-sellers, para o Cinema, então, não vou me aprofundar novamente nesse assunto. Vou-me ater ao que interessa: o filme da vez.

Marc Foster (diretor de A Última Ceia, filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz a Halle Berry) se juntou ao roteirista David Magee, que havia adaptado a história do nascimento do menino da terra do nunca de uma peça de Alan Knee, e filmou aquele que, em minha opinião, se tornou um dos filmes mais sensíveis e dramáticos no que diz respeito à mescla de realidade e fantasia. A construção é melancólica, cômica e piegas na medida certa. Na verdade, quase nunca é piegas.



Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland. Inglaterra/EUA, 2003) nasceu não a partir de Peter Pan, mas, de como o escritor J. M. Barrie chegou até o ponto de construção do personagem de sua vida. Como surge a ideia da Terra do Nunca? O que são fadas? Qual o sentido de viver numa terra onde ninguém envelhece e a regra principal é brincar e ser feliz? O filme te dará todas essas respostas, em menos de duas horas você saberá quem você foi e quem você quer ser.



J. M. Barrie (o ilustre criador do mundo Peter Pan e, aqui, interpretado por Johnny Depp) está numa fase conturbada da carreira: há tempos não escreve nada que o agrade tanto e que tenha uma boa recepção, vide que sua última peça foi um fracasso. Barrie começa a frequentar um parque na periferia de Londres, aonde supostamente ia para obter inspiração para escrever sua próxima peça. Numa dessa tardes, ele conhece Sylvia Davies (Kate Winslet) e seus quatro filhos.

Parada para explicação. Reza a lenda que os integrantes da família Davies foram os grandes responsáveis pelo nascimento da história de Peter Pan.

Sylvia é viúva e mora com a mãe (a veterana Julie Christie) e os quatro filhos. Barrie fica encantado com o mundo que aquelas crianças criam em suas brincadeiras e começa a estreitar os laços com os Davies. Mais tarde, as próprias crianças estarão tão dependentes de Barrie quanto ele estará delas.

Dessa forma, o mundo de Peter Pan foi criado. A direção da obra é magnífica ao proporcionar momentos de extrema beleza, como são as cenas em que todas as crianças, Barrie e Sylvia são transportados para dentro de uma suposta realidade fantasiosa que indica qual a diversão da vez: hora eles são piratas, em mar revolto e ameaçados pelo temível Capitão Gancho, hora eles são caubóis inseridos num western, hora são crianças em busca de um pai, hora é um homem em busca de identidade.



A criança que existe em Barrie se confronta o tempo todo com a realidade tangida pela obra, ou seja, Barrie tem que enfrentar situações que vão além do seu poder de resolução, como o ciúme da esposa em relação à Sylvia, a pressão do dono do teatro que deseja ver logo os lucros de seu investimento, a mãe de Sylvia, uma carrasca (que se redime ao longo da projeção) que não vê com bons olhos a dependência das crianças pelo escritor. Barrie é uma criança que só quer brincar. Brincar de escrever, brinca de trabalhar, brincar de ser pai, brincar de ser amigo.

Entre os filhos de Sylvia, Barrie encontrará dificuldades no relacionamento com Peter (o prodígio Freddie Highmore), devido à descrença que tomou conta do menino. Após a morte do pai, Peter deixou de acreditar no poder implícito que tem uma criança, tudo o que é fantasia o intriga, tudo que diz respeito a brincadeiras o incomoda. A promessa de que o pai voltaria da guerra não se cumpriu e constituiu-se num trauma. É em Peter que Barrie concentrará suas maiores ações, o garoto passa a ser o alter-ego do escritor, o começo, o meio e o fim de tudo. As cenas mais bonitas do longa estão na relação construída entre Barrie e Peter. A inversão dos papéis, já que a criança é Barrie e o adulto é Peter, regida por uma trilha sonora espetacular, rende momentos de lágrimas incontroláveis.



Os outros desenrolares da trama fica por conta do espectador, só posso prometer que a obra é de qualidade inquestionável e que o arrependimento só virá se o grande problema for chorar na frente dos outros.

Talvez eu ainda não tenha dito aqui, mas Johnny Depp nunca foi um dos meus atores preferidos, muito pelo contrário, tenho razões para achá-lo um péssimo ator. PORÉM, aqui se encontra uma exceção. Mesmo com suas caretas de paciente de dentista e as mudanças no tom de voz (que caíram muito bem ao personagem), Depp está pela primeira vez, em muitos anos, acima da média. Só tinha visto o ator tão bem no longínquo Edward - Mãos de Tesoura. Depp demonstrou grande capacidade de entrega e permanência de espírito no personagem, em nenhum momento há distrações ou ilusões de ótica. O ator não faz drama, mas não atrapalha quem sabe fazer, vide Kate Winslet, que dispensa qualquer tipo de comentário. Johnny Depp foi reconhecido pela Academia de Cinema norte-americana com uma indicação ao Oscar de Melhor Ator, assim como a obra também foi indicada ao pêmo máximo: Melhor Filme. Mas, como a vaca sempre vai para o brejo (pelo menos no caso de Depp), o destaque não é o ator preferido de Tim Burton. A grande força da obra fica no trabalho das quatro crianças Davies, principalmente a criança interpretada pelo jovem Freddie Highmore, o ator-mirim já conquista por sua carinha de abandonado e de criança prestes a chorar, que aliado ao seu talento, rende uma explosão de interpretação.

A direção de arte do filme também dá um show à parte. A reconstrução de Londres do início do século XX está perfeita e alegre, contribuindo na medida certa para a força do filme. Chega de Londres sombria, cinza, arrebatada pela Revolução Industrial. A Trilha Sonora venceu o prêmio máximo da categoria no Oscar, ou seja, também dispensa comentários.



Acho que a mensagem principal da obra fica também por conta de cada um. Todos sabemos o que é Peter Pan e qual o valor de sua ideia em nossas vidas. Em Busca da Terra do Nunca não é fantasia, não é ficção, mas, sim, um drama que aborda a perda da inocência frente aos avanços do sistema, que interferem a todo o momento em nossas ações e decisões, é um drama que baseia toda a ideia do que é felicidade num lugarzinho no meio do nada, em que pessoas podem voar com um pózinho mágico, fadas podem morrer há cada “eu não acredito em fadas”, adultos podem ser crianças (e acredite, essa é a mensagem), e tudo está dentro da nossa cabeça, dentro da única máquina que o sistema ainda não monopolizou. O lugar mais bonito para se viver consiste no lugar em que sua criança sairá do seu corpo e entrará na primeira ciranda de roda que ela gostar. Mesmo que esse lugar seja só o porão da sua casa.

Bem-vinda de volta, criança.

domingo, 11 de setembro de 2011

Lucy in the Sky (Crítica: Uma Lição de Amor / 2001)

Flores de celofane amarelas e verdes
Elevadas sobre a sua cabeça
Procure pela garota com o sol em seus olhos
E ela se foi

Lucy no céu com diamantes




É o terceiro post seguido em que tema é praticamente o mesmo. Deve ser o ar de Setembro. Não que me canse falar sobre amor, só acho que sei muito pouco sobre isso. Apesar de que, o amor se divide em múltiplas facetas dentro dele próprio, ou seja, não é e nem pode se tornar uma atividade redundante e cansativa. Mesmo no alto do meu comportamento leigo, permito-me tentar desvendar o único sentimento capaz de mover céus, terras e montanhas, mesmo que, quase sempre sem um resultado satisfatório.

No meu íntimo, vejo o amor sendo usado como pré-requisito para a construção de relações humanas mais estruturadas, solidárias e principalmente para a construção da ideia de um mundo melhor. Amor não deve ser pré-requisito. Afinal, amar é pedir demais? Creio que não. Ainda acho que loucos amam, psicopatas amam e tudo depende da incondicionalidade desse amor. Quanto mais você lapidar, mais você será um ser humano. Amar é simples, somos nós que complicamos tudo. Nós que (não sei por que motivo) insistimos em saber o que é melhor para o outro. Nós que entendemos que o bem do coletivo é essencial ao bem individual, sabemos que o coletivo só é possível com a individualidade preservada.

Um tema tão complexo, em que tudo beira a falta de nexo.

É fácil viver com os olhos fechados
Sem entender tudo o que você vê
Está ficando difícil ser alguém
Mas tudo se resolve




Falta de sentido é a última coisa que você verá em Uma Lição de Amor (I am Sam, EUA. 2001). Embora o título nacional seja bastante infantilóide, é exatamente isso que essa obra vem nos dar: uma lição absurda do que é amor. Tinha tudo para ser piegas, mas devido ao talentosíssimo elenco e ao roteiro muito bem trabalhado a história ficou comovente na medida certa. Não apela ao melodramático nem a tragicomédia. O filme consegue ser soberbo sem ultrapassar nenhuma dessas linhas tênues que configuram a temática da obra.

Despretensioso. O filme toca em várias feridas pulsantes que poderiam levar tudo por água abaixo. Afinal, temos uma história de retardo mental, de uma advogada fragilizada pela rasa relação que abastece dentro do âmbito familiar, o abandono inconsequente de uma criança, a relação entre pai e filha e a autonomia de instituições que se julgam capazes de definir o que é melhor para terceiros. O caminho a se trilhar é extremamente perigoso. São inúmeros os filmes que tendem a construir esse tipo de caminho, mas Uma Lição de Amor se sobressaí por mera qualidade. Faz chorar? Faz. Em cinco minutos de filme eu já estava em estado de emergência. Só que, ao mesmo tempo, um riso enviesado surge e mostra a especificidade dessa obra. Um tema tão denso, mas que conseguiu transpor uma leveza profunda no filme.

Sam Dawson (Sean Penn, melhor ator do mundo) teve que emprestar todo o seu talento e percepção para montar um homem deficiente mental, que se vê em dado momento da vida com uma filha nos braços. Como assim? Bom, vou tentar explicar. Sam engravidou uma mulher que vivia na rua e não tinha planos nenhum de casar ou até mesmo de ter filhos. No dia do parto da menina, a mulher desapareceu e Sam passou a cuidar da menina sozinha. Esses são os primeiros cinco minutos do filme a que me referi anteriormente. Devido a sua paixão por Beatles, Sam batiza a menina com nome Lucy (in the Sky with) Diamonds. A cena é fantástica, sob o som da mesma música, o pai vê a mãe da garota fugindo em meio a multidão, enquanto ele fica na porta de um ônibus com a menina no colo.



Em nenhum momento Lucy será um fardo para Sam. O que caracteriza essa relação é apenas o amor. Sam trabalha numa cafeteria, tendo uma função equivalente a sua condição mental, e é assim que ele sustenta Lucy. A menina vai crescendo e percebendo as dificuldades do pai, aos poucos ela entende que o pai não é normal. E isso, eu te garanto, é o menor problema de todos. Quando Lucy começa a perceber que está ficando mais inteligente que o pai, ela se recusa a aprender mais coisas. Por amor ao pai, ela decide que, com sete anos (a mesma idade mental de seu pai), tem que cessar com seu processo de amadurecimento intelectual e, assim, não ultrapassá-lo.

Nesse instante, surge a figura da assistente social, que julga que Sam não tem condições de continuar educando Lucy. A menina fica a cabo da justiça, enquanto seu pai inicia a impressão de uma via sacra para tentar recuperar a guarda da filha. Os amigos de Sam, todos com algum tipo de limitação, são os responsáveis por ajudá-lo. São eles também os responsáveis pela parte cômica da obra, como a linda cena dos balões e tomada da secretaria eletrônica. Dessa forma, Sam chega até a conceituada e estressada advogada Rita Harrison (a bela Michelle Pfeiffer). Rita, de início, não se sensibiliza nem ao menos se interessa pelo caso de Sam. Só após uma série de chacotas de seus amigos advogados, quanto ao fato de Rita não fazer nenhuma atividade solidária, como aceitar casos como o de Sam sem cobrar nada, a mulher mergulha no caso.

A obra se constituiu muito bem quando criou a história paralela da advogada sem tempo para a família, traída pelo marido e indiferente para o filho. Isso não tira o brilho da história central, e sim, responde aos anseios de uma mulher que não sabe mais onde é seu lugar dentro da sua própria casa. Sam, sem querer, provoca uma lavagem cerebral na dura Rita.

É essencial também falar brevemente da relação entre Sam e Lucy. Apesar, de Sam possuir suas limitações, ele nunca deixou que nada faltasse a filha. Deu tanto amor, que a menina se derrete pelo pai em todas as cenas do filme. Lucy, interpretada maravilhosamente bem pela, na época, menininha Dakota Fanning, é um exemplo divino de uma criança adultizada mentalmente, mas que ainda vê todas as dádivas de ser uma criança na companhia de seu pai.



Na segunda metade do filme, o roteiro foca nas cenas de tribunal, onde Sam está sendo julgado pela federação como impossibilitado de cuidar de uma criança. É tudo muito bem feito. Todas os planos feitos pela advogada junto aos amigos de Sam e da senhora detentora de agorafobia (Dianne Wiest), a cena de depoimento da pequena Lucy e, principalmente, o depoimento emocionado de Sam, onde tudo dá errado.

O elenco está afiadíssimo. Insisto novamente em dizer que, para mim, não existe um ator tão completo quanto Sean Penn. Inspirado (como sempre), Penn dá um banho de água fria no espectador, sua inocência misturado ao seu amor incondicional é o pilar de todo o filme, que se estruturou em torno dessa atuação emocionante e reconhecida com uma indicação ao Oscar. Dakota Fanning (em um de seus primeiros trabalhos) veio para ficar e não tenho mais o que dizer sobre ela, apenas que sou muito feliz por ter visto essa menina crescer de forma tão soberba. Michelle Pfeiffer não é tão boa atriz quanto é bela, mas não deixa a desejar, tem seus momentos. Ainda temos uma ponta preciosa da fantástica Laura Dern, como a mãe adotiva de Lucy e de Dianne Wiest como uma fiel amiga de Sam.



Outra coisa linda dessa obra é a trilha sonora. Só Beatles. Aliás, a banda inglesa é citada em vários momentos do filme. A diretora Jessie Nelson optou por regravações das músicas da banda, assim temos: Ben Harper cantando “Strawberry Fiels Forever”, Sarah McLachlan com “Blackbird”, Eddie Vedder, Rufus Wainwright, entre outros. Um acerto e tanto, que enriqueceu absurdamente a obra.

Sam é a encarnação do que é inocência e bondade. Lucy é a representação de um ser criado por inocência e bondade. Uma família. Tudo bem que não seja uma família convencional, mas, era uma família, nas mais diversas situações. O amor veio em primeiro lugar, e os dois, como centro e extremidade dessa família, cuidaram de tudo isso. Nunca durante esses 132 minutos você verá Sam desistir de lutar por Lucy, seus sete anos de mentalidade foram compensados pela velhice de seu coração. No mais, o que eu tenho a dizer é isso: Hey you've got to hide your love away.

sábado, 18 de junho de 2011

Ode à Solidão (Crítica: Encontros e Desencontros / 2003)




Parabéns a vocês que se encontram, se perdem, se acham, se perdem novamente, se resgatam e se perdem, mas, de novo, se acham.

A vocês que nunca se acharam, nunca se encontraram, nunca se perderam. A vocês que nunca viveram e nunca morreram: o inferno é quente mesmo?




Pegando uma carona com o último post (Morte ao Rei), decidi por revelar um pouquinho mais do trabalho da diretora e roteirista Sofia Coppola e, assim, apresentar o seu melhor trabalho desde que saiu da frente das câmeras para se tornar umas das principais diretoras de cinema da atualidade. Sofia iniciou sua carreira de diretora no longínquo As Virgens Suicidas (1999), longa sobre a difícil entrada na vida adulta de cinco jovens controladas pelo punho de ferro dos genitores. Em 2003, filmou, o que na minha opinião representa o seu melhor trabalho para o cinema, Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003. EUA, Japão).

O roteiro de Encontros e Desencontros foi escrito por Coppola. Mais uma vez ela mostrou ser dona de um dom incrível: contar histórias cômicas com uma sentimentalidade tão profunda e reflexiva, que faz com que o espectador desmonte frente aos personagens, cenários e diálogos. Sem dúvida esse é o trabalho mais inspirador de Sofia e, hoje, já é considerado um filme Cult pelos críticos de Cinema.

Todos os filmes de Coppola trazem um misto de alguma coisa com a solidão. As Virgens Suicidas traz a solidão mesclada ao mundo feminino, Maria Antonieta (2007) mescla tédio e solidão, Um Lugar Qualquer (2010) promove um misto de solidão e responsabilidade. Encontros e Desencontros não é diferente, é o auge da resposta de Coppola a solidão.



Bob Harris (Bill Murray no melhor papel de sua carreira) é um ator americano em decadência, que foi convidado pra gravar um comercial de uísque em Tóquio. Do outro lado, encontra-se Charlotte (Scarlet Johansson, linda), mulher de John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo viciado em seu trabalho e que deixa a esposa o dia todo sozinha num quarto de hotel. A princípio, Bob e Charlotte só têm em comum apenas o fato de estarem hospedados no mesmo hotel. Acostumados ao fuso horário americano, Bob e Charlotte não conseguem dormir, passando noites em claro e horas sem trocar uma palavra com ninguém. Eles ainda nem tem ideia um do outro. Pra suprir essas horas em que não conseguem dormir, Bob e Charlotte começam a freqüentar o bar do hotel e aí finalmente se conhecerão e nutrirão desde o início uma relação de amor e amizade recíproca.

A relação de Bob e Charlotte não é o amor que está ligado ao sexo e ao desejo, é uma relação de salvação, como se um fosse para o outro o colete salva vidas que foi atirado no mar tempestuoso. É uma cumplicidade que se cria por resquícios que a solidão estava deixando marcada nos dois. Imagine-se num lugar onde você não conhece ninguém, não tem chances de se comunicar com ninguém (adicione aí o fato de não conhecer nem sequer uma pessoa e, ainda, não possuir o domínio de uma língua e de uma cultura que vão além do compreensível, pois é assim que o homem tedioso e cômodo que habita o Ocidente enxerga o resto do mundo). São belíssimas as cenas em que os dois novos amigos se encantam com um banho ao modo japonês, surpreendem-se com uma prostituta japonesa. Todo esse mundo novo vai se abrindo diante dos seus olhos de uma maneira terna e deliciosa que é a relação de Bob e Charlotte.



Aos poucos os personagens de Murray e Scarlett começam a sentir uma atração física, mas eles sabem que o que está sendo vivido não é uma realidade concreta, eles tem conhecimento de que aquilo tudo que aconteceu se deu por motivos sempre externos: a distância de casa, o contato com um novo mundo e a solidão.

Tóquio aparece como uma metáfora na obra. É aquela história de cidade grande versus solidão. Por mais que as cenas sempre estejam recheadas de gente, os personagens nunca deixam de estar sós. Eles estão sempre sendo sustentados um pelo outro. Encontrando-se num olhar, numa fala ou num gesto. Sofia Coppola pegou Tóquio pra mostrar a dificuldade que tem o homem do ocidente em se habilitar numa cultura totalmente diferente e, assim, dar margem a solidão.



Bill Murray com certeza é alma do filme. Indicado ao Oscar de Melhor ator pelo trabalho, Murray dá todo o semblante triste e, ao mesmo tempo, cômico que o personagem necessita, e faz isso brilhantemente. Suas caretas frente às ações dos japoneses provocam um riso contido no público. Um riso de semelhança. Um encontro entre você e ele. Scarlett também surge toda graciosa, num papel que exigiu muito dela como atriz. Está adorável e prova que tem talento de sobra também.

Tudo funciona como uma comédia na obra de Coppola, mas de repente tudo mergulha num mar profundo de tristeza, e aqui o filme ganha sua beleza e a sua pureza. Se você procurar respostas na obra, desista, ela não te dá. Basta você não procurá-las.

Essa é a Ode que Sofia Coppola fez a solidão. Mostra como ela existe, persiste e insiste em ser parte de nós. Encontros e Desencontros é uma agradável conversa de amigos que se apaixonam, se salvam, e daí, passarão a se encontrar, a se achar, a se perder, e quem sabe, a morrer e a viver.