Assim, soluçou a desesperança.
Ela estava aqui.
Dos augúrios de uma caminhada, o mais palpável deles será a falta de esperança. Expectativas podem (e irão) cair por terra e junto levar um casamento, uma família, algumas vidas.
O breve contexto serve pra situar o campo em que estamos pisando, os buracos cobertos com folhas e as armadilhas disfarçadas numa capa. Sam Mendes, diretor do incrível Beleza Americana (1999), é um dos diretores mais competentes quando o assunto é desnudar minuciosamente a sociedade americana, abrindo canais dentro do seu mais íntimo desejo, e correndo de mãos dadas da falsa moral construtora dessa massa única.
Se em Beleza Americana o diretor destruiu a plácida e orgulhosa imagem desse povo, em Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, EUA. 2008) Mendes recobra todos os sentidos e características do mesmo “modelo de vida”, o “American way of Life”, para evidenciar seu nascimento, pautado por falhas, no âmbito de uma nação preconceituosa e extremamente valorizada.
A tarefa do diretor não é fácil, talvez, por isso o filme tenha alguns percalços desnecessários. A maça estava ali e deveria ser roída até o cabinho, assim eu vejo um pouco de superficialidade no tratamento do tema e na condução das personagens. Um aprofundamento maior só traria ganhos à película e ao currículo de cada um dos envolvidos. Por isso, também, o filme foi quase que completamente ignorado pela academia de cinema em 2009. Sam Mendes não é mais a galinha dos ovos de ouro.
Após muito enrolar, vou me reservar somente ao roteiro e suas nuances, que hora ou outra se perderá devido ao superficialismo momentâneo. O filme não segue uma estrutura linear, já no início somos apresentados a um casal em tempos de guerra particular. A primeira cena já é tão forte que dá pra temer o que o filme nos reserva. Num movimento de regressão, o filme nos leva a uma tímida festa em Nova York. Lá, April (Kate Winslet, primor) e Frank (Leonardo DiCaprio, absurdamente talentoso) se conhecem. Ela é uma aspirante a atriz, enquanto ele
transita por várias áreas sem saber realmente o que quer fazer. Juntos descobrem uma relevante afinidade: passar pela vida de forma espetacular, aproveitando cada segundo, fazendo valer cada respiração.
É claro que nada vai dar certo. O casal vai se perdendo, corroendo a si próprio, desvendando um aspecto nada solar de duas pessoas que supostamente se amavam. E aqui, mais do que nunca, entra a crítica psicossocial de Sam Mendes. Inventa-se um molde de vida com o qual temos que nos adaptar e, ainda, repassá-lo como absoluto. Presente do pós-guerra, dádiva do pré-feminismo.
O problema reflete algo podre dentro de nós e, assim, os personagens vão se descobrindo e nós nos apegamos ao papel de julgador, aquele que dá a nota ao final de tudo. O que acontece é que, aliados a uma promessa de vida, o casal se vê afundar na mesmice. Frank está preso a um trabalho que não gosta, dentro de uma empresa e sem nenhum tipo de reconhecimento. April se torna histérica e ácida à beira de uma pia, lavando pratos e pensamentos. A concretização de um modo de vida comum incomoda muito mais April do que Frank, já que ele vê na proliferação do dinheiro e no adultério uma maneira simplista de aliviar sua frustração. Ela não tem nada a perder, mas é quem mais perde.
Sem notar muito as opções individuais, nem mesmo as coletivas, o casal vai se arrastando na imensidão do vazio que os abasta. As coisas vão perdendo o sentido, os olhares vão correndo logo para o fim, e cada sentimento se prostrando como tal é na vida real. Os sonhos se tornam pesadelos, o respeito toma face incomunicável e o amor dá lugar a raiva. O ápice do desespero de April surge quando a dona de casa sugere que os dois façam as malas, peguem os dois filhos e “fujam” para Paris, lá ela iria trabalhar, enquanto ele estudava algo que ele gostasse. O bote salva-vidas de April fura facilmente, pois ela encontra a submissão do marido, que já foi consumido pelo medo de recomeçar. Frank não está feliz, tampouco pronto pra refazer o casamento.
Daí, pra acirrar essa miscelânia de sentimentos, aparece John (Michael Shannon, brilhante). O filho da vizinha e corretora de imóveis do casal, interpretada pela ótima Kathy Bates, sai de um manicômio e resolve fazer uma visita ao casal infeliz. É John, que tomado por uma angústia causticante, vai deliberar os diálogos mais impressionantes desse filme. De forma muito doída, Frank e April recebem como tapas na cara cada uma das palavras de John, que vai metralhando e esclarecendo a mediocridade que a dupla mergulhou. Tudo sucumbirá como um suspiro de morte.
Os olhares de profundo ódio que um começa lançar ao outro são magistrais. É incrível ver a esperança se esvair, ver a solidão e o egoísmo tomarem conta de uma família. Estou enjoado de dizer o quanto Kate Winslet é boa no que faz. Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz pelo filme, Kate se consagra como a melhor atriz de sua geração, provando que não existe vaidade que não possa ser suplantada. DiCaprio é, sem dúvida, o novo Robert DeNiro, misturado com a sensibilidade de Sean Penn e a dedicação leal de Robert Duvall. Ainda vamos ouvir falar muito de Leonardo DiCaprio.
Com uma direção de arte invejável, Sam Mendes vai dando forma aos seus pensamentos, criando mundos paralelos entre seus personagens e a plateia. Queira Deus que ele continue a trabalhar com tanto afinco e qualidade, tendo a colaboração de ótimos profissionais e a subordinação de uma legião de fãs (como eu).
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012
O Espetáculo da nossa Existência (Crítica: Foi Apenas um Sonho / 2008)
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Simplesmente Amor (Crítica: A Troca / 2008)
O tamanho da coragem é fruto do amor que você traz no peito, nos olhos e nas mãos.

Quando tentamos entender o valor ou o tamanho de um sentimento quase sempre damos com os burros n’água. Definitivamente não é fácil. Mas, mesmo assim, é comum escutarmos que não existe amor igual ao de uma mãe para um filho. Disso, eu realmente não duvido. Mães que movem montanhas por filhos, mães que percorrem desertos por filhos, mulheres que amargam vidas por uma eterna criança. Não sou e nunca serei capaz de definir isso por mais experiência de vida que eu tenha, muito menos aqui, através de palavras.
O Cinema é cheio dessas histórias de mães que se sacrificam para ver o bem estar de seus filhos. Alguns filmes são muito bem sucedidos, como o sensível O óleo de Lorenzo (1992) e o mais recente Reencontrando a Felicidade (2010). Porém, um drama real sempre nos dá mais base ao que estamos tentando entender e digerir. Esse é o caso de A Troca (Changeling, EUA. 2008), obra do renomado diretor Clint Eastwood que vem contar o desespero de uma mãe atrás de seu filho desaparecido.
Concordo assiduamente que está não é e nem figura entre as melhores obras do conceituado diretor. Vejo em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004) muito mais ousadia, paixão e qualidade, mas, ainda assim, A Troca tem seus méritos e pode, sim, ser considerado um grande filme. Baseado no incrível roteiro de J. Michael Straczynski, Eastwood optou por contar a história dessa mãe que enfrentou os homens e instituições mais poderosas de Los Angeles para reaver seu filho.

Em meados dos anos de 1920, Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, deixa o filho de 9 anos sozinho em casa para cobrir o turno de uma amiga na empresa de telefonia em que ambas trabalham. Mais tarde, ao chegar em casa, Christine nota o desaparecimento do filho. Tomada pelo desespero e pela angústia, a jovem mãe recorre à polícia de Los Angeles. Logo de cara, a polícia trata o caso com pouca importância, dizem à mãe que ela tem que esperar certo tempo para declarar o filho como desaparecido. Durante esse tempo, Christine procura pelo filho sozinha. Historicamente, nos anos vinte, a polícia de Los Angeles foi conhecida por ser uma das instituições mais corruptas dos Estados Unidos. É claro que essa história não vai terminar bem.
Cinco meses depois do ocorrido e com o desespero de Christine que só crescia, a polícia encontra uma criança a qual eles dizem ser o filho desaparecido da mulher. Na hora em que Christine coloca os olhos na criança ela descobre que aquele menino não é seu filho. Manipulada pela polícia, Christine é obrigada a levar a criança para casa. O chefe da polícia pede para que Christine faça uma experiência, ele não podia ver os pilares que ainda sustentavam toda a polícia da cidade serem carcomidos pela “pretensão” da impetuosa mãe, tanto, que toda a imprensa foi chamada para que fosse registrado o bom trabalho da polícia e o encontro “emocionante” da mãe e do filho. Christine leva o garoto para casa e com a ajuda do reverendo Briegleb (John Malkovich, excelente) da professora de seu filho, Christine vai até a imprensa delatar a ilegitimidade e corrupção da polícia de Los Angeles. A mãe não suporta ver a polícia parada, enquanto seu filho ainda está desaparecido.

Como forma de se defender, a polícia acusa Christine de insanidade mental. A mãe agora está presa num sanatório e não pode fazer nada para encontrar seu filho.
É curioso que no sanatório a única pessoa que ajuda Christine é uma prostituta, e ela que está do lado certo. Na conservadora sociedade americana do começo do século vinte quem vai ajudar a mãe na sua jornada são os atores sociais menos prováveis. Tudo parece se voltar contra Christine, tudo impede que a mãe finalmente encontre seu filho. Tudo por ignorância de uma sociedade que viu no desespero apenas um exemplo de loucura e não de amor que não cabe em apenas um ser humano. Tudo por elevação de uma instituição que ruiria com o menor vento que soprasse em sua direção.
A figura da mãe solteira em meio aqueles tantos homens de ternos, chapéus e fumando charutos causa muita comoção. Amparada na presença e expressão marcante de Angelina Jolie, Christine surge como uma andorinha em meio a centenas de gatos que só querem come-la, tirar a mulher do caminho e, assim, preservar o que é mais importante: o poder inquestionável.

Angelina Jolie, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela personagem, consegue transmitir todos os sentimentos dessa mãe: desespero, aflição, coragem, que ainda são somados a feminilidade e sensibilidade da mulher da época. Perdeu o prêmio para Kate Winslet, concordaremos num certo ponto: era uma tarefa difícil vencer a nazista analfabeta da atriz inglesa. Seu rosto é puro canal de dramaticidade e é ela, só a mãe, que consegue transmitir esperança para o espectador. Personagem e atriz dão um show de altíssimo nível.
A fotografia somada a belíssima reconstituição da época também são um deleite para os nossos olhos. A iluminação que hora foca em rostos dispersos, hora em metade de rostos e que por tantas vezes esconde os olhos de Jolie na penumbra de seu chapéu é usada com maestria por todos os profissionais, rendendo a todos nós uma aula espetacular de composição, luz, ambiente e direção de arte.
Christine é figura do que foi uma mulher em busca de justiça e movida por um amor que transcende qualquer outro tipo de relação. Uma cidadã que fez jus ao que é ter direitos e deveres a se cumprir. Buscou forças dentro do seu coração para fazer parar de funcionar a instituição mais forte da época, permitindo que mais nenhuma mãe passasse por tudo o que ela passou. O egoísmo do qual foi vítima foi pago por ela mesma com uma dose imensa de solidariedade e bondade. Às mães de todo o mundo minha profunda e incansável reverência.

Feliz Aniversário Mãe

Quando tentamos entender o valor ou o tamanho de um sentimento quase sempre damos com os burros n’água. Definitivamente não é fácil. Mas, mesmo assim, é comum escutarmos que não existe amor igual ao de uma mãe para um filho. Disso, eu realmente não duvido. Mães que movem montanhas por filhos, mães que percorrem desertos por filhos, mulheres que amargam vidas por uma eterna criança. Não sou e nunca serei capaz de definir isso por mais experiência de vida que eu tenha, muito menos aqui, através de palavras.
O Cinema é cheio dessas histórias de mães que se sacrificam para ver o bem estar de seus filhos. Alguns filmes são muito bem sucedidos, como o sensível O óleo de Lorenzo (1992) e o mais recente Reencontrando a Felicidade (2010). Porém, um drama real sempre nos dá mais base ao que estamos tentando entender e digerir. Esse é o caso de A Troca (Changeling, EUA. 2008), obra do renomado diretor Clint Eastwood que vem contar o desespero de uma mãe atrás de seu filho desaparecido.
Concordo assiduamente que está não é e nem figura entre as melhores obras do conceituado diretor. Vejo em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004) muito mais ousadia, paixão e qualidade, mas, ainda assim, A Troca tem seus méritos e pode, sim, ser considerado um grande filme. Baseado no incrível roteiro de J. Michael Straczynski, Eastwood optou por contar a história dessa mãe que enfrentou os homens e instituições mais poderosas de Los Angeles para reaver seu filho.

Em meados dos anos de 1920, Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, deixa o filho de 9 anos sozinho em casa para cobrir o turno de uma amiga na empresa de telefonia em que ambas trabalham. Mais tarde, ao chegar em casa, Christine nota o desaparecimento do filho. Tomada pelo desespero e pela angústia, a jovem mãe recorre à polícia de Los Angeles. Logo de cara, a polícia trata o caso com pouca importância, dizem à mãe que ela tem que esperar certo tempo para declarar o filho como desaparecido. Durante esse tempo, Christine procura pelo filho sozinha. Historicamente, nos anos vinte, a polícia de Los Angeles foi conhecida por ser uma das instituições mais corruptas dos Estados Unidos. É claro que essa história não vai terminar bem.
Cinco meses depois do ocorrido e com o desespero de Christine que só crescia, a polícia encontra uma criança a qual eles dizem ser o filho desaparecido da mulher. Na hora em que Christine coloca os olhos na criança ela descobre que aquele menino não é seu filho. Manipulada pela polícia, Christine é obrigada a levar a criança para casa. O chefe da polícia pede para que Christine faça uma experiência, ele não podia ver os pilares que ainda sustentavam toda a polícia da cidade serem carcomidos pela “pretensão” da impetuosa mãe, tanto, que toda a imprensa foi chamada para que fosse registrado o bom trabalho da polícia e o encontro “emocionante” da mãe e do filho. Christine leva o garoto para casa e com a ajuda do reverendo Briegleb (John Malkovich, excelente) da professora de seu filho, Christine vai até a imprensa delatar a ilegitimidade e corrupção da polícia de Los Angeles. A mãe não suporta ver a polícia parada, enquanto seu filho ainda está desaparecido.

Como forma de se defender, a polícia acusa Christine de insanidade mental. A mãe agora está presa num sanatório e não pode fazer nada para encontrar seu filho.
É curioso que no sanatório a única pessoa que ajuda Christine é uma prostituta, e ela que está do lado certo. Na conservadora sociedade americana do começo do século vinte quem vai ajudar a mãe na sua jornada são os atores sociais menos prováveis. Tudo parece se voltar contra Christine, tudo impede que a mãe finalmente encontre seu filho. Tudo por ignorância de uma sociedade que viu no desespero apenas um exemplo de loucura e não de amor que não cabe em apenas um ser humano. Tudo por elevação de uma instituição que ruiria com o menor vento que soprasse em sua direção.
A figura da mãe solteira em meio aqueles tantos homens de ternos, chapéus e fumando charutos causa muita comoção. Amparada na presença e expressão marcante de Angelina Jolie, Christine surge como uma andorinha em meio a centenas de gatos que só querem come-la, tirar a mulher do caminho e, assim, preservar o que é mais importante: o poder inquestionável.

Angelina Jolie, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela personagem, consegue transmitir todos os sentimentos dessa mãe: desespero, aflição, coragem, que ainda são somados a feminilidade e sensibilidade da mulher da época. Perdeu o prêmio para Kate Winslet, concordaremos num certo ponto: era uma tarefa difícil vencer a nazista analfabeta da atriz inglesa. Seu rosto é puro canal de dramaticidade e é ela, só a mãe, que consegue transmitir esperança para o espectador. Personagem e atriz dão um show de altíssimo nível.
A fotografia somada a belíssima reconstituição da época também são um deleite para os nossos olhos. A iluminação que hora foca em rostos dispersos, hora em metade de rostos e que por tantas vezes esconde os olhos de Jolie na penumbra de seu chapéu é usada com maestria por todos os profissionais, rendendo a todos nós uma aula espetacular de composição, luz, ambiente e direção de arte.
Christine é figura do que foi uma mulher em busca de justiça e movida por um amor que transcende qualquer outro tipo de relação. Uma cidadã que fez jus ao que é ter direitos e deveres a se cumprir. Buscou forças dentro do seu coração para fazer parar de funcionar a instituição mais forte da época, permitindo que mais nenhuma mãe passasse por tudo o que ela passou. O egoísmo do qual foi vítima foi pago por ela mesma com uma dose imensa de solidariedade e bondade. Às mães de todo o mundo minha profunda e incansável reverência.

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segunda-feira, 9 de maio de 2011
Anjo Mau (Crítica: O Leitor / 2008)

"Não importa o que eu penso, não importa o que eu sinto. Os mortos continuarão mortos" (Hanna Schmitz).
Fantástico. Com uma única palavra eu consigo definir O Leitor (The Reader, 2008. Inglaterra). Filme pesado, complexo, mas acima de tudo edificante, emocionante (no final pesa um pouco no açúcar, mas é o de menos) e que conta uma história diferente de tudo que eu já vi.

O diretor e roteirista inglês Stephen Daldry é conhecido por trabalhar em pouquíssimas produções, essa é apenas a terceira da carreira dele de pelo menos quinze anos. Porém, cada vez que ele pega num papel pra escrever um roteiro saem histórias sublimes, como é o caso de Billy Elliot (2001) e As Horas (2002). E não é diferente com esse. O diretor escolhe seus atores a dedo e faz uma produção invejável, com fotografia, trilha sonora e montagem de cair o queixo. Talvez ele precise desse tempo mesmo (6 anos) pra rodar um próximo trabalho, por que o que resulta é de aplaudir de pé.
O roteiro é baseado num livro curto (235 páginas), escrito por um autor alemão e tem como fundo uma história de amor entre um menino de 15 anos e uma mulher de 35 que se apaixonam durante o Holocausto, pra quem não conhece, o Holocausto seria a Segunda Guerra Mundial. A produção começou com uma série de problemas, primeiramente, Nicole Kidman tinha sido escalada pra viver o papel de Hanna Schmitz e por uma série de contravenções teve que ser substituída por Kate Winslet (convenhamos que o filme só ganhou). Mais tarde, o filme chega ao cinema como vilão, pois foi ele quem tirou de Batman - O Cavaleiro das Trevas a vaga para concorrer a Melhor Filme no Oscar de 2009.

Superada todas essas questões, voltemos a obra (que definitivamente não pode nem deve ser esquecida).
Em Meados dos anos 30, o jovem Michael Berg, interpretado pelo alemão e iniciante David Kross, inicia um romance com uma mulher mais velha (Hanna Schimitz). O jovem se encanta pela mulher misteriosa e por toda sua experiência, e Hanna (que até então não sabemos do seu problema) se encanta com o poder da leitura que o menino tem. Detalhe: ele apenas sabe ler. O que acontece são descobertas diferentes para os dois, para ele, a iniciação na vida sexual e para ela, a literatura. Isso é o que o filme tem de mais puro e bonito: girar em torno de uma história tão simples e real. Então toda a prática sexual é intercalada por momentos de leitura, em que o menino anestesiado pela paixão lê para a mulher dura e reclusa, apaixonada por histórias que é Hanna. Repare em Hanna durante as leituras. Ela some, viaja para outro mundo, é arrepiante. (Garantindo lindas cenas para o currículo da atriz Kate Winslet).
Porém, esse romance só dura um verão, já que Hanna some no mundo sem deixar pistas e Michael, desolado, tenta seguir sua vida. Anos mais tarde, como estudante de Direito, Michael vai assistir a um julgamento de crimes de guerra, e quando chega no tribunal dá de cara com Hanna no banco dos réus. Hanna é acusada de matar centenas de mulheres durante a Segunda Guerra, quando esta foi guarda da SS, grupo ligado às forças nazistas. Nas cenas do julgamento, Kate Winslet praticamente não abre a boca, mas diz tudo com os olhos. A gente enxerga ela pensando: “Mas o que eu estou fazendo aqui? Eu apenas cumpria a lei”. São lindas cenas também, e que promovem reação de compaixão do espectador para com a personagem, pois enxergamos nela a essência de uma mulher ignorante, controladora, determinada e sem limites. Até que ponto a ignorância pode ser usada como desculpa? Pois é! É incrível como a gente passa a torcer pra que Michael abra a boca e defenda Hanna durante o julgamento, numa hora que ela está sendo acusada de escrever uma carta e que só você e ele sabem que não foi ela quem escreveu (a segunda cena mais linda do filme). A cena mais linda do filme fica por conta de Kate Winslet mais uma vez, já na prisão, velha, ela dá início a um processo de (eu não posso contar!! hehe). Mas enfim, é a cena mais terna do filme, é lindo demais mesmo.

Queria eu poder pegar na mão de Kate Winslet e dizer MUITO OBRIGADO como fez Marion Cottillard no dia em que entregou o Oscar de Melhor Atriz em suas mãos. Kate Winslet usa das técnicas que vem aprendendo desde o longínquo Razão e Sensibilidade (1995). Desde lá, só entrega interpretações memoráveis, em que ela doa todo o seu corpo pra viver a personagem que for, não tem medo de nudez, de parecer velha, de nada. É atriz mesmo. O novato David Kross também não faz feio, só de não atrapalhar Kate em cena ele já estava fazendo grande coisa. O único que talvez esteja um pouco fora de sintonia seja o ator galês Ralph Fiennes (interpreta Michael Berg mais velho), mas também não chega a prejudicar tanto, já que Winslet eclipsa qualquer movimento do ator.

Outra coisa que deve ser lembrada, é que o filme não foca no Holocausto, mas só usa essa fase da história mundial como cenário, pano de fundo de outra história. E também o grande uso do silêncio por parte do diretor, o que pra mim, enriquece em muito a obra. (ps: é aquele tipo de silêncio que diz tudo).

Por fim, O Leitor faz o espectador pensar, refletir aquilo que eu já disse anteriormente. Até que ponto a ignorância justifica um erro? Se justifica algum, então dependeria do erro?
No final das contas, o que importa é o que fazemos e não o que sentimos.
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