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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Espetáculo da nossa Existência (Crítica: Foi Apenas um Sonho / 2008)

Assim, soluçou a desesperança.
Ela estava aqui.



Dos augúrios de uma caminhada, o mais palpável deles será a falta de esperança. Expectativas podem (e irão) cair por terra e junto levar um casamento, uma família, algumas vidas.

O breve contexto serve pra situar o campo em que estamos pisando, os buracos cobertos com folhas e as armadilhas disfarçadas numa capa. Sam Mendes, diretor do incrível Beleza Americana (1999), é um dos diretores mais competentes quando o assunto é desnudar minuciosamente a sociedade americana, abrindo canais dentro do seu mais íntimo desejo, e correndo de mãos dadas da falsa moral construtora dessa massa única.

Se em Beleza Americana o diretor destruiu a plácida e orgulhosa imagem desse povo, em Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, EUA. 2008) Mendes recobra todos os sentidos e características do mesmo “modelo de vida”, o “American way of Life”, para evidenciar seu nascimento, pautado por falhas, no âmbito de uma nação preconceituosa e extremamente valorizada.


A tarefa do diretor não é fácil, talvez, por isso o filme tenha alguns percalços desnecessários. A maça estava ali e deveria ser roída até o cabinho, assim eu vejo um pouco de superficialidade no tratamento do tema e na condução das personagens. Um aprofundamento maior só traria ganhos à película e ao currículo de cada um dos envolvidos. Por isso, também, o filme foi quase que completamente ignorado pela academia de cinema em 2009. Sam Mendes não é mais a galinha dos ovos de ouro.

Após muito enrolar, vou me reservar somente ao roteiro e suas nuances, que hora ou outra se perderá devido ao superficialismo momentâneo. O filme não segue uma estrutura linear, já no início somos apresentados a um casal em tempos de guerra particular. A primeira cena já é tão forte que dá pra temer o que o filme nos reserva. Num movimento de regressão, o filme nos leva a uma tímida festa em Nova York. Lá, April (Kate Winslet, primor) e Frank (Leonardo DiCaprio, absurdamente talentoso) se conhecem. Ela é uma aspirante a atriz, enquanto ele
transita por várias áreas sem saber realmente o que quer fazer. Juntos descobrem uma relevante afinidade: passar pela vida de forma espetacular, aproveitando cada segundo, fazendo valer cada respiração.


É claro que nada vai dar certo. O casal vai se perdendo, corroendo a si próprio, desvendando um aspecto nada solar de duas pessoas que supostamente se amavam. E aqui, mais do que nunca, entra a crítica psicossocial de Sam Mendes. Inventa-se um molde de vida com o qual temos que nos adaptar e, ainda, repassá-lo como absoluto. Presente do pós-guerra, dádiva do pré-feminismo.

O problema reflete algo podre dentro de nós e, assim, os personagens vão se descobrindo e nós nos apegamos ao papel de julgador, aquele que dá a nota ao final de tudo. O que acontece é que, aliados a uma promessa de vida, o casal se vê afundar na mesmice. Frank está preso a um trabalho que não gosta, dentro de uma empresa e sem nenhum tipo de reconhecimento. April se torna histérica e ácida à beira de uma pia, lavando pratos e pensamentos. A concretização de um modo de vida comum incomoda muito mais April do que Frank, já que ele vê na proliferação do dinheiro e no adultério uma maneira simplista de aliviar sua frustração. Ela não tem nada a perder, mas é quem mais perde.


Sem notar muito as opções individuais, nem mesmo as coletivas, o casal vai se arrastando na imensidão do vazio que os abasta. As coisas vão perdendo o sentido, os olhares vão correndo logo para o fim, e cada sentimento se prostrando como tal é na vida real. Os sonhos se tornam pesadelos, o respeito toma face incomunicável e o amor dá lugar a raiva. O ápice do desespero de April surge quando a dona de casa sugere que os dois façam as malas, peguem os dois filhos e “fujam” para Paris, lá ela iria trabalhar, enquanto ele estudava algo que ele gostasse. O bote salva-vidas de April fura facilmente, pois ela encontra a submissão do marido, que já foi consumido pelo medo de recomeçar. Frank não está feliz, tampouco pronto pra refazer o casamento.

Daí, pra acirrar essa miscelânia de sentimentos, aparece John (Michael Shannon, brilhante). O filho da vizinha e corretora de imóveis do casal, interpretada pela ótima Kathy Bates, sai de um manicômio e resolve fazer uma visita ao casal infeliz. É John, que tomado por uma angústia causticante, vai deliberar os diálogos mais impressionantes desse filme. De forma muito doída, Frank e April recebem como tapas na cara cada uma das palavras de John, que vai metralhando e esclarecendo a mediocridade que a dupla mergulhou. Tudo sucumbirá como um suspiro de morte.


Os olhares de profundo ódio que um começa lançar ao outro são magistrais. É incrível ver a esperança se esvair, ver a solidão e o egoísmo tomarem conta de uma família. Estou enjoado de dizer o quanto Kate Winslet é boa no que faz. Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz pelo filme, Kate se consagra como a melhor atriz de sua geração, provando que não existe vaidade que não possa ser suplantada. DiCaprio é, sem dúvida, o novo Robert DeNiro, misturado com a sensibilidade de Sean Penn e a dedicação leal de Robert Duvall. Ainda vamos ouvir falar muito de Leonardo DiCaprio.

Com uma direção de arte invejável, Sam Mendes vai dando forma aos seus pensamentos, criando mundos paralelos entre seus personagens e a plateia. Queira Deus que ele continue a trabalhar com tanto afinco e qualidade, tendo a colaboração de ótimos profissionais e a subordinação de uma legião de fãs (como eu).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Origem do Mal (Crítica: Mildred Pierce / 2011)

O amor de mãe é o combustível que permite a um ser humano fazer o impossível (Marion C. Garretty).

Se existe uma coisa tão mística e confundível, que pressupõe teorias bestas tamanha a complexidade do assunto, com certeza é a origem da maldade. Muito presa a ideia de criação, de formação de caráter, o surgimento da maldade põe em cheque muitos estudos de psicanalistas e educadores: Será mesmo que o indivíduo se tornará impetuoso e atroz pelos costumes empregados dentro de casa? Não seria a malignidade uma esfera genética ou um traço concebido por anjos guardados de fome sedenta?

Lendo esse primeiro parágrafo, todos poderiam pensar que resenharia sobre algum filme de psicopata, ou um suspense enraizado de violência gratuita, ou talvez um melodrama perverso e edificante. Não. Não é nenhum desses tipos de filme e sim, uma mistura genuína de todas essas faces que nada mais é do que a vida real. Uma dose de drama, uma pitada de violência verbal e implícita e, claro, o principal, um bom caldo de misticismo psicológico: A relação da maldade com o ser humano e como essa aflige os seres que mais amam, mesmo que os seres amados sejam os psicopatas.



Diria que agora vem a surpresa. Aqui estou fazendo uma singela colocação sobre os trunfos da improbidade pra falar da minissérie, veiculada pela HBO, Mildred Pierce (EUA, 2011). “ÓHHHH, mas quem seria o psicopata da história? Mildred? Quem seria o perverso? Monty? Quem seria a atroz? Veda?” O que mais me chama a atenção nessa produção é justamente a complexidade e a volubilidade das personagens. A princípio, você não sabe se Mildred merece seu desprezo ou sua pena, não decide se Veda é má ou só um ser carente (sem motivos diga-se de passagem). A grande questão da obra é a multifacetagem dessas personagens que transbordam vida através dos mais diversos sentimentos.

Mildred Pierce é uma obra adaptada do romance de James M. Cain, publicado em 1941 e que até já recebeu uma adaptação para o Cinema e, além de tudo, presenteou Joan Crawford com um Oscar de Melhor Atriz em 1945. No Brasil, a obra recebeu o título de Almas em Suplício. Assim, como se vê na minissérie, o filme se destacou por ter ótimas atuações. Fã do filme e da obra de Cain, o cineasta Todd Haynes (Longe do Paraíso, Não Estou Lá) assumiu a direção dessa nova aquisição da HBO. O trabalho de Haynes ganhou um suspiro novo ao preferir seguir de forma mais fiel as questões do livro, focando principalmente no relacionamento conturbado entre mãe (Mildred) e filha (Veda). Adicionou a filha mais nova e alguns outros maneirismos que só deram agilidade ao telefilme.



Haynes já provou em outros trabalhos que é capaz de fazer melodramas firmes, pontuados de interpretações magistrais (o diretor é um ótimo diretor de atores), e um bom gosto difícil de ver na indústria televisiva. Lembre-se: Mildred Pierce é um trabalho feito para a televisão. O ponto forte do filme fica sendo justamente a parceria entre Haynes e Kate Winslet, que interpreta a complexa Mildred Pierce como se ela fosse mais uma dessas tias com quem ela passou uns quarenta anos reparando em todos os detalhes. Haynes apostou nessa construção meticulosa da vida de Mildred e teve em Winslet seu porto seguro, é quase impossível encontrar uma cena em que Kate não esteja participando. A parceria é fantástica e poderia, com a graça do senhor dos cinéfilos, trazer outros grandes trabalhos num futuro próximo.

A trama narra a história de sofrimento de Mildred Pierce, como eu já disse, interpretada com fulgor pela genial Kate Winslet. A minissérie começa logo com Mildred colocando o marido Bert (Brian F. O’Byrne) para fora de casa. Atente a época da projeção. A história se passa no início dos anos 1930, logo após a Grande Depressão americana, que colocou milhares de cidadãos americanos no meio da rua, sem chance de emprego e totalmente falidos. Mildred, incomodada com o marido adúltero, não pensou duas vezes antes de pôr o marido pra fora, mesmo sendo ele sua principal fonte de renda e certeza da segurança de uma família tipicamente civilizada conforme ditavam os padrões da época. Mildred se vê sozinha, tendo que cuidar de suas duas filhas, a mais velha Veda (Morgan Turner e Evan Rachel Wood, as duas espetaculares) e a mais nova Moira.



Curiosamente, Mildred não se importa com os títulos que pode receber diante da separação. Seu maior desafio é procurar um emprego para que possa sustentar as filhas, numa Los Angeles ainda bairrista. As faces das personagens começam a se formar logo no primeiro episódio. Mildred é uma mulher que por mais que quebre com uma das principais instituições da sociedade, ainda se mantêm muito conservadora, cheia de si e de uma arrogância que ela tenta esconder. Ela entende que isso deve ser sufocado e morto dentro dela, para assim, se tornar uma boa pessoa, por isso, aceita o emprego de garçonete, ainda com certa relutância psicológica, em nome da “barriga cheia” de suas meninas. A ideia de dignidade não vislumbra as ideias de Mildred, que ainda projeta ou reproduziu, em algum momento, certos preconceitos diante da filha mais velha. É justamente essa, Veda, o grande oponente da própria mãe durante a história.

Dotada de um caráter dúbio, que às vezes se rende a bajulação e noutras à manipulação, Veda prende o espectador tamanho é seu desprendimento com a família, com a história de vida e com a moral. É, de longe, a personagem mais maléfica dos últimos tempos. Pra ajudar, a garota se gaba de possuir o intelecto mais apurado da família, o decline a cultura mais observável, em contraste com a jovem irmã que sai de cena logo no segundo episódio. Veda reage à mãe com uma dose extra de cinismo, se comportando realmente como gente grande, como mulher desvirginada, ratazana de coluna social. Enche o pulmão e grita coisas que ninguém teria coragem de dizer a mãe, aos onze anos modula uma cara de deboche, acende um cigarro e deflagra a fumaça na cara de Mildred. Quando foi que você decidiu que sua rival seria a pessoa que mais te ama? Como que o mundo parou de girar e foi focar em torno de suas vontades e decisões?



Bom, Mildred sendo uma cozinheira exemplar, consegue montar seu próprio negócio, uma rede de restaurantes. Isso com a ajuda do amigo do ex-marido, o asqueroso Wally Burgan, com quem Mildred mantém relações sexuais sem nenhum tipo de afeto: Sexo por sexo e só. Anos 30, gente. Mais tarde, Mildred conhece Monty Beragon (Guy Pearce, segurando as pontas), ainda quando seu negócio engatinhava e trabalhava de garçonete. Monty é o tipo solteirão, bonito e rico que traça qualquer uma que vê pela frente. Mildred torna-se sua vassala, pagando suas contas com o dinheiro advindo de seu negócio que começa a fazer enorme sucesso na cidade dos anjos.

Entre o terceiro e o quarto episódio, passam-se 10 anos e Veda toma a forma da belíssima Evan Rachel Wood. O que parecia impossível se torna um deleite aos olhos de qualquer apreciador dessa arte. Ver a batalha entre Winslet e Wood é de deixar qualquer um com os nervos à flor da pele, destaque para a cena final.



Seria Veda uma potencialista de um possível psicopatismo dominado pela inveja que sente da própria mãe? Pra que tanta passividade em Mildred, que prefere resolver as coisas botando panos quentes, inocentando a filha, impedindo-a de levar seus tapas na cara? O medo que Mildred sente da filha é quase que um cristal em situação mortal: Suas repulsas a filha são monitoradas, contadas no relógio, ela sempre se rende a sua condição, a de mãe. Leia-se, meu bem, com quantos paus se faz uma canoa? Com 20? Trinta? Entenda, com um deles eu destruo toda sua trajetória. Veda é o pau podre da canoa da mãe, e sem esse ela não teria como continuar. Seu destino estava fadado ao controle da filha perversa e imoral.

Kate Winslet venceu todos os prêmios a que foi indicada: Globo de Ouro, Emmy, etc. mais uma vez, Kate prova que uma das atrizes mais invejáveis da atualidade e que seu potencial de se despir de qualquer tipo de vaidade e de emocionar com um simples “olá” ainda continua em alta. Sem Kate Winslet, dificilmente, essa obra seria tão marcante.



Graças a Haynes, que introduz um roteiro bastante amargo, mas sem ser apelativo, e ao elenco competente, que ainda tem Melissa Leo, como a vizinha xereta de Mildred, a obra despontou como um dos melhores trabalhos feitos para televisão no último ano. O destaque e os aplausos são muito mais do que merecidos.



Entretanto, gostaria de deixar uma reflexão final e emendá-la com o início do texto. Relações masoquistas entre mães e filhas, pais e filhos, já foram retratados outras vezes no Cinema, não é novidade pra ninguém a que ponto pode chegar o ser humano mesmo diante de seus pais. A questão é a seguinte: Veda sendo a psicopata que é, encorpada de toda a certeza de sofrimento que deve infligir à mãe, teria salvação num mundo cristão? Seria possível introduzir o mínimo de arrependimento, verdade e dignidade numa pessoa desprovida de qualquer sentimento realmente bom? Veda moveu montanhas só pra ver a mãe despedaçada. Se ela não tivesse nenhum talento, nenhum estudo, mas sua mãe estivesse no fundo do poço, seu triunfo pessoal ainda seria imenso.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Crescer ou não Crescer, eis a questão. (Crítica: Em Busca da Terra do Nunca / 2004)

Por mais que tenhamos perdido nossa inocência, o fulgor da nossa imaginação e a sensação de ser criança, nunca será tarde para reencontrar essas partes, por mais que pareça.
Escutei alguma vez, e talvez fosse eu mesmo quem me disse isso, que uma hora a gente tem que crescer. Será? Sim, adultizar é a grande ideologia da era moderna.
E porque digo isso, então? Simplesmente para dizer, logo em seguida, que eu irei contra tudo e contra todos. Minha criança agora renasce das cinzas, não como uma fênix, mas, como um capitão do mar, uma fada ou um menino voador.
E você, acredita em fadas?



Quem nunca ouvir falar de Peter Pan, o menino que não queria crescer, o guardião da terra das crianças felizes e descalças, da terra de fadas, crocodilos gigantes e vilões medonhos. Pois é, todo mundo sabe quem é o menino que voa. Peter Pan, escrito no início do último século, se tornou um dos grandes clássicos da literatura infantil e, cem anos depois de seu nascimento, ainda é constantemente adaptado para peças teatrais e vez ou outra para a grande tela do Cinema.

Já falei aqui o quão é complicada a adaptação de textos, sejam eles de peças de teatro ou simplesmente best-sellers, para o Cinema, então, não vou me aprofundar novamente nesse assunto. Vou-me ater ao que interessa: o filme da vez.

Marc Foster (diretor de A Última Ceia, filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz a Halle Berry) se juntou ao roteirista David Magee, que havia adaptado a história do nascimento do menino da terra do nunca de uma peça de Alan Knee, e filmou aquele que, em minha opinião, se tornou um dos filmes mais sensíveis e dramáticos no que diz respeito à mescla de realidade e fantasia. A construção é melancólica, cômica e piegas na medida certa. Na verdade, quase nunca é piegas.



Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland. Inglaterra/EUA, 2003) nasceu não a partir de Peter Pan, mas, de como o escritor J. M. Barrie chegou até o ponto de construção do personagem de sua vida. Como surge a ideia da Terra do Nunca? O que são fadas? Qual o sentido de viver numa terra onde ninguém envelhece e a regra principal é brincar e ser feliz? O filme te dará todas essas respostas, em menos de duas horas você saberá quem você foi e quem você quer ser.



J. M. Barrie (o ilustre criador do mundo Peter Pan e, aqui, interpretado por Johnny Depp) está numa fase conturbada da carreira: há tempos não escreve nada que o agrade tanto e que tenha uma boa recepção, vide que sua última peça foi um fracasso. Barrie começa a frequentar um parque na periferia de Londres, aonde supostamente ia para obter inspiração para escrever sua próxima peça. Numa dessa tardes, ele conhece Sylvia Davies (Kate Winslet) e seus quatro filhos.

Parada para explicação. Reza a lenda que os integrantes da família Davies foram os grandes responsáveis pelo nascimento da história de Peter Pan.

Sylvia é viúva e mora com a mãe (a veterana Julie Christie) e os quatro filhos. Barrie fica encantado com o mundo que aquelas crianças criam em suas brincadeiras e começa a estreitar os laços com os Davies. Mais tarde, as próprias crianças estarão tão dependentes de Barrie quanto ele estará delas.

Dessa forma, o mundo de Peter Pan foi criado. A direção da obra é magnífica ao proporcionar momentos de extrema beleza, como são as cenas em que todas as crianças, Barrie e Sylvia são transportados para dentro de uma suposta realidade fantasiosa que indica qual a diversão da vez: hora eles são piratas, em mar revolto e ameaçados pelo temível Capitão Gancho, hora eles são caubóis inseridos num western, hora são crianças em busca de um pai, hora é um homem em busca de identidade.



A criança que existe em Barrie se confronta o tempo todo com a realidade tangida pela obra, ou seja, Barrie tem que enfrentar situações que vão além do seu poder de resolução, como o ciúme da esposa em relação à Sylvia, a pressão do dono do teatro que deseja ver logo os lucros de seu investimento, a mãe de Sylvia, uma carrasca (que se redime ao longo da projeção) que não vê com bons olhos a dependência das crianças pelo escritor. Barrie é uma criança que só quer brincar. Brincar de escrever, brinca de trabalhar, brincar de ser pai, brincar de ser amigo.

Entre os filhos de Sylvia, Barrie encontrará dificuldades no relacionamento com Peter (o prodígio Freddie Highmore), devido à descrença que tomou conta do menino. Após a morte do pai, Peter deixou de acreditar no poder implícito que tem uma criança, tudo o que é fantasia o intriga, tudo que diz respeito a brincadeiras o incomoda. A promessa de que o pai voltaria da guerra não se cumpriu e constituiu-se num trauma. É em Peter que Barrie concentrará suas maiores ações, o garoto passa a ser o alter-ego do escritor, o começo, o meio e o fim de tudo. As cenas mais bonitas do longa estão na relação construída entre Barrie e Peter. A inversão dos papéis, já que a criança é Barrie e o adulto é Peter, regida por uma trilha sonora espetacular, rende momentos de lágrimas incontroláveis.



Os outros desenrolares da trama fica por conta do espectador, só posso prometer que a obra é de qualidade inquestionável e que o arrependimento só virá se o grande problema for chorar na frente dos outros.

Talvez eu ainda não tenha dito aqui, mas Johnny Depp nunca foi um dos meus atores preferidos, muito pelo contrário, tenho razões para achá-lo um péssimo ator. PORÉM, aqui se encontra uma exceção. Mesmo com suas caretas de paciente de dentista e as mudanças no tom de voz (que caíram muito bem ao personagem), Depp está pela primeira vez, em muitos anos, acima da média. Só tinha visto o ator tão bem no longínquo Edward - Mãos de Tesoura. Depp demonstrou grande capacidade de entrega e permanência de espírito no personagem, em nenhum momento há distrações ou ilusões de ótica. O ator não faz drama, mas não atrapalha quem sabe fazer, vide Kate Winslet, que dispensa qualquer tipo de comentário. Johnny Depp foi reconhecido pela Academia de Cinema norte-americana com uma indicação ao Oscar de Melhor Ator, assim como a obra também foi indicada ao pêmo máximo: Melhor Filme. Mas, como a vaca sempre vai para o brejo (pelo menos no caso de Depp), o destaque não é o ator preferido de Tim Burton. A grande força da obra fica no trabalho das quatro crianças Davies, principalmente a criança interpretada pelo jovem Freddie Highmore, o ator-mirim já conquista por sua carinha de abandonado e de criança prestes a chorar, que aliado ao seu talento, rende uma explosão de interpretação.

A direção de arte do filme também dá um show à parte. A reconstrução de Londres do início do século XX está perfeita e alegre, contribuindo na medida certa para a força do filme. Chega de Londres sombria, cinza, arrebatada pela Revolução Industrial. A Trilha Sonora venceu o prêmio máximo da categoria no Oscar, ou seja, também dispensa comentários.



Acho que a mensagem principal da obra fica também por conta de cada um. Todos sabemos o que é Peter Pan e qual o valor de sua ideia em nossas vidas. Em Busca da Terra do Nunca não é fantasia, não é ficção, mas, sim, um drama que aborda a perda da inocência frente aos avanços do sistema, que interferem a todo o momento em nossas ações e decisões, é um drama que baseia toda a ideia do que é felicidade num lugarzinho no meio do nada, em que pessoas podem voar com um pózinho mágico, fadas podem morrer há cada “eu não acredito em fadas”, adultos podem ser crianças (e acredite, essa é a mensagem), e tudo está dentro da nossa cabeça, dentro da única máquina que o sistema ainda não monopolizou. O lugar mais bonito para se viver consiste no lugar em que sua criança sairá do seu corpo e entrará na primeira ciranda de roda que ela gostar. Mesmo que esse lugar seja só o porão da sua casa.

Bem-vinda de volta, criança.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Anjo Mau (Crítica: O Leitor / 2008)



"Não importa o que eu penso, não importa o que eu sinto. Os mortos continuarão mortos" (Hanna Schmitz).

Fantástico. Com uma única palavra eu consigo definir O Leitor (The Reader, 2008. Inglaterra). Filme pesado, complexo, mas acima de tudo edificante, emocionante (no final pesa um pouco no açúcar, mas é o de menos) e que conta uma história diferente de tudo que eu já vi.



O diretor e roteirista inglês Stephen Daldry é conhecido por trabalhar em pouquíssimas produções, essa é apenas a terceira da carreira dele de pelo menos quinze anos. Porém, cada vez que ele pega num papel pra escrever um roteiro saem histórias sublimes, como é o caso de Billy Elliot (2001) e As Horas (2002). E não é diferente com esse. O diretor escolhe seus atores a dedo e faz uma produção invejável, com fotografia, trilha sonora e montagem de cair o queixo. Talvez ele precise desse tempo mesmo (6 anos) pra rodar um próximo trabalho, por que o que resulta é de aplaudir de pé.

O roteiro é baseado num livro curto (235 páginas), escrito por um autor alemão e tem como fundo uma história de amor entre um menino de 15 anos e uma mulher de 35 que se apaixonam durante o Holocausto, pra quem não conhece, o Holocausto seria a Segunda Guerra Mundial. A produção começou com uma série de problemas, primeiramente, Nicole Kidman tinha sido escalada pra viver o papel de Hanna Schmitz e por uma série de contravenções teve que ser substituída por Kate Winslet (convenhamos que o filme só ganhou). Mais tarde, o filme chega ao cinema como vilão, pois foi ele quem tirou de Batman - O Cavaleiro das Trevas a vaga para concorrer a Melhor Filme no Oscar de 2009.



Superada todas essas questões, voltemos a obra (que definitivamente não pode nem deve ser esquecida).

Em Meados dos anos 30, o jovem Michael Berg, interpretado pelo alemão e iniciante David Kross, inicia um romance com uma mulher mais velha (Hanna Schimitz). O jovem se encanta pela mulher misteriosa e por toda sua experiência, e Hanna (que até então não sabemos do seu problema) se encanta com o poder da leitura que o menino tem. Detalhe: ele apenas sabe ler. O que acontece são descobertas diferentes para os dois, para ele, a iniciação na vida sexual e para ela, a literatura. Isso é o que o filme tem de mais puro e bonito: girar em torno de uma história tão simples e real. Então toda a prática sexual é intercalada por momentos de leitura, em que o menino anestesiado pela paixão lê para a mulher dura e reclusa, apaixonada por histórias que é Hanna. Repare em Hanna durante as leituras. Ela some, viaja para outro mundo, é arrepiante. (Garantindo lindas cenas para o currículo da atriz Kate Winslet).

Porém, esse romance só dura um verão, já que Hanna some no mundo sem deixar pistas e Michael, desolado, tenta seguir sua vida. Anos mais tarde, como estudante de Direito, Michael vai assistir a um julgamento de crimes de guerra, e quando chega no tribunal dá de cara com Hanna no banco dos réus. Hanna é acusada de matar centenas de mulheres durante a Segunda Guerra, quando esta foi guarda da SS, grupo ligado às forças nazistas. Nas cenas do julgamento, Kate Winslet praticamente não abre a boca, mas diz tudo com os olhos. A gente enxerga ela pensando: “Mas o que eu estou fazendo aqui? Eu apenas cumpria a lei”. São lindas cenas também, e que promovem reação de compaixão do espectador para com a personagem, pois enxergamos nela a essência de uma mulher ignorante, controladora, determinada e sem limites. Até que ponto a ignorância pode ser usada como desculpa? Pois é! É incrível como a gente passa a torcer pra que Michael abra a boca e defenda Hanna durante o julgamento, numa hora que ela está sendo acusada de escrever uma carta e que só você e ele sabem que não foi ela quem escreveu (a segunda cena mais linda do filme). A cena mais linda do filme fica por conta de Kate Winslet mais uma vez, já na prisão, velha, ela dá início a um processo de (eu não posso contar!! hehe). Mas enfim, é a cena mais terna do filme, é lindo demais mesmo.



Queria eu poder pegar na mão de Kate Winslet e dizer MUITO OBRIGADO como fez Marion Cottillard no dia em que entregou o Oscar de Melhor Atriz em suas mãos. Kate Winslet usa das técnicas que vem aprendendo desde o longínquo Razão e Sensibilidade (1995). Desde lá, só entrega interpretações memoráveis, em que ela doa todo o seu corpo pra viver a personagem que for, não tem medo de nudez, de parecer velha, de nada. É atriz mesmo. O novato David Kross também não faz feio, só de não atrapalhar Kate em cena ele já estava fazendo grande coisa. O único que talvez esteja um pouco fora de sintonia seja o ator galês Ralph Fiennes (interpreta Michael Berg mais velho), mas também não chega a prejudicar tanto, já que Winslet eclipsa qualquer movimento do ator.



Outra coisa que deve ser lembrada, é que o filme não foca no Holocausto, mas só usa essa fase da história mundial como cenário, pano de fundo de outra história. E também o grande uso do silêncio por parte do diretor, o que pra mim, enriquece em muito a obra. (ps: é aquele tipo de silêncio que diz tudo).



Por fim, O Leitor faz o espectador pensar, refletir aquilo que eu já disse anteriormente. Até que ponto a ignorância justifica um erro? Se justifica algum, então dependeria do erro?

No final das contas, o que importa é o que fazemos e não o que sentimos.

sábado, 7 de maio de 2011

A Insustentável Estranheza do Ser. (Crítica: Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças / 2004)




"Feliz é o destino do inocente, esquecido pelo mundo que ele esqueceu." Alexander Pope


Sempre fui amante dos filmes dramáticos, edificantes e até mesmo os trágicos. Aqueles filmes que te dão margem à reflexão, que te fazem crescer como ser humano e que mostram a capacidade do Homem em tocar o coração do espectador. É isso o que acontece nesse Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004. EUA) do diretor Michel Gondry e do roteirista Charlie Kauffman.

Para quem não conhece, Kauffman é responsável por escrever os roteiros mais inusitados do mercado cinematográfico e que sempre gera ótimos filmes, como Quero ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2003). Mas nessa obra ele se supera, escreve uma história linda de amor (mas precisamente de problemas de relacionamento) , paixão, ciência (embora insana) e coragem.



O filme, devo confessar, não vai agradar logo de cara por uma série de motivos. Um deles é a história, que se não for apreciada com olhos de criança não vai ser entendida e nem contemplada. O outro é o simples fato de escolherem Jim Carrey para protagonizar esse drama, nem de longe ele faz feio. Não. O problema é que um ator extremamente repleto de estereótipos pode causar algum tipo de pré-conceito no possível espectador. Eu digo que não, se houver males no filme ( que eu acho que não há) Jim Carrey é o menor. E, por fim, a falta de linearidade da narrativa (o filme não é fácil de entender), que pode tornar a experiência de ver o filme um pouco confusa, talvez precise ser assistido mais de uma vez.



Mas vamos à história.

Se você pudesse apagar da sua memória todos os sofrimentos e lembranças tristes que você guarda desde os primórdios de sua vida, você apagaria? Você acha que seria a pessoa que é hoje se não tivesse passado por todas as peças que a vida lhe pregou? Afinal, é muito mais fácil esquecer, como se não tivesse vivido àqueles momentos ruins do que tentar vencer esses obstáculos.

Basicamente, a história do filme é essa. Joel ( Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet, sempre ótima e indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel) possuem uma história de amor que começa a enfrentar uma crise, por isso, ela resolve apagá-lo da memória através de um procedimento médico criado pelo Doutor Howard (Tom Wilkinson). Ao descobrir que Clementine fez o procedimento, Joel, para se vingar, resolve fazer o mesmo. E aí vem o desenrolar da trama. No decorrer do procedimento, que leva algum tempo, Joel percebe que não quer apagar Clementine da sua memória, mas pelo contrário, ele quer manter acesa todas as lembranças felizes que ele teve com a mulher. Assim, o filme parece ser bem simples, mas apoiado no roteiro fabuloso de Kauffman e na brilhante montagem da obra, o filme tem um desenrolar incrível. Joel querendo salvar Clementine do possível “deletamento” começa a criar lugares dentro de sua mente e a levá-la esses lugares, que na verdade, ela nunca esteve. Aqui percebe-se que Joel está lutando inconscientemente, enquanto o procedimento de esquecimento está sendo feito.



Mas toda essa aparente estranheza só enriquece o filme, quem prestar bem atenção verá que tudo se encaixa maravilhosamente bem, todas as aventuras de Joel dentro da sua mente: a volta a infância, os diálogos (incríveis) entre ele e Clementine , os momentos bons e os momentos ruins da relação. Tudo isso faz a gente torcer para o casal, pra que nenhum esqueça o outro, pra que eles enxerguem que se amam. Isso torna o filma terno, tocante, pois sabemos que aquilo ali não é nada mais nem menos que nossa vida.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é isso, um romance triste e feliz, uma grande reflexão sobre escolhas e destinos da vida. Inesperadamente, na hora do desespero a gente pode optar por apagar alguém da nossa mente, mas isso não significa que a gente não ame essa pessoa. É só mais fácil, menos doloroso.

É angustiante tudo o que sofre o personagem de Jim Carrey, a gente segue seus passos no filme, sorri para a tela no momento em que achamos que tudo vai dar certo, choramos quando achamos que tudo vai dar errado. Às vezes parecem duas crianças ingênuas. O pior de tudo é perceber o amor e achar que este está se esvaindo quando Joel não encontra Clementine em certo lugar.
Descobrimos que torcemos pelo amor.



É um daqueles filmes estranhos, mas que encantam e conquistam talvez pela estranheza do roteiro, dos personagens (cada hora Clementine aparece com uma cor de cabelo diferente: azul, verde), pela história que ao mesmo tempo que é irreal se torna tão real pra quem assiste.

No fundo, é aquela história que a gente já está cansado de saber: é melhor viver intensamente, do que simplesmente passar pela vida. Merece ser visto, pois trata-se de um grande filme.



Dedico esse post a melhor estranha que já conheci, mas agora ela "tá" na Oca dela.