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domingo, 11 de setembro de 2011

Lucy in the Sky (Crítica: Uma Lição de Amor / 2001)

Flores de celofane amarelas e verdes
Elevadas sobre a sua cabeça
Procure pela garota com o sol em seus olhos
E ela se foi

Lucy no céu com diamantes




É o terceiro post seguido em que tema é praticamente o mesmo. Deve ser o ar de Setembro. Não que me canse falar sobre amor, só acho que sei muito pouco sobre isso. Apesar de que, o amor se divide em múltiplas facetas dentro dele próprio, ou seja, não é e nem pode se tornar uma atividade redundante e cansativa. Mesmo no alto do meu comportamento leigo, permito-me tentar desvendar o único sentimento capaz de mover céus, terras e montanhas, mesmo que, quase sempre sem um resultado satisfatório.

No meu íntimo, vejo o amor sendo usado como pré-requisito para a construção de relações humanas mais estruturadas, solidárias e principalmente para a construção da ideia de um mundo melhor. Amor não deve ser pré-requisito. Afinal, amar é pedir demais? Creio que não. Ainda acho que loucos amam, psicopatas amam e tudo depende da incondicionalidade desse amor. Quanto mais você lapidar, mais você será um ser humano. Amar é simples, somos nós que complicamos tudo. Nós que (não sei por que motivo) insistimos em saber o que é melhor para o outro. Nós que entendemos que o bem do coletivo é essencial ao bem individual, sabemos que o coletivo só é possível com a individualidade preservada.

Um tema tão complexo, em que tudo beira a falta de nexo.

É fácil viver com os olhos fechados
Sem entender tudo o que você vê
Está ficando difícil ser alguém
Mas tudo se resolve




Falta de sentido é a última coisa que você verá em Uma Lição de Amor (I am Sam, EUA. 2001). Embora o título nacional seja bastante infantilóide, é exatamente isso que essa obra vem nos dar: uma lição absurda do que é amor. Tinha tudo para ser piegas, mas devido ao talentosíssimo elenco e ao roteiro muito bem trabalhado a história ficou comovente na medida certa. Não apela ao melodramático nem a tragicomédia. O filme consegue ser soberbo sem ultrapassar nenhuma dessas linhas tênues que configuram a temática da obra.

Despretensioso. O filme toca em várias feridas pulsantes que poderiam levar tudo por água abaixo. Afinal, temos uma história de retardo mental, de uma advogada fragilizada pela rasa relação que abastece dentro do âmbito familiar, o abandono inconsequente de uma criança, a relação entre pai e filha e a autonomia de instituições que se julgam capazes de definir o que é melhor para terceiros. O caminho a se trilhar é extremamente perigoso. São inúmeros os filmes que tendem a construir esse tipo de caminho, mas Uma Lição de Amor se sobressaí por mera qualidade. Faz chorar? Faz. Em cinco minutos de filme eu já estava em estado de emergência. Só que, ao mesmo tempo, um riso enviesado surge e mostra a especificidade dessa obra. Um tema tão denso, mas que conseguiu transpor uma leveza profunda no filme.

Sam Dawson (Sean Penn, melhor ator do mundo) teve que emprestar todo o seu talento e percepção para montar um homem deficiente mental, que se vê em dado momento da vida com uma filha nos braços. Como assim? Bom, vou tentar explicar. Sam engravidou uma mulher que vivia na rua e não tinha planos nenhum de casar ou até mesmo de ter filhos. No dia do parto da menina, a mulher desapareceu e Sam passou a cuidar da menina sozinha. Esses são os primeiros cinco minutos do filme a que me referi anteriormente. Devido a sua paixão por Beatles, Sam batiza a menina com nome Lucy (in the Sky with) Diamonds. A cena é fantástica, sob o som da mesma música, o pai vê a mãe da garota fugindo em meio a multidão, enquanto ele fica na porta de um ônibus com a menina no colo.



Em nenhum momento Lucy será um fardo para Sam. O que caracteriza essa relação é apenas o amor. Sam trabalha numa cafeteria, tendo uma função equivalente a sua condição mental, e é assim que ele sustenta Lucy. A menina vai crescendo e percebendo as dificuldades do pai, aos poucos ela entende que o pai não é normal. E isso, eu te garanto, é o menor problema de todos. Quando Lucy começa a perceber que está ficando mais inteligente que o pai, ela se recusa a aprender mais coisas. Por amor ao pai, ela decide que, com sete anos (a mesma idade mental de seu pai), tem que cessar com seu processo de amadurecimento intelectual e, assim, não ultrapassá-lo.

Nesse instante, surge a figura da assistente social, que julga que Sam não tem condições de continuar educando Lucy. A menina fica a cabo da justiça, enquanto seu pai inicia a impressão de uma via sacra para tentar recuperar a guarda da filha. Os amigos de Sam, todos com algum tipo de limitação, são os responsáveis por ajudá-lo. São eles também os responsáveis pela parte cômica da obra, como a linda cena dos balões e tomada da secretaria eletrônica. Dessa forma, Sam chega até a conceituada e estressada advogada Rita Harrison (a bela Michelle Pfeiffer). Rita, de início, não se sensibiliza nem ao menos se interessa pelo caso de Sam. Só após uma série de chacotas de seus amigos advogados, quanto ao fato de Rita não fazer nenhuma atividade solidária, como aceitar casos como o de Sam sem cobrar nada, a mulher mergulha no caso.

A obra se constituiu muito bem quando criou a história paralela da advogada sem tempo para a família, traída pelo marido e indiferente para o filho. Isso não tira o brilho da história central, e sim, responde aos anseios de uma mulher que não sabe mais onde é seu lugar dentro da sua própria casa. Sam, sem querer, provoca uma lavagem cerebral na dura Rita.

É essencial também falar brevemente da relação entre Sam e Lucy. Apesar, de Sam possuir suas limitações, ele nunca deixou que nada faltasse a filha. Deu tanto amor, que a menina se derrete pelo pai em todas as cenas do filme. Lucy, interpretada maravilhosamente bem pela, na época, menininha Dakota Fanning, é um exemplo divino de uma criança adultizada mentalmente, mas que ainda vê todas as dádivas de ser uma criança na companhia de seu pai.



Na segunda metade do filme, o roteiro foca nas cenas de tribunal, onde Sam está sendo julgado pela federação como impossibilitado de cuidar de uma criança. É tudo muito bem feito. Todas os planos feitos pela advogada junto aos amigos de Sam e da senhora detentora de agorafobia (Dianne Wiest), a cena de depoimento da pequena Lucy e, principalmente, o depoimento emocionado de Sam, onde tudo dá errado.

O elenco está afiadíssimo. Insisto novamente em dizer que, para mim, não existe um ator tão completo quanto Sean Penn. Inspirado (como sempre), Penn dá um banho de água fria no espectador, sua inocência misturado ao seu amor incondicional é o pilar de todo o filme, que se estruturou em torno dessa atuação emocionante e reconhecida com uma indicação ao Oscar. Dakota Fanning (em um de seus primeiros trabalhos) veio para ficar e não tenho mais o que dizer sobre ela, apenas que sou muito feliz por ter visto essa menina crescer de forma tão soberba. Michelle Pfeiffer não é tão boa atriz quanto é bela, mas não deixa a desejar, tem seus momentos. Ainda temos uma ponta preciosa da fantástica Laura Dern, como a mãe adotiva de Lucy e de Dianne Wiest como uma fiel amiga de Sam.



Outra coisa linda dessa obra é a trilha sonora. Só Beatles. Aliás, a banda inglesa é citada em vários momentos do filme. A diretora Jessie Nelson optou por regravações das músicas da banda, assim temos: Ben Harper cantando “Strawberry Fiels Forever”, Sarah McLachlan com “Blackbird”, Eddie Vedder, Rufus Wainwright, entre outros. Um acerto e tanto, que enriqueceu absurdamente a obra.

Sam é a encarnação do que é inocência e bondade. Lucy é a representação de um ser criado por inocência e bondade. Uma família. Tudo bem que não seja uma família convencional, mas, era uma família, nas mais diversas situações. O amor veio em primeiro lugar, e os dois, como centro e extremidade dessa família, cuidaram de tudo isso. Nunca durante esses 132 minutos você verá Sam desistir de lutar por Lucy, seus sete anos de mentalidade foram compensados pela velhice de seu coração. No mais, o que eu tenho a dizer é isso: Hey you've got to hide your love away.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Fundo do Poço (Crítica: Reencontrando a Felicidade / 2010)

Um dia isso passa?

Não. Mas, em algum momento, torna-se suportável.



É difícil dimensionar perdas. Difícil para quem já perdeu, impossível para que nunca vivenciou. Seguindo a ordem natural das coisas, somos nós filhos que enterramos nossos pais. Tarefa que deve ser dura e perversa, mas que segue uma lógica existencial. Porém, não são apenas em volta desses casos que a Terra roda, há de se lembrar que não é sempre que essa ordem natural é seguida. Quem nunca ouviu falar que não existe dor maior do que a dor de perder um filho? Sinto e entendo que não posso mensurar nem 1% dessa dor.

Diferentemente do que apresentou em seus outros trabalhos, John Cameron Mitchell (Shortbus) vem nos propor uma reflexão de como conciliar dor e vida em seu mais novo projeto: Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, 2010. EUA), obra baseada numa peça da Broadway, vencedora de diversos prêmios (inclusive o Pulitzer). Mitchel apresenta uma visão totalmente alheia dos clichês que nós sabemos que rondam uma família arrebatada pela perda de um filho. Ao invés de mostrar a morte, causar impactos, dramatizar, Mitchel inicia sua história oito meses após o incidente, na tentativa de sobrevivência das vítimas ilesas. A intenção é mostrar ou pelo menos tentar encontrar meios em que os pais possam continuar a viver.



A história se passa no antro de uma família de classe média americana. O objetivo inicial do filme é revelar como Becca (Nicole Kidman, ressurgindo) e Howie (Aaron Ekhart) estão reagindo a prematura morte do filho Danny, de 4 anos. Danny (que em nenhum momento aparece de frente para a tela) morreu na porta de casa, atropelado por um automóvel. Becca e Howie reagem de formas diferentes e desconexas. A mãe parece ser mais fria, mais controlada, mas no decorrer do filme vemos que é só uma casca. Becca entende que a melhor forma de esquecer a dor é negar a existência do filho para si mesma, negar os acontecimentos. Assim, Becca esconde numa caixa tudo o que faz com que ela lembre o filho. O sofrimento de Becca é visível, é cru, está solto pra quem quiser ver. Diferente de Howie. O pai aparentemente e sob suas ações parece sofrer mais. Howie vê vídeos do menino, fala de Danny o tempo todo (“Eu acho que ele vai sair debaixo da cama e aparecer do nada como ele sempre fazia”) e, ainda, acredita sofrer mais que Becca.

São diferentes situações. O pai que nada vê e tudo sente e a mãe que emblematicamente procura um ponto de redenção, uma válvula de escape. Válvula de escape essa que será usada por Howie diversas vezes, na procura por outras mulheres ou nas drogas. Incrivelmente, Becca encontrará um caminho para a libertação de sua angústia no garoto que atropelou seu filho. Na construção de uma relação única e desafiadora, Becca propõe-se uma nova chance.



Durante toda a narrativa, que é lenta e pesada (com a temática do filme não podia ser diferente) aparecem alguns personagens na vida do casal, como a mãe de Becca, interpretada pela ótima Dianne Wiest (a mesma vendedora de Avon em Edward – Mãos deTesoura e vencedora de dois Oscars), que compara a morte de Danny com a de seu filho (morto em função do uso de drogas). Um dos diálogos mais alucinantes do filme se dá entre Becca e a mãe. Numa lavanderia Becca, esgotada, pergunta a mãe se a dor vai passar. A personagem de Wiest consegue dar uma das definições mais simples e emocionantes quanto à passagem da dor: “Depois de um tempo a dor sai do peito e é como um tijolo que a gente coloca no bolso. A gente esquece. Até que se lembra do peso. Colocamos a mão no bolso e pensamos ‘Ahh, é isso’”. Também temos a deliciosa ponta de Sandra Oh (Grey’s Anatomy) como uma mãe que perdeu o filho, usuária de maconha e possível affair de Howie.

O filme, claro, fica sob as costas de Nicole Kidman. Aaron Eckhart está ótimo como o pai persistente na dor, mas, de certa forma, ele serve como um trampolim a Kidman. A atriz que não apresentava uma atuação digna de quem já ganhou um Oscar por interpretar Virginia Woolf desde o longínquo Dogville (2003), volta com toda a sua graça e força física. Nicole dá vida ao texto, faz do silêncio uma experiência ensurdecedora, faz dos nossos olhos um oceano. É algo parecido com gratificação o que eu sinto por Nicole. Torci tanto por sua volta por cima que me sinto como um dos responsáveis pela merecidíssima conquista de sua terceira indicação ao Oscar por esse trabalho. Apesar de que sua incrível força física vem sendo abalada pelo excesso de Botox no rosto. Mas, enfim, é o retorno de Safine, de Vírginia, de Grace, de Nicole, tudo em Becca.



No intuito de criar uma metáfora de simplicidade e de recomeço, o diretor optou por uma fotografia bastante primária, mas, ainda assim, sublime. A fotografia foca nas relações líquidas do nosso cotidiano, a relação do verde (planta) com a terra molhada, do açúcar com água virando caramelo. É como se fosse a visão de um bebê, que vai aprendendo e assimilando essas relações. A metáfora é a tentativa de renascimento de Becca, é o olhar apurado para essas coisas simples.



Mitchell , como já disse, ganha pontos por não cair na vala do senso comum. O diretor sabiamente deu um rumo inusitado ao seu trabalho. Não escolheu saturar uma relação entre pais e filho e, assim, tirar abruptamente o filho de cena. Fez melhor. Na construção de uma “teoria” de como sobreviver à ausência do filho, o diretor constrói uma obra emocionante e única, porque esse é um dos poucos filmes em que o mestre não apela para o melodrama.

Saber dosar sofrimento, realidade. Saber até onde ir, onde parar. Saber crescer com os infortúnios, saber dançar na cara da morte. Não existe poço que não tenha fundo nem queda que nunca acabe. Não existe escuridão sem luz nem luz sem trevas. O que existe é apenas uma vontade incessante de proteger, dominar, restaurar, voltar. O medo de seguir adiante é o medo que existe em mim, que existe em você.