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domingo, 21 de abril de 2013

A Vida em Telas (Crítica: Frida / 2002)

"Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você. Você sem dúvida foi o pior deles."



Se entrasse numa tela, a vida de Frida Kahlo não seria tão superlativa como se pode imaginar. Não é questão de ser nem de ter, é só uma constatação humana. A pintora mexicana viveu uma vida bem simples no que se pode traduzir nos dias de hoje, viveu como quis, mas apenas vivendo. Há quem pensa que o vendaval que foi Kahlo depende muito de uma vida insana, regada à droga e bebida ou, até mesmo, assombrada por amantes autoritários, mulheres com tendências apaixonantes e quadros de peso crucial para uma personalidade desconcertante. Frida foi uma mulher em cem mil. A prova de sua humanidade está na sua arte, na sua liberdade.

Frida (EUA, 2003), filme da diretora Julie Taymor, brilha exatamente no seu propósito libertário, contar aos “trancos e barrancos” a vida solar de uma mulher que enfrentou questões póstumas, momentos violentos e como transferiu a tragédia e a simplicidade para seu trabalho. Quem planta pecado não colherá Deus e Frida somente sonhou em com o viver. No papel da pintora está a também mexicana Salma Hayek, que também entrou como produtora da obra. Salma é indiscutível na sua representação de Kahlo, a atriz tem em seu cerne a admiração pela artista, é algo que acontece em poucos encontros, talvez o mais visível a curto passado seja a performance assombrosa de Marion Cotillard como Edith Piaf. O fato de existir um sentimento nacional entre uma artista viva e outra morta é palpável e quase olfativo nesses filmes biográficos. São performances catastróficas dentro do próprio caos. Talvez entenda assim o que é sentir a liberdade através da tela.



Lá pelas tantas de sua vida, Frida Kahlo protestou vivência, conquistou seus contrários e foi montando um sensacional roteiro de vida, isso torna o filme tão interessante, tornando desnecessária uma postura avaliativa. Seu princípio é conquistar sem ao menos te forçar a nada. Frida faz isso sozinha.

Com a dor crescendo a olhos nus, a perseguição da essência de Kahlo é, de fato, um senso e uma direção tomada por todos os profissionais do filme. Alguns pensam e veem uma mistificação em torno da figura da pintora, mas não, é só uma obra pronta pra declarar a relação social e humana da arte e do sofrimento, da liberdade e da lágrima. Aqui, Kahlo está onde deveria estar, sem estrelismos, apenas conquistando, causando reconhecimento.

O relacionamento com o artista Diego Rivera também é abordado dentro da perspectiva cinematográfica, somando mais humanidade as contradições (ainda assim, normais) de Frida Kahlo, entenda que seus problemas só estavam visíveis a outros olhos humanos.



Movimentista, louca, conquistadora, pataquada, egocêntrica, e muitas outras características foram aplicadas na personagem real. O que é verdade? Não sei. A percepção da mão hollywoodiana fica naquele singelíssimo bigode ostentado por Salma Hayek, quando, na realidade, todo mundo que conhece Kahlo sabe que ali existia um vasto bigode. Rivera (interpretado pelo ótimo Alfred Molina) também parece mais plausível na sua arte do que na representação do cinema, alguns o acusavam de terrores com Frida.

Fica parecendo, então, ou enfim, que uma vida continua em cores, em saltos e aos montes.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Legítima Aborígene (Biografia: Nicole Kidman)

Não há drogas, nem Tom num traje, nem psiquiatras.



Os astros de Hollywood pagam um preço pra se manter visível aos projetos e iniciativas do Cinema, às vezes alto, outras vezes nem tanto. Geralmente, astros em decadência já possuem seu Oscar e sua grande atuação, então, são acometidos pela chamada “Maldição do Oscar”. Halle Berry é um exemplo fortíssimo do que eu quero dizer, após vencer o Oscar de 2002 (que nem foi tão merecido assim), a atriz nunca mais conseguiu se incluir num projeto com visibilidade, ou que lhe trouxesse alguns elogios da crítica especializada. Quem estava na mesma situação até alguns meses atrás era a talentosíssima e subestimada Nicole Kidman, que após ser premiada pela Academia, em 2003, a atriz só conseguiu sair da chamada maldição oito anos depois.

Por ser uma atriz pela qual tenho grande afeição, eu consegui acompanhar essa fase bastante conturbada na carreira de Kidman. A crítica não estava sendo rude, realmente, a atriz tinha dificuldades para se encontrar e estava se saindo medíocre em quase todos os seus papéis. Junto a isso, veio o problema do botox, que ainda persiste. Nicole exagerou na aplicação do produto na região dos olhos e da boca e perdeu quase toda a expressividade, que, sem dúvida, contribuíram para eclipsar sua imagem e carreira.



Ao contrário do que todo mundo pensa, Nicole não é australiana. Apesar de ter sido criada na Austrália, Kidman é norte-americana, nascida no Havaí, em 1967. Seus pais, sim, eram australianos. Aos três anos de idade, Nicole se muda para a Austrália e lá vai viver até começar a investir na carreira de atriz e se mudar novamente para os EUA, no fim da década de 1980.

Aos dez anos, Nicole já mostrava querer seguir a carreira de atriz. Após participar de algumas peças escolares, a jovem atriz começou a participar profissionalmente de algumas peças com mais visibilidade na Austrália. Com quinze anos, Kidman já participava de uma série de televisão. Não demorou muito e a jovem estrela já estava sendo requisitada no Cinema. Dona de uma beleza clássica e estonteante, que era somada com seu enorme talento, a atriz começou a se tornar popular dentro da indústria cinematográfica australiana. Não demoraria muito e Kidman estaria voando de volta para os EUA. O marco inicial de sua carreira mundial veio com dois prêmios de Melhor Atriz do Australian Film Institute, conquistados aos dezenove anos. Foi quando surgiu o convite para estrelar o filme Terror a Bordo (1989), no qual seria esposa do personagem de Sam Neil. A atriz foi aplaudida de pé e recebida de braços abertos pelo público norte-americano.



Morando em Hollywood já, surgiu o segundo trabalho de Kidman: Dias de Trovão (1990), foi nas filmagens dessa obra que Nicole conheceu o galã Tom Cruise, que viria a ser seu marido durante onze anos e que renderia algumas parcerias bastante festejadas dentro da indústria. Nicole Kidman vai até o final dos anos 1990 levando uma característica bastante diferente da atual, durante toda essa década, a atriz vai apostar na sua beleza e fazer filmes de todos os tipos, principalmente os mais comerciais, como Um Sonho Distante (1992) e Batman Eternamente (1995). Kidman vivia à sombra do marido Tom Cruise, o que não impediu que ela começasse a batalhar pela sua carreira. E seu principal papel dessa época, surge exatamente das vésperas do fim de seu casamento. O filme é De Olhos Bem Fechados (1999), no qual contracenou com Cruise (de longe, a melhor parceria). A última obra de Stanley Kubrick, drama psico-sexual, veio para trazer Nicole Kidman para o hall das grandes atrizes.

Do relacionamento com Tom Cruise, Nicole Kidman trouxe, além dos dois filhos, adotados ainda na década de 1990, a alcunha de mulher poderosa. Sim, a atriz que estava fadada a viver na sombra do ex-marido, conseguiu dar a volta por cima e mostrar que poderia montar uma carreira baseada não só na sua beleza, mas também no seu talento nato. E é justamente ao término do casamento, que se inicia a Belle Époque da atriz. A Época de ouro de Nicole Kidman tem cerca de três anos, um prazo curto, mas recheado das mais diferentes entregas que a triz pôde dar, desde uma incrível tradução de Vírginia Woolf até uma atormentada personagem de Lars Von Trier.



O reconhecimento mundial se iniciou em 2001, quando Kidman lança o suspense Os Outros, a primeira indicação ao Oscar viria no mesmo ano. Numa parceria inimaginável e surpreendente entre Nicole Kidman e Baz Luhrmann (diretor do longa), veio o musical Moulin Rouge - Amor em Vermelho (2001). A obra que faz uma releitura luxuosa dos anos de ouro da França, traz Kidman como Satine, dançarina e garota de programa da requisitada casa de shows e prostituição Moulin Rouge. A atriz acabou perdendo o Oscar para Halle Berry, que venceu pela histérica personagem de A Última Ceia (2001).



Alguns fãs fervorosos costumam dizer que Satine é o papel da carreira de Nicole Kidman, eu discordo. Mesmo entendendo a profundidade de Sabine e a importância da personagem na carreira da atriz, não consigo ver nada mais surpreendente do que a caracterização de Vírgina Woolf, pela atriz no filme de Stephen Daldry, As Horas (2002). Nicole está irreconhecível, tanto fisicamente quanto artisticamente, a densidade exigida para o papel até então nunca tinha sido vista quando se tratava de Nicole Kidman. É assustador, arrepiante e arrebatador o que a atriz consegue fazer em poucas cenas, em pensar que ela divide a posição de protagonista da trama com Meryl Streep e Julianne Moore. Pelo papel de As Horas, Nicole Kidman foi agraciada com uma estatueta do Oscar.

Ainda dentro da época de ouro da atriz, surgiram mais alguns importantes papéis, como a sofrida Grace de Dogville (2003) e a corajosa Ada de Cold Mountain (2003). E pode-se dizer que é em Cold Mountain que Nicole começará a descida transloucada de sua carreira. É o último papel em que a atriz vai mostrar sinais daquela época tão festejada pela crítica e pelos fãs. Em 2004, Nicole Kidman lança Mulheres Perfeitas e Reencarnação, produções mal-sucedidas dentro da indústria, mas que até então não tinham prejudicado tanto a solidez de sua carreira. Em 2005, se junta a Sean Penn e roda A Intérprete, que também passa despercebido pelo público. Daí, vem a lama que vai cobrir sua carreira durante cinco anos, e ela se chama A Feiticeira (2005). Nicole estava extasiada com seu Oscar e praticamente não recusava nenhum dos convites feitos para integrar qualquer elenco que fosse. Seu pior erro foi fazer A Feiticeira. Já sentindo todo o peso de não conseguir mais se destacar depois do Oscar, Nicole acreditou que seria uma aposta boa para atrair o olhar do grande público para o seu trabalho. O efeito foi totalmente o contrário, Nicole chafurdou na lama e foi crucificada pela crítica. Foi nesse momento, que surgiu a história da “Maldição do Oscar”. Segundo a crítica, Nicole estava fadada a continuar decepcionando em qualquer um de seus trabalhos e As Horas e Moulin Rouge tinham sido meras exceções de seu trabalho.



Determinada a mudar a visão que acabou criando para si, Nicole começou a apostar em todos os tipos de trabalho, quando devia sentar e analisar cada um deles. Aí veio uma série de erros, como A Pele (2006), cinebiografia da fotógrafa Diane Arbus; Invasores (2007), suspense alienígina de baixíssima qualidade; A Bússola de Ouro (2007), fantasia fracassada, Austrália (2008), considerado a pior atuação da carreira da atriz, o que foi um baque, já que Kidman acreditou que uma nova parceria com Luhrmann pudesse trazer os bons tempos de Sabine de volta e que o filme se tornaria uma homenagem para o país que ela tanto amava; e Nine (2009), do diretor de Chicago (2002), que também passou como um fantasma pelos palcos da indústria. Nicole tentou em todos os campos, foi da comédia aos musicais, do drama aos romances, nada estava surtindo efeito. O único filme que recebeu alguns elogios da crítica foi o pouco conhecido Margot e o Casamento (2007), mas que, mesmo assim, não trouxeram tantas alegrias para o dia a dia da atriz. No mesmo ano ainda, chegou a recusar o papel que rendeu o Oscar para Kate Winslet em O Leitor (2008), quando iria novamente ter a oportunidade de trabalhar com Stephen Daldry.

Durante uma época, Nicole beirou a depressão, foi aí que iniciou as constantes e exageradas aplicações de botox, nessa altura já casada com o cantor country Keith Urban. Kidman chegou a anunciar que ia desistir da carreira em função dos fracassos que se seguiam.



Parece que algumas coisas acontecem por ação divina ou sabe lá o quê. Mas, acredito realmente que alguns papéis foram perfeitos para alguns atores, como é o caso da bailarina Nina de Natalie Portman em Cisne Negro (2010), não tem como imaginar outro ator fazendo. A chance de Nicole Kidman veio com o convite do diretor John Cameron Mitchell, para interpretar uma mãe que acaba de perder o filho num acidente e tenta restabelecer sua vida. O drama que recebeu o nome de Reencontrando a Felicidade (2010), que felicidade não tem nenhuma, rendeu para Nicole Kidman uma nova respirada dentro do mundo do cinema. A atriz foi reconhecida com uma indicação merecidíssima ao Oscar e só perdeu porque concorria com a mesma bailarina citada algumas linhas acima. O papel denso traz Kidman à velha forma, mesmo com o rosto um pouco deformado pelas plásticas, ainda é possível se emocionar com o trabalho da atriz, desde de a entrega corporal, de sofrimento à flor da pele, de castigo e luta interna ao simples desfile gracioso de sua aura diante das câmeras.

Nicole Kidman voltou porque tem o que doar, tem o que mostrar, só precisa estar no papel certo regido pelo cara certo. Um brinde a beleza e ao talento da grande Nicole Kidman.



FILMOGRAFIA OBRIGATÓRIA

Terror a Bordo (1989)
Um Sonho sem Limite (1995)
De Olhos Bem Fechados (1999)
Os Outros (2001)
Moulin Rouge - Amor em Vermelho (2001)
As Horas (2002)
Dogville (2003)
Cold Mountain (2003)
Margot e o Casamento (2007)
Reencontrando a Felicidade (2010)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Os Filhos da Guerra (Crítica: O Pianista / 2002)

“Quando você mata um homem, você é um assassino. Mate muitos, e você é um conquistador. Mate todos, então você é um Deus!”



Quem nunca assistiu a um filme sobre o Holocausto que atire a primeira pedra (nunca soube “onomatopeizar” nenhum tipo de som). Brincadeiras a parte, não é preciso ter criado um vínculo tão forte com a indústria cinematográfica, para saber o quão esta se encontra saturada por obras que insistem em tematizar os horrores sofridos durante a Segunda Guerra Mundial. A crítica também não aparece por simples incômodo ou por notável vontade de criticar, afinal, existem filmes excelentes que abordam o tema, só acredito mesmo, que o Holocausto foi um tema tão desgastado no cinema, que se não houver uma predileção à inovação (vide Bastardos Inglórios), as obras continuarão cansativas e dando margem a velha sensação de “já vi esse filme antes”.

Mas, como eu disse anteriormente, existem obras espetaculares que abordam o tema, e hoje, eu vim tratar de uma delas. Entre todas elas, podemos citar os premiadíssimos A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), ambos do gênio Steven Spielberg (que por coincidência foi vencedor de diversos prêmios justamente na abordagem dos fatos da guerra). Além destes, vale relembrar do meloso, mas bom, A Vida é Bela (1998), O Leitor (2008) e, do já lembrado, Bastardos Inglórios (2009). Todos eles se tornaram filmes reconhecidíssimos, premiados e festejados não pelo tema, mas sim, pela inovação, pelo novo olhar lançado à catástrofe.



Não mencionado ainda, nem por isso pior, consagrou-se O Pianista (Le Pianist/ The Pianist, França, Polônia, Reino Unido, Alemanha. 2002), longa denso e inovador quanto ao olhar direcionado à guerra. Não se trata de mais um extermínio de judeus, nem da história de uma família que foi implodida pela Segunda Guerra. O olhar, nesta obra, é de apenas um sujeito, é o olhar de um homem que não tinha mais nada a perder em sua luta pela sobrevivência. O drama, reconhecido nos quatro cantos do mundo, se estruturou nessa ordem de visão: não importava mais colocar 45 milhões de pessoas sofrendo em frente à tela, se isso podia ser feito com apenas uma das personagens desse massacre.

Roman Polanski, diretor de clássicos como Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e Chinatown (1974), não tinha feito um filme que fechasse de vez os elos de seu talento. Não que os filmes citados neste parágrafo não sejam de qualidade exímia, muito pelo contrário, mas ainda estava faltando a cereja do bolo. Em Repulsa ao Sexo, fez um brilhante thriller psicológico ao lado de Catherine Deneuve; no cultuado O Bebê de Rosemary, Polanski deu asas à imaginação e colocou Mia Farrow segurando o filho do demônio; em Chinatown, descobriu mais uma das faces do esplendoroso Jack Nicholson; em O Pianista, Polanski mostrou quem era Polanski, mostrou o que ele leva da vida e transmitiu uma das maiores mensagens de paz já vista, ainda mais, com o auxílio da arte como ponto de redenção e força para a sobrevivência do homem.

O Pianista não é autobiográfico. Polanski viveu dias de guerra (perdeu a mãe e a irmã num campo de concentração nazista), mas não é sua história que ele vem contar. O diretor francês optou por contar a vida pré, durante e pós guerra de um dos maiores pianistas poloneses da época do Holocausto: Wladyslaw Szpilman. Roman Polanski quis dar uma nova vestimenta ao tema, torná-lo mais sensível, mas não edificante, não propor análises maniqueístas, nem vitimizar quem foi vítima, o diretor apenas propõe uma nova visão a partir de um ser humano totalmente devastado pela guerra. O filme é repleto de referências a vida do diretor, mas ainda assim, o que está sendo contada é a história de Szpilman.



Como eu já disse, Szpilman no período entreguerras, se tornou um grande pianista de da Polônia, tocava na Rádio Polonesa, tinha um emprego satisfatório e uma família normal. Aparentemente, seu único defeito foi ter nascido judeu. Como todos já sabemos, veio a guerra, e em 1939, o exército nazista invadiu a Polônia. Primeiramente, o exército alemão criou os Guetos de Varsóvia, nesses locais eram colocados os judeus, para que assim, eles fossem devidamente separados da chamada raça pura, que continuava a circular livremente pelas ruas de Varsóvia. Nos guetos, é possível ver as tamanhas atrocidades que eram feitas (é tudo real, nada foi inventado ou transformado para sensibilizar o espectador), Szpilman vê a humilhação e a morte se alastrar sobre seu povo, sente na pele o que um homem é capaz de fazer ao outro. Seus pares eram mortos a rodo, tratados como gados, intoleráveis, mistificados e, sobretudo, degradados.

Szpilman passa a se esconder, já separado dos familiares e completamente sozinho. Passando fome e tocando piano na imaginação, o judeu vive passando por diversos esconderijos e por algumas situações um tanto inusitadas, como a cena do oficial nazista que o descobre e passa a protegê-lo em troca de pinceladas num piano velho encontrado numa casa entregue aos escombros. A relação mais importante do filme não se estabelece entre protagonista e piano. O piano tem papel imprescindível na obra, mas o filme não busca sentimento de edificação ou de superação através da arte. O instrumento e o talento de Szpilman se tornam uma válvula de escape, de fuga da realidade e de possíveis dias melhores, à medida que a desesperança toma conta do cenário desolador.



Quando digo da relação mais importante a ser estabelecida, é porque existe uma de fato. Na minha singela opinião, ela se encontra na relação personagem – espectador. Nós, humildes apreciadores da obra, só vemos os detalhes da guerra e a dimensão dela a partir dos olhos de um único personagem, personagem este, diga-se de passagem, que possui uma mobilidade muito prejudicada. Às vezes, vemos um soldado matando um judeu ou um menino fugindo dos assassinos, mas tudo o que vemos é a partir dos olhos da personagem Szpilman, é através de janelas, de buracos ou de frestas. O nosso único pesar é para com a personagem e não com toda a causa. E é aqui que o filme se diferencia de A Lista de Schindler, que tem uma visão muito mais ampla do que foi a guerra. Acho o filme de Spielberg fantástico, um dos melhores da década de 1990, mas é difícil negar a existência de certa manipulação imposta ao espectador em algumas passagens do filme.

A obra de Polanski possui muitos méritos: além do roteiro, temos a fotografia, a trilha sonora, o figurino, a reconstrução da época e seu ator principal. Poucos conhecem Adrien Brody, antes do filme então, era praticamente um ator invisível. Após 1400 testes, Polanski chegou até o ator nova-iorquino e pôde dar o presente que foi a atuação de Brody. Para que a gente tenha noção, ao longo das filmagens, Brody emagreceu 18 quilos para dar vida a Szpilman. Mas não é só o apelo físico que dá pontos ao ator. Sua composição de um homem dominado pela arte e perdido em meio a tanta perversidade é quase sobre-humana. Adrien Brody foi dono da melhor interpretação do ano e, por isso, levou o Oscar de Melhor Ator pela obra, assim como Polanski conquistou o de Melhor Diretor (não sei por que a Academia quis dar o Oscar de Melhor Filme para Chicago, mas enfim). No mais, a reconstrução da Varsóvia assolada pela Segunda Guerra é esplêndida e caminha para um realismo latente, assim como a fotografia crua e perversa na medida do possível.



E é isso que o filme de Polanski é: cru, perverso, fulgurante e (mesmo que sem a intenção) comovente. Acompanhar a difícil luta pela sobrevivência de uma vítima se torna uma experiência devastadora e vergonhosa ao mesmo tempo. A vergonha com um tempo de reflexão, torna-se reveladora e digerível, não pelos medos ou pelo tempo, mas pela ditadura da paz que faz com que acreditemos que o mundo não precisa de mais um desses momentos para saber do que nós somos capazes. Já que a guerra é uma invenção da humanidade, que esta invente a paz, pois, a guerra continua sendo apenas uma derrota para a humanidade.



“A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível.”

domingo, 11 de setembro de 2011

Lucy in the Sky (Crítica: Uma Lição de Amor / 2001)

Flores de celofane amarelas e verdes
Elevadas sobre a sua cabeça
Procure pela garota com o sol em seus olhos
E ela se foi

Lucy no céu com diamantes




É o terceiro post seguido em que tema é praticamente o mesmo. Deve ser o ar de Setembro. Não que me canse falar sobre amor, só acho que sei muito pouco sobre isso. Apesar de que, o amor se divide em múltiplas facetas dentro dele próprio, ou seja, não é e nem pode se tornar uma atividade redundante e cansativa. Mesmo no alto do meu comportamento leigo, permito-me tentar desvendar o único sentimento capaz de mover céus, terras e montanhas, mesmo que, quase sempre sem um resultado satisfatório.

No meu íntimo, vejo o amor sendo usado como pré-requisito para a construção de relações humanas mais estruturadas, solidárias e principalmente para a construção da ideia de um mundo melhor. Amor não deve ser pré-requisito. Afinal, amar é pedir demais? Creio que não. Ainda acho que loucos amam, psicopatas amam e tudo depende da incondicionalidade desse amor. Quanto mais você lapidar, mais você será um ser humano. Amar é simples, somos nós que complicamos tudo. Nós que (não sei por que motivo) insistimos em saber o que é melhor para o outro. Nós que entendemos que o bem do coletivo é essencial ao bem individual, sabemos que o coletivo só é possível com a individualidade preservada.

Um tema tão complexo, em que tudo beira a falta de nexo.

É fácil viver com os olhos fechados
Sem entender tudo o que você vê
Está ficando difícil ser alguém
Mas tudo se resolve




Falta de sentido é a última coisa que você verá em Uma Lição de Amor (I am Sam, EUA. 2001). Embora o título nacional seja bastante infantilóide, é exatamente isso que essa obra vem nos dar: uma lição absurda do que é amor. Tinha tudo para ser piegas, mas devido ao talentosíssimo elenco e ao roteiro muito bem trabalhado a história ficou comovente na medida certa. Não apela ao melodramático nem a tragicomédia. O filme consegue ser soberbo sem ultrapassar nenhuma dessas linhas tênues que configuram a temática da obra.

Despretensioso. O filme toca em várias feridas pulsantes que poderiam levar tudo por água abaixo. Afinal, temos uma história de retardo mental, de uma advogada fragilizada pela rasa relação que abastece dentro do âmbito familiar, o abandono inconsequente de uma criança, a relação entre pai e filha e a autonomia de instituições que se julgam capazes de definir o que é melhor para terceiros. O caminho a se trilhar é extremamente perigoso. São inúmeros os filmes que tendem a construir esse tipo de caminho, mas Uma Lição de Amor se sobressaí por mera qualidade. Faz chorar? Faz. Em cinco minutos de filme eu já estava em estado de emergência. Só que, ao mesmo tempo, um riso enviesado surge e mostra a especificidade dessa obra. Um tema tão denso, mas que conseguiu transpor uma leveza profunda no filme.

Sam Dawson (Sean Penn, melhor ator do mundo) teve que emprestar todo o seu talento e percepção para montar um homem deficiente mental, que se vê em dado momento da vida com uma filha nos braços. Como assim? Bom, vou tentar explicar. Sam engravidou uma mulher que vivia na rua e não tinha planos nenhum de casar ou até mesmo de ter filhos. No dia do parto da menina, a mulher desapareceu e Sam passou a cuidar da menina sozinha. Esses são os primeiros cinco minutos do filme a que me referi anteriormente. Devido a sua paixão por Beatles, Sam batiza a menina com nome Lucy (in the Sky with) Diamonds. A cena é fantástica, sob o som da mesma música, o pai vê a mãe da garota fugindo em meio a multidão, enquanto ele fica na porta de um ônibus com a menina no colo.



Em nenhum momento Lucy será um fardo para Sam. O que caracteriza essa relação é apenas o amor. Sam trabalha numa cafeteria, tendo uma função equivalente a sua condição mental, e é assim que ele sustenta Lucy. A menina vai crescendo e percebendo as dificuldades do pai, aos poucos ela entende que o pai não é normal. E isso, eu te garanto, é o menor problema de todos. Quando Lucy começa a perceber que está ficando mais inteligente que o pai, ela se recusa a aprender mais coisas. Por amor ao pai, ela decide que, com sete anos (a mesma idade mental de seu pai), tem que cessar com seu processo de amadurecimento intelectual e, assim, não ultrapassá-lo.

Nesse instante, surge a figura da assistente social, que julga que Sam não tem condições de continuar educando Lucy. A menina fica a cabo da justiça, enquanto seu pai inicia a impressão de uma via sacra para tentar recuperar a guarda da filha. Os amigos de Sam, todos com algum tipo de limitação, são os responsáveis por ajudá-lo. São eles também os responsáveis pela parte cômica da obra, como a linda cena dos balões e tomada da secretaria eletrônica. Dessa forma, Sam chega até a conceituada e estressada advogada Rita Harrison (a bela Michelle Pfeiffer). Rita, de início, não se sensibiliza nem ao menos se interessa pelo caso de Sam. Só após uma série de chacotas de seus amigos advogados, quanto ao fato de Rita não fazer nenhuma atividade solidária, como aceitar casos como o de Sam sem cobrar nada, a mulher mergulha no caso.

A obra se constituiu muito bem quando criou a história paralela da advogada sem tempo para a família, traída pelo marido e indiferente para o filho. Isso não tira o brilho da história central, e sim, responde aos anseios de uma mulher que não sabe mais onde é seu lugar dentro da sua própria casa. Sam, sem querer, provoca uma lavagem cerebral na dura Rita.

É essencial também falar brevemente da relação entre Sam e Lucy. Apesar, de Sam possuir suas limitações, ele nunca deixou que nada faltasse a filha. Deu tanto amor, que a menina se derrete pelo pai em todas as cenas do filme. Lucy, interpretada maravilhosamente bem pela, na época, menininha Dakota Fanning, é um exemplo divino de uma criança adultizada mentalmente, mas que ainda vê todas as dádivas de ser uma criança na companhia de seu pai.



Na segunda metade do filme, o roteiro foca nas cenas de tribunal, onde Sam está sendo julgado pela federação como impossibilitado de cuidar de uma criança. É tudo muito bem feito. Todas os planos feitos pela advogada junto aos amigos de Sam e da senhora detentora de agorafobia (Dianne Wiest), a cena de depoimento da pequena Lucy e, principalmente, o depoimento emocionado de Sam, onde tudo dá errado.

O elenco está afiadíssimo. Insisto novamente em dizer que, para mim, não existe um ator tão completo quanto Sean Penn. Inspirado (como sempre), Penn dá um banho de água fria no espectador, sua inocência misturado ao seu amor incondicional é o pilar de todo o filme, que se estruturou em torno dessa atuação emocionante e reconhecida com uma indicação ao Oscar. Dakota Fanning (em um de seus primeiros trabalhos) veio para ficar e não tenho mais o que dizer sobre ela, apenas que sou muito feliz por ter visto essa menina crescer de forma tão soberba. Michelle Pfeiffer não é tão boa atriz quanto é bela, mas não deixa a desejar, tem seus momentos. Ainda temos uma ponta preciosa da fantástica Laura Dern, como a mãe adotiva de Lucy e de Dianne Wiest como uma fiel amiga de Sam.



Outra coisa linda dessa obra é a trilha sonora. Só Beatles. Aliás, a banda inglesa é citada em vários momentos do filme. A diretora Jessie Nelson optou por regravações das músicas da banda, assim temos: Ben Harper cantando “Strawberry Fiels Forever”, Sarah McLachlan com “Blackbird”, Eddie Vedder, Rufus Wainwright, entre outros. Um acerto e tanto, que enriqueceu absurdamente a obra.

Sam é a encarnação do que é inocência e bondade. Lucy é a representação de um ser criado por inocência e bondade. Uma família. Tudo bem que não seja uma família convencional, mas, era uma família, nas mais diversas situações. O amor veio em primeiro lugar, e os dois, como centro e extremidade dessa família, cuidaram de tudo isso. Nunca durante esses 132 minutos você verá Sam desistir de lutar por Lucy, seus sete anos de mentalidade foram compensados pela velhice de seu coração. No mais, o que eu tenho a dizer é isso: Hey you've got to hide your love away.