segunda-feira, 5 de março de 2012

O Mundo da Barbie ( Crítica: Jovens Adultos / 2011)

Muitos são orgulhosos por causa daquilo que sabem; face ao que não sabem, são arrogantes.



Alguém aí já parou pra pensar como seria o mundo da Barbie? Barbie, aquela boneca famosa, sonho de consumo de toda menina suficientemente tomada pela futilidade dos alvos anos da infância, querida por sucessivas gerações de garotas ricas, loiras, às vezes, morenas, fascinadas por cabelo e maquiagem. O novo filme do diretor Jason Reitman (Amor sem Escalas), Jovens Adultos (Young Adults, Eua. 2011), me fez pensar como seria a vida de Barbie, a bela menina com um toque de vida de interior, mas com sonhos grandes demais para o seu mundo real.

Barbie seria a menina mais popular, a mais bela, a “cheerleader”, arrasando corações pelos corredores coloridos de uma escola pública do interior de Minnesota. Teria o namorado mais bonito, seria amiga das garotas mais legais. Mesmo tendo uma vida que toda garota pediu a Deus, Barbie não se contentaria com a vida mórbida que sua cidade lhe proporcionaria. Aí viriam as grandes mudanças. Barbie precisava ser conhecida pelo mundo inteiro.



A segunda parceria entre Reitman e a roteirista Diablo Cody, vencedora do Oscar pelo roteiro de Juno (também dirigido por Reitman), já era uma coisa esperada. Indiscutivelmente, parece que um nasceu para o outro. Reitman tem uma mão muito leve e uma sensibilidade muito característica que transborda a tela do cinema. Diablo Cody fica com a função de garota rebelde da história: sarcástica, irônica e poderosa. Seria ela a Barbie do mal, que junto com Reitman consegue transformar a protagonista de Jovens Adultos numa belíssima teoria para a vida da mulher Barbie.

Mavis Gary (Charlize Theron, linda como sempre) é a típica menina que nasceu no interior e, por força de uma arrogância tipicamente adolescente, casou-se e resolveu tentar a vida na cidade grande. Por hora, o caminho de Mavis parece ter dado certo: dona de seu próprio nariz, possui toda a autonomia de sua vida amorosa, preferindo noites rápidas com rapazes recém-conhecidos e, ainda, tem certo sucesso profissional. Gary é escritora de uma série destinada a jovens adultos. Gary é a futilidade em pessoa e a vida lhe permite isso, suas histórias baseiam-se numa protagonista que remete muito a Bella de Crepúsculo, insossa, nariz empinado e infantilóide. Kendal, protagonista da série, tem inspiração nas irmãs Kardashians.



Por mais que Mavis pareça ter finalmente dado certo na vida, ela ainda detém de um casamento falido, uma vida solitária e uma série literária a qual não recebe devidamente os créditos por escrevê-la. Certo dia, a mulher recebe um e-mail com a foto de um bebê. O bebê é filho de seu antigo namorado da época do colégio, Buddy Slade (Patrick Wilson, o mesmo personagem a vida inteira, o Ken), agora casado com outra mulher. Mavis decide voltar a cidade-natal para recuperar o antigo namorado e levá-lo com ela para a cidade grande. A mulher faz desse seu objetivo essencial para continuar a viver, seria a falta dele o fator responsável pela sua vida incompleta.

O roteiro, muito bem escrito, não permite que o espectador bata de frente com Mavis, nos tornamos aliados dela, mesmo sabendo que tudo vai dar errado, e é aqui que cabe a genialidade da roteirista. A cruzada feita por Mavis atrás de seu objetivo causa ao espectador uma vergonha alheia de explodir os tímpanos. É constrangimento a flor da pele. Seja pelo aparente problema de alcoolismo da personagem ou pelas investidas pouco convencionais no antigo namorado.



Quem aparece para segurar as pontas da protagonista é Matt Freehauf (o ótimo Patt Oswalt). Matt conhece Mavis dos tempos do colégio, a mulher, ao contrário, não se lembra do sujeito. Porém, cria-se uma cumplicidade muito grande entre os personagens, que aparentemente são como água e petróleo. Não existe encaixe entre dois tipos tão disfuncionais na sociedade. Mais uma vez, o trabalho da roteirista permite que as personagens coexistam na mesma ideia do certo e errado, da arrogância e da humildade, da pena e do reconhecimento. Sem clichês, Matt não vem pra ensinar nada a Mavis, que é muita imatura ou inconsequente para entender ou apreciar algo que vá além de sucesso e dinheiro, o ensinamento acaba vindo a nós, como se fosse um alerta. Mantenha seus passos leves e terá tudo o que desejar.

A pena que Mavis rapidamente associou aos moradores de sua antiga cidade se volta contra ela, se expande pelos poros da mulher e a derruba aos olhos de quem ela achava que a admirava. Era tudo pena? Achava que todos queriam ser como eu. E aqui se esconde o pecado mortal de Mavis: achar que o mundo de Mercury (a cidade-natal) se ajoelharia a seus pés.



Charlize Theron faz um trabalho único em frente às câmeras de Reitman. Se o papel fosse dado a uma atriz que não tivesse sua beleza e seu talento, provavelmente o público a rejeitaria e a sensação primordial que o filme provoca no espectador seria nula. Elegante, dona de um presença artística incomparável, o trabalho de Charlize poderia estar entre as grandes atuações do último ano. Um belo presente aos fãs da atriz.

Concluindo a resenha, voltamos a ideia da Barbie. Eu imagino perfeitamente a Barbie como uma alcoolatra, derrotada em quesitos sentimentais, forçada a andar para frente pelo peso de sua popularidade no colegial, só não vejo a Barbie voltando atrás, não enxergo coragem e visão na boneca, só é nítido uma intocabilidade absurda. Por isso, Jovens Adultos não é a história de uma Barbie, e sim, de uma Suzy que tentou a vida toda se tonar uma Barbie.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nascidos para Morrer (Crítica: Precisamos Falar Sobre o Kevin / 2011)

É do amor permeado pela dúvida que surgirão seus maiores desafios, suas mentiras escabrosas, seus olhares medonhos e seus filhos bastardos.



Não existe nem nunca existiu fórmula para o amor, ele aparece ou não. Amor de amigo surge por afinidade e amor de casal surge por atração (pelo menos é assim na maioria das vezes, mas, como eu disse, não existe regra). Talvez nesse quesito, as mulheres sejam os seres mais cobrados da sociedade. Amor de mãe surge como, afinal? Dizem os mais conservadores que ele vem a partir do instante em que a semente é plantada, e isso é o que difundimos por aí. É inaceitável o desprezo de uma mãe por um filho. É crime e merece ser castigado.

O roteiro de Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, Reino Unido/ EUA. 2011), baseado no romance de Lionel Schriver, propõe, entre outros tantos polêmicos assuntos, um debate asfixiante sobre a conduta de uma mãe no relacionamento conturbado com o seu primogênito, o tal do Kevin. Passiva demais? Dura demais? Egoísta demais? Ou o problema nem está ali?



Através de uma narrativa densa e complicada, a diretora Lynne Ramsay projeta ao espectador uma experiência emocionalmente devastadora. É até complicado falar por uma questão sensitiva: a obra se caracteriza por um misto enorme de sentimentos e cabe a cada um expressá-lo da melhor maneira possível. Prepare-se: você se anulará o tempo todo. É como se fosse nosso dever apontar um culpado, um inocente ou um nada. A história não nos permite passividade ou algo do gênero, e promete deixar você dias a fio com uma teoria plantada na sua cabeça.

Nos primeiros minutos do filme, nós somos apresentados a uma mulher solitária, que tem no olhar e nas marcas de expressão algum segredo muito forte guardado a sete chaves. Não é um segredo, mas também não se sabe se é medo ou vergonha. Tudo acaba sendo permitido a personagem. Quem dá vida a essa Mulher, Eva, é a estonteante (talento) Tilda Swinton, que encarrilha um trabalho melhor que o outro nos últimos anos. Através de flashbacks (apresentados com muita calma e precisão pela diretora) vamos descobrindo quem é aquela mulher, quais são os seus receios e suas dúvidas.



Eva era uma mulher do mundo, bebia vinho com o futuro marido (o ótimo John C. Reilly)pelas ruas da cidade, tomava banho de chuva, se aventurava em eventos como a Tomatina (que acaba por se tornar uma das principais metáforas da obra), era verdadeiramente uma cidadã do mundo. Até que é acometida por uma gravidez indesejada. Ponto final. A diretora volta ao presente de Eva e mostra a casa dessa mulher sendo atacada por vândalos, ataques violentos de madames na rua. Para o espectador que se depara com Precisamos Falar Sobre o Kevin sem nunca ter ouvido qualquer premissa sobre o filme isso se caracteriza como uma sacada absurda, os pontos nunca serão entregues. Cabe ao espectador paciência, pois se trata sim de um filme muito denso.



Nasce Kevin, aquele que viria se tornar o grande pesadelo de muitas pessoas. Desde bebê, Eva não teve muita sensibilidade com o filho. Não tratava mal, longe disso, mas faltava um estalo de delicadeza, um surto mínimo de abertura para essa nova vida. Numa das cenas mais fantásticas do filme, Eva encosta o carrinho junto a uma britadeira em ação no meio da rua para, por alguns minutos, não escutar o barulho do choro incessante do filho. A crueza como a diretora impõe essa cena ao espectador é de dar arrepios, afinal, que mãe é essa sem nenhum artifício para parar essa criança? Mágica não existe, tanto pra um quanto pra outro.



Kevin cresce e quem dá o ar da graça é o talentosíssimo Ezra Miller,um jovem ator que soube, no tom certo, misterioso e desprezível, dar vida a personagem. Durante esses quinze anos, Kevin sempre intrigou a mãe, é nítido o medo que Kevin consegue enraizar no semblante da mãe e, ao mesmo tempo, o carisma conquistado pelo permissivo pai, que põe em cheque toda a autoridade da mãe. Kevin “amadurece” em torno de vários mistérios: o acidente quase faltal com a irmã mais nova, a dificuldade em fazer o que lhe é pedido, por exemplo, Kevin só começa a falar quando lhe é viável, até lá, ele mantém sua mãe numa busca irrisória aos seus olhos. Kevin conquista sua independência psíquica com cerca de quatro anos. É assustador.

O que o filme traz pra gente é o que o próprio título sugere: uma conversa sobre a conduta de Kevin. Até ele entrar numa escola e matar dezenas de pessoas, possuído por uma frieza marcante desde que estava em fraldas, nossa empatia acaba se juntando a mãe, que no fim das contas, talvez também não mereça nossa compaixão. Tudo se torna tão à flor da pele como um romance tórrido, existe competição plena entre mãe e filho, jogadas implícitas realizadas tanto por um quanto pelo outro, ninguém encontra seu lugar nem seu papel naquela família e isso assusta, assusta muito.



Tilda Swinton dá ares frescos a esse bicho chamado Eva, tomada pelo sofrimento e culpa, a atriz nos põe cara a cara com Kevin, não existe interconexão, graças ao seu absurdo empenho nós somos ela e ela nós até o fim. Mergulhar na história de Eva é algo que não se escolhe. A mulher, esfolada de culpa e marginalizada pela sociedade em virtude do desvio de caráter do filho, cresce aos olhos do espectador em cada fase da vida, desde a mulher sonhadora quando solteira até a mãe dividida entre a dúvida e o amor. Os caminhos (todos mostrados na obra) de redenção pessoal e entendimento da personagem promovem um trabalho simplesmente perfeito de Tilda Swinton. E seu poder encontra-se todo na expressão: cativa e silenciosa quando enfrenta os olhos de outros, assustada e nervosa quando se reflete em si própria.

Não tem como se esquecer de um filme como esse. O trabalho dos atores, o trabalho primoroso da diretora (sendo esse um dos melhores filmes de sua carreira), a fotografia e até mesmo a trilha sonora, que deixa aquele clima de horror sempre pairando no ar. Assim se fez um dos melhores filmes de 2011, que irritantemente foi mantido fora do Oscar. E quem perde são só eles.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ao Som de uma Gaita de Fole (Crítica: The Big C)

"Comece mudando a si mesmo. Ninguém muda o mundo se não consegue mudar a si mesmo ..."



The Big C foi a grande pérola que eu encontrei em meio as novas séries americanas. Estava pensando em fazer um post menos melancólico, sem tantas adjetivações, que acabam por ser sugestivas, mas com The Big C não dá. A série, que acabou de confirmar a terceira temporada, não me permite ser implícito ou reservado, o grau de emoção e sentimentos que ela consegue transmitir, transcende muitos grandes filmes.

A fórmula de The Big C pode ser encarada por muitos como “já batida”, muito explorada tanto pelo cinema e por séries também, como Weeds e United States of Tara, que, tem como protagonista, uma mulher e sua luta contra uma grave doença. Tinha tudo pra dar errado. Mas, essa série se configura por ser um trabalho bastante diferente. Sim, a carga de sentimentos humanos que ela consegue transmitir é muito alta, mas, ainda assim, é carregada de humor negro e cenas memoráveis com alto teor de sarcasmo. Se existe uma palavra para definir a série, essa palavra seria leveza, graças a essa mistura de drama, comédia e muito bom gosto.



Veiculada por um canal pequeno nos EUA, a Showtime, a série anda com louvor, possui um roteiro surpreendente e um elenco de primeira. No Brasil, é a HBO quem está comandando a série. Se o tema foi exaustivamente explorado por outros projetos, se o caminho a seguir poderia ser tortuoso e acabar por definhar em apenas uma solitária temporada, The Big C conseguiu driblar tudo isso.

A série foca numa personagem feminina, Cathy Jamison, interpretada com desenvoltura pela veterana Laura Linney (Conte Comigo, A Família Savage e Sobre Meninos e Lobos). Cathy é casada há vinte anos com Paul (Oliver Platt), como fruto da relação veio Adam (Gabriel Basso), um adolescente frio e misterioso aos olhos da mãe. Logo no primeiro episódio, quando somos apresentados a Cathy, descobrimos que ela possui um câncer feroz e em estágio avançado e que ela está separada do marido. Por força dessa mesma doença, Cathy sente necessidade de viver a vida, esta que ela sente que deixou passar em branco.



O foco principal do roteiro é a relação de Cathy com as personagens que entram e saem da série, deixando, cada um, uma imensa saudade e um brilho no olhar do espectador. Seja pela vizinha Marlene (Phylis Sommervile, um brinco), rabugenta e vítima de Alzheimer, que ao longo da série se torna uma grande amiga da protagonista, o marido, que ama a esposa mais que tudo, mas parece fazer tudo errado, o filho, que solta palavrões e tende a desrespeitar qualquer regra imposta pelos pais, a aluna obesa e sem papas na língua, interpretada com louvor pela preciosa Gabourey Sidibe (perdoem-me o trocadilho), o irmão Sean (John Benjamin Hackey), sujeito que vive na rua e prega as mazelas do mundo capitalista. Sem contar os interesses amorosos de Cathy, como o próprio médico, e um pintor, que ela conhece na escola onde trabalha.

A príncipio, Cathy esconde o câncer de todos, na maioria dos posts e comentários que eu encontrei sobre The Big C, os espectadores julgaram a protagonista como uma mulher egoísta e hipócrita, e talvez, isso venha de sua necessidade em repelir os sentimentos de pena das outras pessoas. Cathy não quer ser vista como uma coitada, vítima de câncer, inútil para a maioria das pessoas, muito pelo contrário, o câncer chega como um novo sopro na vida da mulher de 42 anos. O câncer vira o grande motivo de Cathy querer buscar a beleza de um diálogo com o filho, na conquista árdua de um de seus alunos, proporcionar para si mesma um alento, que permita um sono tranquilo e a sensação de dever comprido.



Por mais que pareça clichê, o roteiro consegue desvencilhar cada buraquinho que possa ser encontrado na narrativa. A série surpreende e não é pouco. É interessante e muito criativo como cada um descobre o câncer de Cathy, ou como, cada um, acha que descobre. As diferentes reações de cada personagem, os diferentes desabafos da protagonista, a leveza de cada diálogo, de cada superação da personagem.

Cathy pode ser considerada uma das personagens mais complexas da televisão americana, seja por seu aparente egoísmo, que quem a conhece entende que não é tamanha é a entrega da atriz, que faz com que nós sejamos amigos, e que ela seja nossa confidente, ou pela sua luta sienciosa contra o mal. É totalmente feita para proporcionar um mergulho muito delicado e gelado na face dessa mulher.



Mesmo tratando de um tema severo, a série traz uma dose de humor muito grande. Cathy costuma fazer chacota de si mesma, de como a doença a está matando, de como ela escolhe nãos seguir nenhum tratamento combativo a doença, de como ela realmente enxerga o seu passado e o seu presente, caminhando sobriamente até a luz que um dia supostamente irá lhe atingir.

O elenco, como eu já disse, é de primeira. A química que se encontra entre cada ator é de fazer o queixo cair. Laura Linney ainda é a maior estrela da série, seu jogo de corpo em cena e sua técnica mostram aquela atriz que a gente sabe que é fantástica, mas que sempre optou por ficar escondidinha naquele canto da sala. Talvez, por isso, Laura Linney aposte em trabalhos mais arriscados como esse, por não ser tão insuflada pela indústria cinematográfica.

A série já possui duas temporadas, cada uma com treze episódios de mais ou menos trinta minutos, a terceira temporada deve vir em junho. Detalhe: a trilha sonora também deve ser reparada e apreciada, recheada de música de bandas independentes e vozes serenas.



É incrível essas nuances que a proximidade da morte pode trazer a um ser humano. A vulnerabilidade que ela nos traz só deixa mais nítido como não somos donos do nosso próprio nariz. Pra isso, pra tudo isso, existe o destino. Ou você é ou você não é. Ou você antecipa sua morte ou você vive sua morte. Cathy planta uma semente de esperança e fé no espectador, que provavelmente nunca morrerá.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Hora e a Vez de Meryl Streep (Crítica: A Dama de Ferro / 2011)


"Fique Firme".




Meryl Streep é unânime.
Não existe atriz, não existe ator, não existe diretor, não existe ninguém com o poder de Meryl Streep. Isso não se resume apenas a talento, este que a atriz tem pra dar e vender, mas também a um poder de mobilização de fãs, colegas de trabalho, e da própria indústria de entretenimento, que emenda uma fila sem fim de admiradores e difusores de sua arte. É fato, fica difícil citar outro artista com tamanha influência sobre todos os termos que regem a indústria cinematográfica, talvez Spielberg, talvez Scorsese, talvez DeNiro, não sei, Meryl Streep consegue ser unânime, não existe talvez, existe uma estrela, seja em calçadas ou em corações, ela arrebata milhões de pessoas com sua magnificência e amor pelo trabalho.

Dezessete vezes indicada ao prêmio máximo do Cinema, a atriz chega ao Oscar 2012 como a favorita para levar a estatueta para casa pela terceira vez: a primeira foi por Kramer vs. Kramer (1979) como coadjuvante, e a segunda, por A Escolha de Sofia (1982) na categoria de atriz principal. Mais uma vez, agora em A Dama de Ferro (The Iron Lady. Inglaterra, França, 2011), Streep emplaca mais um belíssimo desempenho e se torna recordista absoluta de indicações ao prêmio. Não é pra qualquer um.



Quando foi convidada a encarnar a ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margareth Thatcher, Meryl não pensou duas vezes. Com uma carreira recheada de mulheres nascidas genuinamente da ficção, surge uma das raras oportunidades de se produzir, com seu brilhantismo, uma mulher de verdade, forte, corajosa, realmente de ferro. Contudo, o roteiro fracassou, a diretora cedeu aos clichês de um mundo desinteressante e formulou uma história muito pouco atrativa.

A diretora Phyllida Lloyd não possui grandes feitos em seu currículo, talvez o mais conhecido seja o musical gracinha Mamma Mia! (2009), que também conta com a presença de Meryl Streep. Talvez, por isso, tenha faltado bastante sensibilidade na construção desse trabalho, que por mais que tenha a genialidade de seu elenco, mantém-se muito abaixo do esperado para uma biografia de uma das mulheres mais importantes do século passado. Lloyd constrói exatamente um filme para quem não gosta de política: Não explica os maiores feitos da dama de ferro, não explicita suas conquistas e suas derrotas. Escolhe ficar numa onda baixa e mansa, sem refletir toda a agressividade e turbulência que foi a vida de Thatcher.



Margareth Roberts, como nasceu, cresceu na Inglaterra pós-segunda guerra, abatida por um conservadorismo ferrenho e com um sublime interesse por política, foi admitida em Oxford. Sua ousadia gritante seria vista nos quatro cantos de seu círculo de relações. Thatcher é responsável por tirar a Inglaterra de uma das mais ferrenhas recessões que o país enfrentou, e não só por isso, mas também por lançar o pequeno reino, logo após a crise, num período ininterrupto de prosperidade. Apostou na política neoliberal, sempre apoiada pelo seu partido, o Conservador, fez vista grossa com os gastos, sofreu com os atentados terroristas do IRA, entrou em conflito armado com a Argentina, e combateu o “mal” do socialismo. Por essa luta ferrenha contra os comunistas, recebeu o apelido de Dama de Ferro, particularmente apadrinhado pelos soviéticos.

O drama de Phyllida Lloyd não explora os anos de trabalho dessa mulher, que chegou a ser a mais odiada do mundo durante a década de 1980. Lloyd preferiu construir um longa repleto de flashbacks, onde uma Margareth Thatcher velha e senil se recorda de sua trajetória. Tudo muito comido, roído, jogado ao espectador sem nenhum tipo de explicação.

A menina feia rejeitada pelos colegas, a jovem aceita por Oxford, que conhece seu marido numa mesa de politicagem, a primeira eleição perdida, a chegada ao Parlamento, a ocupação de cargo de Ministra da Educação (após muitos anos) da gestão anterior a sua, enfim. Nada é explicado, nada é pronto, muito menos facilitado para nós. Em dois terços do filme veremos a primeira-ministra totalmente debilitada pela idade, tentando driblar o controle da filha, da empregada e do fantasma do marido, que ela vê com frequência, no restante da obra, você verá os flashbacks da vida política de Thatcher, como eu já disse, extremamente mal desenvolvidos. Em que lugar ficou as propostas, ideias e ações de Thatcher? Quem foi seu braço direito, quem alimentou suas campanhas? Onde estão os onze anos de turbulência comandados pela líder britânica? Falta informação, falta pesquisa. Pra quê tantas cenas vazias e superficiais? Não há como não comparar com o excelente A Rainha (2006), que se traduz num filme exato, correto e conflituoso. A busca pela imagem concreta de Thatcher não chega nem perto da construção primordial da Rainha Elizabeth II.



Nos últimos minutos de projeção, o filme se torna extremamente confuso: o roteiro te joga um novo descontentamento com a figura política e, consequentemente, culmina na sua queda do poder. As cenas de Thatcher atual se traduzem lentas, melancólicas, enquanto as atuais são minimalistas e corridas.

Incomoda-me muito ver uma obra tão pela metade assim, que não diz ao que vem. Eu fui assistir na esperança de ver Thatcher julgando o resto do mundo, combatendo as forças socialistas, impondo suas leis e ideias para a sociedade, contrariando os políticos liberais, mas não, tudo o que se tem é um filme morno, onde a única coisa que realmente dá certo é Meryl Streep e sua sublime caracterização.



Simplesmente o filme deveria se chamar Meryl, assim ele estaria mostrando o que é capaz de fazer uma grande atriz, mesmo em frente a uma personagem tão rasa. Mesmo quando velha, Streep dá o costumeiro show de sempre e decreta com uma imensa rocha seu posto de melhor atriz do Cinema contemporâneo. Se antes existia Liv Ullman, Katherine Hepburn e Geraldine Page pra trazer alguma dúvida, hoje o caminho é só dela. Não existe ninguém igual. A caracterização da personagem também recebe nota altíssima, desde o figurino novo em folha e a maquiagem espetacular, até a absorção de um sotaque firme e convincente, que consegue dar todo um charme singular a personagem. Meryl provavelmente sentiu dificuldades em problematizar a personagem, por isso leva todo o filme nas costas, sem reclamar, sem pestanejar, muito pelo contrário, torna um trabalho que provavelmente seria impossível nas mãos de uma outra atriz, numa performance invejável e favorita a ser coroada como a melhor do ano. Por fim, se alguma coisa pode atrapalhar a vitória de Meryl, essa coisa é a ineficiência do filme como um todo.



Pra terminar, gostaria de ressaltar que o filme deve, sim, ser visto unicamente pelo trabalho da atriz. Se você procura conhecer o Thatcherismo, desista. Se você clama por um grande filme, desista. É simples: Se você não conhece Margareth Thatcher, essa não é a sua chance.