Assim, soluçou a desesperança.
Ela estava aqui.
Dos augúrios de uma caminhada, o mais palpável deles será a falta de esperança. Expectativas podem (e irão) cair por terra e junto levar um casamento, uma família, algumas vidas.
O breve contexto serve pra situar o campo em que estamos pisando, os buracos cobertos com folhas e as armadilhas disfarçadas numa capa. Sam Mendes, diretor do incrível Beleza Americana (1999), é um dos diretores mais competentes quando o assunto é desnudar minuciosamente a sociedade americana, abrindo canais dentro do seu mais íntimo desejo, e correndo de mãos dadas da falsa moral construtora dessa massa única.
Se em Beleza Americana o diretor destruiu a plácida e orgulhosa imagem desse povo, em Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, EUA. 2008) Mendes recobra todos os sentidos e características do mesmo “modelo de vida”, o “American way of Life”, para evidenciar seu nascimento, pautado por falhas, no âmbito de uma nação preconceituosa e extremamente valorizada.
A tarefa do diretor não é fácil, talvez, por isso o filme tenha alguns percalços desnecessários. A maça estava ali e deveria ser roída até o cabinho, assim eu vejo um pouco de superficialidade no tratamento do tema e na condução das personagens. Um aprofundamento maior só traria ganhos à película e ao currículo de cada um dos envolvidos. Por isso, também, o filme foi quase que completamente ignorado pela academia de cinema em 2009. Sam Mendes não é mais a galinha dos ovos de ouro.
Após muito enrolar, vou me reservar somente ao roteiro e suas nuances, que hora ou outra se perderá devido ao superficialismo momentâneo. O filme não segue uma estrutura linear, já no início somos apresentados a um casal em tempos de guerra particular. A primeira cena já é tão forte que dá pra temer o que o filme nos reserva. Num movimento de regressão, o filme nos leva a uma tímida festa em Nova York. Lá, April (Kate Winslet, primor) e Frank (Leonardo DiCaprio, absurdamente talentoso) se conhecem. Ela é uma aspirante a atriz, enquanto ele
transita por várias áreas sem saber realmente o que quer fazer. Juntos descobrem uma relevante afinidade: passar pela vida de forma espetacular, aproveitando cada segundo, fazendo valer cada respiração.
É claro que nada vai dar certo. O casal vai se perdendo, corroendo a si próprio, desvendando um aspecto nada solar de duas pessoas que supostamente se amavam. E aqui, mais do que nunca, entra a crítica psicossocial de Sam Mendes. Inventa-se um molde de vida com o qual temos que nos adaptar e, ainda, repassá-lo como absoluto. Presente do pós-guerra, dádiva do pré-feminismo.
O problema reflete algo podre dentro de nós e, assim, os personagens vão se descobrindo e nós nos apegamos ao papel de julgador, aquele que dá a nota ao final de tudo. O que acontece é que, aliados a uma promessa de vida, o casal se vê afundar na mesmice. Frank está preso a um trabalho que não gosta, dentro de uma empresa e sem nenhum tipo de reconhecimento. April se torna histérica e ácida à beira de uma pia, lavando pratos e pensamentos. A concretização de um modo de vida comum incomoda muito mais April do que Frank, já que ele vê na proliferação do dinheiro e no adultério uma maneira simplista de aliviar sua frustração. Ela não tem nada a perder, mas é quem mais perde.
Sem notar muito as opções individuais, nem mesmo as coletivas, o casal vai se arrastando na imensidão do vazio que os abasta. As coisas vão perdendo o sentido, os olhares vão correndo logo para o fim, e cada sentimento se prostrando como tal é na vida real. Os sonhos se tornam pesadelos, o respeito toma face incomunicável e o amor dá lugar a raiva. O ápice do desespero de April surge quando a dona de casa sugere que os dois façam as malas, peguem os dois filhos e “fujam” para Paris, lá ela iria trabalhar, enquanto ele estudava algo que ele gostasse. O bote salva-vidas de April fura facilmente, pois ela encontra a submissão do marido, que já foi consumido pelo medo de recomeçar. Frank não está feliz, tampouco pronto pra refazer o casamento.
Daí, pra acirrar essa miscelânia de sentimentos, aparece John (Michael Shannon, brilhante). O filho da vizinha e corretora de imóveis do casal, interpretada pela ótima Kathy Bates, sai de um manicômio e resolve fazer uma visita ao casal infeliz. É John, que tomado por uma angústia causticante, vai deliberar os diálogos mais impressionantes desse filme. De forma muito doída, Frank e April recebem como tapas na cara cada uma das palavras de John, que vai metralhando e esclarecendo a mediocridade que a dupla mergulhou. Tudo sucumbirá como um suspiro de morte.
Os olhares de profundo ódio que um começa lançar ao outro são magistrais. É incrível ver a esperança se esvair, ver a solidão e o egoísmo tomarem conta de uma família. Estou enjoado de dizer o quanto Kate Winslet é boa no que faz. Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz pelo filme, Kate se consagra como a melhor atriz de sua geração, provando que não existe vaidade que não possa ser suplantada. DiCaprio é, sem dúvida, o novo Robert DeNiro, misturado com a sensibilidade de Sean Penn e a dedicação leal de Robert Duvall. Ainda vamos ouvir falar muito de Leonardo DiCaprio.
Com uma direção de arte invejável, Sam Mendes vai dando forma aos seus pensamentos, criando mundos paralelos entre seus personagens e a plateia. Queira Deus que ele continue a trabalhar com tanto afinco e qualidade, tendo a colaboração de ótimos profissionais e a subordinação de uma legião de fãs (como eu).
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
O Espetáculo da nossa Existência (Crítica: Foi Apenas um Sonho / 2008)
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segunda-feira, 28 de maio de 2012
Repulsa (Crítica: Anticristo / 2009)
"O caos reina"
Está certo que Lars Von Trier é mesmo um dos maiores realizadores da safra atual. Não bastasse o próprio diretor se intitular dessa maneira, eu também vou me render, mais uma vez, ao seu brilhantismo. Cara difícil, antiamericano, simpatizante de práticas nazistas, como ele próprio declarou em Cannes no ano passado, gerando grande polêmica ao redor do mundo, Von Trier consegue fazer de seus filmes uma grande aula de roteiro, direção, fotografia e contemplação.
Criador do Dogma 95, o diretor tem em seu currículo filmes como Ondas do Destino (1996), Dogville (2003) e, o genial e mais recente, Melancolia (2011). A mais polêmica de suas realizações talvez seja mesmo Anticristo (Antichrist, Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Polônia. 2009), como disse Roger Ebert: “um garfo no olho”. O que Anticristo gera nos espectadores é algo parecido com uma mistura de repulsa e sadismo, não sobrando espaço para uma única respiração.
Dividindo a maioria das opiniões, Anticristo deixa um rastro arrasador, independente da aceitação do filme. Se você gosta, se torna um apreciador imagético e sensato da obra de Von Trier, se não gosta, a experiência foi realmente dura. Filme forte, trágico, que necessita de uma boa dose de estômago e concentração pra ser levado. Aliás, ser levado pelo filme é o grande trunfo de Von Trier, que consegue construir um ritmo essencial à colaboração do espectador, já que a história, se não fosse o diretor, seria facilmente abandonada por quem assiste: a loucura não tem limite.
O filme é dividido em quatro capítulos, um prólogo e um epílogo. Logo de cara, Von Trier nos apresenta uma cena compatível ao seu brilhantismo. Em preto e branco, o prólogo de Von Trier dá margem aos acontecimentos que vão seguir o trágico início. Numa câmera lenta excepcional, o diretor coloca o casal protagonista, interpretado por Charlotte Gainsbourg (Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes pelo papel) e Willem Dafoe, numa cena de sexo explícito, enquanto isso, o filho, ainda muito bebê, sai do berço, abre a janela e se joga do prédio (sim, crianças se suicidam). Como é do feitio de Von Trier, o momento da morte do bebê coincide exatamente com ápice do orgasmo da mulher, colocando em oposição o lado vítima e o lado culpada que se chocaram durante toda a película.
A todo o momento, Von Trier coloca as coisas em oposição, hora aproximando, hora igualando. Na medida em que a vida das personagens vai perdendo a cor, com o caos se instalando fervorosamente no cotidiano, o filme, ao contrário, vai ganhando uma fórmula imagética que plastifica todo o sentimento, a dor e as questões que envolvem a obra. A fotografia, belissimamente sincera, liga os pontos da dor e da realidade, movendo o espectador a uma proliferação de sensações até então inimagináveis. Descobrimo-nos sádicos, dramáticos, crentes e animais. Os animais é outro ponto chave dessa história, já que a raposa, o corvo, o lobo e o cervo dão o tom animalesco ao personagem de Willem Dafoe, incutindo a ideia de que a sua ciência (perdedora) e seu propósito (egoísta) não surtem efeito graças a sua semelhança com as coisas mundanas. O ar que tu respiras, o que comes e o que vestes não te faz diferente de nenhum ser. E aí que entra a ideia maior de Von Trier, diminuir o ser humano a sua mais temida face: o animal.
A floresta, ironicamente chamada de Éden, colocará os personagens frente a eles mesmos, ao nojo interno de si e do outro, a ligação entre dor e passagem, dor e momento. O Homem encontra sua pior face e tenta destruí-la, infligir dor, matar todas as suas células que possam dar uma posição saudável, de vida. E, acredite, essa dor não é sentida pela mãe, a perda do filho é a válvula de escape para o encontro do seu ser com a natureza, aquela que vai torturar, manipular e matar.
O trabalho dos atores é realmente sensacional. Os personagens não perdem nada em relação à complexidade de seus caminhos. O marido, que hora misógino, tentador do controle sobre a mulher, traça sabidos momentos de tortura sobre as feridas do lado mãe, como o sexo quando entra como fator de liberação dos sentimentos, enquanto ela, enlouquecida, só vê na satisfação da culpa o caminho da glória final. Deus pode não ter nada a ver com a história... ou ter tudo a ver com ela.
Está certo que Lars Von Trier é mesmo um dos maiores realizadores da safra atual. Não bastasse o próprio diretor se intitular dessa maneira, eu também vou me render, mais uma vez, ao seu brilhantismo. Cara difícil, antiamericano, simpatizante de práticas nazistas, como ele próprio declarou em Cannes no ano passado, gerando grande polêmica ao redor do mundo, Von Trier consegue fazer de seus filmes uma grande aula de roteiro, direção, fotografia e contemplação.
Criador do Dogma 95, o diretor tem em seu currículo filmes como Ondas do Destino (1996), Dogville (2003) e, o genial e mais recente, Melancolia (2011). A mais polêmica de suas realizações talvez seja mesmo Anticristo (Antichrist, Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Polônia. 2009), como disse Roger Ebert: “um garfo no olho”. O que Anticristo gera nos espectadores é algo parecido com uma mistura de repulsa e sadismo, não sobrando espaço para uma única respiração.
Dividindo a maioria das opiniões, Anticristo deixa um rastro arrasador, independente da aceitação do filme. Se você gosta, se torna um apreciador imagético e sensato da obra de Von Trier, se não gosta, a experiência foi realmente dura. Filme forte, trágico, que necessita de uma boa dose de estômago e concentração pra ser levado. Aliás, ser levado pelo filme é o grande trunfo de Von Trier, que consegue construir um ritmo essencial à colaboração do espectador, já que a história, se não fosse o diretor, seria facilmente abandonada por quem assiste: a loucura não tem limite.
O filme é dividido em quatro capítulos, um prólogo e um epílogo. Logo de cara, Von Trier nos apresenta uma cena compatível ao seu brilhantismo. Em preto e branco, o prólogo de Von Trier dá margem aos acontecimentos que vão seguir o trágico início. Numa câmera lenta excepcional, o diretor coloca o casal protagonista, interpretado por Charlotte Gainsbourg (Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes pelo papel) e Willem Dafoe, numa cena de sexo explícito, enquanto isso, o filho, ainda muito bebê, sai do berço, abre a janela e se joga do prédio (sim, crianças se suicidam). Como é do feitio de Von Trier, o momento da morte do bebê coincide exatamente com ápice do orgasmo da mulher, colocando em oposição o lado vítima e o lado culpada que se chocaram durante toda a película.
A todo o momento, Von Trier coloca as coisas em oposição, hora aproximando, hora igualando. Na medida em que a vida das personagens vai perdendo a cor, com o caos se instalando fervorosamente no cotidiano, o filme, ao contrário, vai ganhando uma fórmula imagética que plastifica todo o sentimento, a dor e as questões que envolvem a obra. A fotografia, belissimamente sincera, liga os pontos da dor e da realidade, movendo o espectador a uma proliferação de sensações até então inimagináveis. Descobrimo-nos sádicos, dramáticos, crentes e animais. Os animais é outro ponto chave dessa história, já que a raposa, o corvo, o lobo e o cervo dão o tom animalesco ao personagem de Willem Dafoe, incutindo a ideia de que a sua ciência (perdedora) e seu propósito (egoísta) não surtem efeito graças a sua semelhança com as coisas mundanas. O ar que tu respiras, o que comes e o que vestes não te faz diferente de nenhum ser. E aí que entra a ideia maior de Von Trier, diminuir o ser humano a sua mais temida face: o animal.
A floresta, ironicamente chamada de Éden, colocará os personagens frente a eles mesmos, ao nojo interno de si e do outro, a ligação entre dor e passagem, dor e momento. O Homem encontra sua pior face e tenta destruí-la, infligir dor, matar todas as suas células que possam dar uma posição saudável, de vida. E, acredite, essa dor não é sentida pela mãe, a perda do filho é a válvula de escape para o encontro do seu ser com a natureza, aquela que vai torturar, manipular e matar.
O trabalho dos atores é realmente sensacional. Os personagens não perdem nada em relação à complexidade de seus caminhos. O marido, que hora misógino, tentador do controle sobre a mulher, traça sabidos momentos de tortura sobre as feridas do lado mãe, como o sexo quando entra como fator de liberação dos sentimentos, enquanto ela, enlouquecida, só vê na satisfação da culpa o caminho da glória final. Deus pode não ter nada a ver com a história... ou ter tudo a ver com ela.
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quarta-feira, 23 de maio de 2012
Strawberry Fields Para Sempre (Crítica: Educação / 2009)
“Mais cedo ou mais tarde, a teoria sempre acaba assassinada pela experiência.” (Albert Einstein)
Caminhos servem para serem trilhados. Escolhas são, mais do que fruto de devaneios, caminhos a serem trilhados. Quem passa incólume pelas escolhas, dificilmente cria experiência. Quem nega caminhos, improvavelmente lembra-se da vida que levou. Experiência é, inegavelmente, fruto dos nossos erros. Às vezes, e na maioria delas, traz sofrimento, culpa, arrependimento.
Educação (An Education, Inglaterra. 2009), dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig (recém-saída do Dogma 95, o mesmo que Lars Von Trier ajudou a criar), promove uma semi-discussão sobre as escolhas da vida e como elas podem afetar na construção moral de um ser humano. Através da contraposição entre educação, essa que é ensinada dentro de escolas, e experiência, adquirida da vivência humana, o longa espreme no espectador uma experiência catastrófica para uma menina de 16 anos no início da década de 1960.
Muitos dizem que o longa não insere nada de novo a esse tipo de discussão, já que o tema vem sendo pormenorizado pelo Cinema há muitos anos. Mas, é clara a diferença que existe entre esse filme e os tantos outros que se propuseram a discutir o papel feminino na década que iria revolucionar a vida da mulher dentro de uma sociedade, até então, machista. Essa diferença não reside só em preparações técnicas de cinema de primeira, como o exuberante figurino e a estonteante fotografia, mas também por se tratar do melhor roteiro de um dos grandes escritores das últimas décadas, Nick Hornby, o mesmo de Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). Dessa vez, Hornby adapta das memórias da jornalista inglesa Lynn Harber, um roteiro direto, pleno e, sem dúvida, sua melhor parceria com a sétima arte.
Jenny (Carey Mulligan, sensacional) é a menina de 16 anos que ficará indecisa entre dois distintos modos de vida. O primeiro trata-se da educação, mais pura e gradual que pode existir. Seu pai, interpretado pelo sempre competente Alfred Molina, impõe sobre a garota uma educação rígida, em que Jenny tem que ter as melhores notas da sala, para tentar pleitear uma vaga em Oxford, o lugar que Jenny enxerga como ideal. O segundo, vem na forma um homem mais velho, David, que ganha vida através do talento sempre esnobado de Peter Sarsgaard.
Vale lembrar que o pai de Jenny, apesar de ser muito rigoroso quanto aos estudos da filha, nunca impediu que ela fizesse nada, tanto é que quando a jovem conhece David, os pais de Jenny logo se encantam pela majestosa presença do rapaz. David chega na vida de Jenny como a promessa de uma vida diferente da qual ela levaria, caso continuasse se dedicando fervorosamente aos estudos, já que em nenhum momento ele é dispensado, apenas é tratado com menos importância, conforme a menina vai se rendendo aos encantos de David, ou melhor, aos encantos da vida que David lhe proporciona.
David é o desejável bon vivant. Dono de uma cultura extensa, que vai desde conhecimento da Antiguidade Clássica até o ainda desconhecido rock "yeah yeah yeah", mais tarde traduzido pelos Beatles, frequentador de cafés famosos, restaurantes caros e teatros particulares, David vai conquistando Jenny sem nenhum esforço. A menina que já era fascinada pela cultura francesa, por música clássica, por roupas finas, se rende a essa explosão atômica que passa a dar rumo a sua vida. Os estudos estão cada vez mais esquecidos, só a presença, sem nenhuma ideia construtiva, vai concretizando a vida acadêmica de Jenny. A educação passa a ser um investimento a longo prazo, enquanto um homem rico pode surpreender suas espectativas quanto a vida.
É certo que alguns atores foram muito mal aproveitados nessa película, como é o caso da veterana Emma Thompson, que surge como a diretora da escola que Jenny estuda. Ameaçando uma singela revolução aos costumes dentro da escola, Jenny encontra na diretora um empecilho feroz ao abandono da educação como prioridade da vida da mulher inglesa. O filme ainda traz Dominic Cooper e Rosamund Pike como os amigos de David que ajudarão Jenny na abdução ao novo estilo de vida.
É notável a mão leve da diretora ao traduzir uma história que podia cair facilmente no melodramático. Ao contrário disso, a diretora impõe um ritmo próprio ao longa, impedindo que a história fique tão blasé, como tem nomeou a crítica especializa na época de estreia do filme. Mesmo sendo reconhecido com várias indicações a diversos prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Filme, a crítica insiste em diminuir a obra sem nenhum por que. O filme tem sim seus méritos e muito grandes por sinal, como é o caso do trabalho espetacular dos atores.
A novata (na época) Carey Mulligan impressionou o mundo com o retrato forte e inteligente dessa garota, que mesmo aliada a uma educação nata, deixou-se levar pela lábia fina de um homem culto. E aqui se encontra os dois lados da educação primorosa: enganar e ensinar. Mulligan, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e perdeu injustamente para Sandra Bullock naquele ano, é considerada, hoje, uma das atrizes mais promissoras do mundo, já que está envolvida em grandes trabalhos, com grandes atores e grandes diretores. Peter Sarsgaard não fica atrás, e a cada papel mostra mais um pouco de seu talento, que até agora custa a ser reconhecido pelas grandes premiações.
Os limites de bom senso da personagem parecem todo tempo transponíveis, é como se o preço de ser enganada valesse diante da vivência que ela se entregava. O final, embora um pouco previsível, reflete bastante essa segurança que a personagem de Carey parecia passar a cada cena, a cada diálogo, apesar de tudo ela sabia seu fim e o desejava, talvez como uma nova versão de uma feminista. Outro grande suporte das emoções dos personagens está na fotografia, que encontrou nas cores cruas uma solidez causticante ao produto final, permitindo uma dose infinita de paixão e crueldade aos atos impensáveis dessas criaturas humanas.
A direção de arte do filme também é outro espetáculo a parte, que junto com o elenco magistral, promove uma experiência no mínimo reflexiva ao espectador. Acho muito cruel rebaixar Educação ao posto de grande vilão da inteligência humana. Não é todo mundo que planta cinema, às vezes, essa pode ser a primeira experiência de um espectador quanto ao tema. Por isso, deve sim, ser respeitado e divulgado como uma obra memorável.
Caminhos servem para serem trilhados. Escolhas são, mais do que fruto de devaneios, caminhos a serem trilhados. Quem passa incólume pelas escolhas, dificilmente cria experiência. Quem nega caminhos, improvavelmente lembra-se da vida que levou. Experiência é, inegavelmente, fruto dos nossos erros. Às vezes, e na maioria delas, traz sofrimento, culpa, arrependimento.
Educação (An Education, Inglaterra. 2009), dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig (recém-saída do Dogma 95, o mesmo que Lars Von Trier ajudou a criar), promove uma semi-discussão sobre as escolhas da vida e como elas podem afetar na construção moral de um ser humano. Através da contraposição entre educação, essa que é ensinada dentro de escolas, e experiência, adquirida da vivência humana, o longa espreme no espectador uma experiência catastrófica para uma menina de 16 anos no início da década de 1960.
Muitos dizem que o longa não insere nada de novo a esse tipo de discussão, já que o tema vem sendo pormenorizado pelo Cinema há muitos anos. Mas, é clara a diferença que existe entre esse filme e os tantos outros que se propuseram a discutir o papel feminino na década que iria revolucionar a vida da mulher dentro de uma sociedade, até então, machista. Essa diferença não reside só em preparações técnicas de cinema de primeira, como o exuberante figurino e a estonteante fotografia, mas também por se tratar do melhor roteiro de um dos grandes escritores das últimas décadas, Nick Hornby, o mesmo de Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). Dessa vez, Hornby adapta das memórias da jornalista inglesa Lynn Harber, um roteiro direto, pleno e, sem dúvida, sua melhor parceria com a sétima arte.
Jenny (Carey Mulligan, sensacional) é a menina de 16 anos que ficará indecisa entre dois distintos modos de vida. O primeiro trata-se da educação, mais pura e gradual que pode existir. Seu pai, interpretado pelo sempre competente Alfred Molina, impõe sobre a garota uma educação rígida, em que Jenny tem que ter as melhores notas da sala, para tentar pleitear uma vaga em Oxford, o lugar que Jenny enxerga como ideal. O segundo, vem na forma um homem mais velho, David, que ganha vida através do talento sempre esnobado de Peter Sarsgaard.
Vale lembrar que o pai de Jenny, apesar de ser muito rigoroso quanto aos estudos da filha, nunca impediu que ela fizesse nada, tanto é que quando a jovem conhece David, os pais de Jenny logo se encantam pela majestosa presença do rapaz. David chega na vida de Jenny como a promessa de uma vida diferente da qual ela levaria, caso continuasse se dedicando fervorosamente aos estudos, já que em nenhum momento ele é dispensado, apenas é tratado com menos importância, conforme a menina vai se rendendo aos encantos de David, ou melhor, aos encantos da vida que David lhe proporciona.
David é o desejável bon vivant. Dono de uma cultura extensa, que vai desde conhecimento da Antiguidade Clássica até o ainda desconhecido rock "yeah yeah yeah", mais tarde traduzido pelos Beatles, frequentador de cafés famosos, restaurantes caros e teatros particulares, David vai conquistando Jenny sem nenhum esforço. A menina que já era fascinada pela cultura francesa, por música clássica, por roupas finas, se rende a essa explosão atômica que passa a dar rumo a sua vida. Os estudos estão cada vez mais esquecidos, só a presença, sem nenhuma ideia construtiva, vai concretizando a vida acadêmica de Jenny. A educação passa a ser um investimento a longo prazo, enquanto um homem rico pode surpreender suas espectativas quanto a vida.
É certo que alguns atores foram muito mal aproveitados nessa película, como é o caso da veterana Emma Thompson, que surge como a diretora da escola que Jenny estuda. Ameaçando uma singela revolução aos costumes dentro da escola, Jenny encontra na diretora um empecilho feroz ao abandono da educação como prioridade da vida da mulher inglesa. O filme ainda traz Dominic Cooper e Rosamund Pike como os amigos de David que ajudarão Jenny na abdução ao novo estilo de vida.
É notável a mão leve da diretora ao traduzir uma história que podia cair facilmente no melodramático. Ao contrário disso, a diretora impõe um ritmo próprio ao longa, impedindo que a história fique tão blasé, como tem nomeou a crítica especializa na época de estreia do filme. Mesmo sendo reconhecido com várias indicações a diversos prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Filme, a crítica insiste em diminuir a obra sem nenhum por que. O filme tem sim seus méritos e muito grandes por sinal, como é o caso do trabalho espetacular dos atores.
A novata (na época) Carey Mulligan impressionou o mundo com o retrato forte e inteligente dessa garota, que mesmo aliada a uma educação nata, deixou-se levar pela lábia fina de um homem culto. E aqui se encontra os dois lados da educação primorosa: enganar e ensinar. Mulligan, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e perdeu injustamente para Sandra Bullock naquele ano, é considerada, hoje, uma das atrizes mais promissoras do mundo, já que está envolvida em grandes trabalhos, com grandes atores e grandes diretores. Peter Sarsgaard não fica atrás, e a cada papel mostra mais um pouco de seu talento, que até agora custa a ser reconhecido pelas grandes premiações.
Os limites de bom senso da personagem parecem todo tempo transponíveis, é como se o preço de ser enganada valesse diante da vivência que ela se entregava. O final, embora um pouco previsível, reflete bastante essa segurança que a personagem de Carey parecia passar a cada cena, a cada diálogo, apesar de tudo ela sabia seu fim e o desejava, talvez como uma nova versão de uma feminista. Outro grande suporte das emoções dos personagens está na fotografia, que encontrou nas cores cruas uma solidez causticante ao produto final, permitindo uma dose infinita de paixão e crueldade aos atos impensáveis dessas criaturas humanas.
A direção de arte do filme também é outro espetáculo a parte, que junto com o elenco magistral, promove uma experiência no mínimo reflexiva ao espectador. Acho muito cruel rebaixar Educação ao posto de grande vilão da inteligência humana. Não é todo mundo que planta cinema, às vezes, essa pode ser a primeira experiência de um espectador quanto ao tema. Por isso, deve sim, ser respeitado e divulgado como uma obra memorável.
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sábado, 21 de abril de 2012
Está chegando a hora de ir (Crítica: Por Uma Vida Melhor / 2009)
Digerindo a partida que me parte ao meio...

E se teu mundo fosse um pouco mais distante dos caminhos da sua cabeça? E se o mundo tivesse que parar de ser essa cabeça? Seríamos nômades, andarilhos e mendigos buscando seu lugar? O lugar do coração, o lugar da alma? Pense que todos nós temos um plano a ser seguido, aquela vida sem roteiro não existe, somos caçados por nosso próprio ser, somos intimados a achar o lugar da alma, independente da responsabilidade vir a galope e sugerir lugares e ideias de como deveríamos ser. Somos peças, um peão, um cavalo ou uma torre, somos rainhas e reis em busca do trono perfeito.
Uma hora a gente tem que partir, tem que dar corda nas costas e sair investigando cada canto plausível a você. Não existirá dúvida quando encontrar, não restará pedra que se meta a rolar. Você encontra seu lugar, consequentemente, você se encontra.
Retiro tudo o que eu disse. Minha família é o meu caminho, meu sonho é o sonho dela. Meu lugar é o lugar em que ela estiver. Seja pai, mãe, amigos ou cachorro, onde um estiver eu estarei, pois “metade de mim é partida e a outra metade é saudade”.

É um pouco de tudo isso que Por Uma Vida Melhor (Away We Go, EUA. 2009) se propõe a filosofar. Não é um filme melancólico, em que os personagens fazem da partida uma saga revolucionária da alma. Acima de tudo, é um filme reflexivo, delicado, preparado sob a iminência da verdade. Sam Mendes, diretor da obra-prima Beleza Americana (1999), deixa um pouco de lado toda a sua visão severa e crítica da sociedade norte-americana e produz um road movie desses de encher os corações de esperança.
O espectador pode ser levado a um poço mortal de desesperança se não acreditar que tudo é passível de mutação, porém, a intenção não é essa. Difícil de acreditar, mas Sam Mendes só quer contar uma bela história, sem emoções contidas, que venha fazê-lo refletir e mastigar a fábula da vida dura.
A história de um casal simples, monótono do interior dos EUA cai bem à fábula da vida dura. Ele um nerd que trabalha pelo celular e quer se casar, ela uma negra, grávida de seu primeiro filho, que é contra a instituição casamento. Esses traços de cada personagem servem apenas para elucidar que o problema que atinge inconscientemente esse casal, pode, e vai ser, gerado em qualquer tipo de pessoa. A saga amoral da partida não é plena quando não se tem convívio consigo mesmo. Burt (John Krasinski) e Verona (Maya Rudolph) formam um casal totalmente desprendido de pequenos problemas, tanto é que o problema de não aceitação do casamento pela mulher, não faz com que um ou outro ame menos seu parceiro. A vida parece ser mais adiante e o buraco mais embaixo. Não se tem razão pra viver mal quando a alma não é pequena. Por isso, após a decisão dos pais (Catherine O’Hara e Jeff Daniels) de Burt de se mudarem para a Bélgica, o casal não vê mais porquê em viver naquela cidade, que só os mantinha pela insegurança de Verona na criação de seu filho, vendo nos sogros uma oportunidade de auxílio imediato.

Meu bem,
No encontro ou na partida, lembre-se de mim.
Que um beijo ou um abraço não seja só o fim
Que no instante em que esteja do meu lado
Seu coração permaneça parado.
Através de um roteiro muito particular, Burt e Verona iniciam uma jornada em busca do lugar ideal para se viver, para criar o filho e construir uma história pessoal (o roteiro toca muito na pessoalidade de cada um, mesmo quando são casais). O trabalho de contemplação de cada ator é genial. É através de olhos e olhares extremamente significativos que o roteiro e o produto imagético vai sendo construído. Mesmo quando esse casal, após rodar muito pelas estradas de seu país, encontra o lugar ideal para viver são os olhares e a postura de cada um em cena que vai nos dizer a intensidade da busca de cada um. Ombros pesados, olhos apertados e pés postura concreta na busca fundamental.

Um dos setores mais tocantes e que devem ser ovacionados durante o filme é, sem dúvida, a trilha sonora de Alexi Murdoch. Delicada como um ovo e dura como metal. A música entra como fator prioritário no entendimento dos personagens desse filme. É ela, junto com os olhares e a postura (no sentido mais grosso da palavra), que vai nos proporcionar a identificação dos momentos sublimes da alma da película: Ser feliz. E que, para ser feliz, não existe exagero, não existe cálculo, só existe uma vontade incessante a ser saciada.
Canto a vocês esse trabalho, do qual me orgulho muito de ter entendido e processado e, ainda, ter tomado como parte de mim, porque estou indo embora de um lugar que me faz muito feliz. Um lugar que eu cresci como pessoa, como amigo, como filho. Espero voltar um dia e que esse dia seja em breve, com boas histórias pra contar, com sinceros olhares para se trocar. Um abraço demorado em cada um de vocês. A gente se vê por aí.

Tudo acontece na hora certa.
Tudo acontece, exatamente, quando deve acontecer.

E se teu mundo fosse um pouco mais distante dos caminhos da sua cabeça? E se o mundo tivesse que parar de ser essa cabeça? Seríamos nômades, andarilhos e mendigos buscando seu lugar? O lugar do coração, o lugar da alma? Pense que todos nós temos um plano a ser seguido, aquela vida sem roteiro não existe, somos caçados por nosso próprio ser, somos intimados a achar o lugar da alma, independente da responsabilidade vir a galope e sugerir lugares e ideias de como deveríamos ser. Somos peças, um peão, um cavalo ou uma torre, somos rainhas e reis em busca do trono perfeito.
Uma hora a gente tem que partir, tem que dar corda nas costas e sair investigando cada canto plausível a você. Não existirá dúvida quando encontrar, não restará pedra que se meta a rolar. Você encontra seu lugar, consequentemente, você se encontra.
Retiro tudo o que eu disse. Minha família é o meu caminho, meu sonho é o sonho dela. Meu lugar é o lugar em que ela estiver. Seja pai, mãe, amigos ou cachorro, onde um estiver eu estarei, pois “metade de mim é partida e a outra metade é saudade”.

É um pouco de tudo isso que Por Uma Vida Melhor (Away We Go, EUA. 2009) se propõe a filosofar. Não é um filme melancólico, em que os personagens fazem da partida uma saga revolucionária da alma. Acima de tudo, é um filme reflexivo, delicado, preparado sob a iminência da verdade. Sam Mendes, diretor da obra-prima Beleza Americana (1999), deixa um pouco de lado toda a sua visão severa e crítica da sociedade norte-americana e produz um road movie desses de encher os corações de esperança.
O espectador pode ser levado a um poço mortal de desesperança se não acreditar que tudo é passível de mutação, porém, a intenção não é essa. Difícil de acreditar, mas Sam Mendes só quer contar uma bela história, sem emoções contidas, que venha fazê-lo refletir e mastigar a fábula da vida dura.
A história de um casal simples, monótono do interior dos EUA cai bem à fábula da vida dura. Ele um nerd que trabalha pelo celular e quer se casar, ela uma negra, grávida de seu primeiro filho, que é contra a instituição casamento. Esses traços de cada personagem servem apenas para elucidar que o problema que atinge inconscientemente esse casal, pode, e vai ser, gerado em qualquer tipo de pessoa. A saga amoral da partida não é plena quando não se tem convívio consigo mesmo. Burt (John Krasinski) e Verona (Maya Rudolph) formam um casal totalmente desprendido de pequenos problemas, tanto é que o problema de não aceitação do casamento pela mulher, não faz com que um ou outro ame menos seu parceiro. A vida parece ser mais adiante e o buraco mais embaixo. Não se tem razão pra viver mal quando a alma não é pequena. Por isso, após a decisão dos pais (Catherine O’Hara e Jeff Daniels) de Burt de se mudarem para a Bélgica, o casal não vê mais porquê em viver naquela cidade, que só os mantinha pela insegurança de Verona na criação de seu filho, vendo nos sogros uma oportunidade de auxílio imediato.
Meu bem,
No encontro ou na partida, lembre-se de mim.
Que um beijo ou um abraço não seja só o fim
Que no instante em que esteja do meu lado
Seu coração permaneça parado.
Através de um roteiro muito particular, Burt e Verona iniciam uma jornada em busca do lugar ideal para se viver, para criar o filho e construir uma história pessoal (o roteiro toca muito na pessoalidade de cada um, mesmo quando são casais). O trabalho de contemplação de cada ator é genial. É através de olhos e olhares extremamente significativos que o roteiro e o produto imagético vai sendo construído. Mesmo quando esse casal, após rodar muito pelas estradas de seu país, encontra o lugar ideal para viver são os olhares e a postura de cada um em cena que vai nos dizer a intensidade da busca de cada um. Ombros pesados, olhos apertados e pés postura concreta na busca fundamental.
Um dos setores mais tocantes e que devem ser ovacionados durante o filme é, sem dúvida, a trilha sonora de Alexi Murdoch. Delicada como um ovo e dura como metal. A música entra como fator prioritário no entendimento dos personagens desse filme. É ela, junto com os olhares e a postura (no sentido mais grosso da palavra), que vai nos proporcionar a identificação dos momentos sublimes da alma da película: Ser feliz. E que, para ser feliz, não existe exagero, não existe cálculo, só existe uma vontade incessante a ser saciada.
Canto a vocês esse trabalho, do qual me orgulho muito de ter entendido e processado e, ainda, ter tomado como parte de mim, porque estou indo embora de um lugar que me faz muito feliz. Um lugar que eu cresci como pessoa, como amigo, como filho. Espero voltar um dia e que esse dia seja em breve, com boas histórias pra contar, com sinceros olhares para se trocar. Um abraço demorado em cada um de vocês. A gente se vê por aí.

Tudo acontece na hora certa.
Tudo acontece, exatamente, quando deve acontecer.
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Sam Mendes
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