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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Retrato de uma Rainha (Biografia: Natalie Portman)

Hello, stranger.



Meu último post sobre alguma personalidade do Cinema já tem bastante tempo, por isso, resolvi que já estava na hora de repetir a dose. Acho que isso se deve pela insistência de uma grande atriz em fazer parte dos meus dias: os últimos dois filmes que assisti tinham Natalie Portman.

Natalie é, hoje, a minha atriz predileta, não consigo enxergar em nenhuma atriz (viva) o potencial que eu encontro nessa jovem atriz. Acho que não é só a junção de imenso talento e indiscutível beleza, Natalie é símbolo de humildade, garra e discrição no exercício da profissão.

A esplêndida atriz israelense, nascida em 9 de junho de 1981, pode se gabar por ter se tornado uma das atrizes mais festejadas da atualidade e uma das poucas a aceitar papéis tão diferentes um do outro. E esse é o grande diferencial de Portman: a força que a atriz tem em convencer como rainha, bailarina, assassina, vendedora, stripper ou revolucionária.



Poucos sabem, mas Portman nasceu mesmo em Israel e só foi parar na terra do Tio Sam aos três anos de idade, outra coisa que também foge do conhecimento do grande público, é que Natalie é graduada em Psicologia pela renomada Universidade de Harvard, onde também saiu sendo agraciada como uma das melhores alunas do curso. Deixando as partes menos interessantes de lado, vamos falar do que realmente importa: a trajetória de Natalie Portman no Cinema e sua contribuição, diga-se de passagem, magnífica, na construção do cinema contemporâneo.

Portman inicialmente foi convidada para ser modelo, pedido o qual recusou, pois queria se tornar atriz. Aos doze anos veio a primeira e acertada chance da menina. O diretor francês Luc Besson escolheu Natalie Portman para fazer a aprendiz de assassina, que virou exemplo de personagem cult e entrou para a maioria das listas dos personagens do século, no filme O Profissional (1994). Ao lado de Jean Reno, Portman eclipsou todo o filme e despontou como uma das grandes promessas dos anos 1990. Até hoje, a atriz é ovacionada por Mathilda, afinal, se ela conseguiu fazer o que fez aos 12 anos, o que não faria Natalie Portman quando amadurecesse como atriz?

Talvez pela pouca idade e pouca experiência, Natalie acabou fazendo algumas escolhas equivocadas nos anos seguintes. Foi convidada pessoalmente por Woody Allen para integrar o elenco de Todos Dizem Eu Te Amo (1996) e por Tim Burton em seu Marte Ataca! (1996). Os dois filmes não renderam muito reconhecimento a atriz, mas valeu como oportunidade de trabalhar com os dois diretores, como disse a própria atriz. Em seus seguintes trabalhos o que mais rendeu elogios a Portman foi sua parceria com o diretor Michael Mann, Robert De Niro e Al Pacino em Fogo contra Fogo (1995).



Em 1999, Natalie entrou para o cast da refilmagem de Star Wars. Como a rainha Padmé Amidala, a atriz inclui em seu currículo mais um trabalho com pouca expressividade. Será que a atriz estava condenada aos papéis medianos e aos roteiros fracos? Na época, sim, mas Natalie deu reviravolta na carreira e mostrou que não estava ali à toa.

Tudo começou com a parceria inusitada de Natlie a veterana Susan Sarandon no filme Em Qualquer outro Lugar (1999). O filme não é nenhuma pérola e a personagem da jovem atriz nenhuma revolução. Mas, frente às poucas opções de ascensão da personagem, Natalie conseguiu montar uma menina incomodada com a mãe e seus preceitos, como poucas atrizes conseguiram fazer. Seu primeiro divisor de águas se encontra nesse momento. Portman já sabia como lutar contra um roteiro fraco e uma personagem mediana.

Em meio às continuações da trilogia Star Wars, Natalie participou do simples e comovente Hora de Voltar (2004) do ator e diretor Zach Braff. O filme recebeu várias indicações e prêmios em eventos de cinema independente: também podemos ver a partir daqui, o começo de uma longa e festejada parceria entre Natalie e os filmes indies.



Em consequência de sua ascensão com Hora de Voltar, Mike Nichols, diretor inglês e de diversos filmaços como A Primeira Noite de um Homem, Quem tem Medo de Virginia Woolf? e Silkwood, viu em Natalie Portman a atriz perfeita para fazer uma de suas personagens prediletas: a Alice Ayres/Janes Jones de Closer – Perto Demais (2004), seu segundo divisor de águas. A personagem de Portman neste filme, para mim, é simplesmente o melhor trabalho da atriz. Portman se despe de todo e qualquer tipo de vaidade e insegurança para encarnar uma stripper desbocada, independente financeiramente e arrasada sentimentalmente. Aqui, Natalie mostrou não ter problema nenhum com nudez, nem com rotulação, o que interessa é ser o que se deve ser. O papel rendeu a Natalie Portman um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar.

Depois disso, Natalie já tinha praticamente firmado seu lugar na indústria cinematográfica. Novamente, começou a ser convidada para todos os tipos de papéis, o que gerou novamente uma série de equívocos.



Ansiosa por poder trabalhar com diretor e atores de Israel, Natalie rodou Free Zone (2005). O filme não é bom, mas, mesmo assim, traz a atriz em perfeita sintonia com um mundo que ela deixou de conviver desde os seus três anos. Por esse motivo, e só por esse, o filme valeu a pena. Mais tarde, alguns outros erros, como A Loja Mágica de Brinquedos (2007), em que Natalie foi totalmente seduzida pela oportunidade de trabalhar com Dustin Hoffman, e Sombras de Goya (2006), que também acabou por se configurar num filme bastante faltoso.

Da segunda metade da última década, destacam-se duas grandes obras em que Natalie esteve presente. A primeira A Outra (2008) nem é tanto pelo filme, mas sim, pela encarnação que atriz fez da histórica rainha inglesa Ana Bolena. Já tive oportunidade de ver outras atrizes fazendo a “incestuosa" rainha, e nenhuma chegou ao meu imaginário do que seria a história da família Bolena, como Natalie chegou. A segunda é V de Vingança (2006), e a qualidade dessa obra e da atuação de Portman é completamente inquestionável. É uma força absurda que a atriz imprime nas duas personagens, que dá gosto de ver. E sentar e se deliciar.



Esse foi o caminho para que Natalie Portman chegasse até o ápice de sua carreira: o momento em que seria coroada, ou melhor, oscarizada como a Melhor Atriz do último ano. Foi interpretando a bailarina Nina no filme Cisne Negro (2010), que Natalie Portman mostrou ao mundo o que é se entregar por completo para um papel, para uma história a ser contada, para uma arte. O retrato claustrofóbico e intenso da bailarina é um marco na carreira da atriz e na história do Cinema. Temos, então, o terceiro divisor de águas na carreira de Portman.



Novamente, Portman entrou numa sucessão de pequenos erros. Recentemente se juntou a Ashton Kutcher para rodar Sexo Sem Compromisso (2010), um daqueles filmes que logos são rotulados de “sem necessidade nenhuma”, e rodou também, numa onda mais de super-heróis, o longa Thor (2011), que também não deixa de ser um pouco dispensável.

A carreira de Natalie Portman é exatamente a carreira de qualquer ser humano normal: tem seus altos e baixos, seus prêmios e fracassos e suas glórias e perdas. Podemos notar que dentro da história da atriz sempre vamos encontrar diversos divisores de água, em que toparemos com Portman nua e crua, do jeito que é e deve ser sempre: a melhor atriz do mundo na atualidade.
E que venha mais um divisor de águas.
Amém.



FILMOGRAFIA OBRIGATÓRIA

O Profissional (1994)
Fogo Contra Fogo (1995)
Em Qualquer Outro Lugar (1999)
Cold Mountain (2003)
Hora de Voltar (2004)
Closer - Perto Demais (2004)
Paris, Eu te amo (2006)
V de Vingança (2006)
Um Beijo Roubado (2007)
A Outra (2008)
Cisne Negro (2010)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Amor em Alguns Atos (Crítica: Namorados Para Sempre / 2010)

Você sempre machuca quem você ama
Quem você não deveria nunca machucar
Você sempre colhe a mais bela das rosas
E a esmaga até que as pétalas caiam.



O Cinema se tornou uma indústria saturada de roteiros e filmes que insistem em desvendar e desconstruir os relacionamentos amorosos. A maioria deles sempre pecam nos mesmos quesitos: às vezes, meloso e dramático demais, às vezes, fantasioso ao extremo. Claro que não é simples transmitir realidade nessas histórias, ainda mais, quando teremos o início e o fim do relacionamento. A paixão e, finalmente, a dor.

O imediatismo da dor e do amor. É isso que falta nos filmes que tentam trilhar esse caminho. Falta usar mais o olhar, usar mais os gestos e o silêncio. Pois, a verdade dos relacionamentos (quase) sempre está no olhar, no gesto. O silêncio é o caminho mais tortuoso que um roteirista pode seguir, mas, também, é onde ele pode fazer uma obra exímia se souber onde e quando colocá-lo.

Precisa-se de um roteiro que, mesmo que muito difícil, seja inovador. Precisa-se de atores que deem conta do recado, e esse não é um simples recado. Precisa-se do auxílio da fotografia, da trilha sonora. Tudo para que o espectador sinta, que tudo aquilo que foi projetado, pode acontecer ou está acontecendo com ele. Afinal, o amor e suas mazelas são muito democráticos.


Em cima disso tudo, venho dizer que encontrei uma obra que usa desse imediatismo para contar a construção e a ruína de um amor. Namorados para Sempre (Blue Valentine. EUA, 2010), não se atenha ao péssimo título nacional, conta a história de duas pessoas que tinham sonhos, “compartilharam” os sonhos, não realizaram nenhum deles, e viram tudo o que eles pensaram ter construído, ruir. As ruínas de um amor deixam cicatrizes profundas.

Cindy (Michelle Williams, a quase viúva de Heath Ledger) e Dean (Ryan Gosling) são casados e tem uma filha de cinco anos, exatamente o tempo que eles estão juntos. O longa começa mostrando o casal já depois do nascimento da filha, ela uma enfermeira, ele um faz-tudo que prefere trabalhar pouco para poder dar atenção a filha. Nesse estágio da vida do casal, vemos um relacionamento já desgastado. O filme não vai explicar passo a passo como se dá o desgaste da relação desse casal, mas, com flashbacks, a obra adota uma narrativa não linear para mostrar ao espectador o início dessa relação e a paixão que um dia tinha existido ali.

Antes de conhecer Dean, Cindy estudava para fazer medicina, ela tinha um sonho e batalhava por ele. Dean já era uma espécie de faz-tudo, sem grandes ambições. Quando se conhecem, logo de cara se vê uma química muito grande entre aquela garota e aquele jovem. Nasce uma paixão, que para um vai se tornar amor e para o outro, talvez, não passe de uma paixão. Essa é conhecida por se apagar numa certa hora. Até que surge uma gravidez indesejada e leva esses dois atores sociais a construir uma vida juntos.


Dean é mais descontraído, menos preocupado, Cindy é mais dura, mais focada, é responsável pela pouca estabilidade financeira da família. A relação inicial dos dois é de compartilhamento e felicidade mútua, é triste ver a situação que os dois chegam passado essa meia década. O diretor e roteirista Derek Cianfrance soube utilizar muito bem até mesmo o contraste das cores. No início, o filme é colorido, quente, depois, com o passar dos anos, a tela recebe um azul muito frio. A trilha sonora também aumenta essa sensação de estarmos assistindo a própria construção da realidade.

É jogado nos 112 minutos de projeção todos os motivos pelo qual a relação caminhou para esse desfecho. Apesar, de Cindy estar completamente usurpada pelo companheiro, e de criar, por ele, um sentimento parecido com ódio, Dean ainda vê chances de salvar esse amor. Porém, parece que ele foi o único que deixou que a relação evoluísse para o amor, Cindy parou na paixão e, como já era previsto, esta se apagou. Cindy abriu mão de muito mais coisas que Dean para viver esse romance, é nítido o quanto ela se sente violada.

É no olhar de Cindy que vemos o quanto ela está incomodada com o marido, o quanto ela já não o suporta vê-lo, ela não engole nem a afinidade crescente entre pai e filha. A mulher agora está saturada e aquela menina que um dia transgrediu regras, dançou na rua ao som do ukulele de Dean e um dia pensou que poderia viver com ele para o resto da vida, não existe mais. Dean ainda mantém sua canastrice, suas brincadeiras para tentar descontrair a esposa, tudo em prol de uma vida feliz, só ele ainda vê futuro com Cindy, só ele vai tentar fazer por onde não perdê-la. Não se engane em achar que Cindy é a vilã da história, o filme te dará inúmeros motivos para que você pense o contrário.


A química entre os dois atores é fascinante. Cada segundo de filme é deles. É impressionante a colaboração feita entre diretor e atores. Michelle Williams, indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, está um espanto. A atriz exala feminilidade e toda a angústia de uma mulher tomada pela desesperança. Ryan Gosling, não fica atrás, auxiliado pelo seu carisma, o ator mostra também que é um dos grandes profissionais do cenário indie. Os dois atores imergiram a fundo nos personagens, conviveram um mês antes do início das gravações e, por isso, tudo se torna tão real. O espectador é afetado por todo esse incômodo que gira em torno das personagens e isso só é possível pelo trabalho incrível feito pelos dois atores. Vale ressaltar que não existe concessões ao espectador, as cenas são impactantes e dolorosas, tanto para eles quanto para nós.

O tumultuoso final é inevitável. Não se dá chance de reconstrução. Por mais que um tente ou por mais que os dois mergulhem de cabeça na salvação desse casamento, os dois já estão num nível muito avançado de mudança de sentimento. Talvez ele também não a ame mais, talvez ele só pense no bem estar da filha. A medida que vamos conhecendo Cindy e Dean, mais nos convencemos de que o casal não passará imune e, muito menos, vencerá essa crise.


O estilo de filmagem escolhido por Cianfrance parece-me o mais correto. Ora, ele aproxima-se do personagem, para mostrar através dos olhos todo o sentimento que o aflige, ora, ele desfoca a câmera de qualquer ponto naturalmente visível para evidenciar a perda da razão e do bom senso dos personagens. Na fase inicial do amor dos dois, o diretor optou por uma câmera ágil, que desfilasse e brincasse entre os protagonistas. As cores e as câmeras são totalmente dependentes do roteiro. Isso é genial. O diretor captura com perfeição cada instante dessa montanha russa numa descida sem fim.

O filme é um trabalho emocionalmente devastador, de personagens emocionalmente devastados e assustadoramente reais.

Os seres humanos tratados aqui são como todos os outros: erram, magoam, arrependem-se. O espectador se vê preso na história árdua desse casal que simplesmente viveu o que cada um lhe proporcionou. Amor não basta. Se não houver cuidado ele desaparece, ou nem surge. O erro não é difícil de encontrar nem de assumir, mas é inaceitável. Não se tem espaço para errar, não se tem espaço para voltar, não se tem condição de reconstruir. A dor passa a comandar. O que está feito, está feito.



Essa foi a "crítica" mais difícil que eu já fiz na vida.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Fundo do Poço (Crítica: Reencontrando a Felicidade / 2010)

Um dia isso passa?

Não. Mas, em algum momento, torna-se suportável.



É difícil dimensionar perdas. Difícil para quem já perdeu, impossível para que nunca vivenciou. Seguindo a ordem natural das coisas, somos nós filhos que enterramos nossos pais. Tarefa que deve ser dura e perversa, mas que segue uma lógica existencial. Porém, não são apenas em volta desses casos que a Terra roda, há de se lembrar que não é sempre que essa ordem natural é seguida. Quem nunca ouviu falar que não existe dor maior do que a dor de perder um filho? Sinto e entendo que não posso mensurar nem 1% dessa dor.

Diferentemente do que apresentou em seus outros trabalhos, John Cameron Mitchell (Shortbus) vem nos propor uma reflexão de como conciliar dor e vida em seu mais novo projeto: Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, 2010. EUA), obra baseada numa peça da Broadway, vencedora de diversos prêmios (inclusive o Pulitzer). Mitchel apresenta uma visão totalmente alheia dos clichês que nós sabemos que rondam uma família arrebatada pela perda de um filho. Ao invés de mostrar a morte, causar impactos, dramatizar, Mitchel inicia sua história oito meses após o incidente, na tentativa de sobrevivência das vítimas ilesas. A intenção é mostrar ou pelo menos tentar encontrar meios em que os pais possam continuar a viver.



A história se passa no antro de uma família de classe média americana. O objetivo inicial do filme é revelar como Becca (Nicole Kidman, ressurgindo) e Howie (Aaron Ekhart) estão reagindo a prematura morte do filho Danny, de 4 anos. Danny (que em nenhum momento aparece de frente para a tela) morreu na porta de casa, atropelado por um automóvel. Becca e Howie reagem de formas diferentes e desconexas. A mãe parece ser mais fria, mais controlada, mas no decorrer do filme vemos que é só uma casca. Becca entende que a melhor forma de esquecer a dor é negar a existência do filho para si mesma, negar os acontecimentos. Assim, Becca esconde numa caixa tudo o que faz com que ela lembre o filho. O sofrimento de Becca é visível, é cru, está solto pra quem quiser ver. Diferente de Howie. O pai aparentemente e sob suas ações parece sofrer mais. Howie vê vídeos do menino, fala de Danny o tempo todo (“Eu acho que ele vai sair debaixo da cama e aparecer do nada como ele sempre fazia”) e, ainda, acredita sofrer mais que Becca.

São diferentes situações. O pai que nada vê e tudo sente e a mãe que emblematicamente procura um ponto de redenção, uma válvula de escape. Válvula de escape essa que será usada por Howie diversas vezes, na procura por outras mulheres ou nas drogas. Incrivelmente, Becca encontrará um caminho para a libertação de sua angústia no garoto que atropelou seu filho. Na construção de uma relação única e desafiadora, Becca propõe-se uma nova chance.



Durante toda a narrativa, que é lenta e pesada (com a temática do filme não podia ser diferente) aparecem alguns personagens na vida do casal, como a mãe de Becca, interpretada pela ótima Dianne Wiest (a mesma vendedora de Avon em Edward – Mãos deTesoura e vencedora de dois Oscars), que compara a morte de Danny com a de seu filho (morto em função do uso de drogas). Um dos diálogos mais alucinantes do filme se dá entre Becca e a mãe. Numa lavanderia Becca, esgotada, pergunta a mãe se a dor vai passar. A personagem de Wiest consegue dar uma das definições mais simples e emocionantes quanto à passagem da dor: “Depois de um tempo a dor sai do peito e é como um tijolo que a gente coloca no bolso. A gente esquece. Até que se lembra do peso. Colocamos a mão no bolso e pensamos ‘Ahh, é isso’”. Também temos a deliciosa ponta de Sandra Oh (Grey’s Anatomy) como uma mãe que perdeu o filho, usuária de maconha e possível affair de Howie.

O filme, claro, fica sob as costas de Nicole Kidman. Aaron Eckhart está ótimo como o pai persistente na dor, mas, de certa forma, ele serve como um trampolim a Kidman. A atriz que não apresentava uma atuação digna de quem já ganhou um Oscar por interpretar Virginia Woolf desde o longínquo Dogville (2003), volta com toda a sua graça e força física. Nicole dá vida ao texto, faz do silêncio uma experiência ensurdecedora, faz dos nossos olhos um oceano. É algo parecido com gratificação o que eu sinto por Nicole. Torci tanto por sua volta por cima que me sinto como um dos responsáveis pela merecidíssima conquista de sua terceira indicação ao Oscar por esse trabalho. Apesar de que sua incrível força física vem sendo abalada pelo excesso de Botox no rosto. Mas, enfim, é o retorno de Safine, de Vírginia, de Grace, de Nicole, tudo em Becca.



No intuito de criar uma metáfora de simplicidade e de recomeço, o diretor optou por uma fotografia bastante primária, mas, ainda assim, sublime. A fotografia foca nas relações líquidas do nosso cotidiano, a relação do verde (planta) com a terra molhada, do açúcar com água virando caramelo. É como se fosse a visão de um bebê, que vai aprendendo e assimilando essas relações. A metáfora é a tentativa de renascimento de Becca, é o olhar apurado para essas coisas simples.



Mitchell , como já disse, ganha pontos por não cair na vala do senso comum. O diretor sabiamente deu um rumo inusitado ao seu trabalho. Não escolheu saturar uma relação entre pais e filho e, assim, tirar abruptamente o filho de cena. Fez melhor. Na construção de uma “teoria” de como sobreviver à ausência do filho, o diretor constrói uma obra emocionante e única, porque esse é um dos poucos filmes em que o mestre não apela para o melodrama.

Saber dosar sofrimento, realidade. Saber até onde ir, onde parar. Saber crescer com os infortúnios, saber dançar na cara da morte. Não existe poço que não tenha fundo nem queda que nunca acabe. Não existe escuridão sem luz nem luz sem trevas. O que existe é apenas uma vontade incessante de proteger, dominar, restaurar, voltar. O medo de seguir adiante é o medo que existe em mim, que existe em você.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Realidade Real (Crítica: O Discurso do Rei / 2010)



COMPLICADÍSSIMO falar de O Discurso do Rei (The King’s Speech, Inglaterra.2010). Pra você ter noção essa é a última frase da resenha que eu estou escrevendo. Na minha opinião não passa de um filme correto com grandes interpretações.Acabaria aqui então a crítica? Não. Pra tentar desvendar o que é esse filme, vou ter que falar de diretor, atores, roteiro e história, principalmente história, e talvez tenha sido ela quem encantou a Academia Hollywoodiana e vem encantando tantos outros críticos de cinema ao redor do mundo.



Primeiro de tudo: ROTEIRO. O Discurso do Rei tem um roteiro original escrito pelo pouco conhecido David Seidler, que conta o que sofreu o Rei George VI (Colin Firth) para conseguir ganhar a confiança do povo britânico nos primórdios da Segunda Grande Guerra. Detalhe: para quem não sabe o rei era gago, e não conseguia sequer fazer um pronunciamento para seus súditos. O roteiro do filme vem todo amarrado, perfeito, como se tivesse sido contado cada minuto de filme numa folha de papel. Esse é o grande trunfo do filme.



Segundo: Atores. Esses merecem ser citados um por um. Começo pelo gênio Colin Firth (de longe, na melhor fase da sua carreira), que faz um rei absurdamente irreal (em nosso ideário), um rei que mostra seus medos , sua fragilidade e até se tornar aquele rei, que simplesmente consegue falar. Você não precisa entender o que fala o personagem pra sentir o medo que exala dele, basta olhar nos seus olhos. Agora, Helena Bonham-Carter, a estranha mulher do diretor Tim Burton (Alice, Ed Wood, Edward: Mãos de Tesoura) representa toda a força e solidariedade do filme no papel da futura Rainha Elizabeth, mãe da atual. E pra terminar, pelo menos para mim a atuação mais surpreendente da obra, aquele feiosão do Geoffrey Rush. Esse ator australiano, além de tudo produtor do filme, faz o fonoaudiólogo que vai ajudar o rei a curar à sua gagueira, e toda sua pertinência e profissionalismo perante a figura real chega a ser um pouco emocionante, um pouco.

O filme não emociona.



E é aí que entra a figura do praticamente estreante diretor Tom Hooper. A história é muita retilínea, segue cada passo das práticas cinematográficas, em nenhum momento perde a mão com a direção. Mas será que perfeição, significa emoção? Eu acho que não. Foi como se eu tivesse assistido a um documentário da vida de um rei num canal pago qualquer. O filme é bom, só que peca em coisas simples, em frieza (inglês), em exageros técnicos e numa história que poderia ser menos bobinha. Para mim, cinema é muito mais do que isso.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Último Ato (Crítica: Cisne Negro / 2010)



Nas últimas semanas estive pensando o que seria mais viável: falar sobre um filme ótimo, mas que já saiu do cinema, ou falar de um filme mediano que ainda está em cartaz – assim, vocês teriam a oportunidade de conferir o filme em tela grande. Optei por seguir os indícios novamente, ainda mais quando se tem uma amiga bailarina, daí não dá pra fugir.

Assim, caiu Cisne Negro (Black Swan, 2010 – EUA) na minha mão, não que seja um desprazer falar desse filme, muito pelo contrário, é uma obra de gênio.



O diretor Darren Aronofsky é um dos poucos diretores que conseguem envolver o telespectador de forma tão visceral e apaixonante, que consegue introduzir aos personagens uma verdade imensurável, que faz a gente pensar que aquilo é simplesmente um reality show. Aronofsky é simplesmente diretor de Pi (1998), Réquiem para um sonho (2000) e O Lutador (2008). De filmografia pequena, mas de excelente qualidade.



Cisne Negro é um drama sobre perfeição, paranóia e projeção e principalmente amor, amor pela arte, no caso, amor pelo balé. Natalie Portman (linda e absurdamente fantástica) é Nina, uma bailarina de 28 anos que nunca teve um papel de destaque na companhia em que dança. Até que chega seu momento, quando o diretor do estúdio (vivido pelo francês Vincent Cassel) decide remontar “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. Logo de cara o diretor enxerga em Nina o lado frágil necessário para viver o Cisne Branco, mas não o sedutor e arrebatador para viver o Cisne Negro. Só que Nina tem uma série de questões mal resolvidas. Ela ainda é tratada como uma criança dentro da sua casa. A mãe (vivida pela ótima e sumida Barbara Hershey) é uma ex-bailarina frustrada que exerce uma pressão sobre-humana sobre Nina, percebe-se aí uma relação sadomasoquista entre mãe e filha, uma relação que esfacela ao longo do filme.

Engana-se quem acha que o filme é sobre balé. Não é. O filme aborda o esforço e tudo o que renega uma mulher para se tornar uma bailarina perfeita. No contexto do filme, seria a busca incessante que Nina faz dentro de si própria, átras de uma mulher sexual, soberba, do CISNE NEGRO. Até onde pode ir um ser humano para se tornar perfeito. E a resposta é simples, o ser humano ultrapassa o limite da sanidade. E é aqui que o filme ganha o que ele tem de melhor. Aronofsky junto com a brilhante atuação de Natalie Portman consegue transformar um drama de balé num triller psicológico daqueles de roer unha mesmo, de fechar os olhos em algumas cenas e de constranger-se numa reveladora transa lésbica. O filme não se fez só de diretores e de ótimos atores, mas também de maquiagem (sublime), fotografia e uma montagem espetacular.



O longa tem sim vários clichês da vida de uma bailarina, mas tem também um final surpreendente que compensa todos os lugares comuns que a obra apresenta. Natalie Portman mais uma vez dá um belíssimo show e mostra ser a atriz mais talentosa de sua geração (a mesma que traz Anne Hathaway, Reese Witherspoon e Charlize Theron), não é a toa que ela ganhou todos os prêmios de Melhor Atriz do último circuito de festivais, inclusive o Oscar. É filme pra ter na cabeceira da cama.