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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Legítima Aborígene (Biografia: Nicole Kidman)

Não há drogas, nem Tom num traje, nem psiquiatras.



Os astros de Hollywood pagam um preço pra se manter visível aos projetos e iniciativas do Cinema, às vezes alto, outras vezes nem tanto. Geralmente, astros em decadência já possuem seu Oscar e sua grande atuação, então, são acometidos pela chamada “Maldição do Oscar”. Halle Berry é um exemplo fortíssimo do que eu quero dizer, após vencer o Oscar de 2002 (que nem foi tão merecido assim), a atriz nunca mais conseguiu se incluir num projeto com visibilidade, ou que lhe trouxesse alguns elogios da crítica especializada. Quem estava na mesma situação até alguns meses atrás era a talentosíssima e subestimada Nicole Kidman, que após ser premiada pela Academia, em 2003, a atriz só conseguiu sair da chamada maldição oito anos depois.

Por ser uma atriz pela qual tenho grande afeição, eu consegui acompanhar essa fase bastante conturbada na carreira de Kidman. A crítica não estava sendo rude, realmente, a atriz tinha dificuldades para se encontrar e estava se saindo medíocre em quase todos os seus papéis. Junto a isso, veio o problema do botox, que ainda persiste. Nicole exagerou na aplicação do produto na região dos olhos e da boca e perdeu quase toda a expressividade, que, sem dúvida, contribuíram para eclipsar sua imagem e carreira.



Ao contrário do que todo mundo pensa, Nicole não é australiana. Apesar de ter sido criada na Austrália, Kidman é norte-americana, nascida no Havaí, em 1967. Seus pais, sim, eram australianos. Aos três anos de idade, Nicole se muda para a Austrália e lá vai viver até começar a investir na carreira de atriz e se mudar novamente para os EUA, no fim da década de 1980.

Aos dez anos, Nicole já mostrava querer seguir a carreira de atriz. Após participar de algumas peças escolares, a jovem atriz começou a participar profissionalmente de algumas peças com mais visibilidade na Austrália. Com quinze anos, Kidman já participava de uma série de televisão. Não demorou muito e a jovem estrela já estava sendo requisitada no Cinema. Dona de uma beleza clássica e estonteante, que era somada com seu enorme talento, a atriz começou a se tornar popular dentro da indústria cinematográfica australiana. Não demoraria muito e Kidman estaria voando de volta para os EUA. O marco inicial de sua carreira mundial veio com dois prêmios de Melhor Atriz do Australian Film Institute, conquistados aos dezenove anos. Foi quando surgiu o convite para estrelar o filme Terror a Bordo (1989), no qual seria esposa do personagem de Sam Neil. A atriz foi aplaudida de pé e recebida de braços abertos pelo público norte-americano.



Morando em Hollywood já, surgiu o segundo trabalho de Kidman: Dias de Trovão (1990), foi nas filmagens dessa obra que Nicole conheceu o galã Tom Cruise, que viria a ser seu marido durante onze anos e que renderia algumas parcerias bastante festejadas dentro da indústria. Nicole Kidman vai até o final dos anos 1990 levando uma característica bastante diferente da atual, durante toda essa década, a atriz vai apostar na sua beleza e fazer filmes de todos os tipos, principalmente os mais comerciais, como Um Sonho Distante (1992) e Batman Eternamente (1995). Kidman vivia à sombra do marido Tom Cruise, o que não impediu que ela começasse a batalhar pela sua carreira. E seu principal papel dessa época, surge exatamente das vésperas do fim de seu casamento. O filme é De Olhos Bem Fechados (1999), no qual contracenou com Cruise (de longe, a melhor parceria). A última obra de Stanley Kubrick, drama psico-sexual, veio para trazer Nicole Kidman para o hall das grandes atrizes.

Do relacionamento com Tom Cruise, Nicole Kidman trouxe, além dos dois filhos, adotados ainda na década de 1990, a alcunha de mulher poderosa. Sim, a atriz que estava fadada a viver na sombra do ex-marido, conseguiu dar a volta por cima e mostrar que poderia montar uma carreira baseada não só na sua beleza, mas também no seu talento nato. E é justamente ao término do casamento, que se inicia a Belle Époque da atriz. A Época de ouro de Nicole Kidman tem cerca de três anos, um prazo curto, mas recheado das mais diferentes entregas que a triz pôde dar, desde uma incrível tradução de Vírginia Woolf até uma atormentada personagem de Lars Von Trier.



O reconhecimento mundial se iniciou em 2001, quando Kidman lança o suspense Os Outros, a primeira indicação ao Oscar viria no mesmo ano. Numa parceria inimaginável e surpreendente entre Nicole Kidman e Baz Luhrmann (diretor do longa), veio o musical Moulin Rouge - Amor em Vermelho (2001). A obra que faz uma releitura luxuosa dos anos de ouro da França, traz Kidman como Satine, dançarina e garota de programa da requisitada casa de shows e prostituição Moulin Rouge. A atriz acabou perdendo o Oscar para Halle Berry, que venceu pela histérica personagem de A Última Ceia (2001).



Alguns fãs fervorosos costumam dizer que Satine é o papel da carreira de Nicole Kidman, eu discordo. Mesmo entendendo a profundidade de Sabine e a importância da personagem na carreira da atriz, não consigo ver nada mais surpreendente do que a caracterização de Vírgina Woolf, pela atriz no filme de Stephen Daldry, As Horas (2002). Nicole está irreconhecível, tanto fisicamente quanto artisticamente, a densidade exigida para o papel até então nunca tinha sido vista quando se tratava de Nicole Kidman. É assustador, arrepiante e arrebatador o que a atriz consegue fazer em poucas cenas, em pensar que ela divide a posição de protagonista da trama com Meryl Streep e Julianne Moore. Pelo papel de As Horas, Nicole Kidman foi agraciada com uma estatueta do Oscar.

Ainda dentro da época de ouro da atriz, surgiram mais alguns importantes papéis, como a sofrida Grace de Dogville (2003) e a corajosa Ada de Cold Mountain (2003). E pode-se dizer que é em Cold Mountain que Nicole começará a descida transloucada de sua carreira. É o último papel em que a atriz vai mostrar sinais daquela época tão festejada pela crítica e pelos fãs. Em 2004, Nicole Kidman lança Mulheres Perfeitas e Reencarnação, produções mal-sucedidas dentro da indústria, mas que até então não tinham prejudicado tanto a solidez de sua carreira. Em 2005, se junta a Sean Penn e roda A Intérprete, que também passa despercebido pelo público. Daí, vem a lama que vai cobrir sua carreira durante cinco anos, e ela se chama A Feiticeira (2005). Nicole estava extasiada com seu Oscar e praticamente não recusava nenhum dos convites feitos para integrar qualquer elenco que fosse. Seu pior erro foi fazer A Feiticeira. Já sentindo todo o peso de não conseguir mais se destacar depois do Oscar, Nicole acreditou que seria uma aposta boa para atrair o olhar do grande público para o seu trabalho. O efeito foi totalmente o contrário, Nicole chafurdou na lama e foi crucificada pela crítica. Foi nesse momento, que surgiu a história da “Maldição do Oscar”. Segundo a crítica, Nicole estava fadada a continuar decepcionando em qualquer um de seus trabalhos e As Horas e Moulin Rouge tinham sido meras exceções de seu trabalho.



Determinada a mudar a visão que acabou criando para si, Nicole começou a apostar em todos os tipos de trabalho, quando devia sentar e analisar cada um deles. Aí veio uma série de erros, como A Pele (2006), cinebiografia da fotógrafa Diane Arbus; Invasores (2007), suspense alienígina de baixíssima qualidade; A Bússola de Ouro (2007), fantasia fracassada, Austrália (2008), considerado a pior atuação da carreira da atriz, o que foi um baque, já que Kidman acreditou que uma nova parceria com Luhrmann pudesse trazer os bons tempos de Sabine de volta e que o filme se tornaria uma homenagem para o país que ela tanto amava; e Nine (2009), do diretor de Chicago (2002), que também passou como um fantasma pelos palcos da indústria. Nicole tentou em todos os campos, foi da comédia aos musicais, do drama aos romances, nada estava surtindo efeito. O único filme que recebeu alguns elogios da crítica foi o pouco conhecido Margot e o Casamento (2007), mas que, mesmo assim, não trouxeram tantas alegrias para o dia a dia da atriz. No mesmo ano ainda, chegou a recusar o papel que rendeu o Oscar para Kate Winslet em O Leitor (2008), quando iria novamente ter a oportunidade de trabalhar com Stephen Daldry.

Durante uma época, Nicole beirou a depressão, foi aí que iniciou as constantes e exageradas aplicações de botox, nessa altura já casada com o cantor country Keith Urban. Kidman chegou a anunciar que ia desistir da carreira em função dos fracassos que se seguiam.



Parece que algumas coisas acontecem por ação divina ou sabe lá o quê. Mas, acredito realmente que alguns papéis foram perfeitos para alguns atores, como é o caso da bailarina Nina de Natalie Portman em Cisne Negro (2010), não tem como imaginar outro ator fazendo. A chance de Nicole Kidman veio com o convite do diretor John Cameron Mitchell, para interpretar uma mãe que acaba de perder o filho num acidente e tenta restabelecer sua vida. O drama que recebeu o nome de Reencontrando a Felicidade (2010), que felicidade não tem nenhuma, rendeu para Nicole Kidman uma nova respirada dentro do mundo do cinema. A atriz foi reconhecida com uma indicação merecidíssima ao Oscar e só perdeu porque concorria com a mesma bailarina citada algumas linhas acima. O papel denso traz Kidman à velha forma, mesmo com o rosto um pouco deformado pelas plásticas, ainda é possível se emocionar com o trabalho da atriz, desde de a entrega corporal, de sofrimento à flor da pele, de castigo e luta interna ao simples desfile gracioso de sua aura diante das câmeras.

Nicole Kidman voltou porque tem o que doar, tem o que mostrar, só precisa estar no papel certo regido pelo cara certo. Um brinde a beleza e ao talento da grande Nicole Kidman.



FILMOGRAFIA OBRIGATÓRIA

Terror a Bordo (1989)
Um Sonho sem Limite (1995)
De Olhos Bem Fechados (1999)
Os Outros (2001)
Moulin Rouge - Amor em Vermelho (2001)
As Horas (2002)
Dogville (2003)
Cold Mountain (2003)
Margot e o Casamento (2007)
Reencontrando a Felicidade (2010)

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Fundo do Poço (Crítica: Reencontrando a Felicidade / 2010)

Um dia isso passa?

Não. Mas, em algum momento, torna-se suportável.



É difícil dimensionar perdas. Difícil para quem já perdeu, impossível para que nunca vivenciou. Seguindo a ordem natural das coisas, somos nós filhos que enterramos nossos pais. Tarefa que deve ser dura e perversa, mas que segue uma lógica existencial. Porém, não são apenas em volta desses casos que a Terra roda, há de se lembrar que não é sempre que essa ordem natural é seguida. Quem nunca ouviu falar que não existe dor maior do que a dor de perder um filho? Sinto e entendo que não posso mensurar nem 1% dessa dor.

Diferentemente do que apresentou em seus outros trabalhos, John Cameron Mitchell (Shortbus) vem nos propor uma reflexão de como conciliar dor e vida em seu mais novo projeto: Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, 2010. EUA), obra baseada numa peça da Broadway, vencedora de diversos prêmios (inclusive o Pulitzer). Mitchel apresenta uma visão totalmente alheia dos clichês que nós sabemos que rondam uma família arrebatada pela perda de um filho. Ao invés de mostrar a morte, causar impactos, dramatizar, Mitchel inicia sua história oito meses após o incidente, na tentativa de sobrevivência das vítimas ilesas. A intenção é mostrar ou pelo menos tentar encontrar meios em que os pais possam continuar a viver.



A história se passa no antro de uma família de classe média americana. O objetivo inicial do filme é revelar como Becca (Nicole Kidman, ressurgindo) e Howie (Aaron Ekhart) estão reagindo a prematura morte do filho Danny, de 4 anos. Danny (que em nenhum momento aparece de frente para a tela) morreu na porta de casa, atropelado por um automóvel. Becca e Howie reagem de formas diferentes e desconexas. A mãe parece ser mais fria, mais controlada, mas no decorrer do filme vemos que é só uma casca. Becca entende que a melhor forma de esquecer a dor é negar a existência do filho para si mesma, negar os acontecimentos. Assim, Becca esconde numa caixa tudo o que faz com que ela lembre o filho. O sofrimento de Becca é visível, é cru, está solto pra quem quiser ver. Diferente de Howie. O pai aparentemente e sob suas ações parece sofrer mais. Howie vê vídeos do menino, fala de Danny o tempo todo (“Eu acho que ele vai sair debaixo da cama e aparecer do nada como ele sempre fazia”) e, ainda, acredita sofrer mais que Becca.

São diferentes situações. O pai que nada vê e tudo sente e a mãe que emblematicamente procura um ponto de redenção, uma válvula de escape. Válvula de escape essa que será usada por Howie diversas vezes, na procura por outras mulheres ou nas drogas. Incrivelmente, Becca encontrará um caminho para a libertação de sua angústia no garoto que atropelou seu filho. Na construção de uma relação única e desafiadora, Becca propõe-se uma nova chance.



Durante toda a narrativa, que é lenta e pesada (com a temática do filme não podia ser diferente) aparecem alguns personagens na vida do casal, como a mãe de Becca, interpretada pela ótima Dianne Wiest (a mesma vendedora de Avon em Edward – Mãos deTesoura e vencedora de dois Oscars), que compara a morte de Danny com a de seu filho (morto em função do uso de drogas). Um dos diálogos mais alucinantes do filme se dá entre Becca e a mãe. Numa lavanderia Becca, esgotada, pergunta a mãe se a dor vai passar. A personagem de Wiest consegue dar uma das definições mais simples e emocionantes quanto à passagem da dor: “Depois de um tempo a dor sai do peito e é como um tijolo que a gente coloca no bolso. A gente esquece. Até que se lembra do peso. Colocamos a mão no bolso e pensamos ‘Ahh, é isso’”. Também temos a deliciosa ponta de Sandra Oh (Grey’s Anatomy) como uma mãe que perdeu o filho, usuária de maconha e possível affair de Howie.

O filme, claro, fica sob as costas de Nicole Kidman. Aaron Eckhart está ótimo como o pai persistente na dor, mas, de certa forma, ele serve como um trampolim a Kidman. A atriz que não apresentava uma atuação digna de quem já ganhou um Oscar por interpretar Virginia Woolf desde o longínquo Dogville (2003), volta com toda a sua graça e força física. Nicole dá vida ao texto, faz do silêncio uma experiência ensurdecedora, faz dos nossos olhos um oceano. É algo parecido com gratificação o que eu sinto por Nicole. Torci tanto por sua volta por cima que me sinto como um dos responsáveis pela merecidíssima conquista de sua terceira indicação ao Oscar por esse trabalho. Apesar de que sua incrível força física vem sendo abalada pelo excesso de Botox no rosto. Mas, enfim, é o retorno de Safine, de Vírginia, de Grace, de Nicole, tudo em Becca.



No intuito de criar uma metáfora de simplicidade e de recomeço, o diretor optou por uma fotografia bastante primária, mas, ainda assim, sublime. A fotografia foca nas relações líquidas do nosso cotidiano, a relação do verde (planta) com a terra molhada, do açúcar com água virando caramelo. É como se fosse a visão de um bebê, que vai aprendendo e assimilando essas relações. A metáfora é a tentativa de renascimento de Becca, é o olhar apurado para essas coisas simples.



Mitchell , como já disse, ganha pontos por não cair na vala do senso comum. O diretor sabiamente deu um rumo inusitado ao seu trabalho. Não escolheu saturar uma relação entre pais e filho e, assim, tirar abruptamente o filho de cena. Fez melhor. Na construção de uma “teoria” de como sobreviver à ausência do filho, o diretor constrói uma obra emocionante e única, porque esse é um dos poucos filmes em que o mestre não apela para o melodrama.

Saber dosar sofrimento, realidade. Saber até onde ir, onde parar. Saber crescer com os infortúnios, saber dançar na cara da morte. Não existe poço que não tenha fundo nem queda que nunca acabe. Não existe escuridão sem luz nem luz sem trevas. O que existe é apenas uma vontade incessante de proteger, dominar, restaurar, voltar. O medo de seguir adiante é o medo que existe em mim, que existe em você.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Maçã Envenenada (Crítica: Dogville / 2003)



Inovar. Desafiar convenções.

É tão bom quando encontramos um filme e nos deparamos com uma proposta tão inovadora e arriscada, que dá certo e no fim de tudo só imprime qualidade e legitimidade a tal obra. Pois é, existe uma série de filmes com esses pré-requisitos, os melhores para mim (que não são do David Lynch) seriam Clube da Luta (1999) e Dogville.

Hoje resolvi falar de Dogville (2003. Dinamarca) do diretor dinamarquês Lars von Trier. Para quem não conhece, Von Trier é um dos mais geniais diretores da atual safra. Responsável por obras complexas, fortes e, principalmente, reflexivas. Mas reflexivas não no sentido individual, e sim no geral, nos faz pensar como sociedade, talvez por isso seus filmes recebam críticas tão duras e às vezes são ignorados pelo grande público. Mas o que seria do cinema se não houvesse o “pequeno público”: homens aranhas e comédias pastelões? Adam Sandler ao invés de Robert de Niro? Anna Faris no lugar de Susan Sarandon?



Lars Von Trier é o criador do “Dogma 95”, uma espécie de cartilha em que um conjunto de regras determina como deve ser criado um filme, entre elas: ausência de cenário, utilização de som e iluminação naturais, câmera de mão. Opõe-se a idéia de autor, de cinema individual e efeitos especiais. Parece loucura, eu sei. Porém, Dogville não pode ser considerado uma obra que segue genuinamente os precedentes desse movimento dinamarquês, já que utiliza iluminação artificial, existe diretor de fotografia, entre outras coisas, mas o radicalismo de Dogville lembra algumas ousadas experiências do movimento.

A intenção do diretor era criar uma trilogia sobre os Estados Unidos (a segunda parte inclusive já foi lançada com o título “Manderlay”). Curiosamente, Lars Von Trier nunca esteve nos Estados Unidos e é sempre rotulado como um anti-americano. Por isso, seus filmes nunca obtiveram sucesso em território americano.



Mas vamos ao que interessa.

Dogville é uma cidade no meio das montanhas dos Estados Unidos e que possui um pouco mais de 15 habitantes(você não entendeu errado, são 15 habitantes). A história se passa durante a Grande Depressão americana na década de 1930 e gira em torno de Grace (Nicole Kidman, linda e num dos melhores papéis de sua carreira, a conhecida "belle epoque" da atriz), uma mulher que está fugindo de gângsteres e encontra abrigo em Dogville. Calma, não entenda esse abrigo tão ao pé da letra assim.

Encantado com a moça, o jovem Tom (Paul Bettany) propõe aos moradores que Dogville sirva de refúgio para Grace que, em troca, faria pequenos serviços a comunidade (já que a população estava temerosa com a possibilidade do aparecimento dos gangsteres na minúscula cidade) e através de um plebiscito, os moradores aprovam a permanência de Grace entre eles. Só que o negócio começa a ficar sério e a polícia começa a bater às portas de Dogville atrás de Grace (no final do filme você entenderá porque a polícia), e a população, que até então tinha se mostrado amorosa para com a jovem, começa a explorá-la cada vez mais, para que assim eles pudessem escondê-la. Inicia-se um misto de chantagem e interesse em cima de Grace.

Grace faz de tudo na cidade, desde dar aulas na escola e trabalhar no cultivo das maçãs até satisfazer um velho sexualmente. Exploração parece uma palavra amena perto do que essa mulher sofre, porque além de tudo isso ela tem que se preocupar em fugir de quem a persegue fora dali. Escravidão define melhor a condição de Grace, ela se torna prisioneira da cidade e passa a usar correntes após sua primeira tentativa de fuga.



Quando disse no começo do post em DESAFIAR CONVENÇÕES, estou me referindo principalmente ao cenário do filme, que, aliás, não existe. Todo o espaço que representa a cidade é marcado com giz no chão, delimitando as casas, a Igreja, as macieiras e todo o resto. Minimalista, o diretor só fez uso de alguns objetos de cena, a ausência de cenários permite que o espectador veja os coadjuvantes em suas práticas rotineiras e totalmente desfocados da cena principal que ocorre no primeiro plano da imagem. Isso é magnífico e dá um grau de complexidade absurdo ao filme, pois atentar aos codjuvantes fora da cena é essencial ao entendimento da obra

Tirando o cenário do foco, o diretor conseguiu que o espectador prestasse atenção naquilo que ele realmente quer mostrar no filme: “a desumanidade que brota da humanidade”.



Os coadjuvantes do filme representam essa tal desumanidade, exclui-se daí apenas o personagem de Paul Bettany, que apesar de DIZER amar Grace, ele é um homem passivo e frouxo, de discursos vagos e metido a intelectual, que não consegue enfrentar os moradores em prol da "amada". É aqui que a esperança que Grace tinha na humanidade começa a se esfacelar, já que Tom é o único ser humano que ela confia. Eu particularmente achei Tom o personagem mais interessante da obra, tem nuances de aproveitador sexual barato que se mesclam com um gênio introvertido. O resto do time de coadjuvantes (brilhantes por sinal: Stellan Skarsgaard, Lauren Baccall, Patricia Clarkson, Philip Baker Hall e Chloe Sevigny) representam o sofrimento de Grace, que vão desde orgulho, avareza, vaidade, preguiça, luxúria e inveja.
O que Grace vive é uma verdadeira Odisséia. Nicole Kidman é sofrimento a flor da pele. É lindo de ver ela trabalhando tão bem.

O filme é uma crítica ferrenha à sociedade estadunidense. Uma crítica a essa potência que o ser humano tem em ser vil, hipócrita e mesquinho, um individualista conservador e possessivo. Lars Von Trier costura isso de maneira tão perfeita que resta-nos apenas o recolhimento e a reflexão (provavelmente) negativa do que é a sociedade. No final do filme essa crítica fica mais clara a partir da música de David Bowie e das decisões tomadas por Grace, que culminam num final trágico.



O filme é sublime. Não só por inovar, quebrar convenções, mas por tratar de um tema tão complicado (às vezes parece que estão apontando um dedo na nossa cara, mesmo que de forma branda) de uma maneira bem natural. Os atores tiveram que se esforçar e dar o máximo de seu potencial, pois gravaram todas as cenas em cima de um tablado, ou seja, exigia experiência em teatro.



Quanto vale a minha dignidade? QUANTO VALE A DIGNIDADE DO PRÓXIMO?

Lars Von Trier apresenta uma percepção da sociedade onde impera o cinismo, a mentira e a naturalização da maldade. E acima de tudo consegue manter nossas cabeças ocupadas por um bom tempo após o filme.

Dogville é uma síntese espetacular da humanidade frente aos seus objetivos, percepções e interesses.