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segunda-feira, 5 de março de 2012

O Mundo da Barbie ( Crítica: Jovens Adultos / 2011)

Muitos são orgulhosos por causa daquilo que sabem; face ao que não sabem, são arrogantes.



Alguém aí já parou pra pensar como seria o mundo da Barbie? Barbie, aquela boneca famosa, sonho de consumo de toda menina suficientemente tomada pela futilidade dos alvos anos da infância, querida por sucessivas gerações de garotas ricas, loiras, às vezes, morenas, fascinadas por cabelo e maquiagem. O novo filme do diretor Jason Reitman (Amor sem Escalas), Jovens Adultos (Young Adults, Eua. 2011), me fez pensar como seria a vida de Barbie, a bela menina com um toque de vida de interior, mas com sonhos grandes demais para o seu mundo real.

Barbie seria a menina mais popular, a mais bela, a “cheerleader”, arrasando corações pelos corredores coloridos de uma escola pública do interior de Minnesota. Teria o namorado mais bonito, seria amiga das garotas mais legais. Mesmo tendo uma vida que toda garota pediu a Deus, Barbie não se contentaria com a vida mórbida que sua cidade lhe proporcionaria. Aí viriam as grandes mudanças. Barbie precisava ser conhecida pelo mundo inteiro.



A segunda parceria entre Reitman e a roteirista Diablo Cody, vencedora do Oscar pelo roteiro de Juno (também dirigido por Reitman), já era uma coisa esperada. Indiscutivelmente, parece que um nasceu para o outro. Reitman tem uma mão muito leve e uma sensibilidade muito característica que transborda a tela do cinema. Diablo Cody fica com a função de garota rebelde da história: sarcástica, irônica e poderosa. Seria ela a Barbie do mal, que junto com Reitman consegue transformar a protagonista de Jovens Adultos numa belíssima teoria para a vida da mulher Barbie.

Mavis Gary (Charlize Theron, linda como sempre) é a típica menina que nasceu no interior e, por força de uma arrogância tipicamente adolescente, casou-se e resolveu tentar a vida na cidade grande. Por hora, o caminho de Mavis parece ter dado certo: dona de seu próprio nariz, possui toda a autonomia de sua vida amorosa, preferindo noites rápidas com rapazes recém-conhecidos e, ainda, tem certo sucesso profissional. Gary é escritora de uma série destinada a jovens adultos. Gary é a futilidade em pessoa e a vida lhe permite isso, suas histórias baseiam-se numa protagonista que remete muito a Bella de Crepúsculo, insossa, nariz empinado e infantilóide. Kendal, protagonista da série, tem inspiração nas irmãs Kardashians.



Por mais que Mavis pareça ter finalmente dado certo na vida, ela ainda detém de um casamento falido, uma vida solitária e uma série literária a qual não recebe devidamente os créditos por escrevê-la. Certo dia, a mulher recebe um e-mail com a foto de um bebê. O bebê é filho de seu antigo namorado da época do colégio, Buddy Slade (Patrick Wilson, o mesmo personagem a vida inteira, o Ken), agora casado com outra mulher. Mavis decide voltar a cidade-natal para recuperar o antigo namorado e levá-lo com ela para a cidade grande. A mulher faz desse seu objetivo essencial para continuar a viver, seria a falta dele o fator responsável pela sua vida incompleta.

O roteiro, muito bem escrito, não permite que o espectador bata de frente com Mavis, nos tornamos aliados dela, mesmo sabendo que tudo vai dar errado, e é aqui que cabe a genialidade da roteirista. A cruzada feita por Mavis atrás de seu objetivo causa ao espectador uma vergonha alheia de explodir os tímpanos. É constrangimento a flor da pele. Seja pelo aparente problema de alcoolismo da personagem ou pelas investidas pouco convencionais no antigo namorado.



Quem aparece para segurar as pontas da protagonista é Matt Freehauf (o ótimo Patt Oswalt). Matt conhece Mavis dos tempos do colégio, a mulher, ao contrário, não se lembra do sujeito. Porém, cria-se uma cumplicidade muito grande entre os personagens, que aparentemente são como água e petróleo. Não existe encaixe entre dois tipos tão disfuncionais na sociedade. Mais uma vez, o trabalho da roteirista permite que as personagens coexistam na mesma ideia do certo e errado, da arrogância e da humildade, da pena e do reconhecimento. Sem clichês, Matt não vem pra ensinar nada a Mavis, que é muita imatura ou inconsequente para entender ou apreciar algo que vá além de sucesso e dinheiro, o ensinamento acaba vindo a nós, como se fosse um alerta. Mantenha seus passos leves e terá tudo o que desejar.

A pena que Mavis rapidamente associou aos moradores de sua antiga cidade se volta contra ela, se expande pelos poros da mulher e a derruba aos olhos de quem ela achava que a admirava. Era tudo pena? Achava que todos queriam ser como eu. E aqui se esconde o pecado mortal de Mavis: achar que o mundo de Mercury (a cidade-natal) se ajoelharia a seus pés.



Charlize Theron faz um trabalho único em frente às câmeras de Reitman. Se o papel fosse dado a uma atriz que não tivesse sua beleza e seu talento, provavelmente o público a rejeitaria e a sensação primordial que o filme provoca no espectador seria nula. Elegante, dona de um presença artística incomparável, o trabalho de Charlize poderia estar entre as grandes atuações do último ano. Um belo presente aos fãs da atriz.

Concluindo a resenha, voltamos a ideia da Barbie. Eu imagino perfeitamente a Barbie como uma alcoolatra, derrotada em quesitos sentimentais, forçada a andar para frente pelo peso de sua popularidade no colegial, só não vejo a Barbie voltando atrás, não enxergo coragem e visão na boneca, só é nítido uma intocabilidade absurda. Por isso, Jovens Adultos não é a história de uma Barbie, e sim, de uma Suzy que tentou a vida toda se tonar uma Barbie.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Bela da Tarde (Crítica: Bonequinha de Luxo / 1961)

Você não pode amar um selvagem, ele anseia pelo céu e, uma hora ou outra, te deixa.



Faltava um filme dela.

No ano em que Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s. EUA, 1961) comemora cinquenta anos, realmente não podia ficar faltando uma singela homenagem no Cinemática. Clássico dos clássicos, Bonequinha de Luxo figura entre os melhores filmes da década de 1960 e, sem dúvida, pode ser considerado o grande papel da carreira da belíssima Audrey Hepburn. Sim, na verdade, não foi por esse filme que Audrey conseguiu seu Oscar, ele veio bem antes com A Princesa e o Plebeu (1953), quando a atriz ainda engatinhava no mundo do Cinema. Mas, é com essa ode a mulher, que Audrey consegue mostrar tudo que é capaz de fazer: atuar com exímia qualidade, cantar, comover e fazer rir.

Para quem não sabe, inicialmente, o filme seria estrelado pela dama da década de 1960, Marilyn Monroe, que quando substituída por Audrey acabou criando-se uma inimizade pouco comentada entre as duas atrizes. A direção ficou por conta de Blake Edwards, mestre de comédias que beiram o tipo pastelão, mas que, mesmo assim, conseguem se configurar em ótimos filmes. Acredito que, além de Audrey, o grande mérito de Bonequinha de Luxo fica nas mãos de Edwards, que conseguiu transformar uma comédia romântica que tinha tudo pra ser fútil e piegas, numa verdadeira poesia que libera contornos de encantamento e inocência no mundo de uma bela mulher.

A história do filme é do célebre Truman Capote (que também já possui um ótimo filme biográfico). A obra de Capote é considerada um marco na literatura americana, assim como o filme se tornou um símbolo do cinema das terras de lá. Embora, Capote não tenha gostado da adaptação feita de sua obra, devido às grandes mudanças envolvendo o roteiro, o filme agradou em cheio tanto o público quanto a crítica especializada. Marilyn também havia sido cortada justamente por quererem transformar o filme numa coisa mais próxima a água e açúcar. Não quero nem pensar o que seria desse filme sem Audrey.



Audrey Hepburn
vai emprestar toda a sua elegância para Holly Golightly, uma jovem e linda mulher que vive em Nova York e espera num marido rico a grande chance de virar sua vida. Embora a personagem tenha sido bastante suavizada, pois no original ela continha traços de bissexualidade e promiscuidade (a realidade crua de Capote), a personagem do filme ainda se manteve como uma garota de programa, no caso, de luxo. Enquanto Holly impera no seu mundo sonhador, Paul Varjak (George Peppard) se muda para o apartamento do lado e logo os dois iniciam uma amizade. Ele é um escritor meio preguiçoso, sustentado por mulheres que o tem em troca, enquanto, Holly se mantém em sua saga.

O título do filme que traduzido literalmente seria algo como “Café da manhã na Tiffany’s” refere-se a grandiosa marca de jóias Tiffany’s, que é o lugar em que a personagem de Audrey procura esquecer dos problemas. Por mais que isso soe fútil, devemos tentar entender o mundo repleto de sonhos e inocência que rodeava Holly. Quando a amizade entre Holly e Paul (“Fred”) começa a se tornar mais intensa, tornando-se amor mútuo, a jovem se vê de frente com os seus próprios conceitos. Como ela abriria mão de sua liberdade por um amor? Ela iria agora viver dentro de uma gaiola novamente? Estaria, então, fadada a uma vida sem graça, repleta de amor, amor e amor?



A metáfora do nome do gato se constitui numa das mais belas jogadas do texto de Capote. Holly simplesmente chama o gato de “gato”. Segundo ela, o gato é como ela: não sabe quem é, não sabe qual sua função dentro do mundo, resta a ela viver de acordo com seus preceitos, assim como o gato. A história de amor entre Holly e Paul não é tão incomum. Paul é a válvula motorizada que vai impulsionar Holly a acreditar nessas coisas simples da vida. Holly ainda que tentada a vencer na vida, só se entrega a ele nos últimos três minutos de filme. Aliás a cena final é angustiante, desde as falas ao choro compulsivo e (acredite se quiser) contido de Holly.

Com um tema ainda que vanguardista: a mulher que quer casar por dinheiro e se tornar visível à custa do mesmo, a personagem tem suas aspirações. Holly não que ser uma dona de casa e viver em função do marido, em pleno ano de 1961 já é possível ver uma mulher em busca de sua autonomia sentimental, de sua existência em função de seus gostos e suas vontades. A cena em que você vê o tamanho grau de complexidade da personagem é muito doce. Sentada na sua janela com seu violão, Holly canta a belíssima “Moon River”, tomada pelo seu ar sonhador, pela sua beleza estonteante e pelo rapaz que espia a jovem com encantamento. Holly não é prendada aos afazeres domésticos, o apartamento vive virado de pernas para o ar, mas isso não impede a feminilidade da personagem,que é, talvez, a característica mais forte da personagem.



Se eu pudesse definir Hepburn em apenas uma palavra seria beleza. Não só a beleza física, mas a beleza da voz, a beleza da menina sapeca que pula de um sofá pro outro, que senta dentro da pia, a beleza da mulher em seu “pretinho básico”, a beleza de seus passos e a beleza de seu choro. Sem dúvida nenhuma, esse é o papel que transformou Audrey no mito que ela é hoje. É a consagração de uma atriz já consagrada. Audrey foi indicada ao Oscar pelo papel, mas perdeu pra Julie Andrews.



Bonequinha de Luxo não tem nada de muito surpreendente, o final é previsível (mesmo que se configure numa linda cena), alguns personagens são dispensáveis (como o vizinho oriental que aparece em mais cenas do que realmente é necessário). Mas, ainda assim, o filme é quase que impecável, irretocável, e tendo passado cinquenta anos, ele continua sendo obrigatório pra qualquer fã de cinema. Audrey falando em português gera tanto carinho pela atriz, que é impossível colocar em palavras. Aliás, eu só não perdoo Edwards e Capote, por não terem trazido Audrey para o Brasil, literalmente.

A classe e o charme dessa obra está definitivamente marcada na história de quem o assiste.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Por fora, nem o chão. (Crítica: Interiores / 1978)

Nunca houve espaço para sentimentos verdadeiros. Entre nenhum de nós. Nenhum.



A primeira obra do mestre Woody Allen a ser resenhada pelo Cinemática, não estará entre seus principais trabalhos, tampouco será parte de sua essência no Cinema. Bastante amado pelo seu tipo de humor instigante e inteligente, pelo desfile de suas musas inspiradoras na tela, o filme escolhido vai passar longe disso. Tem humor? Tem, mas um humor que pende mais para o lado da claustrofobia. Tem musa? Tem, sem nenhum apelo a vaidade, que é totalmente deixada de lado. A obra caminha por um lado pouco explorado pelo diretor.

Escrito e dirigido por Woody Allen, Interiores (Interiors, EUA. 1978) é, talvez, uma das obras mais depressivas da carreira do renomado diretor. Ele ainda usa de todos os seus truques e genialidades, mas, ainda assim, a obra se configura como sendo uma válvula de escape dentro da sua longa caminhada cinematográfica.



Interiores trata de família, trata de perdas e de como reagir a elas, fala de falso abandono na infância, cutuca na ferida dos irmãos potencialistas e dos mais “normais”, é um ode à solidão rodeada por pessoas. Allen escreve um roteiro que aborda de maneira minuciosa às questões de mais apelo na vida da família norte-americana conservadora da década de setenta. Corriqueiras questões como a preferência por um dos filhos, ou a aparente depressão pronta pra explodir, servem de mote para a decadência de uma família.

Claramente inspirado no estilo Bergman de se fazer cinema, Woody Allen fez de um de seus primeiros dramas um verdadeiro achado da carreira desse cultuadíssimo diretor.

Centralmente, Interiores trata do desmantelamento das relações afetivas de uma família. Tudo começa quando Arthur (E. G. Marshall) resolve se separar da mulher, Eve (Geraldine Page, saudosa e grandiosa como sempre). O casal não é o ponto central do filme. A narrativa se concentra nas atitudes, fracassos e traumas das três filhas desse casal: Renata (Diane Keaton, uma das grandes musas de Allen), Joey (Mary Beth Hurt, muito boa, por sinal) e Flyn (Kristin Griffith).



A palavra interior, que de alguma forma, dá título ao filme, cabe mais do que uma metáfora. Os interiores ganham vida, a casa que costumava ser decorada com árvore de natal, vasos caríssimos, atribuídos principalmente ao bom gosto da matriarca, passa a ser basicamente simples: mesas brancas, com cadeiras cruas, paredes limpas, taças reluzentes, tudo no tom de “bege e terra” . Durante o processo de demência da mãe, devido à separação conjugal, as filhas se revezam em suas angustiantes vidas para dar apoio a mesma. Renata é uma escritora talentosíssima que sofre com a síndrome de inferioridade do marido e com a inveja de Joey, esta ainda não descobriu sua verdadeira vocação e só tem como ponto de apoio, a preferência do pai, Flyn é objeto de desejo do marido de Renata e uma atriz fracassada. Repare: sem nenhuma estrutura social e interna, essas mulheres devem restabelecer os interiores da própria família, aliás, a palavra “própria” entra o tempo todo no texto de Allen.

Tudo se complica quando Arthur encontra uma nova companheira, Pearl (Maureen Stapleton, radiante). A mulher, que dá um novo sopro de vida ao rico empresário burguês, é também responsável por toda a tragédia (ou não) que vai acontecer na história. A ideia de uma separação revogável cai por terra e a situação se torna mais difícil de lidar.

Contudo, a história deve ser mantida com várias interrogações, não quero estragar o prazer que espero que todos tenham ao ver esse filme único de Allen.



Partimos então para algumas características da obra. Primeiro: a falta de trilha sonora, e isso, a gente só se dá conta no final do filme. Allen dá preferência aos diálogos permanentes, a fala jogada direto na cara do espectador. Não existem rodeios, você sabe na hora ou o silêncio se instala. Música é imperceptível ou quase inexistente. Segundo: as personagens incríveis que Allen conseguiu construir. Desde a seca Renata até a insana Joey, como da magnífica Eve até a gloriosa Pearl. As personagens se escondem do espectador, mas, ao mesmo tempo, pedem socorro, pedem auxílio nas causas que afundam suas respectivas vidas. Terceiro: o trabalho da direção de arte, que conseguiu acompanhar toda a melancolia da história, tanto nas roupas como nos cenários, nos dias nebulosos de praia e na depressão latente das casas.

A típica família burguesa colide com seus próprios preceitos de sucesso tanto na vida profissional quanto na vida privada. Todos tentam ser manter ávidos em sua monotonia, elegantes na sua posição social, fortes no pensamento familiar, mas nada disso se configura, tudo vira um caos e pacificamente (entenda isso como a imobilidade das filhas) vai se ajeitando.



O filme foi reconhecido com cinco indicações ao Oscar. Além de diretor, foi indicado na categoria de Melhor Atriz, para Geraldine Page, e Atriz Coadjuvante para Maureen Stapleton. Page realmente é assombrosa, desde sua voz confundida com uma súplica infantil até seu olhar, enfeitado com uma forte olheira. A atriz que faleceu há mais de vinte anos, incorpora de maneira impressionante o sofrimento da mulher submissa e arrogante. Indefinível. Stapleton também faz jus a sua indicação, não deve ter sido fácil ser a única alma feliz no meio de tanto conflito psicológico.

Na interiorização de seus personagens, de sua história, de sua fase bergmaniana, Woody Allen escreveu e filmou uma pérola, até então, muito bem escondida por uma ostra feroz que insiste em comandar sua carreira.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Politicamente Incorreto (Crítica: Kick Ass - Quebrando Tudo / 2010)



Nunca fui fissurado por histórias em quadrinhos, pra falar a verdade, só tive contato com o mundo inventado por Mauricio de Sousa. Homem-Aranha, Superman, Batman, Watchmen e qualquer outro exemplar de HQ ou de super-herói só entraram na minha vida depois que migraram para o Cinema. Mesmo assim, nunca fui muito fã desse tipo de filme, mas reconheço algumas obras-primas que foram feitas para as telas de cinema, como é o caso do último Batman de Christopher Nolan e, de tempos mais antigos, talvez pelo Coringa de Jack Nicholson, o Batman de Tim Burton.

A questão é: cinema nesses moldes se configura por ser puro entretenimento, às vezes, muito fantasioso. Não tenho nada contra fantasia, muito pelo contrário, mas, me incomoda a inter-relação estabelecida entre o mundo real e o mundo fabuloso nesse tipo de roteiro. O Batman de Nolan é um caso a parte, se existe fantasia eu não percebi, vejo a colocação da figura do super-herói magnífica, como também o papel do vilão, que assume um papel de condutor do mal sem deixar de ser real, é o mal representado na loucura, na insanidade e na perversidade. Não existem poderes astronômicos, o poder nesse caso é o dinheiro, é ele quem move e quem corrompe os atores sociais.

Porém, estou falando de Batman, de Nolan, de corrompimento, mas o assunto (ou melhor, o filme) que eu venho tratar não tem nada a ver com a elevação da figura do herói nem quer assumir um papel de denunciador social. Esse sim é puro entretenimento, e o mais estranho: agrada-me.



Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, EUA. 2010) segue por um caminho totalmente inverso dos outros exemplares de super-heróis. Não haverá compromisso com a moral (nenhum) nem com o estabelecimento de uma lição de vida. O filme não foi feito para mostrar que existe um menino pensando no bem maior e, por isso, quer defender a sociedade. O super-herói desse filme age por interesses próprios (a aceitação dos amigos, a conquista da menina linda, a conquista da própria honra).

O roteiro do diretor Matthew Vaughn (conhecido por parcerias com o diretor inglês Guy Ritchie) é baseado na comic book escrita por Mark Millar e John Romita Jr, que conta a história de um nerd cansado de sofrer pela aparência frágil (por isso, foi assaltado inúmeras vezes) e do insucesso com garotas e que, por isso, resolve se tornar um super-herói em defesa de seus próprios princípios básicos. Princípios que nem sempre irão de acordo com a moral coletiva.

Dave (Aaron Johnson) é um típico nerd, viciado em quadrinhos, pornografia e sem nenhuma aptidão física. É alvo de chacota na escola, reprimido nas ruas e que está cansado da sua rotina. Como um bom leitor de todos os tipos de HQ’s, Dave começa a se perguntar por qual motivo não existe um super-herói no mundo real, como que alguém não podia ter tido a ideia de colocar uma máscara e sair pelas ruas defendendo a população. Decidido a ser esse alguém, e acometido pela fervura de sua jovialidade, Dave compra uma fantasia, assume o codinome de Kick-Ass e vai as ruas na intenção de combater o crime.



Cá entre nós, o seu passo poderia se concluir numa parceria com as meninas superpoderosas, a prova disso é que, a todo o momento, Dave será salvo por outras pessoas. Ele não tem diferencial nenhum, mais humano impossível.

O que veremos a partir daqui é uma deliciosa aventura de um cara, padrão da sociedade atual, ou seja, símbolo da juventude que cresce nos dias de hoje, se metendo nas maiores confusões e peripécias na busca de ser reconhecido, de ser um super-herói de peso. O filme se mostra muito atual na construção desse nerd, desde o instante em que o protagonista usa das redes sociais para se auto-afirmar e, assim, se fazer conhecido, até o próprio codinome do herói, que, ao pé da letra, pode ser entendido como fodão.

Bom, se o filme fosse apenas isso seria muito cansativo, talvez repetitivo, precisava-se de uma subtrama (que ao meu ver se tornou a trama principal) para não cair na armadilha de sempre: a boa e velha moral da história. A história do Big Daddy e de sua filha Hit Girl já consta na HQ, mas pelo que eu li e pesquisei, pode-se afirmar que o grau de importância do Kick-Ass, do Big Daddy e da Hit Girl são os mesmos. No filme não. É clara a separação das personagens até metade do filme, quando por mérito de uma menina de 12 anos, a reviravolta é clara e sublime.



Big Daddy (Nicolas Cage, que chega a mostrar lapsos do grande ator que foi) e Hit Girl (Chloe Moretz, fantástica) entram na trama para formar um trio ao lado de Kick-Ass, o que não se sabe é que o pai da menina tem sede de vingança com o mafioso Frank D’Amico. Quando Kick-Ass menos espera, ele se vê envolvido até o pescoço nessa rede de vingança. E aqui finalmente o filme ganha suas melhores características.

O diretor Matthew Vaughn sofreu para conseguir rodar esse filme, foi alvo da censura hollywoodiana e não conseguiu patrocínio para o filme, teve que contar com a ajuda de amigos, do calibre de Brad Pitt, para, enfim, conseguir rodar seu projeto. O conservadorismo da indústria hollywoodiana não permitiria um filme com tantas cenas de violência explícita, em que uma criança mata oito homens numa sala, apenas com uma espada na mão e nem que, essa mesma criança, falasse centenas de palavrões obscenos. A hipocrisia não permite. Isso já é sabido por todos. Existem cenas realmente muito fortes, atenha-se ao fato de que é a criança que vai levar a vingança do pai até o final. O filme é uma verdadeira saga politicamente incorreta.

O filme lembra muito Kill Bill às vezes, seja pela trilha sonora, pontuada por músicas clássicas, ou pela própria Hit Girl que parece mais uma reencarnação da Noiva de Tarantino. A menina Chloe está enérgica e explosiva como a criança que abdicou de toda uma infância para entrar nos jogos perversos do pai. A garota já é uma grande aposta do cinema. Recentemente, participou da refilmagem do mediano Deixe Ela Entrar (2007), filme sueco que fez bastante sucesso nas terras nórdicas e, ainda, está envolvida no mais novo projeto do excelente Martin Scorsese. Ela tem futuro, e provavelmente veio para ficar. Dakota Fanning e Saoirse Ronan, que são as grandes estrelas dessa nova geração, ganham mais uma concorrente. A Hit Girl de Chloe entra definitivamente para o hall das grandes personagens dessa nova década. É um achado e tanto.



Se você procurar por indícios de moralidade dentro de Kick-Ass você encontrará: você pode fazer uma crítica sobre a comodidade do ser humando em contraste com a busca utópica de Dave, você pode incitar uma crítica às decisões que se sobrepõem ao pensamento coletivo. Enfim, você pode criar diversas teorias a partir da obra de Vaughn, mas não é isso que ele quer, claramente não. A ideia do diretor é divertir, entreter, marcar o espectador de alguma forma mais leve (mesmo com todas as frequentes cenas de sangue jorrando), e nada disso impede que o telespectador assista ao filme e recorde dos momentos da Hit Girl com um sorrisinho enviesado no canto da boca.

domingo, 11 de setembro de 2011

Lucy in the Sky (Crítica: Uma Lição de Amor / 2001)

Flores de celofane amarelas e verdes
Elevadas sobre a sua cabeça
Procure pela garota com o sol em seus olhos
E ela se foi

Lucy no céu com diamantes




É o terceiro post seguido em que tema é praticamente o mesmo. Deve ser o ar de Setembro. Não que me canse falar sobre amor, só acho que sei muito pouco sobre isso. Apesar de que, o amor se divide em múltiplas facetas dentro dele próprio, ou seja, não é e nem pode se tornar uma atividade redundante e cansativa. Mesmo no alto do meu comportamento leigo, permito-me tentar desvendar o único sentimento capaz de mover céus, terras e montanhas, mesmo que, quase sempre sem um resultado satisfatório.

No meu íntimo, vejo o amor sendo usado como pré-requisito para a construção de relações humanas mais estruturadas, solidárias e principalmente para a construção da ideia de um mundo melhor. Amor não deve ser pré-requisito. Afinal, amar é pedir demais? Creio que não. Ainda acho que loucos amam, psicopatas amam e tudo depende da incondicionalidade desse amor. Quanto mais você lapidar, mais você será um ser humano. Amar é simples, somos nós que complicamos tudo. Nós que (não sei por que motivo) insistimos em saber o que é melhor para o outro. Nós que entendemos que o bem do coletivo é essencial ao bem individual, sabemos que o coletivo só é possível com a individualidade preservada.

Um tema tão complexo, em que tudo beira a falta de nexo.

É fácil viver com os olhos fechados
Sem entender tudo o que você vê
Está ficando difícil ser alguém
Mas tudo se resolve




Falta de sentido é a última coisa que você verá em Uma Lição de Amor (I am Sam, EUA. 2001). Embora o título nacional seja bastante infantilóide, é exatamente isso que essa obra vem nos dar: uma lição absurda do que é amor. Tinha tudo para ser piegas, mas devido ao talentosíssimo elenco e ao roteiro muito bem trabalhado a história ficou comovente na medida certa. Não apela ao melodramático nem a tragicomédia. O filme consegue ser soberbo sem ultrapassar nenhuma dessas linhas tênues que configuram a temática da obra.

Despretensioso. O filme toca em várias feridas pulsantes que poderiam levar tudo por água abaixo. Afinal, temos uma história de retardo mental, de uma advogada fragilizada pela rasa relação que abastece dentro do âmbito familiar, o abandono inconsequente de uma criança, a relação entre pai e filha e a autonomia de instituições que se julgam capazes de definir o que é melhor para terceiros. O caminho a se trilhar é extremamente perigoso. São inúmeros os filmes que tendem a construir esse tipo de caminho, mas Uma Lição de Amor se sobressaí por mera qualidade. Faz chorar? Faz. Em cinco minutos de filme eu já estava em estado de emergência. Só que, ao mesmo tempo, um riso enviesado surge e mostra a especificidade dessa obra. Um tema tão denso, mas que conseguiu transpor uma leveza profunda no filme.

Sam Dawson (Sean Penn, melhor ator do mundo) teve que emprestar todo o seu talento e percepção para montar um homem deficiente mental, que se vê em dado momento da vida com uma filha nos braços. Como assim? Bom, vou tentar explicar. Sam engravidou uma mulher que vivia na rua e não tinha planos nenhum de casar ou até mesmo de ter filhos. No dia do parto da menina, a mulher desapareceu e Sam passou a cuidar da menina sozinha. Esses são os primeiros cinco minutos do filme a que me referi anteriormente. Devido a sua paixão por Beatles, Sam batiza a menina com nome Lucy (in the Sky with) Diamonds. A cena é fantástica, sob o som da mesma música, o pai vê a mãe da garota fugindo em meio a multidão, enquanto ele fica na porta de um ônibus com a menina no colo.



Em nenhum momento Lucy será um fardo para Sam. O que caracteriza essa relação é apenas o amor. Sam trabalha numa cafeteria, tendo uma função equivalente a sua condição mental, e é assim que ele sustenta Lucy. A menina vai crescendo e percebendo as dificuldades do pai, aos poucos ela entende que o pai não é normal. E isso, eu te garanto, é o menor problema de todos. Quando Lucy começa a perceber que está ficando mais inteligente que o pai, ela se recusa a aprender mais coisas. Por amor ao pai, ela decide que, com sete anos (a mesma idade mental de seu pai), tem que cessar com seu processo de amadurecimento intelectual e, assim, não ultrapassá-lo.

Nesse instante, surge a figura da assistente social, que julga que Sam não tem condições de continuar educando Lucy. A menina fica a cabo da justiça, enquanto seu pai inicia a impressão de uma via sacra para tentar recuperar a guarda da filha. Os amigos de Sam, todos com algum tipo de limitação, são os responsáveis por ajudá-lo. São eles também os responsáveis pela parte cômica da obra, como a linda cena dos balões e tomada da secretaria eletrônica. Dessa forma, Sam chega até a conceituada e estressada advogada Rita Harrison (a bela Michelle Pfeiffer). Rita, de início, não se sensibiliza nem ao menos se interessa pelo caso de Sam. Só após uma série de chacotas de seus amigos advogados, quanto ao fato de Rita não fazer nenhuma atividade solidária, como aceitar casos como o de Sam sem cobrar nada, a mulher mergulha no caso.

A obra se constituiu muito bem quando criou a história paralela da advogada sem tempo para a família, traída pelo marido e indiferente para o filho. Isso não tira o brilho da história central, e sim, responde aos anseios de uma mulher que não sabe mais onde é seu lugar dentro da sua própria casa. Sam, sem querer, provoca uma lavagem cerebral na dura Rita.

É essencial também falar brevemente da relação entre Sam e Lucy. Apesar, de Sam possuir suas limitações, ele nunca deixou que nada faltasse a filha. Deu tanto amor, que a menina se derrete pelo pai em todas as cenas do filme. Lucy, interpretada maravilhosamente bem pela, na época, menininha Dakota Fanning, é um exemplo divino de uma criança adultizada mentalmente, mas que ainda vê todas as dádivas de ser uma criança na companhia de seu pai.



Na segunda metade do filme, o roteiro foca nas cenas de tribunal, onde Sam está sendo julgado pela federação como impossibilitado de cuidar de uma criança. É tudo muito bem feito. Todas os planos feitos pela advogada junto aos amigos de Sam e da senhora detentora de agorafobia (Dianne Wiest), a cena de depoimento da pequena Lucy e, principalmente, o depoimento emocionado de Sam, onde tudo dá errado.

O elenco está afiadíssimo. Insisto novamente em dizer que, para mim, não existe um ator tão completo quanto Sean Penn. Inspirado (como sempre), Penn dá um banho de água fria no espectador, sua inocência misturado ao seu amor incondicional é o pilar de todo o filme, que se estruturou em torno dessa atuação emocionante e reconhecida com uma indicação ao Oscar. Dakota Fanning (em um de seus primeiros trabalhos) veio para ficar e não tenho mais o que dizer sobre ela, apenas que sou muito feliz por ter visto essa menina crescer de forma tão soberba. Michelle Pfeiffer não é tão boa atriz quanto é bela, mas não deixa a desejar, tem seus momentos. Ainda temos uma ponta preciosa da fantástica Laura Dern, como a mãe adotiva de Lucy e de Dianne Wiest como uma fiel amiga de Sam.



Outra coisa linda dessa obra é a trilha sonora. Só Beatles. Aliás, a banda inglesa é citada em vários momentos do filme. A diretora Jessie Nelson optou por regravações das músicas da banda, assim temos: Ben Harper cantando “Strawberry Fiels Forever”, Sarah McLachlan com “Blackbird”, Eddie Vedder, Rufus Wainwright, entre outros. Um acerto e tanto, que enriqueceu absurdamente a obra.

Sam é a encarnação do que é inocência e bondade. Lucy é a representação de um ser criado por inocência e bondade. Uma família. Tudo bem que não seja uma família convencional, mas, era uma família, nas mais diversas situações. O amor veio em primeiro lugar, e os dois, como centro e extremidade dessa família, cuidaram de tudo isso. Nunca durante esses 132 minutos você verá Sam desistir de lutar por Lucy, seus sete anos de mentalidade foram compensados pela velhice de seu coração. No mais, o que eu tenho a dizer é isso: Hey you've got to hide your love away.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Amor em Alguns Atos (Crítica: Namorados Para Sempre / 2010)

Você sempre machuca quem você ama
Quem você não deveria nunca machucar
Você sempre colhe a mais bela das rosas
E a esmaga até que as pétalas caiam.



O Cinema se tornou uma indústria saturada de roteiros e filmes que insistem em desvendar e desconstruir os relacionamentos amorosos. A maioria deles sempre pecam nos mesmos quesitos: às vezes, meloso e dramático demais, às vezes, fantasioso ao extremo. Claro que não é simples transmitir realidade nessas histórias, ainda mais, quando teremos o início e o fim do relacionamento. A paixão e, finalmente, a dor.

O imediatismo da dor e do amor. É isso que falta nos filmes que tentam trilhar esse caminho. Falta usar mais o olhar, usar mais os gestos e o silêncio. Pois, a verdade dos relacionamentos (quase) sempre está no olhar, no gesto. O silêncio é o caminho mais tortuoso que um roteirista pode seguir, mas, também, é onde ele pode fazer uma obra exímia se souber onde e quando colocá-lo.

Precisa-se de um roteiro que, mesmo que muito difícil, seja inovador. Precisa-se de atores que deem conta do recado, e esse não é um simples recado. Precisa-se do auxílio da fotografia, da trilha sonora. Tudo para que o espectador sinta, que tudo aquilo que foi projetado, pode acontecer ou está acontecendo com ele. Afinal, o amor e suas mazelas são muito democráticos.


Em cima disso tudo, venho dizer que encontrei uma obra que usa desse imediatismo para contar a construção e a ruína de um amor. Namorados para Sempre (Blue Valentine. EUA, 2010), não se atenha ao péssimo título nacional, conta a história de duas pessoas que tinham sonhos, “compartilharam” os sonhos, não realizaram nenhum deles, e viram tudo o que eles pensaram ter construído, ruir. As ruínas de um amor deixam cicatrizes profundas.

Cindy (Michelle Williams, a quase viúva de Heath Ledger) e Dean (Ryan Gosling) são casados e tem uma filha de cinco anos, exatamente o tempo que eles estão juntos. O longa começa mostrando o casal já depois do nascimento da filha, ela uma enfermeira, ele um faz-tudo que prefere trabalhar pouco para poder dar atenção a filha. Nesse estágio da vida do casal, vemos um relacionamento já desgastado. O filme não vai explicar passo a passo como se dá o desgaste da relação desse casal, mas, com flashbacks, a obra adota uma narrativa não linear para mostrar ao espectador o início dessa relação e a paixão que um dia tinha existido ali.

Antes de conhecer Dean, Cindy estudava para fazer medicina, ela tinha um sonho e batalhava por ele. Dean já era uma espécie de faz-tudo, sem grandes ambições. Quando se conhecem, logo de cara se vê uma química muito grande entre aquela garota e aquele jovem. Nasce uma paixão, que para um vai se tornar amor e para o outro, talvez, não passe de uma paixão. Essa é conhecida por se apagar numa certa hora. Até que surge uma gravidez indesejada e leva esses dois atores sociais a construir uma vida juntos.


Dean é mais descontraído, menos preocupado, Cindy é mais dura, mais focada, é responsável pela pouca estabilidade financeira da família. A relação inicial dos dois é de compartilhamento e felicidade mútua, é triste ver a situação que os dois chegam passado essa meia década. O diretor e roteirista Derek Cianfrance soube utilizar muito bem até mesmo o contraste das cores. No início, o filme é colorido, quente, depois, com o passar dos anos, a tela recebe um azul muito frio. A trilha sonora também aumenta essa sensação de estarmos assistindo a própria construção da realidade.

É jogado nos 112 minutos de projeção todos os motivos pelo qual a relação caminhou para esse desfecho. Apesar, de Cindy estar completamente usurpada pelo companheiro, e de criar, por ele, um sentimento parecido com ódio, Dean ainda vê chances de salvar esse amor. Porém, parece que ele foi o único que deixou que a relação evoluísse para o amor, Cindy parou na paixão e, como já era previsto, esta se apagou. Cindy abriu mão de muito mais coisas que Dean para viver esse romance, é nítido o quanto ela se sente violada.

É no olhar de Cindy que vemos o quanto ela está incomodada com o marido, o quanto ela já não o suporta vê-lo, ela não engole nem a afinidade crescente entre pai e filha. A mulher agora está saturada e aquela menina que um dia transgrediu regras, dançou na rua ao som do ukulele de Dean e um dia pensou que poderia viver com ele para o resto da vida, não existe mais. Dean ainda mantém sua canastrice, suas brincadeiras para tentar descontrair a esposa, tudo em prol de uma vida feliz, só ele ainda vê futuro com Cindy, só ele vai tentar fazer por onde não perdê-la. Não se engane em achar que Cindy é a vilã da história, o filme te dará inúmeros motivos para que você pense o contrário.


A química entre os dois atores é fascinante. Cada segundo de filme é deles. É impressionante a colaboração feita entre diretor e atores. Michelle Williams, indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, está um espanto. A atriz exala feminilidade e toda a angústia de uma mulher tomada pela desesperança. Ryan Gosling, não fica atrás, auxiliado pelo seu carisma, o ator mostra também que é um dos grandes profissionais do cenário indie. Os dois atores imergiram a fundo nos personagens, conviveram um mês antes do início das gravações e, por isso, tudo se torna tão real. O espectador é afetado por todo esse incômodo que gira em torno das personagens e isso só é possível pelo trabalho incrível feito pelos dois atores. Vale ressaltar que não existe concessões ao espectador, as cenas são impactantes e dolorosas, tanto para eles quanto para nós.

O tumultuoso final é inevitável. Não se dá chance de reconstrução. Por mais que um tente ou por mais que os dois mergulhem de cabeça na salvação desse casamento, os dois já estão num nível muito avançado de mudança de sentimento. Talvez ele também não a ame mais, talvez ele só pense no bem estar da filha. A medida que vamos conhecendo Cindy e Dean, mais nos convencemos de que o casal não passará imune e, muito menos, vencerá essa crise.


O estilo de filmagem escolhido por Cianfrance parece-me o mais correto. Ora, ele aproxima-se do personagem, para mostrar através dos olhos todo o sentimento que o aflige, ora, ele desfoca a câmera de qualquer ponto naturalmente visível para evidenciar a perda da razão e do bom senso dos personagens. Na fase inicial do amor dos dois, o diretor optou por uma câmera ágil, que desfilasse e brincasse entre os protagonistas. As cores e as câmeras são totalmente dependentes do roteiro. Isso é genial. O diretor captura com perfeição cada instante dessa montanha russa numa descida sem fim.

O filme é um trabalho emocionalmente devastador, de personagens emocionalmente devastados e assustadoramente reais.

Os seres humanos tratados aqui são como todos os outros: erram, magoam, arrependem-se. O espectador se vê preso na história árdua desse casal que simplesmente viveu o que cada um lhe proporcionou. Amor não basta. Se não houver cuidado ele desaparece, ou nem surge. O erro não é difícil de encontrar nem de assumir, mas é inaceitável. Não se tem espaço para errar, não se tem espaço para voltar, não se tem condição de reconstruir. A dor passa a comandar. O que está feito, está feito.



Essa foi a "crítica" mais difícil que eu já fiz na vida.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Simplesmente Amor (Crítica: A Troca / 2008)

O tamanho da coragem é fruto do amor que você traz no peito, nos olhos e nas mãos.



Quando tentamos entender o valor ou o tamanho de um sentimento quase sempre damos com os burros n’água. Definitivamente não é fácil. Mas, mesmo assim, é comum escutarmos que não existe amor igual ao de uma mãe para um filho. Disso, eu realmente não duvido. Mães que movem montanhas por filhos, mães que percorrem desertos por filhos, mulheres que amargam vidas por uma eterna criança. Não sou e nunca serei capaz de definir isso por mais experiência de vida que eu tenha, muito menos aqui, através de palavras.

O Cinema é cheio dessas histórias de mães que se sacrificam para ver o bem estar de seus filhos. Alguns filmes são muito bem sucedidos, como o sensível O óleo de Lorenzo (1992) e o mais recente Reencontrando a Felicidade (2010). Porém, um drama real sempre nos dá mais base ao que estamos tentando entender e digerir. Esse é o caso de A Troca (Changeling, EUA. 2008), obra do renomado diretor Clint Eastwood que vem contar o desespero de uma mãe atrás de seu filho desaparecido.

Concordo assiduamente que está não é e nem figura entre as melhores obras do conceituado diretor. Vejo em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004) muito mais ousadia, paixão e qualidade, mas, ainda assim, A Troca tem seus méritos e pode, sim, ser considerado um grande filme. Baseado no incrível roteiro de J. Michael Straczynski, Eastwood optou por contar a história dessa mãe que enfrentou os homens e instituições mais poderosas de Los Angeles para reaver seu filho.



Em meados dos anos de 1920, Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, deixa o filho de 9 anos sozinho em casa para cobrir o turno de uma amiga na empresa de telefonia em que ambas trabalham. Mais tarde, ao chegar em casa, Christine nota o desaparecimento do filho. Tomada pelo desespero e pela angústia, a jovem mãe recorre à polícia de Los Angeles. Logo de cara, a polícia trata o caso com pouca importância, dizem à mãe que ela tem que esperar certo tempo para declarar o filho como desaparecido. Durante esse tempo, Christine procura pelo filho sozinha. Historicamente, nos anos vinte, a polícia de Los Angeles foi conhecida por ser uma das instituições mais corruptas dos Estados Unidos. É claro que essa história não vai terminar bem.

Cinco meses depois do ocorrido e com o desespero de Christine que só crescia, a polícia encontra uma criança a qual eles dizem ser o filho desaparecido da mulher. Na hora em que Christine coloca os olhos na criança ela descobre que aquele menino não é seu filho. Manipulada pela polícia, Christine é obrigada a levar a criança para casa. O chefe da polícia pede para que Christine faça uma experiência, ele não podia ver os pilares que ainda sustentavam toda a polícia da cidade serem carcomidos pela “pretensão” da impetuosa mãe, tanto, que toda a imprensa foi chamada para que fosse registrado o bom trabalho da polícia e o encontro “emocionante” da mãe e do filho. Christine leva o garoto para casa e com a ajuda do reverendo Briegleb (John Malkovich, excelente) da professora de seu filho, Christine vai até a imprensa delatar a ilegitimidade e corrupção da polícia de Los Angeles. A mãe não suporta ver a polícia parada, enquanto seu filho ainda está desaparecido.



Como forma de se defender, a polícia acusa Christine de insanidade mental. A mãe agora está presa num sanatório e não pode fazer nada para encontrar seu filho.

É curioso que no sanatório a única pessoa que ajuda Christine é uma prostituta, e ela que está do lado certo. Na conservadora sociedade americana do começo do século vinte quem vai ajudar a mãe na sua jornada são os atores sociais menos prováveis. Tudo parece se voltar contra Christine, tudo impede que a mãe finalmente encontre seu filho. Tudo por ignorância de uma sociedade que viu no desespero apenas um exemplo de loucura e não de amor que não cabe em apenas um ser humano. Tudo por elevação de uma instituição que ruiria com o menor vento que soprasse em sua direção.

A figura da mãe solteira em meio aqueles tantos homens de ternos, chapéus e fumando charutos causa muita comoção. Amparada na presença e expressão marcante de Angelina Jolie, Christine surge como uma andorinha em meio a centenas de gatos que só querem come-la, tirar a mulher do caminho e, assim, preservar o que é mais importante: o poder inquestionável.



Angelina Jolie, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela personagem, consegue transmitir todos os sentimentos dessa mãe: desespero, aflição, coragem, que ainda são somados a feminilidade e sensibilidade da mulher da época. Perdeu o prêmio para Kate Winslet, concordaremos num certo ponto: era uma tarefa difícil vencer a nazista analfabeta da atriz inglesa. Seu rosto é puro canal de dramaticidade e é ela, só a mãe, que consegue transmitir esperança para o espectador. Personagem e atriz dão um show de altíssimo nível.

A fotografia somada a belíssima reconstituição da época também são um deleite para os nossos olhos. A iluminação que hora foca em rostos dispersos, hora em metade de rostos e que por tantas vezes esconde os olhos de Jolie na penumbra de seu chapéu é usada com maestria por todos os profissionais, rendendo a todos nós uma aula espetacular de composição, luz, ambiente e direção de arte.

Christine é figura do que foi uma mulher em busca de justiça e movida por um amor que transcende qualquer outro tipo de relação. Uma cidadã que fez jus ao que é ter direitos e deveres a se cumprir. Buscou forças dentro do seu coração para fazer parar de funcionar a instituição mais forte da época, permitindo que mais nenhuma mãe passasse por tudo o que ela passou. O egoísmo do qual foi vítima foi pago por ela mesma com uma dose imensa de solidariedade e bondade. Às mães de todo o mundo minha profunda e incansável reverência.



Feliz Aniversário Mãe

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sob os Muros do meu País (Crítica: Terra Estrangeira / 1996)

Até lá, vou buscando me encontrar.



Até encontrar um roteiro, até encaixar uma temática, até definir seus atores, até passar a realidade nua e crua para meus olhos.
Não vivi (no sentido mais abrangente da palavra) em nenhum dos dois grandes períodos de emigração que se instalaram no Brasil: o primeiro, em consequência da Ditadura Militar (1964 – 1985), período que levou milhares de brasileiros a procurar abrigo em outros países, pois estes, chamados de subversivos, estavam sendo perseguidos e mortos dentro de seu próprio país; e o segundo, que se deu por motivos totalmente diferentes do primeiro. No início dos anos 1990, Fernando Collor de Mello, agindo sob as intenções de seu famoso Plano Collor, numa tentativa absurda de “salvar” o Brasil das ruínas, ordenou o confisco das reservas particulares de todos os brasileiros. O Brasil se via numa das piores crises econômicas de sua história. E aqui se encontra a diferença dos dois grandes períodos de emigração que assolaram o Brasil, um por motivos políticos e outro por motivos econômicos. Pela primeira vez um grande número de brasileiros deixa o país na esperança de ter uma vida melhor, de conseguir um bom emprego e, até mesmo, de enriquecer além das fronteiras de sua terra natal.

Collor, na época, extinguiu todas as fundações dedicadas ao Cinema, o próprio Ministério da Cultura e todas as suas leis de incentivo à produção cultural.

Volta ou outra, ouvimos falar da retomada do Cinema Nacional. A retomada vem disso. Dois grandes períodos tão obscuros da nossa história que praticamente impossibilitavam fazer cinema dentro do Brasil. A sensação de que o Brasil era um barco à deriva era quase que compartilhada por toda a população.

Walter Salles e Daniela Thomas escolheram o polêmico período do governo Collor para contar uma grande história. Em Terra Estrangeira (Brasil e Portugal, 1996), o sentimento do exílio vai ser o grande centro da história. Temática que, particularmente, acho muito difícil de explorar. Acredito que o sentimento do exílio é único e só quem viveu isso sabe como é. Não é contar a história de pessoas que decidiram morar em outro país e, sim, de pessoas que foram obrigadas, por diversas razões, a abdicar de tudo: família, língua e sonhos.



Walter Salles optou por dirigir o filme todo em preto e branco, dessa forma, mostraria com mais realidade um tema tão difícil de capturar. Acredito que a película pode ser considerada mais um road-movie de Salles, como considerei Central do Brasil. O filme foca em estradas, em caminhos, tanto objetivamente quanto subjetivamente.

Paco (Fernando Alves Pinto) mora em São Paulo com a mãe (Laura Cardoso). O jovem é estudante universitário, mas que sonha em ser ator. A mãe do rapaz tem um grande sonho: voltar para a terra de origem, San Sebastian, no norte da Espanha. Paralelamente a essa história, temos o casal Miguel (Alexandre Borges) e Alex (Fernanda Torres), dois brasileiros que partiram para Portugal na esperança de construir uma vida melhor. Os dois chegaram lá como contrabandistas, porém, Alex só usou desse artifício para entrar no país, já Miguel ainda mantém as práticas de contrabando e é viciado em heroína.
Essa é a apresentação que nos é feita. Agora as histórias vão se desenrolar, morrer, se encontrar e se perder.

A mãe de Paco morre em frente a televisão após saber que todo o seu dinheiro, o qual ela usaria para realizar o grande sonho, havia sido confiscado pelo governo brasileiro. Paco se vê sem rumo com a morte da mãe. Agora, mais do que nunca, o jovem se vê obrigado a ir a San Sebastian, chegar à cidade, sentar e olhar por alguém: a mãe. Quando está num bar, bebendo para digerir o acontecido, conhece Igor (Luís Mello), um misterioso colecionador de antiguidades que aparentemente sem buscar recompensas resolve ajudar Paco. Paco não tem dinheiro, não tem condições de chegar à Espanha. Igor, então, propõe que Paco leve uma mercadoria até Lisboa e que lá ele receberia um dinheiro para chegar até San Sebastian. O que Paco não sabe é que Igor é um perigoso contrabandista e que foi ele também o responsável por mandar Miguel e Alex para Portugal. Chegando a Portugal e após uma série de acontecimentos que vão desde a morte de Miguel até o desaparecimento da mercadoria que o jovem levara a Portugal, Paco conhece Alex e se apaixona por ela. Os dois vão viver um relacionamento conturbado pela perseguição de Igor, pela indefinição dos fatos e pelo amor fervente que nasce entre eles.



Walter Salles usou durante todo o filme câmeras muito inteligentes e precisas, de agilidade inquestionável e trilha sonora que emite grande suspense na maior parte da apresentação da obra. Algumas metáforas também foram usadas, como o barco à deriva que representaria o momento pelo qual o Brasil se arrastava; a jogada de câmera que deixou a personagem de Fernanda Torres em cima de uma cruz e o jovem Paco a contempla-lá de baixo, quando ele se dá conta que encontrou a primeira pessoa que pode confiar.

A caracterização das personagens ao que nós julgamos ser o sentimento do exílio parece ser fascinante. É possível ver o vazio que se estende em todas elas, a nostalgia em relação à terra natal e, principalmente, a falta de raiz com qualquer tipo de relacionamento: seja no relacionamento com o próximo, mas, indiscutivelmente, no relacionamento cidadão/pátria, não existe sentimento de ser de algum lugar, não existem raízes. A desesperança constitui todo o sentimento que as personagens carregam consigo.

Terra Estrangeira é quase uma aula de Antropologia. Vemos a situação do Brasil aos olhos de outros povos, alguns bem menos desenvolvidos que o próprio Brasil, como é o caso dos angolanos que enxergam apenas a violência como característica do povo brasileiro. A invalidez de um passaporte brasileiro também chama a atenção, ele simplesmente tem um valor abaixo do normal por ser brasileiro. E tudo isso acontece dentro de um país considerado a escória da Europa. Portugal é periferia. É símbolo do que há de pior no continente europeu. O ponto que Terra Estrangeira quer tocar são as fronteiras. Quem delimita as fronteiras? Porque para alguns ela se torna mortal, como no caso de Miguel? A gente sempre tentando ultrapassar as fronteiras e entrando num lugar onde nos sentiremos estrangeiros, não pela barreira da língua ou da cultura, mas pelo sentimento de não nos sentirmos de lugar algum.



Todas as atuações do filme são de deixar o queixo caído. Fernanda Torres mostra, mais uma vez, que faz cinema como poucas atrizes brasileiras. Não existe vaidade que limite a total entrega da atriz para a personagem. Laura Cardoso faz uma ponta brilhante, talvez, seja dela, a única personagem que mantém laços com a esperança. O jovem e pouco conhecido Fernando Alves Pinto também dá conta do recado com perfeição.

A belíssima fotografia do filme também dá asas a nossa imaginação. Sempre cortada por ambientes crus e revoltos, a fotografia tem no preto e branco um auxílio magistral. A cena final em que Alex rompe com as barreiras entre Espanha e Portugal, cantando Vapor Barato em cima da voz de Gal Costa, tendo sob seu colo o amado ferido com um tiro no peito é de uma sensibilidade e beleza sufocadoras. A partir daqui não sabemos se Paco conseguirá olhar San Sebastian pela mãe, se a polícia capturará esses dois estrangeiros ou se tudo dará certo e, assim, Paco e Alex encontrarão a tão sonhada liberdade.

Na obra, o amor é a única opção de liberdade às duas personagens. Só o amor é capaz de trazer esperança de volta. E só a partir dele eu consegui encontrar a única maneira de definir o exílio.
O vazio? Esse fica. Como aquela pedra que a gente coloca no bolso e vez ou outra nos lembra do peso que tanto incomoda.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cinzas, relógio e imaginação (Crítica: Desventuras em Série / 2004)

A promessa dos céus é de que toda tempestade passa.
Cai
Diante de um céu cinza, vejo cair o mundo. Mundo este, que pela primeira vez, construímos sozinhos. Por méritos que até os deuses desconhecem. Mas, que sim, construímos.
Essa tempestade não cai, não passa, insiste em permanecer sobre ou dentro das nossas cabeças.
Não imploramos por ajuda, não precisamos dela. Só contamos com o passo rápido que o relógio também insiste em não aderir.
Tenho saudade da minha mãe. Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade de mim.




Talvez essa seja a “crítica” mais breve que eu já escrevi. Não estou aqui para falar de travellings, fotografia, direção de arte ou atuação. Isso também não é por falta de inspiração. Descobri que posso falar através do cinema. Descobri que esse é realmente meu único e verdadeiro caminho. Descobri (ou pelo menos passei a aceitar) que estou no caminho errado...

Como é possível uma indústria, cinza como costuma ser, me causar tanta comoção? E aqui, já estou eu com os olhos ardendo na difícil arte de segurar lágrimas. ARTE. Acho que essa é a palavra chave para tudo. Viver é uma arte, mesmo que você nunca tenha entrado em contato com nenhum tipo de expressão artística, a sua história rende um século de arte. Meu caminho não é esse. É hora de virar a mesa. Como? Não tenho dinheiro, não tenho opinião própria e tenho muita preguiça. A única coisa que sei fazer mais ou menos bem é isso: “criticar” o trabalho dos outros. Que arrogância a minha. Como se alguém estivesse se importando com meus 5 ou 6 parágrafos de pura paixão e fascinação. Como se eu acreditasse que um dia eu vou ser o que eu nunca serei. Que preguiça.

Mais aí me surge um filme que não me canso de ver e que, ainda, condiz exatamente com o que eu busco no próximo: amor, imaginação e união. Irrita-me profundamente quando surge um louco (ou o louco sou eu) dizendo que Desventuras em Série (Lemony Snicket’s: A series of unfortunate events. EUA, 2004) é um Harry Potter mediano. Se não fosse o grau de simbolismo que Harry Potter tomou na minha vida, diria que a obra de Daniel Handler é muito mais completa que os livros da inglesa J. K. Rowling.
E ainda não consegui falar nada com nada.



Desventuras em Série é uma fábula infantil, dedicada ao público infanto-juvenil, porém, vejo na obra do diretor Brad Silberling muito mais do que uma fábula: vejo uma lição para adultos, e vejo um deleite para crianças que já cresceram. Eu. Encaixo-me perfeitamente no público que ama essa obra: sou ingênuo, fascinado e tenho um coração que não é meu, é totalmente de quem corre ao meu lado.

A história de Desventuras em Série não é bonita, não é alegre. No começo do longa, o narrador (Jude Law) alerta o espectador: “Se você quer assistir um filme sobre elfos felizes, você está no lugar errado. Ainda há tempo para desistir e assistir um filme com pássaros cantando e elfos pulando num vale verde”. Basicamente, o filme trata com muito carinho (na medida do possível) a história dos três irmãos Baudelaire. Violet (Emily Browning, um doce), Klaus (Liam Aikeen) e Sunny (Kara e Shelby Hoffman) são os Baudelaire. Logo no início do filme seus pais são mortos num incêndio dentro da própria casa. Assim, três crianças ficam órfãs e sob a mercê do vilão da história. Conde Olaf (Jim Carey) é o parente mais próximo das crianças: um tio insano, excêntrico, ambicioso e aspirante a ator. Olaf só está interessado na herança das crianças, herança esta que só será liberada quando Violet fizer 18 anos. O Conde, então, decidi que a solução mais plausível é matá-las. Nas mãos de Olaf, essas crianças vão sofrer as maiores barbaridades, vão ser humilhadas e tratadas como estrume. Agora vem a especificidade de cada uma dessas crianças. Violet tem um incrível dom de inventar coisas com os mais diversos e estranhos objetos, basta amarrar o cabelo com uma fita e ela se vê produzindo as maiores genialidades; Klaus consegue lembrar de tudo que ele já leu um dia, cada palavra, e somos informados de que ele já leu mais de 1000 livros sobre os mais variados temas; Sunny, um bebê, só sabe morder. Só morder.



Com esses “dons” os irmãos Baudelaire vão fugindo, tentando escapar da ganância do tutor, vão sendo mandados para casas de parentes cada vez mais distantes. O tio fascinado por cobras (Billy Connolly) e a tia histérica, apaixonada por gramática e que morre de medo de corretores de imóveis (Meryl Streep). Porém, Conde Olaf ainda está atrás das crianças, ele mata o tio, mata a tia, sempre deixando as crianças sem opções a não ser voltar a viver com ele e, assim, serem mortas. Mortal, um para o outro.

E essas são as crianças Baudelaire. A história gótica e com estilo macabro se torna linda no âmbito da união desses três irmãos que se veem sozinhos e sem opção a todo o momento. A mais velha, na pureza de seus 14 anos, é a líder dessa união: está com a irmã no colo quase que o filme inteiro, simboliza a esperança de uma vida melhor, de um momento de paz entre os três, onde ela poderá ser o que ela sempre foi.



Desculpem-me mesmo não desvendar mais nada além disso: os livros, o roteiro, a esplendorosa fotografia a la Tim Burton, as três crianças geniais, a maravilhosa direção de arte. Hoje é só isso que eu tenho para falar. A história de crescimento dessas três crianças hoje me bastou.

No silêncio da solidão coletiva, essas crianças procuraram um abrigo, um lar. Um lugar onde elas pudessem só brincar de tentar ser adulto, mas, ainda assim, permanecer e preservar sua criancice. Mas, elas tiveram que crescer e lidar com situações que nem nós, adultos, somos capazes de lidar: a falta dos pais e a própria falta de identidade. E elas têm chances de vencer, graças à imaginação, a união e ao amor. É voltar para tentar reparar, salvar tudo o que foi.




E assim, um rastro de sol se infiltrou na pesada camada cinza que o céu insistia em preservar.
Já é um começo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

De tempos em tempos, o perdão (Crítica: Magnólia / 1999)

“Mas se recusares a deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”



Quantos filmes você já assistiu e pensou: Que m* é essa?

Poucas vezes tive o prazer de me perguntar isso, porém, a obra sempre se mostrou muito mais do que eu esperava: um grande feito. Existem filmes que não aspiram interpretações pela metade, mas, sim, interpretações que entrem num senso comum ou até mesmo que sejam de origem mais pessoal ainda, mas, sempre interpretações conclusivas.

O cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson, hoje simplesmente como P. T. Anderson, é conhecido por trabalhar dessa forma: seus roteiros são sempre recheados das mais diversas metáforas, de diferentes tramas e subtramas, e, ainda, possui um estilo de filmagem muito pessoal, o que dificulta o espectador na hora de interpretar qualquer uma de suas obras.

Em Magnólia (Magnolia, 1999. EUA), Anderson imprime toda sua versatilidade e genialidade na construção do roteiro, na direção dos atores e na própria direção geral do longa. O filme, que foi eleito como sendo um dos melhores dos anos 1990, é uma aula sobre visão, ousadia (desde os travellings até as metáforas) e, principalmente, de complexidade cinematográfica.



Não vou me permitir mais delongas, já que o assunto promete render páginas e páginas de especulações. Por isso, tentarei ser o mais breve e justo possível.

Paul Thomas Anderson já tinha provado sua genialidade em várias subdivisões da arte cinematográfica com Boogie Nights (1997), filme que aborda o nascimento da indústria pornográfica nos Estados Unidos. Consequentemente, precisava agora provar que Boogie Nights não havia sido sorte de principiante e que, sim, ele era um NOME do Cinema contemporâneo. Nesse instante nasce a ideia de Magnólia. P. T. Anderson manteve boa parte do elenco de Boogie e começou a rodar o que foi sua obra prima até o nascimento de Sangue Negro (2007). Isso na opinião dos grandes críticos mundiais, opinião a qual compartilho.

Magnólia começa tenso e confuso. Ao invés de apresentar seus personagens, Anderson opta por mostrar uma série de acontecimentos na vida de pessoas que não farão diferença nenhuma no caminhar da história que logo mais começará a ser contada. Um homem que tenta o suicídio se jogando de um prédio, mas que no exato momento em que passa pela janela do seu apartamento é atingido por um projétil de arma de fogo, disparado pela própria mãe, que discutia com o marido. Anderson fez esse take com a intenção de mostrar como nós estamos à mercê das coincidências da vida, do acaso. E que sob esse (o acaso) nós não temos controle nenhum.



Então, resta a Anderson começar a apresentar seus personagens, que são muitos, de mundos diferentes e que terão, por algum motivo, suas histórias interligadas. Magnólia vai acompanhar um único dia na vida desses personagens. Assim, nos é apresentado Earl (Jason Robards) um milionário produtor televisivo que está à beira da morte, em função de um câncer. Earl é casado com Linda (Julianne Moore), uma mulher bem mais jovem que o marido e que se casou por interesse, mas que vê na doença deste o florescimento do amor. Acamado, Earl conta com a ajuda do enfermeiro Phil (Philip Seymour Hoffman, aqui o grande ator se contém num papel tímido). É Phil quem vai lutar para que Earl reveja o filho que ele abandonou há muitos anos atrás. O filho é Frank Mackey (Tom Cruise, na melhor atuação de sua carreira), uma espécie de guru sexual, que empreende uma jornada machista. Do outro lado temos o policial Jim (John C. Reilly), talvez seja esse o personagem mais ingênuo da trama, é nele que Claudia (Melora Walters, também sensacional) encontra uma nova chance de estruturar sua vida, sair do vício das drogas e, finalmente, se livrar do seu trauma. Claudia é filha de Jimmy Gator, apresentador de um programa de televisão (produzido por Earl) que mostra uma competição intelectual entre crianças e adultos. Jimmy tem uma relação conturbadíssima com Claudia. Stanley (Jeremy Blackman) é um garoto prodígio que é usado pelo pai para obter dinheiro e fama através do programa de Gator. Para fechar, temos Donnie Smith, é um quarentão fracassado, conhecido por ser, quando criança, um recordista do programa de Gator. Anderson montou o cenário e agora começa a bela confusão.

É incrível como Anderson consegue trabalhar com tantos personagens e mesmo assim imprimir complexidade e profundidade nos tais personagens. Todos eles são vítimas de um passado obscuro, pedante e de arrependimentos. É um ode ao perdão. Todos buscam redenção, de uma forma ou de outra. A personagem de Julianne Morre talvez seja a mais difusa da história, porém, tem sua importância: foi a partir dela que Anderson construiu as outras figuras. Também é curioso como as histórias se repetem: a indefinição na relação entre pais e filhos, a destruição de uma vida inocente pela ambição de outro, a doença como fator de reaproximação e o acaso como ponto de solução.



Tecnicamente, Anderson dá um show. Desde os closes e os cortes repentinos, um mesmo personagem não tem mais que 5 minutos para mostrar sua história, os cortes aparecem em momentos de grande tensão e em momentos de mera contemplação. O diretor também usa travellings geniais, capazes de deixar qualquer aspirante a cineasta com água nos olhos, como é a cena em que o garoto Stanley corre pelos corredores do estúdio do programa de Jimmy Gator.

Agora vem, o que talvez seja o maior tesouro da obra de Anderson, as intermináveis metáforas. Precisei assistir novamente o filme para ver o constante aparecimento do número 82, na primeira vez passou completamente despercebido. O diretor, ainda, colocou numa das cenas de gravação do programa de Gator, um figurante que ergue um cartaz no meio da plateia. Nele está escrito: Êxodo 8:2. Uma menção bíblica que diz o seguinte: “Mas se recusares a deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”. E é aqui que inicio a discussão sobre a cena mais polêmica do filme: a chuva de sapos. Qual a finalidade dessa chuva? Castigo? Ponto de partida?



Coincidentemente, a estranha chuva tem início quando o personagem de Tom Cruise, já anestesiado pelo encontro com o pai, pede que este não se vá. Nesse momento o primeiro sapo cai do céu, dando passagem para mais um milhão de sapos que vão cair ao longo da cena. ISSO PODE ACONTECER. É o que diz o menino Stanley diante da chuva. Novamente o acaso ou finalmente a intervenção dos céus. Lembre-se do menino que se intitulava profeta e que aparece em alguns momentos do filme: para denunciar um criminoso para Jim, para salvar a depressiva Linda, para resgatar a arma de Jim... arma essa que cai do céu junto com os sapos. Quem era aquele menino, afinal? Qual era o papel daquela criança. Notem a complexidade da obra de Paul Thomas Anderson.

Outro momento bastante metafórico se dá no instante em que todos os personagens cantam a mesma música. É como se todos estivessem sentindo o mesmo, se unindo no sofrimento e fossem parar no mesmo ponto. Numa hora todos iam se encontrar. E as histórias se encontram.

O nome do filme também rende outra metáfora, um pouco mais complexa. Acredita-se que a magnólia seja a flor mais primitiva que existe no mundo. Daí as atitudes, buscas e receios dos personagens. Todos somos frutos de alguma coisa, somos regidos por alguma coisa e nada mais depende só de nós. É o ser humano em seu estágio mais dependente possível.

O destaque de atuação vai para Tom Cruise e a novata Melona Walters, os outros atores se mantém razoáveis, mas não comprometem o filme em momento nenhum. Tom Cruise é destaque absoluto, conhecido por ser um ator limitado, aqui o Sr. Cruise entrega a melhor atuação de sua carreira: desde o começo como um libertino machista até o final onde entrega a melhor cena da carreira. O encontro com o pai é arrepiante, e só vemos em Cruise uma criança pedindo atenção. Como Stanley pede para o pai (as histórias se repetem). A intensidade com que Cruise constrói o personagem é digna de um Oscar (o ator foi reconhecido com uma indicação na categoria de Melhor Ator Coadjuvante). Não conhecia Melona Walters até ver Magnólia, entendi seu sofrimento e sofri junto como um fiel escudeiro. Outro show a parte. São os adultos voltando a ser crianças: com ela isso ocorre na cena do jantar com o policial Jim, notem a ansiedade da personagem frente a possibilidade de se achar.



Estou terminando esse texto crente que estou deixando três milhões de coisas para traz. Isso incomoda. Queria poder falar de cada metáfora que aparece na obra e que não consegui enxergar nas duas vezes que assisti. Paul Thomas Anderson proporciona a cada um de nós uma experiência arrebatadora. Um caminho surreal que tem como ponto de partida o arrependimento e ponto de chegada o perdão, embora para alguns esse fim nunca chegue. Permitindo-lhes, então, o silêncio e o fardo.